Trickle-down, trickle-up, eis a questão. E qual tem sido a opção? – Parte I – 6. A era do dinheiro fácil está a acabar e o mundo prepara-se para os choques, por Peter S. Goodman

Uma nova série sobre as novas tempestades que se vislumbram já no horizonte

Imagem 2 Trickle-Down CADILLAC

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte I – 6. A era do dinheiro fácil está a acabar e o mundo prepara-se para os choques 

Por PETER S. GOODMAN peter goodman

NY Times em 6 de fevereiro de 2018, reproduzido por Gonzalo Raffo Infonews

 

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Uma era de uma longa década de fácil acesso ao dinheiro concebida pelos bancos centrais na Ásia, Europa e nos Estados Unidos está a acabar. Credit Behrouz Mehri/Agence France-Presse — Getty Images

 

Há poucos dias, no que parece uma era diferente agora, a coisa mais importante que as pessoas que controlam o dinheiro pareciam temer era a complacência. Os mercados de ações nos Estados Unidos estavam a crescer, fascinados pelas predileções de redução da regulação e de reduções fiscais prometidas pelo presidente Trump. Todas as principais economias do mundo estavam em expansão.

O pior que poderia acontecer, segundo os senhores do dinheiro, seria que os investidores fossem atraídos por investimentos imprudentes, assumindo demasiados riscos na crença de que os perigos do mercado tinham sido domesticados.

Acontece que os perigos já estavam a funcionar. Uma era de uma década de fácil acesso ao dinheiro gerado pelos bancos centrais na Ásia, Europa e Estados Unidos está a terminar, abrindo um novo capítulo em que as empresas terão que passar a pagar mais para contrair empréstimos e as pessoas comuns terão que pagar mais para financiar casas, carros e outras compras.

Para digerir as flutuações selvagens em ações e em obrigações ocorridas de Nova York a Londres e a Tóquio tem que se absorver esta desconfortável situação que se está a instalar.

Os investidores concluíram que as taxas de juro aumentariam mais rapidamente do que previram, quase certamente nos Estados Unidos, e talvez também na Europa e na Ásia. Eles tiraram o seu dinheiro investido em ações e confiaram-no a sítios mais seguros quanto à riqueza, como em obrigações da dívida pública e em dinheiro líquido.

Uma onda de vendas começou em Nova York na sexta-feira, continuou na Ásia e na Europa na segunda-feira, e então completou a sua jornada transglobal com uma queda acentuada onde tudo tinha começado. Enquanto a tensão global nos mercados globais continuou a verificar-se na terça-feira, a ansiedade diminuiu nos Estados Unidos, com o índice de 500 da Standard & Poor’s a subir 1,7% no encerramento do mercado. Os ganhos ajudaram a apagar algumas das perdas na semana passada, embora o S.&P. 500 ainda esteja em perda de 6% em relação ao valor de pico do final de janeiro.

Não é necessária nenhuma licenciatura em finanças para adivinhar a lição: os mercados tanto podem descer como subir, uma realidade frequentemente abafada pelas eufóricas celebrações para saudar um registo ou outro.

Embora as transações nos mercados financeiros nos Estados Unidos tenham sido claramente a fonte inicial de alarme, as preocupações espalharam-se para todo o mundo em que o dinheiro mudou de mãos. A economia americana trocou a frivolidade das apostas no mercado de ações pelas sombrias armadilhas de uma vigília de cabeceira. O resultado foi a penumbra e a ansiedade em todos os aspetos da esfera financeira.

“Os Estados Unidos são a uma muito razoável distância o maior mercado da Terra”, disse Gaurav Saroliya, diretor de estratégia macro global da Oxford Economics em Londres. “O crescimento nos Estados Unidos tem um enorme impacto nas economias em todo o mundo. Se o maior mercado estiver ansiosamente em venda de títulos, em baixa portanto, isso tem um efeito muito poderoso sobre o sentimento dos investidores. Isso torna as pessoas mais avessas ao risco”.

O medo que invadiu os Estados Unidos teve como origem os bons tempos. À medida que aumentava o sentimento de que a negociação de ações era governada por um excesso de exuberância, aumentavam as probabilidades de que o Federal Reserve reduziria as festividades aumentando as taxas de juros mais rapidamente do os responsáveis políticos tinham pensado.

Não por é por acaso, os bancos centrais são vistos pelos investidores fundamentalmente como adultos avessos à diversão e assumindo com solenidade a sua função de supervisores. Quando as crises emergem, eles tornam o dinheiro disponível para estimular a atividade económica, mantendo o terror à distância. A expansão económica global agora em curso é em grande parte um produto do FED ao desencadear rapidamente uma esmagadora vaga de crédito após do início da crise financeira em 2008, combinada com a mais lenta e, finalmente, efetiva torrente de dinheiro entregue pelo Banco Central Europeu.

Mas quando a festa fica violenta – quando as economias aceleram e os preços das ações aumentam para níveis fora de sintonia com os fundamentais da economia – os banqueiros centrais tornam-se os desmancha-prazeres da festa, aumentando as taxas de juros para eliminar os perigos que acompanham as festas dos investidores.

Taxas mais elevadas diminuem a especulação que pode acabar mal, tornando o crédito mais caro. Estes aumentos retardam o crescimento económico ao mesmo tempo que tornam as ações menos atrativas, porque as empresas devem ter de pagar mais para manter os seus níveis de endividamento. Os investidores podem ganhar mais simplesmente mantendo os seus bens em dinheiro ou em obrigações ao invés de aceitarem o maior risco das ações.

A amarga ironia é que o atual desfalecimento foi desencadeado pelo aparecimento de algo que o mundo aguarda desde há anos: salários mais altos para os trabalhadores.

Mesmo que as taxas de desemprego tenham diminuído drasticamente na Grã-Bretanha, no Japão e nos Estados Unidos, as empresas continuaram a encontrar novas formas de fazer mais produtos e vender mais serviços sem pagar mais aos seus empregados. Esta foi uma importante fonte de mal-estar entre os trabalhadores e um tema de consternação entre os decisores políticos.

Então, na última sexta-feira, a última publicação mensal sobre o mercado de trabalho americano revelou que os salários haviam subido 2,9% em janeiro em relação ao ano anterior. O mercado de trabalho sob pressão da escassez de mão-de-obra estava a obrigar os empregadores a pagar mais.

Isso parecia pressagiar um fortalecimento do poder dos consumidores americanos. Se há mais pessoas com emprego a levarem mais dinheiro para casa, presumivelmente estas pessoas estarão mais inclinadas a comprar casas e carros, gerando assim mais empregos na construção e nas fábricas de automóveis de Michigan até à Carolina do Sul. Eles irão encher os restaurantes, necessitando mais condutores de caminhões para transportar os alimentos e mais mecânicos para manter os caminhões em funcionamento.

Este mesmo chamado ciclo virtuoso parecia estar a ampliar o crescimento global. Mais carros fabricados nos Estados Unidos exigiriam mais travões produzidos no México ou mais circuitos elétricos ou eletrónicos produzidos na China, utilizando o cobre extraído no Chile. Mais construção exigiria equipamentos vindos da Alemanha e do Japão, e mais minério de ferro do Brasil para fabricar aço.

Esta interconectividade tem sido fundamental para a antecipação de que o fortalecimento da economia americana poderia melhor as fortunas por todo o mundo.

Mas o aumento dos salários para os trabalhadores americanos significava outra coisa. Foi um alerta intermitente para os investidores sobre a inflação potencial, ou o aumento dos preços, que paralisaria muitas economias. O Fed, sempre vigilante, possui uma ferramenta padrão para eliminar a inflação: taxas de juros mais elevadas.

É assim que um relatório de emprego positivo, presumivelmente um sinal de um certo fortalecimento da economia americana, acabou por constituir o impulso para a queda das ações desde Taipei até Toronto. Isso aumentou a probabilidade de o FED aumentar as taxas ainda mais rapidamente. Isso levou os investidores a interrogarem-se por quanto tempo é que o Banco Central Europeu poderia manter as suas próprias taxas ultra baixas.

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Depois de um dia difícil em Wall Street que se traduziu por uma venda massiva e global, os mercados de ações nos Estados Unidos ficaram mais discretos na terça-feira. Credit Spencer Platt/Getty Images

No ano passado, a Europa desembaraçou-se das continuadas inquietações de lento declínio para emergir como uma das principais economias que mais está a crescer no mundo. A inflação continua fraca na Europa, reforçando as expectativas de que o Banco Central levará muito tempo a recuperar o dinheiro que massivamente disponibilizou de forma praticamente gratuita.

Mas se o FED levanta as suas taxas mais rapidamente, isso poderia levar a Europa e talvez até o Japão a seguir o exemplo. Caso contrário, os Estados Unidos estarão em condições de capturar uma enorme parcela de investimento global, já que as taxas das obrigações da dívida pública americana provavelmente irão aumentar.

Tudo isso está a acontecer no meio de uma transição na liderança do banco central. No FED, Janet L. Yellen, a economista que foi a presidente do Conselho de Governadores, completou na segunda-feira o seu mandato e entregou o poder ao seu sucessor, Jerome H. Powell. Jerome Powell é amplamente esperado que venha a prosseguir a marcha cautelosa de Janet L. Yellen em direção a taxas de juros mais elevadas. Ainda assim, enquanto recém-chegado que assume o poder no meio de uma extraordinária volatilidade, ele é uma variável.

Mario Draghi, o italiano que dirige o Banco Central Europeu, está a programar completar o seu período de oito anos no final do ano que vem. No Banco do Japão, o mandato de Haruhiko Kuroda como governador expira em abril, e há incerteza sobre se ele será reeleito.

Alguns economistas pensam que o discurso severo é exagerado e que os mercados de ações estão a correr com uma emoção desligada da realidade económica, uma narrativa que ganhou força quando os mercados em Nova York recuaram das profundezas na terça-feira.

Os fundamentais da expansão dos Estados Unidos permanecem intactos. O aumento dos salários deve realmente dar às pessoas dinheiro para gastar sem recorrer a uma nova bolha de crédito que acaba de forma um pouco trágica.

Quaisquer que sejam as taxas de juros, os bancos centrais retêm milhões de milhões de dólares nos seus balanços destinados à compra de ativos financeiros, disponibilizando crédito. E o retorno a taxas de juros mais altas é inevitável, uma mudança saudável para uma economia mundial que pode finalmente fechar os livros sobre a crise financeira global que começou há uma década.

“Nós já nos tínhamos acostumado a este ambiente de taxa de juros baixa “, disse Robert Bergqvist, economista-chefe do SEB, um banco de investimentos global com sede em Estocolmo. “Esta não é a situação normal”.

A expansão económica global tem ocasionado conversas cheias de esperança de que o mundo agora tem vários motores de crescimento, inoculando-o contra problemas em qualquer que seja a região considerada. Mas os acontecimentos dos últimos dias têm desafiado essa noção, uma vez que uma deterioração súbita dos preços das ações em Wall Street rapidamente explodiu numa derrota global.

Os sentimentos são claramente um fenómeno viral. No entanto, o mal-estar nos mercados globais também sublinha o facto de que as fortunas económicas reais estão unidas.

Se a General Electric, a Ford e outras empresas multinacionais veem os preços das suas ações a baixarem à medida que os custos de empréstimos sobem, eles poderiam limitar os seus planos de expansão. A tendência seria sentida na diminuição da procura de circuitos para computadores feitos em Taiwan, televisões de ecrãs planos produzidos na Coreia do Sul e de peças de automóveis construídas na República Tcheca. Poderia arrefecer a procura global em matérias-primas obtidas desde a Argentina até à Índia ou até à África do Sul.

“Os ciclos de negócios em diferentes mercados estão mais correlacionados do que nunca”, disse o Sr. Saroliya, da Oxford Economics. “É a cadeia de oferta global.”

 

Texto disponível em http://gonzaloraffoinfonews.blogspot.pt/2018/02/the-era-of-easy-money-is-ending-and.html

 

Peter S. Goodman é jornalista económico estado-unidense e autor. Trabalhou para o Washington Post, o New York times e o Huffington Post, e atualmente é o editor de International Business Times.

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