Sobre o mercado de trabalho atual: do século XXI ao século XIX, um retorno a Marx. 7 – Alguns resultados dos inquéritos europeus sobre a relação face ao trabalho – Parte IV

Muito recentemente, um pequeno artigo do colunista Christophe Barbier, em L’Express propôs  mesmo que se encurtassem as férias dos franceses de uma semana, sugerindo que os franceses  teriam um problema no  seu relacionamento para com o trabalho… O que é desesperante sobre tudo isso é que esta posição representa a vitória ideológica ganha por todas essas pessoas sem que isto assente em algum fundamento, alguma prova de concreto: Esta posição não assenta em nada de verdadeiro, não tem nenhum suporte na realidade, nem há nenhum   estudo nem nenhum testemunho que a defenda.

Parte IV

(Dominique Méda, Setembro, 2017, Tradução Júlio Marques Mota)

Os inquéritos e as entrevistas mostram claramente que o trabalho e a família são dois domínios, dois valores, duas áreas constitutivas de identidade, que são consumidoras de tempo e podem-se condicionar uma à outra, com o risco de causar disfunções ou mesmo   de levar,  especialmente, as mulheres a desistir.

Apoiando-se sobre os resultados de um levantamento francês para melhor identificar as fontes dos franceses  (história da vida-pesquisa de construção de identidade), INSEE colocava como título de síntese [1] : “a família, pilar de identidades”. A investigação mostrou claramente como a família era considerada pelos franceses como estando  à frente do trabalho (o que é normal, uma vez que há muitas mais pessoas que têm família do que as que têm um emprego). Quando questionados sobre a hierarquia das suas prioridades, dois terços das pessoas responderam que o seu trabalho era muito importante mas menos do que as suas famílias [2], confirmando os resultados da análise do inquérito EVS (tabela 7).

Quadro 7 : proporção de indivíduos considerando que os domínios seguintes são « muito importantes » na sua vida.

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Trabalho e família não são, obviamente, apenas dois “valores”. Desde quando  as mulheres desejam trabalhar nas mesmas condições que os homens e que a sua taxa de atividade se tem consideravelmente aproximado da taxa de atividade masculina, mas que as mulheres continuam a cuidar da maior parte das tarefas domésticas e familiares – o que explica a diferença na taxa de atividade que subsiste (cerca de 10 pontos), mas também o facto de que as mulheres trabalham muito mais no regime de  tempo parcial do que os homens e em trabalhos muito diferentes dos seus – a articulação dos tempos profissionais e familiares tornam-se uma questão decisiva. O inquérito europeu sobre as condições de trabalho destacou estas lacunas de conciliação particularmente visíveis na França.

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O levantamento do INED intitulado  “família e empregadores” demonstrou plenamente o choque que constitui a chegada de uma criança sobre o emprego das mulheres: como se mostra no gráfico abaixo, enquanto 6% dos homens mudam alguma coisa na sua a atividade após a chegada de uma criança , esta situação verifica-se em cerca de 40% nas mulheres. Elas podem mudar de emprego, reduzir à sua atividade ( passar a uma situação de tempo parcial) ou mesmo deixar de trabalhar. Esta incompatibilidade entre o trabalho e a família afeta consideravelmente as carreiras das mulheres e a igualdade profissional, embora as nossas entrevistas tenham demonstrado que as mulheres têm agora as mesmas expectativas de trabalho que os homens e que era , portanto, urgente permitir-lhes (bem como aos homens, é claro) ter emprego e poderem cuidar das tarefas domésticas e familiares.

O inquérito  “Histoire de la Vie ” acima citada confirmou que os horários atípicos eram particularmente inadequados para conciliar trabalho e vida familiar, tanto para mulheres como para os homens: neste levantamento, quase 39% dos ativos ocupados que foram entrevistados responderam positivamente à pergunta: ” acha que o seu trabalho (horários, localização, organização) torna difícil organizar a sua vida familiar?” Mais de 60% dos homens e mulheres com crianças com menos de 11 anos de idade trabalhando em horários atípicos responderam que a reconciliação da vida familiar e da vida profissional era difícil.

Em conclusão, só se pode ficar espantado e incomodado pela imensa distância entre a crença em voga segundo o qual os franceses e, mais particularmente, os jovens, estariam desinteressados do trabalho e o resultado dos inquéritos europeus que são todos eles convergentes com os resultados obtidos em França. Notemos que esta relação para com o trabalho permanece, apesar de uma deterioração clara nas condições de trabalho, condições  estas que não foram aqui mencionadas mas que no inquérito francês e no inquérito europeu sobre as condições de trabalho foram fortemente sublinhadas.


Notas:

[1] Frédérique Houseaux, « La famille, pilier des identités », Insee Première, n° 937, décembre 2003.

[2] Hélène Garner, Dominique Méda, Claudia Senik, « La place du travail dans les identités », Économie et statistique, 2006, n° 393-394, p. 21-40.


Artigo original aqui

 O oitavo texto desta série será iniciado, amanhã, 19/01/2018, 22h


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