CARTA DE BRAGA – “OS CORNOS DO CROISSANT” – por ANTÓNIO OLIVEIRA

 

 

 

Esta Carta deveria ter saído ontem, mas decidi não violentar os imponderáveis sustentáculos do passar dos dias.

Também tinha pensado numas palavras acerca das clementinas declarações sobre recasamentos, mas atendendo à época e para que não houvesse confusões, resolvi bater a bola mais baixinho e escrever sobre uma outra solenidade, por se ter celebrado há pouco o Dia Internacional do Croissant!

Mas já nem me lembro em que dia calhou!

Talvez por ser só mais um a juntar a tantos outros que abundam pelo calendário, uns evocados e outros nem tanto, mas memoro este porque, num daqueles órgãos de comunicação por onde vou ganhando algum tempo cada dia, a notícia estava acompanhada de uma pergunta que, na minha modesta opinião poderia justificar a intervenção de um purpurado, ou dar origem a uma tese de doutoramento bem documentada, a contar com orientador e pesquisas cuidadas, para ter a merecida resposta.

A pergunta, dispenso-me do resto das interrogações, das justificações e das opiniões ali apostas, porque a tese não é minha, era apenas “O croissant deve ser direito ou ter cornos?”

Havia ainda algumas fotografias com um simpático rapaz a fingir que comia um croissant dos direitos e com a fotografia de um com cornos, agarrada na mão direita.

Tenho o dia estragado! pensei eu, espantado com a complexidade da questão!

Um problema mais a juntar ao dos dois minutos que ainda temos para o Apocalipse, de acordo com o Relógio do Juízo Final, actualizado também há uns poucos de dias, se calhar no mesmo do croissant!

Aqui não havia perguntas, a notícia (no jornal onde a li) era taxativa ao atribuir o ónus ao grosseiro americano da presidência e outros lideres mundiais, se calhar também grosseiros, por não conseguirem travar as ameaças climáticas e as nucleares.

A ver por estes dois exemplos de complexas notícias, sem querer olhar para as manhosas ligadas a futebóis e isenções fiscais, começo a pensar que o melhor talvez seja passar a buscar a informação nas redes sociais, seguindo o exemplo de mais de metade da cidadania mundial.

Quem o afirma é um estudo do Reuters Institute para a Universidade de Oxford, sobre os fluxos de informação em 2017.

O estudo salienta que, para a opinião pública, tem tanta legitimidade uma noticia pescada na hora numa rede social, como uma outra decorrente de um trabalho sério e rigoroso de investigação jornalística.

Em jogo está aquilo que muitos chamam a economia da atenção, sustentada pelo uso massivo e maciço do ecrã, de onde vem a questão da distinção entre atenção e ignorância, por ali se concretizar a mudança da esfera pública, feita pela privatização e comercialização das fontes de conversação.

Não podemos esquecer que nascemos numa comunidade organizada em volta de processos de significação próprios, os criadores da linguagem que permite a interpretação distinta e única do mundo, tudo ligado a vivências e experiências singulares, reflectindo a genética, mas também a geografia e a topologia, afinal a formação do conjunto de formas simbólicas que sedimentam tanto a memória individual como a colectiva.

Mas lá, nos ecrãs, numa linguagem tão desprendida como impositiva, está a chave do alinhamento dessas visões do mundo, por me meterem em casa em permanência, dizia Derrida, a aceleração do processo tecnológico, em detrimento do desejo do idioma e da singularidade nacional!

Mas, depois desta minha lengalenga toda por este imbróglio com padarias e ecrãs e porque o problema do croissant também já deve ser nosso, mesmo sem a imposição das tais notícias manhosas, tenho também de fazer a pergunta – o croissant deve ser direito ou ter cornos?

Esqueci-me das clementinas!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. Maria Mamede

    Meu querido Amigo, depois de ler e reler atentamente a sua Carta, acho que devo deixar em paz as clementinas e mandar “bugiar” os cornos do croissant!
    Razão tinha a Avó Micas…”ninguém é probe se não do juízo!”
    Abraços.
    Maria Mamede

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