UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (205)

QUINTA DO LINDO VALE OU DA BOA VISTA

 

Não é por esse nome que a conhecemos, mas era assim que se chamava no século XVIII. Data de 1720 a sua construção. Do cimo do monte onde se situava a quinta, desfrutava-se de uma Boa Vista sobre um Lindo Vale. Ali por perto, no meio de um emaranhado de ruas feias e decadentes, sem árvores ou simples canteiros com relva e flores (e com pouco ou nenhum espaço para eles), existem ainda ruas a lembrar o que um dia existiu, e a urbanização feita pelos homens mandantes e pensadores do nosso burgo, estragou, rua de Lindo Vale (antiga estrada velha), rua do Vale Formoso e rua do Campo Lindo.

 

FRONTARIA DA CASA E DA CAPELA

 

O seu dono, um fidalgo  da Casa Real e antigo capitão geral da cidade, chamado Pais de Andrade, deixou-a, após a sua morte, às suas duas filhas, que a venderam a um negociante de Amarante e residente na cidade do Porto onde detinha dois grandes armazéns, um de sedas e outro de cereais, chamado Manuel José do Covelo, que de imediato tratou de a melhorar e tirar o máximo partido da mesma começando a produzir cereais e vinho, passando a propriedade a ostentar o nome de Quinta do Covelo.

Mais tarde, os descendentes do Sr. Covelo também a venderam.

(o Sr. Covelo acabaria sepultado, em mausoléu de pedra, na capela anexa à casa principal, onde dizem, ainda permanece, apesar de tudo parecer totalmente esventrado. A capela era dedicada a Santo António, e na altura tinha uma cruz de pedra no alto do frontão da frontaria, mostram fotografias da casa datadas de 1900, assim como sinos nos dois campanários)

Estávamos já no século XIX, entre 1829 e 1830. O comprador, Manuel Pereira da Rocha Paranhos deu o seu nome à quinta, pelo que passou a ser conhecida, também, por Quinta de Paranhos.

 

CAPELA E CAMPANÁRIO

 

SEPULTURA (LOCAL DO MAUSOLÉU) DE MANUEL COVELO

 

BRASÃO DA CAPELA DA QUINTA

 

Hoje, os terrenos da quinta e o que resta dela pertencem à Câmara Municipal do Porto e ao Ministério da Saúde, por testamento, com o impedimento de indivisibilidade e para edificação hospitalar de tuberculosos. Sendo que o Ministério da Saúde prescindiu de aí construir o referido equipamento hospitalar, a CMP com o consentimento da Administração Central, gere actualmente a totalidade do espaço, tendo ali instalado um parque público e um horto.

A Quinta do Covelo, como é por todos conhecida, é um espaço verde, com cerca de 8 hectares, localizada na zona norte da cidade do Porto, na freguesia de Paranhos e é delimitada pelas ruas de Faria Guimarães, do Bolama, rua e travessa do Monte de São João, e parte da rua de Álvaro de Castelões.

As ruínas da casa principal, uma casa tipicamente agrícola, e da capela anexa, da Quinta, datam já de 1832. Nestes cento e oitenta e cinco anos ninguém se lembrou, ou se deu ao trabalho, de as recuperar devida e condignamente. Os principais danos sofridos pela casa e capela, aumentados posteriormente com o decorrer do tempo, ocorreram em 16 de Setembro daquele ano, na sequência das lutas entre liberais e absolutistas, durante o Cerco do Porto.

Foi  naquele local estratégico-militar que esteve situada parte da artilharia dos absolutistas que, ao transformarem a quinta numa autêntica fortaleza, vigiavam os movimentos dos civis de Paranhos, para os impedirem de abastecer com alimentos a cidade do Porto. Nesse dia, os liberais avançaram para contrariar os propósitos dos absolutistas e arrasaram a dita quinta fortificada, desalojando o inimigo e incendiando-a. Uma força de cerca de 1400 soldados liberais, atacou e conquistou as posições fortificadas  que os Miguelistas haviam construído no local, e rapidamente procedeu à demolição e destruição das mesmas. No entanto, a cavalaria realista realizou um contra ataque e anulou o feito anterior, tendo conseguido o regresso de 400 dos seus homens de infantaria àquelas posições. Ripostaram de novo os constitucionalistas que, após violentos combates, tomaram de vez a Casa Amarela. Devido ao número de condecorações atribuídas por D. Pedro aos militares que participaram nestas ofensivas, passaram a chamar ao local, o Reduto das Medalhas. Como os liberais não decidiram manter uma força efectiva e permanente no Monte do Covelo, os realistas a breve trecho regressaram àquelas posições. Esta situação acabaria por ser corrigida em Abril do ano seguinte.

A Quinta do Covelo (Casa e Capela) nunca mais recuperou dos estragos sofridos. E nem lhe valeu que um dos descendentes de Manuel Pereira da Rocha Paranhos a tivesse deixado, em testamento, a duas entidades públicas. Parte da propriedade à Câmara Municipal do Porto e a outra parte  ao Ministério da Saúde.

 

CASA DO CASEIRO DA QUINTA

 

Nesta parte da quinta, Casa e Capela, a que o público não tem acesso, e em cujas traseiras vive um caseiro, ficaria bem um Museu, onde se mostrasse, pelo menos, a parte da História do Porto que diz respeito ao Cerco a que a cidade esteve sujeita.

 

 

 

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About José Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

11 comments

  1. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (205) | joanvergall

  2. jose macedo

    Mais uma vez um bom trabalho de pesquisa sobre a história do Porto antigo. Parabéns!!!!

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  3. Excelente trabalho.
    Os meus parabéns e agradecimentos.

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  4. Manuel Pontes

    Bom trabalho e continua
    Abraço

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  5. Joaquim Vieira

    Nasci e morei na rua do Lindo Vale durante 15. Ainda lá moram familiares . Havia uma fábrica de formas de madeira para sapatos , cujo dono Sr Anibal era Imao de uma das minhas avós.

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  6. Rachel Gutiérrez

    Não sei quem é melhor, se o historiador ou o fotógrafo. E nos dois esse amor imenso por sua bela cidade e sua amorável história. Parabéns, caro amigo. E Obrigada !

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    • Sou eu quem agradece as constantes visitas, o interesse e a amizade, Rachel.
      Sinto-me bem a falar da minha cidade e em fotografá-la. A nossa história é tão rica que não faz nada mal haver mais um a tentar mostrá-la aos mais novos concidadãos e a todos os que se interessam por aprender mais um pouco.

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