A DIREITA NUNCA EXISTIU, DE RICCARDO MARCHI – POR MANUEL SIMÕES

 

 

Riccardo Marchi

 

Manuel Simões

Com a publicação de Império Nação Revolução. As Direitas Radicais no Fim do Estado Novo, em 2009, Riccardo Marchi afirmava-se como um investigador fundamental sobre a actuação da extrema-direita portuguesa. E a sua recente obra A Direita Nunca Existiu. As Direitas Extraparlamentares na Institucionalização da Democracia Portuguesa (1976-1980) vem confirmá-lo como autor de estudos iluminantes acerca do papel da direita radical ou extraparlamentar, designação esta justificada pela «condição objectiva de exclusão do parlamento, independentemente da vontade de o integrar ou não», como refere o Autor.

O presente estudo analisa o período que vai das eleições legislativas de 1976 até ao governo da AD e à vitória do general Ramalho Eanes, isto é, às eleições de 1980; e adopta um título polémico (“A Direita Nunca Existiu”), utilizando alguma retórica e não sem ironia, no seguimento doutro título de grande impacto (“O Fascismo nunca Existiu”) e retomando igualmente declarações de personalidades daquela área política, como, por exemplo, Manuel Maria Múrias.

A relativa ineficácia política da direita radical deve-se à sua grande fragmentação e à desorganização interna, como, de resto, aconteceu com outras áreas políticas. A partir do estudo minucioso de Riccardo Marchi podemos hoje recordar organizações e grupos de que é bom recordar a sua existência, mais ou menos activa, até para que “não se apague a memória”. Assim, segundo o estudioso, proliferaram as tentativas, por parte de grupos da direita, de interferência no debate político, como se pode depreender da longa lista registada (as designações são significativas): Movimento Nacional dos Empresários Usurpados (MNEU), a Associação de Defesa dos Direitos dos Accionistas (ADDA), a União dos Espoliados da Revolução de Abril (UERA), o Movimento Nacional de Fraternidade Ultramarina (FRAUL), a Confederação dos Interesses dos Desalojados (CID), a Inter-Organização de Refugiados (IOR), a Intervenção Nacionalista (IN), o Movimento para a Informação Objectiva (MIO), a Frente Nacional (FN), o Movimento Pró-Pátria, o Partido da Aliança Portuguesa (PAP), o partido Reunir para Reconstruir (RPR), a Frente de Ressurgimento Nacional (FRATERNA), o Último Reduto, a Resistência Fascista, a Frente Nacional Revolucionária, a Associação Portuguesa dos Prisioneiros Políticos Antimarxistas (APPAM) ou a Associação dos ‘Malfeitores’ da Ditadura Gomista-Gonçalvista, acompanhados de publicações mais ou menos efémeras, como A Rua ou A Nação.

Porventura mais influentes, ainda segundo este estudo, há que citar o MIRN, de Kaúlza de Arriaga, financiado por empresários como Lúcio Tomé Feteira; a FRN-Frente de Ressurgimento Nacional, financiada por António Champalimaud; e o PDC, com o apoio da Igreja, designadamente da diocese de Braga, e que em 1980 se apresentou às eleições coligado com o MIRN, aliás sem sucesso, como se sabe.

Trabalho meticuloso, este de Riccardo Marchi, italiano e investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que já produziu ensaios sobre os anos de 1974 e 1975 e até do período final do Estado Novo. A ele se deve, portanto, uma das análises mais documentadas (arquivos, jornais da época, folhetos, entrevistas, publicações várias) e consistentes das direitas radicais portuguesas.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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