A GALIZA COMO TAREFA – das diktat – Ernesto V. Souza

Em 1977 o afamado diretor sueco Ingmar Bergman, surpreendeu saindo do roteiro existencialista da sua característica produção para montar um filme (The serpent egg) no qual, sem abandonar o seu estilo alegórico, introduzia uma reflexão sobre o contexto e condições nas que emergira o fascismo: a transformação de uma sociedade moderna, que alimentada por elementos internos e externos, ia dando forma o ovo da serpe que havia de a devorar.

Na Espanha política, atualmente, a maior parte do Socialismo progressista e todo o centralista, boa parte da Esquerda Unida e até parte do Podemismo embarcaram nas teses do Partido Popular de M. Rajoy. Dificilmente distingues hoje, na conversa diária, os “velhos progres” e os “modernos antissistema”, dos de Ciudadanos, PP e saudosos do franquismo. Na mão dura com os independentistas catalães, no boicote, e no todos somos 155, ecoada pela maquinaria dos mass média, a defesa da pátria e propaganda faz estranhos amigos.

Este sentir comum, popularizado da manhã à noite dia e dia pelos média analógicos e compartilhado provavelmente por uma maioria da sociedade espanhola, porém não está a implicar um revival de um nacionalismo espanhol modernizado, com projeção e programa de futuro (seja em forma de intensa reforma ou revisão Constitucional, seja em forma de República Federal), quanto e predominantemente um anticatalanismo conformado no caldo de um nacionalismo básico e revanchista.

Isto é bem interessante (e também preocupante) porque um nacionalismo emergente, como projeto, deveria ser positivo, construtivo, propagandístico, entusiasmante e sedutor e não (como apontávamos no artigo anterior) primário.

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O amigo Antonio Rodriguez, em conversa pelos correios a respeito, matiza-me a questão com uma nota afiada de jornalista. Segundo ele, podemos perguntar-nos se este revanchismo anticatalão não é o resultado imediato, da frustração espanhola por ter sido humilhados por Bruxelas, por ter de se submeter a uma austeridade ideológica impulsada pelos mesmos, Luxemburgo e Holanda, que chucham os ingressos fiscais dos Estados, e que depois vêm dizer os governos do sul que gastam o dinheiro “em cervejas e mulheres”.  É esse nacionalismo primitivo talvez também o resultado deste preterimento na Europa? Ecoa uma espécie de efeito “Versalles” económico (Das Versailler diktat), que define e marca o nacionalismo espanhol com a imposição e deixa-o apenas com uma raiva e frustração? Raiva e frustração que canaliza agora através da vontade de se vingar sobre um inimigo possível, uma minoria, neste caso um nacionalismo mais pequeno?

Pode ser. Eu penso há tempos que a Espanha foi humilhada (com motivações geo-estratégicas a escala global e com a lógica preventiva e da revanche de dous séculos sendo a Potência imperial) no tratado de Westfalia (1648) e no seu apêndice (com tanto custe para a Catalunha) do Tratado dos Pirineus (1659). Desde aquela não deixou de sê-lo, e ficou acanhada.

Condicionada no Tratado de Utrech (1714)  internacionalmente a França e a um modelo centralista com chegada dos Borbões, que rompia o tradicional polissinodialismo peninsular; foi mais tarde sacrificada ao absolutismo para manter o “equilíbrio continental e a paz” estabelecida no Congresso de Viena (1814-15); também perdeu as colónias americanas (por igual que Portugal) a favor do comércio britânico em fase expansiva; e não a deixaram entrar no “Clube dos impérios” na África e Oriente.

A Espanha, na realidade, não deixou de ser desde o século XVIII uma marionete da França, Inglaterra, modernamente dos USA e hoje de Bruxelas. Por isso havia que estudar muito seriamente como afetou na política, na história e na conformação do nacionalismo espanhol moderno, essa postergação e conversão num espaço “africano” e quase colonial, esse ser um pátio traseiro no tira-puxa das políticas continentais Francesa e Britânica desde o século XVIII.

É nesta prolongada história de humilhação e dependência que se explica a Francesada como mito e referência esperançada, na formulação de “Guerra de Independência”, que abre o século XIX. Mas como afetou a Espanha, nesse século que não a deixaram ser moderna, que lhe liquidaram as colónias e a indústria própria e capital os britânicos por causa da sua política internacional? E como que a França e a Inglaterra apostaram no 1823 pelo absolutismo no canto de estarem a favor de um estado moderno, constitucionalista e liberal?

Nesse sentido o século que se fecha com a desfeita de 1898 não é apenas um símbolo, é o detonante final e a constatação de uma frustração que se prolonga e repete, no mesmo apoio e abandono em 1936 das potências internacionais a uma República progressista e de esquerda, com um projeto de reformulação moderna do país e não hostil aos soviéticos

Acho que a ferida é profunda no patriotismo espanhol, que cego mira hoje para a Catalunha na procura de um referente de unidade propagandístico que perdera com o abandono de ETA das armas.

Mas, talvez é na Catalunha e na Galiza, onde provavelmente a interpretação e relacionamento (e também a suspicácia e ferramentas preventivas) contra a França e Inglaterra são parelhas à história e à modernidade, é também onde o polissinodialismo enraizou e conformou mais profundamente as estruturas institucionais, o relacionamento e a ideia do que era (ou podia ser) Espanha; e que é no que radicavam historicamente como solução articulatória – a um estado plural – as propostas de República Federal ou mesmo no caso galego, obedecendo a padrões ainda mais antigos, as da Confederação ibérica.

O futuro da Espanha como Estado está nas mãos de diversos conjuntos, Espanha, como projeto encontra-se mais uma vez na disjuntiva de se refugiar num nacionalismo francês, centralista e esmagador, ou resgatar da ucha dos antepassados o projeto plural e diverso da história, articulando-o de um jeito moderno.

Se toma o segundo caminho, como defende uma minoria provavelmente identificável com a esquerda republicana, pode integrar tanto a Sociedade Civil da Catalunha quanto a complexidade territorial, administrativa, consuetudinária e histórica da Galiza. Caso contrário (como parece defender a maioria unionista de tradição centralista) teria de enfrentar e arrasar até a raiz tanto a possante Sociedade civil catalana, quanto o complexo palimpsesto identitário e territorial da Galiza.

O resultado, a dia de hoje, é uma Catalunha já articulada em alternativa, como República independente: na Galiza as respostas à desarticulação industrial e comunicacional, são uma emigração maciça, uma baixíssima natalidade e uma população envelhecida e ausente.

Porém, para “espanholizar” a Galiza, para além da língua, da sociedade, da economia, das comunicações e do património haveria que destruir até a paisagem: fonte por fonte, cruzeiro por cruzeiro, aldeia por aldeia, paróquia por paróquia, comarca por comarca.

Algum observador atento até diria que bem poderia ser que andem a isso, que esse é o projeto espanhol, ditado pela Europa, para a Galiza, quando menos desde 1823.

One comment

  1. alexandre banhos

    Excelente

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