SINAIS DE FOGO – MUITA CAGANÇA – por Soares Novais

 

Há uma semana, o fogo consumiu 43 vidas. Vidas de homens e mulheres que o Estado sempre ignorou e cuja morte ficará registada pelos burocratas das conservatórias. Tal qual foi feito com aqueles que as chamas imolaram em Pedrogão Grande.

Foi um inferno! Um inferno que pôs em evidência as fragilidades de um Estado que desbaratou milhares de milhões de euros e que passa a vida a dizer que, você e eu!,  “vivemos acima das nossas possibilidades”. Eis alguns exemplos:

13 mil milhões de euros foi quanto o Estado injectou em bancos falidos, por via de gestões danosas;

1,026 mil milhões de euros foram o que custaram os dois submarinos comprados por Portas, que correm o risco de apodrecer sem nunca cruzarem os mares;

560 milhões de euros foi quanto custou o SIRESP que não funciona;

665 milhões de euros foi o que custou a construção e remodelação de 10 estádios para o “Euro 2004”, sendo que os de Aveiro, Algarve e Leiria hoje apenas são utilizados para um ou outro jogo, sobretudo da selecção.

Ou seja, entre 2004 e 2017, foi gasta a astronómica soma de 15 251 mil milhões de euros em foguetório. Um foguetório que só sublinha a nossa condição de Estado novo-rico, palco de negociatas de vária ordem, muitas vezes vezes entregue a tipos sem carácter, e que sempre diz não haver dinheiro suficiente para proteger os cidadãos, limpar e vigiar as matas e as florestas.

Um Estado que construiu estradas que nos conduzem a regiões votadas ao abandono e que serviram para encher os cofres privados e esvaziar os cofres públicos; que deu luz verde à construção dos hospitais privados ofertando-lhe dinheiro público que depois falta ao Serviço Nacional de Saúde; e que continua a negar 1% do seu orçamento para o apoio à Cultura e nada faz para assinalar os 100 anos do nascimento de Óscar Lopes e Júlio Resende – apenas para aqui deixar dois nomes maiores daqueles que nos orgulham como nação.

Somos o Portugal dos Uber X, dos Airbnb, das Web Summits, da Red Bull e dos festivais de verão. Somos o país que expulsa os velhos das cidades e os novos das aldeias do Interior. Tudo em nome de uma alegada modernidade que o transformou em cama de pouca permanência para turistas pé-descalço ou em cama de aluguer conveniente para endinheirados de “Visto Gold”.

E somos, também, o país que enfrenta incêndios tenebrosos sem apoio e sem informação e que tem feito da Proteção Civil um dos coutos que dão emprego a “boys”, prontos a servir interesses e clientelas.

O fogo assassino do domingo passado evidenciou todas estas maldades e insuficiências do Estado. E serviu, também, para pôr a nu toda a nossa cagança. Pois, como disse José Saramago ao “Jornal de Letras, Artes e Ideias”, em 2008, “todos nós damos vontade de rir. Somos uns pobres diabos. Usando um termo grosseiro: muita cagança, muita cagança e para quê? Somos pequeníssimos. Não é que uma pessoa tenha que aceitar a sua pequenez, mas parece-me bastante triste a vaidade, a presunção, o orgulho, tudo isso com que pretendemos mostrar que somos mais do que efectivamente somos. Não será caricato ou ridículo, mas bastante triste.”

A tempo: Depois da tragédia, o Governo anunciou ontem as seguintes medidas:

  1. Aproximar a prevenção do combate. A prevenção dos incêndios deve ter uma estratégia delineada de forma próxima com a do combate aos fogos, de maneira a que ambas se complementem.
  2. O reforço do profissionalismo e da capacitação em todo o sistema. A Força Aérea vai passar a gerir os meios aéreos de combate aos incêndios, desde os seus contratos de compra até à sua utilização no terreno. Por outro lado, haverá uma expansão das companhias GIPS da GNR. A profissionalização chegará também aos bombeiros voluntários, que passarão a ser formados na escola de bombeiros, que será integrada como escola profissional. A Proteção Civil, por sua vez, será institucionalizada enquanto estrutura, passando os seus dirigentes a ser nomeados por concurso público.
  3. Criar uma maior ligação ao conhecimento. Será criada uma linha de apoio à investigação sobre a prevenção e combate de incêndios, e será reforçado o apoio aos institutos politécnicos. Os bombeiros voluntários passarão a receber treino mais concreto para ajudar as populações e as companhias GIPS podem especializar-se mais no combate aos incêndios rurais. Foi ainda aprovada uma Estratégia Nacional de Proteção Civil Preventiva.

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. José Carvalho

    5.100, 3.400, 24.000 e 6.000, 5.000, 25.000 são respectivamente as horas de navegação, as horas de imersão e as milhas percorridas pelo submarino Tridente e pelo submarino Arpão. São dados retirados do site da Marinha e algo diferentes da ideia transmitida no artigo de que aqueles meios navais “correm o risco de apodrecer sem nunca cruzarem os mares”. Aquilo que provavelmente o autor quereria dizer é que os submarinos “não servirão para nada”, mas a ser assim parece-me matéria para outra folha de obra fora do contexto do artigo. Quanto ao resto do post concordo genericamente com ele e até haveria muito mais a dizer.

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