A GALIZA COMO TAREFA – Radetzkymarsch – Ernesto V. Souza

Sentado num banco do parque a ler na espera, enxergo, a prudencial distância, como se vai reunindo arredor do histórico chafariz a pé da estátua a José Zorrilla, um grupo de patriotas com as suas bandeiras: velhos vociferantes, moços com estética e gestos ultras, senhoras de abrigos de pele, outras mais novas com roupa sport. Abrem algumas faixas improvisadas, intercambiam ensenhas espanholas, diversas de materiais, formas e tamanhos. Conversam, entre eles, agitados. De quando em quando há gritos estridentes, solitários e desabridos.

Bandeiras nos edifícios, bandeiras nas lapelas, bandeiras nas gravatas, bandeiras nos pulsos, bandeiras nos carros, bandeiras nos colares dos cães; bandeiras penduradas nas janelas dos domicílios, de tela, plástico, antigas e modernas; coladas às paredes. Não tantas, mas sim muitas para o que é frequente, colorindo de vermelho e amarelo os horizontes e também as conversas.

Estou por assobiar Els Segadors ou L’estaca. Passa-me muito nos últimos tempos, algo inconsciente. Mas não sou devoto dos deportes de risco, e tenho prudentemente substituído pela Marcha Radetzky. Rio sozinho, permitam-me.

Talvez se tivesse as leituras e a pena cosmopolita e cínica de Roberto Bazlen fosse capaz de evocar-lhes nesse assobio contestatário esse longuíssimo período que se estende de meados do século XIX até a Grande Guerra. E no que, sob uma tona de progresso e paz, se prolonga um dos períodos mais conflituosos socialmente e marcantes da história da humanidade. Um período fundamental no que respeita à consagração de atributos e elementos simbólicos, ideológicos, académicos, científicos e culturais que se fixaram como históricos e característicos de boa parte das identidades nacionais que se conformaram como Estados na Europa.

Imaginem: império e luxo, decadência, nacionalismo de estado, colonialismo, lutas operárias e repressão brutal, música, pintura, romances, imprensa, academias, ciências e folclore, combinadas com um controle educativo, mediático, policial e social absoluto, garantido por um exército a que se exalta, emprega para repressão e celebra entre uma tensão crescente dos movimentos sociais e das nações emergentes da Europa.

A Marcha Radetzky  foi composta por Johann Strauss pai como celebração à vitória do marechal Joseph Radetzky von Radetz na Batalha de Custoza (1848) e deve sua popularidade, atualmente e desde o frio ano de 1955, a que é a peça que fecha o Concerto de Ano Novo da Filarmônica de Viena. Durante esta última peça, como sabem, a audiência celebra o diretor e o diretor retorna os cumprimentos a dirigir cara o público que participa acompanhando a dar as palmas.

Porém o significado da Marcha é profundo, multifacético, com diversos matizes e implicações dentro da cultura austríaca. A marcha, na lúcida análise de Zoë Lang (2009), mantém uma profunda permanência não tanto pela sua valia musical quanto pelas associações que já simplesmente o seu título evoca, a história arredor da sua première e o importante role como símbolo da grandeza militar e da cultura imperial.

Radeztky, nobre boemo, era comandante do exército austríaco durante a Primeira Guerra de Independência italiana (1848-9), como governador da Lombardia-Veneto reprimiu violentamente os protestos ao norte da Itália sob domínio austríaco. Homenagens, honores, estátuas equestres, nessa época a música de Strauss pai, plenamente identificado com os valores imperiais, alcançou grande popularidade. Mas o marechal também tomou ativa parte na repressão do movimento revolucionário na Áustria. 

“A besta Radeztky” como a lembra Roberto Calasso (2014), na evocação dos seus manuais escolares, passou a ser uma personagem temida a ambos lados da fronteira Austro-italiana, e nas décadas a seguir, a marcha passou a ser considerada como um símbolo reacionário. Mas com a entrada do século XX permanecia no imaginário como um saudoso elemento do glorioso passado da corte dos Habsburgos, daqueles, velhos, melhores tempos.

Expressão do nacionalismo austríaco, arma musical do regime, a sua recepção antes e depois da I Guerra mundial, muda radicalmente, ficando após a massacre associada a esses valores, despiedadamente ironizada, entre os conformantes patrióticos, na literatura antimilitarista, internacionalista e antipatriótica dos anos vinte e trinta.

O ambiente e simbolismo, o papel como símbolo dessa Mitteleuropa, epocal e matriz de boa parte da cultura política, académica, linguística, científica, racial, nacional que em parte ainda nos configura, fica magistralmente descrita no romance homónimo de 1932 de Josep Roth. A Marcha de Radetzky, onde se descrevem as vicissitudes da família Trotta, de estirpe eslovena e camponesa, elevada à nobreza pelo resgate do novo Imperador Francisco José no decurso da batalha de Solferino (1859).

Devoção, decoro, nacionalismo percorrem as três gerações da família. O avó herói que protesta contra a sua lendária figura nos livros escolares. O neto diletante e irresoluto, militianoblesse oblige, morto no começo da I Guerra Mundial. E o pai, probo funcionário, que espera a sua vez a morte do Imperador, sentado num banco do parque Schönbrunn, e a sua vez morre, como toda a época, sob a chuva da tarde do outono.

radeztkymarsh

É curioso como penso em toda essa literatura, que reagia contra aquele presente, contra aqueles símbolos e ideias de pátria, cultura, academia, literatura e classe, naquela literatura que se estendeu por toda a Europa e América em forma de livro popular, de uma modernidade abraiante, livros contestatários, perseguidos, queimados, nas décadas a seguir e abandonados nas prateleiras, fora do cânone.

Porque não são apenas os poucos manifestantes. Resulta engraçado ver políticos, intelectuais, jornalistas, tertulianos tratando de argumentar o seu nacionalismo espanhol. E nomeadamente mais ridículo quando é desde a esquerda marxista ou desde a renovação antisistema, que se fala em chave “nacional” e com saudades.

Porém, é todo um fenómeno histórico e social ver ante os olhos se converter um nacionalismo banal, programado desde o estado, em nacionalismo ativo. E o que acontece quando um nacionalismo banal passa a ter de justificar as suas propostas, a ter de defender com argumentos porque é melhor ser espanhol ou porque Espanha é um modelo de nação mais viável e mais atrativo?

Mudaram as tornas e dá para ver que todos os argumentos e risos que eram efetivos desde o nacionalismo banal e a superioridade do Estado contra os nacionalismos minoritários, ficam em nada quando, ao serem internacionalmente questionados, devem se argumentar e justificar.

E é fascinante porque o que emerge é um nacionalismo destreinado, infantil, improvisado, com um discurso que mistura elementos velhos e novos, sem qualquer equilíbrio, atrativo ou construção.

Mistura de tópicos, ideias e frases  de repertório, palavras de ordem extraídas do futebol, exabruptos de taberna, que se baralham com lirismos joseantonianos inconscientes, com as brilhantes metáforas do nacionalismo castrense franquista ou com as teses e propostas da Restauração canovista; as músicas e filmes em branco e preto e as informações com sabor a NO-DO fraguista.

Não, não é franquismo, nem fascismo, mesmo quando se põe violento, é simplesmente um nacionalismo primitivo, não moderno, um nacionalismo emergente, nascente e saudoso de difusas glorias passadas, combinado com um ódio aos catalães, e desejo insatisfeito de revancha.

Que contraste com a maquinaria discursiva, mediática, argumentativa, incónica, moderna e bem arquitetada dos nacionalismos catalão e basco, galego até. Penso no que estará a sorrir Carlos Calvo na sua prisão idiota, injusta, exagerada e política, pensando na ironia, tantos anos de confiar-se no nacionalismo banal para isto, quando os mais já estamos, sob magistério de Bhabha, quando menos em segundo de post-colonialismo.

Fim de uma época. É extraordinário poder datar, sentado num banco do parque, a defunção de uma época que começou em 1997, quando José Maria Aznar, decidiu celebrar o centenário de Cánovas del Castillo (“O monstro”, na terminologia republicana, sindical e democrata da época) e tomá-lo como modelo e referente do projeto neo-nacional e centralista que já sonhara a mente enferma de Felipe González.

E entanto que assobio vou acompanhando com os olhos, toda a parafernália nacional que vai atravessando a rua cara a Praza maior. A mais da gente olha-os passar com indiferença. E imagino-os com os políticos, articulistas e tertulianos, da direita e esquerda nacionalista, de público, assim elegantes, cultivados e modernos batendo palmas sem saber exatamente que aplaudem, mas extasiados e atentos à batuta do diretor.

 

* Zoë Lang (2009) The Regime’s ‘Musical Weapon’ Transformed: The Reception of Johann Strauss Sr’s Radetzky March Before and After the First World War, Journal of the Royal Musical Association, 134:2, p.243-269, DOI: 10.1080/02690400903109075.

** Roberto Calasso (2014) La marca del editor, Barcelona, Anagrama,  (Palabras de agradecimiento.)

 

One comment

  1. alexandre

    Chegueia a este fantástico texto após descobri-lo no chuza.gal

    È uma mravailha, que nos fala da olhada precisa de cirurjão, examinando as cousas, que tem o autir

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