A GALIZA COMO TAREFA – coletivo – Ernesto V. Souza

Uma de tantas lições que nos está a dar a Catalunha nos últimos tempos é o sentido roturista da imagem de um “coletivo”. Roturista a respeito do longe que hoje temos uma palavra que não há tanto era presente. Resulta fascinante como o argumentário contra a Independência, parte, e rebota por isso em boa medida, da onipresente e forçada ocupação do modelo neo-liberal, das suas propostas, ideário e conceitos, mediatizando a interpretação da realidade.

O predomínio atual em tertúlias, opiniões, no mundo académico do que conhecemos por pensamento ou doutrina neo-liberal, não teria sido possível sem o bombardeamento mediático e contexto académico cultural contrarrevolucionário, individualista e fantasiosamente pro-paraíso capitalista que se tem ido criado desde os anos 80 em todo o mundo euro-centrado. Com origem no espaço anglo-saxão espalhou-se pela Europa conservadora e é nomeadamente presente na Espanha desde a segunda legislatura de José Maria Aznar no governo, coincidente com o começo das maiorias absolutas do PP no parlamento e na maior parte das comunidades autónomas espanholas.

A Guerra fria, como a segunda Guerra mundial, parece que também a ganhou Hollywood com a ajuda institucional da Academia e a maquinária cultural de Ocidente. Resulta surpreendente a basculação cultural – que penetrou fortemente do norte ao sul do continente americano e ultimamente na Europa – dos ideários, das religiões, da cultura de massas consumista do individualismo neo-liberal, associados com a “heroicidade” e o sucesso pessoal. Do crescimento do evangelismo em América do Sul, à reforma educativa na Espanha (com adoutrinamento infantil em modelos insolidários do mais exagerado capitalismo como constante, comprovável nos livros de texto), passando pelas mensagens do cinema, TV, publicidade, modelos sociais (políticos, artistas, autores), tudo decorre pelo culto ao herói, a exaltação do indivíduo e a negação dos coletivos.

Violência, justiça pela mão, enfrentamento com o sistema e as grandes corporações, super-heróis, sucesso individual… quem não pode citar dous, três, cinco, quarenta filmes e séries de Tv… mais isso é fição. A realidade decorre por outras vias.

Luis Seoane. Galicia Emigrante. 02

Luis Seoane. Ilustração em ‘Galicia Emigrante’, nº2

No meio dessa exaltação do indivíduo, de idealização da competição desapiedada, do valor da agenda pessoal, do círculo e do sucesso individual do self-made-man, auto-libertado no meio da globalização, o afundamento das ideias de progresso coletivo, de solidariedade, e mesmo a noção de coletivos parecem desintegrar-se, fundindo-se com um discurso de identificação a negativo com o bloco soviético e de negação dos valores, cultura e propostas do internacionalismo de esquerda, do pensamento revolucionário, libertário, anticolonial, anticastrense, popular originado nos anos 10 do século XX e ainda vigente na década de 1970.

González Millán destacava no início do seu clássico Resistencia cultural e diferencia histórica (2000, Sotelo Blanco Edicións), como a “experiência” guiava ao crítico na sua interpretação e análise da realidade, definia a sua trajetória e marcava também – à sua vez que era marcado – pelo contexto crítico no que se posicionava e portanto formava.

Millán, na escola de E.W. Said ou Hayden White, advertia da necessidade de analisar a História como narrativa, como conjunto de narrativas desenvolvidas, ou simplesmente sedimentadas, em camadas nas que é possível identificar os estratos de troppos, metáforas, ideias fortes, palavras de ordem, slogans e conceitos icónicos à moda em cada presente.

Resulta interessante nesse sentido, talvez, advertir como a crise económica tem destapado a verdade da fição do modelo neo-liberal hollywoodiense. A carreira espacial, no fim da Guerra fria seique também deixou arrasado o modelo económico norteamericano.

Mas tanto tem… Os dados económicos são uma parte da grande narrativa, por isso – e nesse sentido – o que está a acontecer na Catalunha resulta fascinante.

E resulta provocador e surpreendente aos olhos dos grandes construtores de troppos e dos fixadores e reprodutores de discursos, sejam analistas, sejam académicos ou políticos, num mundo definido pela exaltação do individualismo neo-liberal e com umas regras de jogo definidas nele, essa presença imensa, essa ocupação contra-roteiro à moda, do “coletivo” como personagem central do filme. Quebra os marcos.

 

N.B.

Olhando para a Catalunha, fazem-se-me tão atuais aquelas belas palavras do grande pintor Luis Seoane, em cuja obra está tão presente “o coletivo”. Seoane, formado no seio do galeguismo e da esquerda estudantil no Santiago de Compostela da república (1931-1935), foi influenciado por aqueles ideários do Grupo Clarté (Claridade) e da esquerda internacionalista surgida da I Guerra Mundial e chefiada por Henri Barbusse que tanto ecoou per décadas nos países latinos e que tanto impato teve na construção da cultura de esquerda europeia (livros, editoras, revistas, universidades populares, cultura operária) prévia à ascensão dos fascismos:

 

Os galegos viven dende fai séculos unha ficada anarquía civil, anterior mesmamente ao centralismo, consecuencia nefasta desa anarquía. Unha historia de Galicia, honradamente feita, non pode contar no seu haber con héroes isolados, cuias fazañas teñan que relatarse ó xeito de Carlyle, dos historiadores en xeral do século XIX, senón cos movimentos coleitivos realizados pol-o pobo galego a traverso do tempo pra ceibarse dos desvariados sistemas, políticos, económicos e sociales, que veñen humildándoo. […] As grandes acciós galegas foron de carácter coleitivo, cecáis deica hoxe como perduración das formas elementales da vida do medioevo.

Luis Seoane (“Adicatoria e crida”, Fardel de esiliado. Obra poética, Ediciós do Castro, Sada-A Coruña, 1977.)

One comment

  1. Carlos A P M Leça da Veiga

    Na origem de tudo, lá ensina o radicalismo, esta o Homem, enquanto um individuo em desenvolvimento mas os Estados – todos capitalistas – tem-lhe roubado os instrumentos da sua democratização, as assembleias populares, que essas sim é que são o colectivo desejado e não aquele abstracto.CLV

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