O Euro, a Alemanha e Espanha – Poderá Pedro Sánchez salvar o PSOE? Por Michael Pettis (parte 2)

cacafonia na UEsondagemelpaisevolucao

Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

Poderá Pedro Sánchez salvar o PSOE?

Por Michael Pettis, em 18 de agosto de 2014

Este artigo, publicado por El País Blogs, 25 de agosto de 2014, com introdução e tradução de Ernesto Ekaizer, e subtitulado O euro, a Alemanha e a Espanha, (vd. https://politica.elpais.com/politica/2014/08/25/analitica/1408987773_140898.html), foi editado na Viagem dos Argonautas em 1 e 2 de fevereiro de 2016 (vd. https://aviagemdosargonautas.net/2016/02/02/o-euro-a-alemanha-e-espanha-e-entre-parenteses-podera-pedro-sanchez-salvar-o-psoe-ii/), Com a recente reeleição de Pedro Sánchez como secretário-geral do PSOE em 21 de Maio passado, parece-nos oportuna e atual a reedição deste muito interessante artigo escrito há 3 anos atrás, agora em português (parte 2).

(continuação)

A crise não se deve aos preços dos títulos

Mas embora os investidores possam ser perdoados por pensarem assim, a crise europeia não se deve aos preços dos títulos [os preços dos títulos funcionam de modo inverso às taxas de juro de modo que quando o juro ou o rendimento sobe, o preço baixa, e vice-versa].

O colapso dos preços dos títulos em 2008-09 refletia os receios bem reais de insolvência [default], e o facto de que o BCE tenha decidido proporcionar liquidez ilimitada para sustentar os preços dos títulos não resolveu de modo nenhum os riscos de insolvência. Além do mais, os precedentes históricos sugerem que a determinação do BCE só durará até que os bancos europeus, e especialmente os bancos alemães, tenham sido suficientemente recapitalizados (à custa das famílias, é claro) para se reconhecer que muitos países europeus nunca pagarão as suas dívidas. Uma vez que tenham o capital suficiente para absorver os incumprimentos soberanos, o apetite da Alemanha e de outros países para continuarem a financiar uma dívida impagável desvanecer-se-á.

Um recente texto dos economistas Barry Eichengreen e Ugo Panizza torna clara esta contradição. Os autores mostram que países como Espanha podem pagar a sua dívida somente sob pressupostos inverosímeis quanto ao tamanho dos superávites orçamentais necessários para isso. Como dizem artigo de resumo:

Para que as dívidas dos países da Europa com problemas sejam sustentáveis, na ausência de reestruturação da dívida, de ajuda externa ou um aumento inesperado da inflação, os governos terão de conseguir grandes superávites orçamentais primários [sem contar com o pagamento dos juros da dívida], em muitos casos superiores a 5% do PIB, durante períodos de até dez anos. A história sugere que este tipo de comportamento, ainda que não inteiramente desconhecido, é excepcional. Os países conseguiram esses grandes superávites por períodos tão prolongados enfrentaram circunstâncias excepcionais. Em suma, esta análise não nos deixa optimistas em relação a que os países em crise da Europa sejam capazes de manter superávites orçamentais primários tão grandes e persistentes como aquilo que é projetado oficialmente“. 

Por outras palavras, em algum momento, os países periféricos europeus terão ou que espremer os seus cidadãos muito mais do que parece ser possível em democracia, ou então terão que reestruturar a sua dívida com o perdão de uma parte significativa dela.

A extrema direita, e principalmente a Frente Nacional de Marine Le Pen em França, desenhou um ataque frontal à fonte real da crise do euro. Reconhecem que as políticas que obrigaram a baixar os salários alemães provocaram o colapso da procura, e que o euro força o resto da região a competir com a Alemanha através da redução dos salários nacionais, o que, paradoxalmente, reduzirá ainda mais a procura global na Europa. Mediante o abandono da União Europeia e a recuperação do controlo sobre a política monetária, a França poderia quase seguramente conseguir uma descida do desemprego, uma forte melhoria da sua conta corrente, e o crescimento mais rápido do PIB.

establishment francês insiste que Le Pen não é uma ameaça, porque se alguma vez se torna demasiada poderosa, a esquerda e o centro unir-se-iam contra ela para impedir que a Frente Nacional ganhe qualquer eleição. Mas mesmo que pudessem ter razão, não estão a ver a questão principal. A única maneira para os partidos de centro poderem evitar uma vitória da Frente Nacional seria a de adotarem a maior parte das suas políticas. Como o assinala um recente artigo do Le Monde Diplomatique:

Todavia, a principal razão [para o fracasso anterior da FN em chegar ao poder] pode ter sido a adoção por Sarkozy de políticas essenciais avançadas pela FN: a promoção de uma identidade francesa; preferência dos nacionais na contratação; acesso à proteção social e serviços públicos; hostilidade em relação a imigração de baixo rendimento; leis de delitos especiais para os imigrantes nascidos no estrangeiro. Os votantes simpatizantes da FN viram Sarkozy como um instrumento mais viável para as suas políticas. Como Le Pen Jr. explicou, “a única coisa que debilitou a Frente Nacional foi a estratégia de Sarkozy de se apresentar como uma espécie de duplo da FN”. Sarkozy viu que “o povo francês se virava cada vez mais para a opção da Frente Nacional. Conseguiu aproveitar a força desse rio e desviá-la a seu favor. Mas, ri Marine Le Pen,o rio voltou ao seu leito“.

A elite política da Europa nega-se a reconhecer o que é bastante óbvio. A união monetária, tal como funciona atualmente, força que desequilíbrios num país afetem os vizinhos dentro da união, e não existe um mecanismo para a resolução dos desequilíbrios no lugar de origem. Países como a França e a Espanha não têm como enfrentar as políticas na Alemanha que forçaram o aumento da taxa de poupança nacional do país (reduzindo os salários), ao mesmo tempo que diminuíram o investimento nacional, excepto mediante a redução das suas próprias poupanças nacionais, seja sob a forma de um boom de consumo insustentável [anos 2000-2008] ou seja por um aumento do desemprego [2008 em diante].

Banqueiros responsáveis vs. trabalhadores com fome

Nesta divisão entre a “responsável” elite política e a direita anti-euro “irresponsável”, a Europa está a reproduzir uma das batalhas clássicas da história entre banqueiros e trabalhadores. Ao longo dos séculos XIX y XX (e de facto muito antes), a dívida e as crises monetárias opuseram uns contra os outros. Às vezes, ganharam os banqueiros, como aconteceu na década perdida da América Latina da década de 1980, e os EUA nos finais 1970, e, outras vezes, ainda que nunca sem luta, ganharam os trabalhadores, como aconteceu na década de 1930, tanto nos EUA sob Roosevelt, como na Alemanha (aparentemente) sob Hitler [programa de obras públicas e fabricação de armamentos].

Tanto se são os banqueiros que têm razão quanto aos benefícios a longo prazo de manter a trajetória ou se são os trabalhadores que têm razão (e a história deixa claro que nenhuma das partes tem sempre razão), ao defenderem a moeda e a santidade da dívida, os responsáveis políticos da Europa tomaram o partido dos banqueiros. Com o fim de proteger a estrutura monetária atual permitiram que o desemprego dos trabalhadores suba e a incerteza e o medo se espalhe pela classe média.

Mas ainda que no longo prazo possam estar certos para adoptarem essa posição, os precedentes históricos sugerem que os votos dos descontentes irão para qualquer partido, seja de esquerda ou de direita, que defenda mais vigorosamente a causa dos trabalhadores contra os banqueiros. Se os partidos do centro não o fizerem, como fez Roosevelt na década de 1930, os extremistas fá-lo-ão. Enquanto os políticos centristas europeus se negarem a enfrentar a causa fundamental da crise europeia, e a extrema esquerda gastar a sua energia em teatro e raiva, a quota de votos da extrema direita irá aumentando.

Pedro Sánchez, o novo líder do PSOE, tem opções. Pode manter as políticas de “responsabilidade”, caso em que cederá a liderança dos trabalhadores e da classe média em dificuldades à direita racista e xenófoba, com as terríveis consequências a longo prazo que isso implicará para a Europa, incluindo uma muito baixa probabilidade de que a União Europeia possa reviver. Ou então pode exercer a liderança em toda a Europa, exigindo um debate significativo sobre a dívida europeia e sobre o euro. Isto exige, entre outras coisas, uma discussão sobre a forma de introduzir a flexibilidade cambial como uma alternativa mais eficiente para ajustar os custos relativos na Europa, e implica o reconhecimento muito explícito de que grande parte da dívida europeia só se pode pagar sob a forma de uma transferência massiva e inaceitável de riqueza dos trabalhadores europeus para os bancos alemães.

Contrariamente aos alarmistas que vêem qualquer passo atrás como uma ameaça existencial para a Europa, este debate não significaria o fim do sonho de uma Europa unificada. Seria simplesmente admitir que a Europa não tem ainda as instituições necessárias para garantir a sobrevivência da união monetária, e que o capital, o trabalho, a banca e as diferenças fiscais atualmente existentes asseguram que a flexibilidade eliminada pela união monetária ressurgirá por meios mais destrutivos. Pode haver uma União Europeia de sucesso, e muitas das mudanças que são necessárias para assegurar o êxito provavelmente são relativamente fáceis de aplicar, sobretudo se forem parte de um pacote global que inclua uma significativa reestruturação da dívida e o perdão. Mas a estrutura atual não o permite.

Ao minar a força irresistível daqueles que querem destruir a União, um debate sério que reconheça o custo insuportável para os trabalhadores europeus da estrutura atual, poderia na realidade ser a melhor maneira de salvar a Europa. Insistir que a Europa atual é a única Europa possível não tem sentido, e inclusive muitos dos mais fortes partidários da Europa podem entender isto. Mas argumentar que a versão atual da Europa pode evoluir gradualmente apesar dos enormes custos que têm de ser assumidos pelos trabalhadores, especialmente em países como a Espanha, sobreestima o atrativo popular da Europa e subestima o grau até ao qual as elites políticas exageraram os seus compromissos com a sua criação.

Os velhos dirigentes do PSOE não o elegeram para este papel, mas se Pedro Sánchez assumir a liderança, na Europa e em Espanha, e abrir o debate sobre o euro, reconhecendo que a estrutura atual no funciona e definir, com a ajuda da retrospetiva, quais as vulnerabilidades que têm de ser enfrentadas numa União Europeia reformada, o novo líder do partido poderá deter o declínio do PSOE e reverter o repugnante nacionalismo que se propaga pela Europa. Espanha e outros países que sofrem elevadas taxas de desemprego devem unir-se e pressionar a Alemanha para que resolva a sua estrutural débil procura interna, por um lado, e a dívida excessiva de que padecem estes países, por outro.

Não obstante, se Pedro Sánchez continua a pretender que a crise se resolveu pela disposição do BCE em refinanciar a dívida de Espanha, uma disposição que o banco provavelmente manterá enquanto os bancos alemães não estejam suficientemente capitalizados para reconhecerem o óbvio [que a dívida é impagável], então o novo líder socialista poderá encontrar-se a si mesmo numa Espanha e numa Europa que vira cada vez mais para a direita nacionalista. Na batalha entre trabalhadores e banqueiros serão os trabalhadores os que, em última instância, decidirão quem deverá determinar a política. 

Texto original de Michael Pettis em

http://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/56405Logo Michael pettis

 

 

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