A GALIZA COMO TAREFA – caminhos – Ernesto V. Souza

Deveu ser justo antes da estação das chuvas de 1913, que a imaginação de Edgar Rice Burroughs, levou a Tarzan, por vez primeira, à cidade perdida de Opar.

Os livros de Tarzan, como os de todos aqueles heróis musculosos e intrépidos da era de ouro e prata do pop-pulp, com as suas capas ilustradas e depois em tiras de publicações periódicas e pronto ilustradas com personagens femininas, umas vezes retratadas como donzelas em perigo, e mais frequentemente, como aventureiras (auxiliares ou antagonistas) por direito próprio mas sempre com pouca, exótica e absurda roupa em cenários exuberantes e barrocos, rodeados de humanoides cruéis, antropoides selvagens, monstros ou robôs e feras por civilizar, acompanham todo o século XX, congelando os tropos doutra época anterior, cultura científico-racial e fantasias também, que espelham os hábitos, ideologias, tecnologias, em curso das que emergem e das que aparentemente fogem.

O motivo do “mundo perdido” nasceu na segunda metade do século XIX, na era vitoriana, espelhando aquela fase agitada de grandes explorações geográficas e científicas, marcadas pelo colonialismo Ocidental. Foi daquela que à par da geografia e os mapas cada vez mais detalhados, os restos fascinantes das civilizações apagadas, perdidas e abandonadas pela história, as guerras, os cataclismos e as mudanças económicas, começaram a ser descobertos pelo mundo inteiro.

No mesmo período histórico, a febre da descoberta e a popularidade dos dinossauros por causa da análise e reconstrução dos seus restos fósseis, agitou também a imaginação popular. Enquanto entre os estudiosos provocaram disputas intensas sobre origem, fisiologia, colocação temporal e extinção dos dinossauros, cada vez mais iconografias e imagens fantásticas desses animais e seus habitats se espalharam.

Nessas décadas, também as ciências naturais, biológicas, antropológicas e médicas adquiriam a sua fasquia moderna e da cópia de curiosidades bizarras e deformes “monstruosidades” com seres humanos dissecados, mumificados ou passados pelo taxidermista como manifestação do poder da nobreza até as mórbidas vitrinas das Cátedras anatómico-patológicas, emergirão a frenologia, a eugenesia e o nazismo científico.

Obsessões particulares, exploração de colonizadores, depredação de conquistadores: o capitalismo no seu reset moderno. Da revolução burguesa e do museu educativo dos “citoyens” até as grandes coleciones conformadas como verdadeiras narrativas do “catecismo científico” explicativo das mitologias nacionais e das grandezas dos impérios na vanguarda.

Não surpreende, neste contexto, entre 1871 e a Primeira Guerra Mundial, que o número de narrativas de “mundos perdidos”, aumentara exponencialmente, até se converter num género na ficção ou sub género na fantasia heroica ou de aventura.

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Apenas cem anos depois temos os mesmos heróis musculosos e resolutos e também as mesmas heroínas, mais assertivas e mais intrépidas, mas ainda nas portadas com pouca roupa e absurdas posições afetadas. Porém, resulta-nos já mais inverossímil a ideia de encontrar uma civilização perdida, isolada no meio das florestas, ou dos desertos da África, América, Ásia ou numa ilha remota, que a viagem no tempo, entre terras alternativas ou através do universo. Há muito que as florestas já não são barreiras e os grandes símios, felinos, os enormes mamíferos e répteis das fotos dos Safáris dos anos 30 e 50,  deixaram de ser tamanhos e comuns. No nosso tempo, satélites, drones, internet, aplicações, ultra-conexão, geolocalização-ligação, biónica e a exploração intensa das áreas virgens há um século dos continentes do Sul, oferecem uma visão bem diferente do Mundo.

Sem dúvida o mundo foi minguando, e a sensação de controlo social, de localização que imprimem as redes sociais, os governos e o dia a dia administrativo e comercial foi aumentando. Atafega. Tudo está ligado, localizado, indexado, fotografado, registrado, arquivado, interconectado até limites que multiplicam, na realidade, qualquer imaginação que até há uns quantos anos apenas nutria as distopias escuras da ficção científica.

Porém a necessidade de fugir, de desaparecer na procura de privacidade, de abandonar tudo, de largar amarras do digital, medra. A ideia utópica de voltar aos “tempos de antes”. Seja fisicamente, na aventura neo-pioneira de retornar ao rural, de fugir à montanha ou à beira do mar, seja apenas no rejeitamento do eletrónico, vivendo alternativamente na cidade.

Ultimamente, de mais em mais, encontro gente que vai cansando das redes sociais, dos tele-móveis, que está desenvolvendo, após uma fase de imensa surpresa, uso e alegria, uma alergia à conexão, aos dispositivos.

Com a que virá com a Internet futura, em breve nova fase superior do Capitalismo (com um controlo da Imprensa 2.0 e redes como a do XVII em diante) os livros velhos, a livraria e edição independente, esses espaços das bibliotecas e as tertúlias dos bares vão ser refúgios. Quem sabe se não veremos em breve um revival da imprensa, o panfleto e revistas de papel.

O papel (pois a preservação e digitalização universal é um mito mais, apenas que desta época) vai tomando forma na minha imaginação como um horizonte mais e mais atrativo e cheio de surpresas, como aquelas, florestas, montanhas, estepes, desertos e mares por navegar.

 

 

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