A Cimeira de Gotemburgo vista do Japão. Introdução, por Júlio Marques Mota

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A Cimeira de Gotemburgo vista do Japão

Introdução

Por Júlio Marques Mota julio-marques-mota

A propósito de uma cimeira europeia em 17-19 de Novembro

Vamos assistir no dia 17 de Novembro a mais uma palhaçada da Comissão Europeia, uma Cimeira em Gotemburgo dita Social Summit for Fair Jobs and Growth, a 17 Novembro de 2017 com a presença dos Chefes de Estado, Primeiros-Ministros e Presidentes das Instituições Europeias.

O cenário está, pois, bem composto, o tema é importante, muito importante mesmo, e o resultado será o mesmo de sempre, um belo arrazoado de belas palavras a quererem significar boas intenções com a garantia, à priori bem segura, de que pode ficar tudo na mesma. Uma posição bem mais fria do que a do Príncipe Salinas de que era preciso que alguma coisa mude para ficar tudo na mesma. Que alguma coisa mude…hipótese que aqui dispensamos.

Neste contexto, preparámos uma série de textos, três, sobre o mercado de trabalho, o primeiro texto, Da Europa para o mundo: uma corrida para o fundo, depois um texto de uma francesa residente em Tóquio sobre o mercado de trabalho no Japão, Amélie Marie, intitulado O pleno emprego sobre o mercado de trabalho japonês e a realidade e, por fim, sobre este mesmo mercado um texto dos analistas dos mercados de capitais intitulado O problema do subemprego escondido no Japão.

Textos sobre o Japão. Mas que tem o Japão a ver com a cimeira sobre o dramático problema que a Europa atravessa? Aparentemente, nada, mas verdadeiramente tem tudo a ver. Os textos em questão fazem parte de uma coleção que estamos a realizar sobre o mercado de trabalho em vários países, entre os quais Portugal. Em tempos bem longínquos, já lá vão mais de 8 anos, li um pequeno artigo no Le Monde, um artigo meio escondido, sobre a precariedade do trabalho no Japão, onde se lia que era agora, na altura, o próprio governo central a fazer pressão sobre as instituições regionais para rapidamente se diminuir drasticamente a situação de precariedade no trabalho, que objetivamente estava a ameaçar a estabilidade do sistema. Fiquei tão chocado com o que li que nunca mais esqueci o referido texto. Não sou é capaz de reproduzir o título do texto para o ir procurar, pago, aos arquivos do Le Monde. Com a crise na Europa lembrei-me várias vezes desse texto, com as políticas da Troika, confirmei que a política era a mesma que no Japão se queria então combater. Lembrei-me disso.

Pois bem, leiam os três textos acima citados e depois vejam com atenção os gráficos da situação europeia atual que vão estar na base da dita Cimeira e não me digam que não vêem reproduzido em gráficos para a Europa o que lêem nos referidos textos sobre o Japão ou sobre o mercado de trabalho em geral referido no texto Da Europa para o Mundo. Dir-me-ão: os sistemas são diferentes, porquê estar a forçar a leitura?  Penso que é um raciocínio errado. Dois exemplos, um paralelo ao Japão e outro diretamente ligado a este país. No primeiro exemplo, tenhamos presente a China, sistema à priori considerado completamente diferente do capitalismo, mas que, no entanto, é definida por um dos intelectuais mais prestigiados na China, Huang Hui, como um capitalismo neoliberal de características chinesas. Um sistema diferente cujas transformações sociais mais que evidentes tinham como principal elemento de dinâmica o modelo neoliberal puro e duro. Relembremos aqui a palavra de ordem de Deng Xiaoping: “chineses de todo o mundo, enriquecei-vos”. Como segundo exemplo, no Japão é a categoria emprego para a vida que está a desaparecer, na Europa é o contrato de duração indeterminada que está a desaparecer. O Japão pode endividar-se à vontade e a sua dívida é feita sob legislação nacional. Bom, na Europa, temos a Quantitative Easing e são milhares de milhões mensalmente a serem absorvidos pelos bancos nacionais. Será assim tão grande a diferença?

Quanto a esta analogia, dizem-nos de Zero Hedge, e num artigo que iremos publicar na nova série, o seguinte:

  1. É quase como se o Japão seja um perfeito indicador, por antecipação, do que será o futuro dos EUA. Aliás, esse cenário seria uma tragédia para a América. [ Substitua América por União Europeia, e mantenha o resto do texto]
  2. Apenas 39% dos homens nos seus 20 anos se querem casar, um contraste claro com 67% três anos atrás, de acordo com um levantamento do seguro de vida feito por Meiji Yasuda Life Insurance. A razão mais significativa que os homens deram no inquérito citado para ficar solteiro? Eles não têm rendimento suficiente para sustentar uma família.
  1. Quanto à importância de uma outra quantitative easing que não seja para os bancos mas para as famílias, para a economia real, diz-nos anda Zero Hedge:

Em retrospetiva, talvez para pelo menos atrasar a dolorosa morte demográfica do Japão, o BOJ deve considerar a hipótese de encher o helicóptero de dinheiro e distribui-lo gratuitamente pelas famílias. Se nada mais pode fazer, pelo menos, que faça isso para estimular um pico temporário nos nascimentos dos residentes e que estes encontrem uma réstia de esperança e de otimismo sem o que o Japão estará literalmente condenado.”

Quanto às similitudes entre a Europa e o Japão, e do ponto de vista da corrupção, parece que há claras relações entre o poder político e os yakuzas no Japão, ou seja, entre a Máfia japonesa e o poder político. Se tomarmos como exemplo da corrupção na Europa o que se passa em Itália temos aí uma santíssima trilogia: máfia, políticos, maçonaria. E não sei porque é que não se pode dizer que essa imagem não é a de toda a Europa. Basta olhar para alguns políticos e a sua ligação à banca, não excluindo o resto. Sarkozy pago a 100.000 euros por conferência dadas em várias cidades nos Estados Unidos e pagas por Goldman Sachs? Tony Blair a ganhar 12 milhões por ano? Schroeder e a Gazprom? E assim sucessivamente. A lista encheria páginas e páginas. Por exemplo, no caso português o BPN é nacionalizado e não tem o mesmo destino a Sociedade Lusa de Negócios, proprietária do BPN. Porquê? Curiosamente, o banco é nacionalizado quando do ponto de vista técnico, do ponto de vista financeiro, não havia nenhuma razão para ser nacionalizado. Porque o foi? Responda quem quiser No caso português, veja-se ainda a reforma dourada de Ricardo Salgado com o banco falido, veja-se a nomeação falhada de António Domingues para a Caixa Geral dos Depósitos, etc, etc.

Por outras palavras, e na mais amável das definições, diríamos que o Japão pode ser caracterizado como uma economia neoliberal extrema, com tudo o que de facto caracteriza este tipo de economia, mesmo que de características asiáticas! Sendo assim, encontraremos evoluções relativamente semelhantes com o neoliberalismo europeu nalgumas das variáveis macroeconómicas chave e consequentemente será perfeitamente normal que se possam ler os gráficos sobre a Europa a partir do que se diz nos três textos publicados antes. Mas sendo assim, diremos que os políticos europeus cavalgaram no cavalo da crise criada pelos créditos subprimes em 2008, meteram as esporas a fundo, cavalgaram no tempo, destruíram o que ainda restava do modelo social europeu, repuseram os ponteiros dos diversos relógios, os mercados e o calendário ao nível do tempo desejado: as condições técnicas do século XXI mas com as condições de trabalho e de repartição do rendimento do século XIX e, desta maneira, estão a fazer desde 2010 o que os japoneses têm vindo a fazer desde o final dos anos 90. A isto chama-se crime. Se dúvidas houvesse relembremos o que disse Angela Merkel no auge da crise grega em que esmagou o governo Tsipras: “this is not about several billion Euros – this is fundamentally about how EU can stay competitive in the world.” Trata-se pois da forma de estar competitiva no mundo, tal como os Japoneses o têm vindo a fazer à sua maneira, via mercado de trabalho, assim como os alemães o têm feito com as leis Hartz, com Schroeder e o SPD, sendo este o modelo que Merkel quer continuar a impor à Europa para ser competitiva no mundo. Se tudo isto é correto, então garantidamente nada haverá a esperar da dita Cimeira, a não ser mais poeira para os nossos olhos.

Boa leitura

Coimbra, 16 de novembro de 2017

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