A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL. O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA. UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO [1] – Uma coleção de artigos de Onubre Einz. VI – A Alemanha e o investimento: uma potência com pés de barro (parte 3).

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

pés de barro

VI – A Alemanha e o investimento: uma potência com pés de barro (parte 3), por Onubre Einz

 

 

Publicado por criseusa.blog.lemonde.fr, em 6 de junho de 2013

Reedição revista dos artigos publicados em A Viagem dos Argonautas em 16 de abril de 2015 (https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/16/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-vi-a-ale-4/)

(conclusão)

 

Conclusão: os paradoxos do crescimento alemão.

Paradoxo 1: Sub-acumulação de capital – Crescimento – Procura interna insuficiente.

A sub-acumulação relativa de capital não acontece sem deixar de colocar um grave problema. Esta sub-acumulação é tendencial na Alemanha. Quanto mais a Alemanha se envolve no tipo de crescimento que escolheu pôr em prática no século XXI, mais ela tende a privar-se dos meios deste crescimento contraindo, relativamente ao volume de valor criado, a sua base económica – e particularmente a base industrial – e, ipso facto, mais a Alemanha tende a degradar as suas verdadeiras capacidades de crescimento, enfraquecendo a base nacional da sua economia. A Alemanha conseguiu até agora limitar o seu desemprego através da importação de valor não pago e pela exportação das mercadorias. Ligando tudo isto a uma gestão autoritária da mão-de‑obra e de um mercado do trabalho duro para com os assalariados, a Alemanha soube limitar a ruptura que produz uma sub-acumulação de capital.

Mas a depressão que a Alemanha organiza na Europa e um comércio mundial lentamente asfixiado pela crise, vai trazê-la de volta à realidade as suas próprias forças económicas. Ora a procura interna alemã é insuficiente. Certamente, é possível retificá-la mas neste caso, o jogo complexo entre a formação dos preços de subcontratação e a produção/montagem alemã perderá uma larga parte da sua pertinência. Por falta de ter investido suficientemente, a Alemanha perderá uma parte de uma competitividade de que uma fração é já o resultado da subcontratação estrangeira.

 

Paradoxo 2 Competitividade e sub-acumulação de capital

O modelo de crescimento alemão é insustentável a prazo. Ao negligenciar as suas infra-estruturas públicas, a Alemanha criou uma competitividade preço puramente artificial. Com efeito esta competitividade é pontual, será necessário mais cedo ou mais tarde que a Alemanha se confronte com a degradação das suas infra-estruturas. O esforço será ainda tanto mais pesado quanto mais tiver durado a sua degradação.

Mas, é sobretudo a queda da taxa de investimento que é o problema mais grave. Em meados dos anos 90, os americanos tiveram sucesso em superar uma crise de sub‑acumulação do capital envolvendo-se numa inflação dos desequilíbrios internos e externos. O resultado está à altura desta fuga para a frente: uma depressão.

Não é possível que a prazo o sub-investimento alemão possa continuar a ser praticado. Para além da forma elementar que assume o enriquecimento de uma fração reduzida da população, a Alemanha não tem realmente solução de substituição para o seu modelo de crescimento dinamizado pela via das exportações. Por conseguinte é conduzida a radicalizar sob a pressão da concorrência mundial com o risco de reduzir ainda mais a qualidade das suas infra-estruturas e as suas taxas de investimento. Neste jogo, a perda de competitividade do país e o seu empobrecimento são estritamente inevitáveis. Não parece que os alemães se estejam a dar conta desta realidade, mas existe uma relação entre o suicídio demográfico da população, com baixa taxa de crescimento da população e uma lógica de investimento negativa para o sistema produtivo.

 

Paradoxo 3. Um capitalismo que deixou de ser conquistador.

Podemos no fim deste texto acrescentar uma observação que põe em perspetiva o que temos estado a afirmar e que abre a porta a outras questões. A fragilidade das taxas liquidas de acumulação do capital produtivo não tende a reduzir a dimensão absoluta do aparelho de produção; mas retarda o crescimento deste último; o stock de capital fixo ainda continua a aumentar, mas com um ritmo de capital adicional investido a diminuir. Segue‑se que a dimensão do aparelho de produção alemão aumenta a produção alemã em função dos investimentos adicionais e da produtividade dos meios de produção ultimamente postos a funcionar.

Este duplo processo deve ser ligado à dimensão do capital mundial cujos ritmos de crescimento são mais rápidos por toda a parte onde o crescimento é sustentado. A eficácia do aparelho de produção alemão não é aqui posto em causa. É sobre o seu peso relativo que se deve refletir. Tendo em conta a acumulação mundial de capital que se faz nos países emergentes, o volume de capital alemão é muito pequeno para que a Alemanha se imponha sobre os mercados externos.

Os capitalismos dinâmicos, procedendo através de acumulação rápida de capital, integração regional, modernização das suas infra-estruturas e dos seus instrumentos de produção, deixam às potências estrangeiras, como à Alemanha, prejudicadas por salários elevados, uma parte reduzida do seu próprio mercado. A queda das taxas líquidas de acumulação produtiva não devem deixar a esse respeito nenhuma ilusão: a Alemanha não ganha peso. É o que mostra a sua fraca penetração dos mercados sul americanos e sobretudo asiáticos.

Todos aqueles que apoiam a tese contrária deveriam ter em conta o seguinte facto: um capital dinâmico tem necessariamente uma taxa de formação líquida de capital fixo fortemente positiva. A baixa tendencial da formação bruta e líquida de capital fixo indica que o capitalismo alemão não é um capitalismo dinâmico. E por muito que isso custe, um capitalismo não pode compensar a queda tendencial destas taxas de investimento pelo aumento da sua produtividade e da sua produção. À falta de se envolver numa verdadeira dinâmica de conquista mundial dos mercados, são os vizinhos que pagam as despesas de uma política que faz, sobretudo, desequilibrar as relações de forças à escala europeia.

Objectar-nos-ão, sem dúvida, que é necessário acrescentar aos investimentos nacionais alemães os IDE alemães para medir a dimensão do aparelho de produção germânico ou germano dependente. Esta adição, uma vez realizada, as taxas brutas e líquidas de capital fixo permaneceriam orientadas à baixa. E entre estes dois últimos indicadores, é a taxa de formação liquida de capital fixo que é a mais importante: mesmo correndo o risco de nos repetirmos, dizemos de novo que a baixa desta taxa é um sinal evidente de que se trata de um capitalismo que deixou de ser conquistador.

Com efeito a queda das taxas liquidas e brutas de acumulação do capital nos EUA e na Alemanha são o sinal de um declínio da produção de riqueza e do estimulante indispensável para dinamizar o crescimento. Os EUA têm encontrado, ontem na dívida privada e hoje na dívida pública, as retransmissões de crescimento que o seu aparelho de produção já não permite mais e desde há muito tempo. A Alemanha beneficiou da retransmissão de crescimento pela despesa pública durante a reunificação e a despesa privada aumentou muito pouco na Alemanha entre 1992 e 2002. A Alemanha desliga depois de 2000 e só se recompõe por volta de 2005 na base do crescimento dos outros países europeus, sobre o qual transplantou o seu crescimento moderando os seus preços nas condições económicas, sociais, produtivas e comerciais que analisámos acima. Não encontra nos países não europeus retransmissões de crescimento suficientes por falta de uma expansão comercial depredadora. A Alemanha por conseguinte é levada a realizar taxas de crescimento cada vez mais fracas por não dispor de meios de retransmissão de consumo a nível interno (moderação salarial a isso obriga), a nível europeu (o carneiro não tem mais lã em cima das costas) e a nível extra-europeu.

A realidade da crise – o desequilíbrio das competitividades económicas na Europa – está no centro da crise presente. É necessário transformar esta crise em crise orçamental e das finanças públicas para se organizar hoje em toda a Europa um vasto sistema de redução dos salários – directos e indirectos – públicos e privados. Numa Europa que sofre de uma sub-acumulação de capital, isto significar comprar um bilhete para a recessão e para a deflação que a acompanha. O exemplo alemão permite predizer a sequência: As exportações não europeias não fornecerão nenhuma retransmissão devido ao sub-investimento (que se amplifica entretanto) que corrói a Europa, devido aos efeitos induzidos pela crise europeia sobre a economia mundial e devido igualmente às dificuldades americanas tão próximas das nossas. Mais grave ainda, uma concorrência acrescida entre países europeus sobre um fundo de crescimento fraco ou negativo fará atuar a concorrência económica contra o crescimento.

Vejamos as perspetivas

Tendo ficado assinaladas as semelhanças e as diferenças entre um crescimento americano e alemão, é sem dúvida a queda das taxas de acumulação que parecem ser o elemento comum à economia alemã e americana. Parece que esta sub-acumulação é comum aos países da zona Atlântica e mais largamente aos capitalismos históricos. Esta parece-nos cada vez mais ser a causa fundamental da depressão atual que se adapta a diferentes tipos de capitalismos por pouco que eles sejam antigos e que os seus mercados nacionais tendam para a saturação.

Nos EUA e na Alemanha, a queda das taxas de acumulação de capital fixo produtivo parece indicar a mudança das bases geográficas do capitalismo. As taxas de acumulação caem aqui porque aumentam noutros lugares, os stocks de capital fixo aumentam lentamente aqui porque aumentam muito rapidamente noutros lugares. Reequilíbrio? Isto significa conhecer muito mal a lógica do capital! A lógica do capital não é o equilíbrio, mas a dinâmica consecutiva à concorrência e à procura de mais lucros. Uma sub‑acumulação é sinal de um declínio relativo que só pode conduzir ao declínio absoluto. Tudo o que não sobe num sistema de concorrência então desce.

A sub-acumulação de capital verificada nos EUA, na Alemanha (e mais largamente na zona do Atlântico), o crescimento das desigualdades de rendimento e a acumulação dos patrimónios para a parte superior da pirâmide social, são o resultado de um mesmo processo de abertura total dos mercados, do enfraquecimento dos sistemas produtivos que resulta nas condições de uma troca desigual, e finalmente, de uma vasta transferência de dinâmica económica da qual resulta a depressão atual. Concebe-se que as elites económicas que organizaram e se aproveitaram deste processo, os políticos que o puseram em funcionamento, os ideólogos fanáticos que o legitimaram ou que o aplaudiram estão atingidos por uma forte gaguez!. É que eles guardam obstinadamente um segredo: o seu enriquecimento representa a chegada da hora da ruína das economias que os suportam, a sua acumulação de espólio tem muito de parecido com uma pilhagem antiga e sem nenhuma vergonha, as suas soluções expressam o salve-se quem puder e a má-fé. É assim que o crescimento alemão, ontem criticado, é hoje levado ao pináculo da fama e da virtude. Pois não convida ele a que os povos europeus apertem bem o cinto no interesse… dos ricos e poderosos?

Onubre Einz

P.S. Não retomamos o argumento do Sonderweg alemão. Mas há uma analogia histórica que nos incomoda. Cada vez que a Alemanha pensou em termos mundiais, em situação de autonomia (Época do Imperador Guilherme II, Época nazi), conduziu a Europa à catástrofe e naufragou ela própria no naufrágio. Demasiado pequena, não suficientemente povoada, economicamente potente mas não o suficiente para ser potência dominante, a Alemanha sobrestimou então a sua importância. E se ela repete um impulso de post-nacional e, mesmo assim, da Grande Alemanha? Segui-la seria, sem dúvida, comprometer-se na pior das políticas… nós não apontamos ninguém a dedo…

 

Texto original ” L’Allemagne et l’investissement: une puissance aux pieds d’argile”, em http://criseusa.blog.lemonde.fr/page/11/

[1] Título principal da responsabilidade do tradutor.

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