NESTE DIA – Massacre do dia de São Valentim – por Carlos Loures

(1899 -1947)

Já não chegava o Natal, o Dia da Mãe, o Dia do Pai… Agora temos mais «tradições» que nos chegam, quase todas, do outro lado do Atlântico – algumas delas foram daqui, da Europa e são-nos agora devolvidas, já devidamente recicladas – um verdadeiro massacre comercial a que os americanos nos sujeitam. Lembro dois – o Dia das Bruxas e o Dia de São Valentim, dia dos namorados – hoje, 14 de Fevereiro.

Os americanos são hábeis a fabricar tradições. O Pai Natal foi criado em 1929, ano negro do Crash. A Coca-Cola lançou o Santa Claus para dar uma ajuda à grave quebra bolsista. Sempre me pareceu insensata a moda americana de sublinhar as sitcoms com gargalhadas ou ahs de desapontamento – então as pessoas não sabem quando se devem rir? Do mesmo modo, um dia dos namorados é uma ideia tonta, mas vejo muita gente que o não é a alinhar no atentado ao bom senso que é haver um dia dos namorados – como se todos os dias não o fossem. E a lenda de São Valentim até é uma história dramática – não a conto – Aliás, há mais do que uma versão.

A lenda chegou aos Estados Unidos com os emigrantes. Reciclada a história é-nos agora devolvida sob a designação de “Valentine’s Day” para gáudio de comerciantes e dos que ainda não  sabem que o dia dos namorados é quando uma, de preferência duas pessoas, querem.

Mas não é  desta «tradição» americana, que se veio juntar ao massacre do marketing, que me quero hoje ocupar. É de uma outra tradição americana também levada pelos emigrantes – o gangsterismo que, nos anos 30 do século XX se apresentava em todo o seu esplendor. É outro massacre que vou recordar. Queria lembrar o dia 14 de Fevereiro de 1929 (sempre o ano do Crash) – nos Estados Unidos estava-se em plena Lei Seca e o negócio da venda clandestina de bebidas alcoólicas, dominado pelas redes mafiosas, ia de vento em popa.  Nesse dia, junto ao muro de uma garagem de Chicago, apareceram sete corpos com vários tiros presumivelmente de metralhadora ligeira Thompson, aquelas de carregador em forma tambor. Seis dos corpos foram identificados como pertencentes a membros da quadrilha de “Bugs” Moran. Outro pertencia a Reinhardt H. Schwimmer, que se provou não pertencer à quadrilha. Um dos primeiros, Frank Gusenberg, foi encontrado ainda com vida. Recusou-se a dizer a quem se devia aquele massacre: “Ninguém me baleou”, disse pouco antes de expirar – tinha catorze balas no corpo.

A cilada em que os homens de Moran caíram foi, como toda a gente logo percebeu, organizada pelo gang de Al Capone, um ítalo-americano. Nunca se conheceu o verdadeiro motivo para o crime, presumindo-se, no entanto, que terá sido uma retaliação por uma tentativa mal sucedida para assassinar Jack McGurn, um dos lugar-tenentes de Capone. Segundo se diz, teria sido ele a comandar a armadilha que foi realizada com requintes – alguns dos bandidos de Capone estavam com fardas de agentes da polícia. Aliás, a Polícia de Chicago chegou a ser apontada como autora do massacre. Outro motivo, provavelmente o principal, seria a concorrência que o gang de Bugs Moran fazia ao de Al Capone no contrabando de bebidas na área de Chicago.

Este incidente, conhecido como «O massacre do dia de São Valentim» mudou o equilíbrio de forças na área de Chicago. O bando de Moran entrou em declínio. Capone prosperou, gozando de estranhas cumplicidades, inclusive dentro do aparelho policial, conseguiu ir escapando às acusações que lhe iam fazendo por numerosos crimes que o seu bando cometia. Controlava informadores, pontos de apostas, casas de jogos, bordéis e redes de prostituição, bancas de apostas em corridas de cavalos, clubes nocturnos, destilarias clandestinas e cervejarias. Chegou a facturar 100 milhões de dólares norte-americanos por ano, durante a “Lei seca”. Lei que para ele foi uma bênção.

Em 1929 (ainda e sempre este ano a perseguir-nos) sucedeu uma coisa que à época só podia acontecer nos Estados Unidos –  Alphonsus Gabriel Capone, um criminoso sem escrúpulos, frio e violento, pelo seu êxito dos negócios,  foi nomeado o homem mais importante do ano, juntamente com personalidades da estatura moral e intelectual de  Albert Einstein e de Mahatma Gandhi. Em 1931, quando estava no auge do seu reinado, um pormenor insignificante perdeu-o: foi condenado por evasão fiscal e esteve preso durante onze anos.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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