A Catalunha: a esquerda e a secessão, por Armando Fernandéz Steinko

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Seleção e tradução de Francisco Tavares

Obrigado a Armando Steinko e a El País.

A Catalunha: a esquerda e a secessão, por Armando Fernandéz Steinko

Do blog Piensa y Actúa, “Cataluña: izquierda y secesión” de Armando Fernández Steinko (artigo publicado em El País, em 30 de setembro de 2017)

Espanha Catalunha

As identidades são consubstanciais à vida política e social mas há que aprender a refrear os sentimentos que as identidades despertam e a construir diques de racionalidade para as canalizar num sentido emancipatório de justiça e solidariedade.

 

 

O processo secessionista catalão está liderado por três grupos sociais: pelos empregados de origem de língua catalã vinculados à Administração autonómica; pelos (pequenos) empresários que foram à falência com a crise ou que não puderam resistir à concorrência europeia, como é o caso da família do próprio Artur Mas; e pelas classes médias tradicionalistas vinculadas aos territórios de antiga afetação carlista, e que foram fortemente beneficiados pela política de subvenções dos governos de Pujol. É gente ordeira pouco dada a aventuras políticas, mas o seu ideário político forma parte de um mais geral que se foi configurando em amplas zonas da Europa com a radicalização das políticas neoliberais. Está fortemente implantado na direita alemã mas também na dos tigres exportadores austríacos, finlandeses, na direita das regiões do norte da Bélgica e Itália, e naturalmente também na dos Países Baixos.

Nesse ideário, o território, entendido como unidade muito coesa cultural, identitária e institucionalmente, tem que competir duramente frente a outros territórios para alcançar saldos comerciais positivos e atrair investimentos. Este discurso do chauvinismo do bem-estar, que na sua versão mais conservadora tem uma componente étnica, pode degenerar em ultradireita mas não necessariamente. Os países do sul da Europa, mas também as suas regiões mais deprimidas —o leste da Alemanha, o Mezzogiorno italiano, a região belga da Valónia— são vistos como fardos orçamentais por aqueles que optam por não terem que sentir solidariedade alguma a fim de preservarem o seu próprio bem-estar. A ala conservadora e liberal do independentismo catalão vê as coisas através de um filtro como este: o “Estado espanhol”, um artifício culturalmente alheio, é um peso de que tem que soltar-se para poder converter se na Finlândia do Mediterrâneo. Daí a pedir a secessão é apenas um pequeno passo.

O discurso do “direito a decidir” força a eleger entre duas identidades, violentando a realidade cultural de uma parte substancial da população catalã e espanhola em geral

Para os setores conservadores esta forma de pensar não representa um obstáculo ideológico intransponível, mas as esquerdas incorrem em contradições importantes para salvar o seu discurso independentista. Estas últimas têm dois ramos principais e um terceiro que acaba por não engrossar, o que provoca fortes dores de cabeça entre os setores que lideram o procés. O primeiro ramo são as classes médias instruídas e progressistas, a velha gauche divine que é a que inventou o discurso do “Estado espanhol”, que nos anos oitenta trocou o discurso social pela causa identitária, e que representou a ala soberanista do PSC —em menor medida também a do PSUC— até que ambos partidos saltaram pelos ares. O segundo ramo são os filhos radicalizados das classes médias conservadoras de origem carlista que formam o setor maioritário e mais identitário das CUP, e que têm em mente um igualitarismo semirrural, similar ao da antiga Herri Batasuna em Euskadi. A estos dois grupos soma-se uma parte —bastante pequena— das classes trabalhadoras e populares sem origem de língua catalã dispostas a sacrificar a sua identidade heterodoxa em troca de se juntar à caravana de um território pujante que promete ser a Finlândia do Mediterrâneo, e que incluiria um Estado de bem-estar altamente desenvolvido. Estes últimos são minoritários dentro do bloco independentista mas as suas ideias não são de desprezar pois estão muito implantadas numa parte da emigração das regiões ricas da Europa, emigração que se une aos autóctonos na sua luta territorial contra os pobres do sul com a esperança de tirarem proveito de um sistema de bem-estar desenvolvido.

Sem estes dois ramos e meio da esquerda o secessionismo não ultrapassaria os 25% da população catalã. O grosso das classes trabalhadoras e populares catalãs não participam no projeto, ou porque se negam a ter que eleger entre duas identidades seja qual for a retórica democrática que as envolva, ou porque suspeitam, com razão, que os senhores de Barcelona voltarão a esquecer-se deles assim que recebam os seus votos para conquistarem o poder.

Enquanto o secessionismo liberal-conservador tem um discurso ideologicamente coerente do ponto de vista dos seus próprios valores, o discurso da esquerda secessionista contradiz os seus valores. Além disso, esta última adota uma atitude de fuga no momento de abordar as mais que previsíveis consequências da sua arriscada aposta. Para começar, o discurso do “direito a decidir” força a eleger entre duas identidades, violentando a realidade cultural de uma parte substancial da população catalã e espanhola em geral. Por antecedentes familiares, por experiência laboral e pessoal, mas também porque as identidades tendem a ser cada vez mais mistas em todo o mundo, o ter que “decidir” entre duas delas não é visto como um direito mas antes como um artifício imposto pelos que querem liquidar as identidades mistas.

Os serviços públicos sofrerão um retrocesso com o fim de atrair investimentos e reconstruir um tecido económico destroçado.

 

Em segundo lugar, as justificadas críticas da esquerda contra as políticas anti-solidárias que praticam os tigres exportadores europeus em relação aos territórios do sul também são irreconciliáveis com a negativa dos secessionistas de esquerdas —embora também dos confederalistas de En Comú Podem— em participarem na construção de um país de países territorialmente solidário e culturalmente heterodoxo similar à que, desde uma posição de esquerda, tentam defender para o conjunto da Europa. É irremediavelmente contraditório criticar Merkel e Schäuble, empenhar-se na cooperação com o Terceiro Mundo e pedir uma redistribuição de norte a sul, mas negar-se, ao mesmo tempo, a participar na construção de uma caixa comum para que os filhos da Extremadura ou das Canárias possam ter as suas escolas.

A zona mais opaca das esquerdas secessionistas é a sua negativa de abordar friamente as consequências de um processo de secessão, especialmente se este não foi pactado. Negam-se a visualizar as consequências políticas e ideológicas de uma confrontação prolongada com Espanha e de uma dinâmica radical de afirmação nacional para a dinâmica social dentro da própria Catalunha. Recusam-se a abrir os olhos para as consequências sociais que terão para as classes catalãs menos favorecidas as políticas destinadas a atrair investimentos e a evitar a descapitalização, políticas que obrigariam a baixar salários e a reduzir a despesa pública para favorecer os investidores internacionais. Recusam-se a confrontar-se politicamente o ambiente que vai gerar a tergiversação continuada da história a que se verão submetidas várias gerações no contexto de uma dinâmica persistente de reafirmação nacional: o exemplo polaco e o de outros países do Leste da Europa é extremo mas é extrapolável. Narcotizados com o isco do “direito a decidir” preferem não abordar o custo das ciclópicas tentativas que vai exigir o reconhecimento internacional e que obrigará a estabelecer alianças anti-naturais para o conseguir, alianças que derrubariam totalmente os apoios a causas justas como a do direito dos palestinianos a um Estado próprio em paz com os seus vizinhos. Recusam-se, tanto eles como não poucos de esquerda do resto de Espanha, a abrir os olhos ao efeito multiplicador que teria a dinâmica independentista em toda a Espanha, incluídos a tentativa do novo Estado catalão de incorporar o País Valenciano e as Baleares no seu território e zona de influência, assim como o reforço da agenda nacional noutras regiões como Euskadi, Navarra, ou Baleares, mas também em muitas outras regiões da Europa que se verão estimuladas a radicalizar o seu discurso identitário seguindo o exemplo catalão.

Recusam-se a ver, além disso, que o fenómeno estatal é diferente no início do século XX daquele que existe no início do século XXI. As esquerdas criticam com razão as políticas ocidentais das últimas décadas destinadas a romper Estados insubordinados, muitos deles laicos, com o fim de ganhar influência em determinadas zonas estratégicas do mundo e iniciar processos de nation building inspirados em receitas neoliberais. Mas não querem ver que o seu projeto de fragmentação do Estado espanhol —aqui sim cabe chamá-lo assim— geraria uma dinâmica muito similar de debilitamento de todos os espaços públicos tanto a norte como a sul do Ebro. Seja qual seja a retórica de esquerda dos que sonham com uma República Catalã envolta em valores progressistas, o certo é que o serviço público sofrerá necessariamente um retrocesso generalizado com o fim de atrair investimentos e reconstruir um tecido económico destroçado, tanto mais tendo em conta que o seu ingresso na União Europeia será muito mais improvável do que muitos querem convencer os distraídos.

Converter o Estado espanhol em algo comparável à Rússia dos czares ou ao Estado franquista é um erro.

O anti-estatismo espanhol alimenta-se da tradição dos movimentos anarquistas do século XIX fortemente implantados na Catalunha, movimentos que foram uma resposta a um Estado liberal e autoritário que não mostrava sensibilidade alguma pelas necessidades das classes subalternas. O anti-estatismo de esquerda, que se liga com a ideia da autodeterminação que agora as direitas independentistas utilizam como isco para ganhar as esquerdas para a sua causa, foi uma resposta lógica aos Estados autoritários do Leste da Europa para com algumas das suas minorias após a I Guerra Mundial. Mas extrapolar aquela realidade, em que os velhos Estados se revelavam imprestáveis para a modernização e os anseios de democracia e justiça social, para a situação atual em que os Estados são os únicos atores com capacidade para fazer frente às grandes corporações, aos mercados financeiros ou aos desafios para a segurança das pessoas, etcetera, é um erro fatal.

É verdade: o pacto da Transição com o post-franquismo permitiu a transferência de não poucas estruturas, hábitos, identidades e tradições do passado ditatorial para o novo Estado democrático em Espanha; é verdade que aí está uma das causas da confusão identitária em que o país está convertido. Mas converter o Estado espanhol em algo comparável com a Rússia dos czares ou com o Estado franquista com o fim de legitimar a sua liquidação no início do século XXI, num momento em que as classes mais desfavorecidas somente dispõem das instituições públicas para fazer valer os seus interesses frente aos poderes económicos e financeiros, não só é fazer uma leitura fantasiosa da história do século XX, como também cometer outro enorme erro político de consequências imprevisíveis para todo aquele que defende a esquerda em Espanha e na Europa em geral.

As esquerdas, incluídas as independentistas, deveriam enfrentar esta situação com valentia, frieza e objetividade. As identidades políticas são consubstanciais à vida política e social mas a esquerda tem que aprender a refrear os sentimentos que as identidades despertam e construir diques de racionalidade para canalizá-las num sentido emancipatório de justiça e solidariedade. Se não se canalizam os sentimentos podem gerar-se desastres coletivos como os que conhecemos do século XX europeu muito antes de que se possa reagir para o impedir.

Armando Fernández-Steinko, é catedrático habilitado de Sociologia na Universidade Complutense de Madrid.

Texto disponível em https://asteinko.blogspot.com.es/2017/09/cataluna-izquierda-y-secesion-publicado.html

 

 

 

One comment

  1. Carlos A P M Leça da Veiga

    Outra coisa não podia esperar-se dum catedrático madrileno. O cavalheiro sabe tudo quanto vai na cabeça dos demais e, com esse “saber” diz como deve ser o mundo e, afirmação de fé, como tem de ser. Nem uma palavra para o fenómeno claramente objectivo e verdadeiramente repugnante que é o colonialismo castelhano. Se Portugal- e muito bem- não podia ter colónias qual a razão para Castela poder tê-las? Para ser-se colonizado não precisa de ter uma pele de coloração diferente.CLV

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