A propósito do Reino Unido. Reflexões sobre um sistema político falhado. Parte 2: Tories, DUP e o Brexit (1ª parte). Por Will Denayer

Seleção e tradução de Francisco Tavares

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Reflexões sobre um sistema político falhado. Parte 2: Tories, DUP e o Brexit (1ª parte)

Por Will Denayer(*), Will denayer

Publicado por Flassebeck-economics, em 22 de junho de 2017 flassbeck_logo

Na segunda feira 19 de Junho, a Grã-Bretanha iniciou as negociações com a UE. Esta primeira fase das conversações abordará três áreas principais: salvaguarda dos direitos dos cidadãos; acordo financeiro sobre as obrigações do Reino Unido e as novas fronteiras externas da UE.

Escreve Ian Dunt:

“Vamos agora entrar nas mais exigentes negociações desde a Segunda Guerra Mundial sem que tenhamos governo, sem objetivo global, sem plano para alcançar o objetivo, sem ministério para o fazer, sem confiança interna ou externa para tratar as negociações, sem competência comercial especializada para negociar, e sem tempo para gerir o processo” (ver aqui).

Dunt não está a exagerar. Acontece que Lord Bridges, chefe do Ministério de Saída da UE, acaba de sair. Isto não é piada. Ele demitiu-se visivelmente desgostoso (ver aqui).

Os Conservadores não têm maioria absoluta e estão a negociar uma coligação com os fanáticos do DUP (partido Unionista da Irlanda do Norte). Isto tão pouco parece que esteja a correr bem. Entretanto, o partido Trabalhista continua a subir nas sondagens. Segundo a última sondagem feita por YouGov, o partido Trabalhista venceria se as eleições se realizassem hoje. Durante dois anos Corbyn foi retratado como incompetente e mau. Comparado com o circo atual do partido Conservador, Corbyn e os Trabalhistas parecem o paraíso de inteligência, discernimento e gestão política profissional.

Não é claro o que os Conservadores têm de fazer agora. Certamente, quanto mais se auto-destruirem melhor. May despenhou-se e é agora um problema, mas quem tomará o seu lugar, e como? Os Conservadores não podem simplesmente designar outro primeiro-ministro, mas novas eleições poderiam muito bem trazer-lhes a derrota! Philip Hammond, que se opõe às aventuras de Brexit duro de May, ou David Davis parecem ser candidatos. Ou o trunfo Boris Johnson que é inaceitável para toda a gente porque é Boris Johnson. Mas isso é provavelmente a única coisa em que os Conservadores estão de acordo (ver aqui aquilo que este soberbo produto das escolas internacionais privadas e das chamadas universidades de topo consegue balbuciar incoerentemente – é chamada já a pior entrevista de sempre de um político). A tragédia Conservadora está a transformar-se num filme da pantera-cor-de-rosa, demasiado louca para se descrever por palavras.

A ironia dos Conservadores terem de negociar com o DUP é mais do que simplesmente amoroso.

Nos últimos dois anos, Corbyn foi apelidado de fã dos terroristas, amigo da jihad, anti-Semita, simpatizante do IRA e muito, muito mais. É bem irónico que hoje, May, que convocou precipitadamente estas eleições a fim de aumentar a sua maioria parlamentar, esteja a negociar com o Partido Unionista Democrático. As relações do DUP com atividades terroristas são matéria de indiscutível registo histórico.

Negociando um governo moderno com a ‘ala política do Velho Testamento’ (Frankie Boyle)

O DUP é um partido de direita, unionista, da Irlanda do Norte, fundado por Ian Paisley em 1971. O DUP é socialmente conservador, anti-aborto, opõe-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, questiona a existência da mudança climática e pretende que o criacionismo seja colocado no curriculum da educação do ensino secundário. De momento, tem a maioria de lugares no parlamento da Irlanda do Norte (28) – sentindo no pescoço a respiração do Sinn Fein (têm uma diferença de 3 lugares). Tem 10 lugares no parlamento [nacional] em Westminster. Defende a identidade britânica e a cultura protestante do Ulster contra o nacionalismo irlandês e apoia o Brexit. Nos anos mais recentes, o DUP tem sido um dos defensores da reinstalação da pena de morte, da supressão de benefícios para os menores de 25 anos e introdução de cobrança por idas ao hospital (ver aqui). O partido tem ligações históricas com a extrema direita da Irlanda do Norte e tem sido apoiado por grupos paramilitares como o Ulster Defence Association (UDA) e a Ulster Volunteer Force (UVF), que são organizações terroristas proscritas.

 

Reflexões sobre um sistema político falhado Parte 2 Tories, DUP e o Brexit 1

Figura 1: Resultados eleitorais na Irlanda do Norte 1997 – 2017. Duas coisas são de assinalar: Sinn Fein absorveu o apoio do UUP e do SDLP (o partido Trabalhista) e está perto de se tornar o maior partido no país

Quando o DUP se formou, a Irlanda do Norte estava no meio do conflito entre protestantes e católicos, os designados the Troubles, que começou em 1969 e duraria 30 anos. O conflito teve início no contexto de uma campanha contra a minoria católica irlandesa da parte do governo protestante unionista e das forças policiais. A campanha de protesto durou muitos anos e, frequentemente, com violência. Paisley liderou a oposição unionista ao movimento de direitos civis. O DUP era de linha mais dura do que o UUP, o outro partido unionist do Ulster (ver aqui).

 

Reflexões sobre um sistema político falhado Parte 2 Tories, DUP e o Brexit 2

Figura 2: Mural do UDA e do DUP na terra natal (Fonte: Google Images). 

Ao longo dos anos, em várias ocasiões o DUP opôs-se e sabotou vários acordos que poderiam ter cessado a violência na Irlanda do Norte.

Isto reporta-se a 1973 quando o DUP se opôs ao Sunningdale Agreement. O acordo era uma tentativa para resolver o conflito com o estabelecimento de um governo na Irlanda do Norte no qual unionistas e nacionalistas irlandeses partilhariam o poder. Esta foi sempre a única solução para terminar com a violência. Mas os unionistas não estiveram de acordo e convocaram uma greve geral. O comité de corrdenação da greve incluía Paisley e líderes dos grupos paramilitares lealistas. No terceiro dia de greve, os lealistas fizeram detonar quatro carros bomba em Dublin e Monaghan, matando 33 civis (ver aqui). Os unionistas ganharam, o acordo morreu. A barbárie sectária e a matança podiam prosseguir.

Em 1981, o DUP opôs-se às conversações então em curso entre Thatcher e o primeiro ministro irlandês Haughey. Paisley e outros membros do DUP tentaram criar uma milícia voluntária lealista protestante—chamada the Third Force.

Em 1985 o DUP deitou abaixo o Anglo-Irish Agreement (mais uma vez propunha-se uma partilha de poder no governo) montando uma importante campanha de protesto, apelidada “Ulster Says No”. E assim continuou a violência.

Não existem dúvidas das ligações entre o DUP e grupos terroristas. Em 10 de novembro de 1986, Paisley, Robinson (que chefiou o partido antes da atual Arlene Foster – os Robinsons são também chamados de “Swish Family Robinson” depois de Peter Robinson e sua mulher Iris, terem reclamado £571.939 de despesas, sendo posteriormente pagas £150.000 a membros da família) anunciaram a formação do movimento Ulster Resistance (URM). Era um grupo paramilitar lealista cujo objetivo era “atuar diretamente como e quando fosse necessário” para deitar abaixo qualquer acordo que não agradasse ao DUP e derrotar o republicanismo. No ano seguinte, o URM ajudou a contrabandear um grande carregamento de armas para a Irlanda do Norte, que foram distribuídas entre o URM, a Ulster Volunteer Force (UVF) e a Ulster Defence Association (UDA). Em 1989, membros do URM tentaram trocar projetos de mísseis da companhia aeroespacial Shorts  por armas do regime de sul africano de apartheid (ver aqui).

No início de janeiro de 1994, a Ulster Defence Association divulgou um documento apelando à divisão da Irlanda. O objetivo era tornar a Irlanda do Norte totalmente protestante. O plano a ser implantado contemplava a retirada do exército britânico da Irlanda do Norte, e as vastas áreas católicas e nacionalistas seriam entregues à República, e aqueles no restante estado seriam ou “expulsos, anulados, ou internados”. Incrivelmente, Wilson, um futuro ministro e deputado de Stormont [referência ao edifício do parlamento da Irlanda do Norte], elogiou o documento, designando-o de “importante regresso à realidade” e elogiou a UDA por “considerar aquilo que tem de ser feito para manter a nossa identidade do Ulster separada” (ver aqui).

O DUP opôs-se ao acordo no referendo Good Friday Agreement realizado em 1998. O Acordo foi aprovado por 71,1% do eleitorado norte irlandês.

Em janeiro de 2017, o executivo norte irlandês colapsou depois de Martin McGuinness se ter demitido em protesto contra o  escândalo dos incentivos às energias renováveis, que se centravam num esquema de energia verde que Arlene Foster estabeleceu como ministra da Empresa, Comércio e Investimento. O esquema não contemplava os custos de controlo e poderia custar aos bolsos públicos mais de £490 milhões.

Quando May perdeu a sua maioria, o DUP afirmou que “a alternativa é intolerável. Porque enquanto Corbyn liderar o partido Trabalhista, garantiremos que o primeiro ministro será Conservador” (ver aqui).

O partido vetou a legalização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo na Irlanda do Norte, desde 2015, fazendo da Irlanda do Norte a única região do Reino Unido em que o casamento entre pessoas do mesmo sexo não é legal. O partido mantém que é “pro-life” e membros do partido fizeram campanha fortemente contra qualquer extensão de direitos do aborto à Irlanda do Norte, opondo-se unanimemente a uma lei proposta pela deputada trabalhista Diane Johnson para proteger as mulheres em Inglaterra e no País de Gales de processo criminal se terminassem a gravidez com recurso a pílulas adquiridas online. Os políticos do DUP tentaram que o criacionismo fosse promovido na Irlanda do Norte. Alguns proeminentes representantes eleitos do DUP apelaram a que o criacionismo fosse ensinado nas escolas  e para que fosse incluído nas exibições dos museus. O DUP solicitou um debate na Câmara dos Comuns para trazer de volta a pena de morte.

(continua)

Texto original em http://www.flassbeck-economics.com/reflections-on-a-failed-political-system-part-2-tories-the-dup-and-the-brexit/

(*) Will Denayer estudou Ciência Política na Universidade de Bruxelas e Educação na Universidade de Ghent. Doutorado pela Universidade de Estado de Leiden (Holanda) em 1993 com uma dissertação sobre o pensamento político de Hannah Arendt. Denayer tem sido investigador na Universidade Católica de Lovaina, na Universidade de Ghent e no Trinity College em Dublin e foi professor de Ciência Política e de Economia Política na Universidade de Cork. Os seus interesses situam-se em teoria económica, teorias das crises capitalistas, sociologia do sistema mundial, controlo da mudança climática e desigualdade. Trabalha como investigador independente e escritor.

 

 

 

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