A GALIZA COMO TAREFA – Œuvre au noir – Ernesto V. Souza

Para os que estamos, não apenas fora, senão simplesmente no avesso da história, e nem acreditamos no capitalismo como sucesso e fim nem na imagem que espelha o presente mas que como névoa pixelada, resulta-nos difícil acreditar nas evoluções lineares e ad usum delphini dos livros da história, dos tratados de economia à moda, pensamento contemporâneo e até nos ensaios académicos mais celebrados.

Desconfiamos. Por princípio. As narrativas obedecem a linhas de pensamento, a crenças, ideologias, intuitos, impressões, na que acertos, erros, gostos, e afinidades de estilo definem a informação, em presente (jornais, diários, correspondência ensaios, estudos, informes, atas) e em passado (história, divulgação, educação, cânones). Mais importante que o objeto narrado é a personagem que narra, as condições e qualidades em que se define a pesquisa, o contexto político, social, ideológico e social que determina, ilumina ou cega o narrador. E nós próprios, receptores estamos condicionados pelo próprio contexto, preferências e formação. Desconfia, leitor, é bom conselho, pois eu próprio vou escrevendo conforme tu lês.

Sem sermos também devotos da cabalística nem das teorias conspiratórias, sim gostamos de perder o tempo nos caminhos menos transitados, parando a contemplar e ler, nesses recantos deliciosos da vida e das livrarias, curiosidades, intuitos, marginálias e fragmentos de escolas ultrapassadas. Conversar com pessoas idosas plenas de uma tradição e modernidade originada nos começos do século XX a que ainda não chegamos, receber doutrina de mestres gratuitos encontrados por sorte no canto de por matrícula no decurso da vida, foi durante anos uma proveitosa perca de tempo que determina boa parte da minha bagagem intelectual, percepções e ética intelectual.

Pervaguei também, passageiro de muita parte, por tratados e escolas diversas de pensamento e crítica, gostei sempre de alguma cousa em cada uma delas, um conceito, uma palavra, uma frase, um argumento, um estilo pessoal de prosa, análise ou um esquema clarificador, mas por falta de fé ou constância não fiquei no trilho de nenhuma.

À luz daquela bela edição – com capa de Luis Seoane – do ensaio famoso e livro de Sanchez, e com aquela ferramenta multi-uso que é a História para la Memoria de la Poesia e poetas españoles de Martim Sarmiento, imitando estilo e astúcia do Conde de Gondomar, Valle Inclán e Murguia, pouco mais tenho por seguro que a incertidão.

A lâmpada maravilhosa, Opus nigram. Por vezes sentimos, demoradamente chegar esse momento de maturidade em que as luzes diversas revelam-se como pontos enlaçando outros pontos e percorridos. Aí é que se abandona a navegação de cabotagem. Afinal, nem acho a história como uma evolução linear, como a do próprio ser humano entre as demais criaturas, não é uma obviedade manifesta, um conjunto de trajetórias simples, claras e perfeitas, ajeitadas a doutrina e tecida desde uma escola e bibliografia finais e sujeita, cada vez mais, a esquemas conceituais, burocracia académica, linhas departamentais e hierarquias de veneráveis e aprendizes.

E a de Galiza também é assim. Com uma antiga e medieval por integrar num futuro que não sabemos qual será, uma moderna diversa e sujeita à narrativa dos estados peninsulares e com uma contemporânea definida por uma Academia espanhola que pretende ler autores, movimentos, sucessos que se rebelaram contra a construção da história e do Estado centralista moderno. Por se fazer.

Intuímos as faltas, procuramos os modelos descartados, os livros e imaginamos um quadro complexo. Internacional, abalada e interativa com todos os movimentos políticos, económicos e culturais da história. Comércio, navegação, emigração, reinos, impérios, condados, num finisterrae da Europa e numa centralidade atlântica. Fenícios, gregos, romanos, normandos, as luzes, a revolução industrial, o primeiro anarquismo, Garibaldi, a Comuna de Paris, a luz de oriente rebotada no rio da Prata, a Guerra Civil, o exílio, o desarrollismo franquista e o absurdo neo-con e todas as guerras e conspirações dos Borgonha às Mundiais, passando pelos Plantageneta, os Austrias e os Borbões, com Granada, Itália, América, Inglaterra ao fundo.

A noção de redes, elites, sub-elites, percursos de classes com interesses e histórias divergentes, capilaridade, de evolução em mosaico, de personagens elos, escolhas e possibilidades… a história é apenas uma narrativa, dentro de esquemas de poder, de variantes económicas e de modas, obsessões, medos, seguridades que no presente, marcam, definem, incidem ou focalizam elementos do passado. Mas afinal é o futuro o que se pretende resolver. É ele o que dita o passado. Mas o futuro, quando a ele se chegar tomará a forma do presente e até do passado. Não passar nunca de presente, elemental, caro leitor, já explica muita cousa.

Qui serait assez insensé pour mourir sans avoir fait au moins le tour de sa prison ?

 

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