A propósito do Reino Unido. Reflexões sobre um sistema político falhado. Parte 2: Tories, DUP e o Brexit (2ª parte). Por Will Denayer

Seleção e tradução de Francisco Tavares

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Reflexões sobre um sistema político falhado. Parte 2: Tories, DUP e o Brexit (2ª parte)

Por Will Denayer(*), Will denayer

Publicado por Flassebeck-economics, em 22 de junho de 2017 flassbeck_logo

(continuação)

O DUP foi o único partido no executivo da Irlanda do Norte a apoiar o “Leave” na  campanha do Brexit. Como é que isso funcionaria é desconhecido, uma vez que o DUP opõe-se a uma rígida fronteira irlandesa e pretende permanecer na área de livre circulação comum.

Reflexões sobre um sistema político falhado Parte 2 Tories, DUP e o Brexit 3

Figura 3: Coligação de Loucos: O Daily Mirror chamando as coisas como são (Fonte: Daily Mirror). 

Rompendo o Good Friday Agreement

John Major instou May na semana passada a desistir do negócio [coligação com o DUP], avisando que se arrisca a um retorno da violência à Irlanda do Norte (ver aqui). Ele defende que May forme um governo minoritário sem “o peso” de um acordo com o DUP. Isso poderá representar mais sarilhos à espreita. Algumas figuras importantes do partido Trabalhista que estiveram envolvidas no processo de paz, tais como os antigos ministros para a Irlanda do Norte Lord Peter Hain e Shaun Woodward, expressaram a sua preocupação de que May esteja a abandonar a “rigorosa imparcialidade” que os governos britânico e irlandês subscreveram em 1998 no Good Friday Agreement.

Começa a parecer que Hain e Woodward têm razão. A questão é que tudo está bem se o DUP e o Sinn Fein e outros se sentam no governo da Irlanda do Norte, mas a situação muda quando um destes partidos se torna parte do governo da Grã-Bretanha (ou da República da Irlanda). Então um tal governo já não pode apresentar-se como árbitro independente em negociações entre os partidos locais. O caso, que poderia ser levado ao Supremo Tribunal devido à sua relevância constitucional, segue-se às advertências de todos os partidos de que a negociação poderá pôr em perigo o processo de paz da Irlanda do Norte.

Mas May necessita os 10 deputados do DUP para apoiarem o seu governo em moções de confiança ou em votações do orçamento ou outras. De outro modo May poderá ser derrubada a qualquer momento com uma moção de desconfiança. Foi a própria May que o confirmou.

Ao alcançar tal acordo asseguraremos que os detalhes serão tornados públicos de modo a que as pessoas possam ver exatamente aquilo em que se baseia.

Isto não tranquiliza ninguém e Gerry Adams do Sinn Fein já reagiu:

Dissemos-lhe [a Theresa May] muito diretamente que ela estava a violar o Good Friday Agreement, e detalhámos as questões que estava a incumprir em relação a esse Acordo.

 

Os Conservadores são piores que o DUP

Além disso, não há motivos para esperar negociações suaves ou uma relação duradoura entre os Conservadores e o DUP. Porque a ideologia, um ódio comum a tudo o que é social-democrata e o amor a deus e à pátria do outro lado do Atlântico e ideias tais como que os dinossauros se extinguiram porque Noé não os levou na Arca, tudo isso é fantástico, mas aquilo que conta no fim do dia é o pão e as políticas para a sobrevivência das pessoas. Aqui aparecem inevitavelmente as fissuras: porque deveria um partido como o DUP, em que muitos dos seus 292.000 votantes são classe trabalhadora, que se opõe aos cortes dos conservadores nos benefícios sociais e ao seu empenho no triplo bloqueio nas pensões e no subsídio de combustível de inverno, estar de acordo com a austeridade sadista dos conservadores que teve tão graves resultados no ‘continente’? É evidente aquilo que o DUP pretende: mais investimento na Irlanda do Norte e mais despesa em infraestruturas locais. Precisamente aquilo que os Conservadores querem ouvir.

Os Tories e o DUP nem sequer estão de acordo quanto ao Brexit. Enquanto o Brexit foi nada mais que uma fantasia sobre a soberania e a inerente identidade britânica do homem irlandês laranja [cor de referência dos unionistas], enquanto se tratou de gritaria, insultos e mentiras, o DUP esteve entre os maiores entusiastas dos Brexiteers. Mas quando se trata da sua implementação prática, a líder do DUP  Arlene Foster assinou uma carta conjunta com o falecido Martin McGuinness (do Sinn Fein) que a coloca bem no extremo suave do espetro do Brexit. Aqules que advertem para o perigo de os Conservadores governarem com o DUP não compreendem que Theresa May é uma fanática bem maior e mais perigosa do que Arlene Foster. Foster sabe que o Brexit é tão bom quanto impossível na Irlanda. Todos sabem isso, excepto a surda, cega e sem plano Theresa May. Ninguém quer o regresso de uma fronteira rígida entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda. O DUP quer facilidades de comércio com os Estados-membros da UE e acesso à mão-de-obra especializada e não-especializada da UE. Outra questão que os Conservadores adorarão ouvir?

É claro que é possível que o DUP seja flexível. A sua história documenta amplamente essa tendência. O DUP poderá muito bem estar disposto a aceitar o impacto local do Brexit. A questão é até quanto estarão os conservadores dispostos a pagar por isso. Mais financiamento para atenuar o impacto poderá ser muito apreciado. Quanto desembolsará May a fim de se agarrar ao poder por mais um par der semanas ou de meses?

Se a lista de exigências do DUP contiver coisas tais como proteção de veteranos militares e antigos funcionários policiais contra procedimento criminal por delitos o preço provável é que expludam bombas em Belfast.

Conclusão

Após termos abordado a humilhante vitória de May, a sua necrose política que se agrava de dia para dia e a perspetiva realista de um governo britânico incluir o que de mais fino há na Grã-Bretanha, o DUP, consideremos um recuo no tempo. Em 2010, os Conservadores derrotaram Gordon Brown, principalmente com base no mito de que os Trabalhistas aumentam mais o défice que os Conservadores. George Osborne prometeu trazer o défice para zero. Foi isto que constituiu a justificação ideológica para a austeridade. A austeridade nada trouxe de positivo de modo algum (ver parte 1). Em 2015, Miliband fracassou em tirar partido do caos conservador porque, no essencial, plagiar o manifesto conservador, acrescentar um acento aqui e ali e acolá imprimindo ‘Parar a imigração’ não pegou. Então Cameron teve a brilhante ideia de esmagar os euro-cépticos dentro do seu próprio partido. May tornou-se primeira-ministra depois dele resignar envergonhado. Ela nunca teve nada de substantivo a dizer sobre o que quer que fosse e mentiu sobre quase tudo. May tornou-se o campeão do Brexit duro que tinha combatido antes do referendo. Então May convocou precipitadamente eleições, esperando com isso aumentar substancialmente a sua maioria parlamentar. O resultado foi uma humilhante derrota. Agora os Conservadores têm de formar um governo de coligação. O seu potencial parceiro de coligação é o Partido Unionista Democrático.

Nada deste circo trouxe algo de bom para o país. Como alguém disse no Twitter, quando May advertiu contra uma coligação de caos sustentada por extremistas simpatizantes do terrorismo (Corbyn, claro) esqueceu-se de acrescentar que ela iria liderar essa coligação de caos. Isto tornou-se agora quase factualmente verdadeiro. May não irá durar. “A sra May não tem credibilidade no país, nem poder de negociação no estrangeiro – perdeu toda a credibilidade,” disse Paddy Ashdown [antigo líder dos Liberais Democratas] na BBC“. Os despedaçados conservadores dependem agora de um partido anti-gay, anti-direitos das mulheres, ligado aos extremistas norte irlandeses,” escreveu Owen Jones [comentarista e ativista político de perspetiva socialista democrática]. O Partido Conservador está a virar-se contra May (ver aquiaqui). Está a virar-se contra o seu Brexit duro.

Texto original em http://www.flassbeck-economics.com/reflections-on-a-failed-political-system-part-2-tories-the-dup-and-the-brexit/

 

(*) Will Denayer estudou Ciência Política na Universidade de Bruxelas e Educação na Universidade de Ghent. Doutorado pela Universidade de Estado de Leiden (Holanda) em 1993 com uma dissertação sobre o pensamento político de Hannah Arendt. Denayer tem sido investigador na Universidade Católica de Lovaina, na Universidade de Ghent e no Trinity College em Dublin e foi professor de Ciência Política e de Economia Política na Universidade de Cork. Os seus interesses situam-se em teoria económica, teorias das crises capitalistas, sociologia do sistema mundial, controlo da mudança climática e desigualdade. Trabalha como investigador independente e escritor.

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