Trickle-down, trickle-up, eis a questão. E qual tem sido a opção? Parte II – Introdução (1ª parte), por Júlio Marques Mota

Uma nova série sobre as novas tempestades que se vislumbram já no horizonte

Imagem 2 Trickle-Down CADILLAC

Parte II – Introdução. Um texto que poderia ser uma carta a enviar ao ministro Manuel Heitor sobre o ensino superior em Portugal. (1ª parte)

Por Júlio Marques Mota  JULIO_MOTA

20 de fevereiro de 2018

Meus caros

Há dias atrás chegámos ao fim da série “Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado: uma exposição e uma análise crítica”. Tratou-se de uma série iniciada nos primeiros dias de setembro e terminada agora, em fevereiro. Façam-se as contas. Mais de 5 meses a editar textos sobre a finança, textos estes que seriam um extraordinário suporte para um curso de mestrado em Finanças, se em Portugal houvesse ensino de qualidade. E era muito bom que o senhor ministro, Manuel Heitor, que tutela o ensino superior disso tivesse consciência. Se se tem dúvidas peguem em qualquer dos textos publicados na série e peçam a um qualquer aluno e de uma qualquer faculdade deste país que teça um comentário desenvolvido de duas páginas A4 sobre o referido texto, mas já agora escrito à mão. E não é por acaso que faço assim a sugestão. Verão depois o que sai desse teste.  Sugiro ao senhor Ministro que faça a experiência.

E este teste teria então várias vantagens: dir-nos-ia alguma coisa sobre a maturidade dos nossos alunos, dir-nos-ia alguma coisa sobre a qualidade do que é ensinado, dir-nos-ia alguma coisa alguma coisa sobre o muito pouco que é ensinado, e dir-nos-ia, de tudo isto, o muito pouco que fica retido depois de se ter esquecido quase tudo o que aprendeu, quando se entra no mercado de trabalho.

Garantidamente o senhor Ministro ficará a saber que estes 8 últimos anos foram anos da morte lenta das Universidades com o silêncio de quase toda a gente! A este respeito, isto é, quanto a este tipo de teste que sugiro ao senhor Ministro Manuel Heitor, relembro aqui uma ex-aluna minha, do curso de Economia da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, de nome Mariana, de quem fiquei amigo e que encontrou emprego nos serviços financeiros de uma multinacional alemã. Anos depois, a meu pedido, explicou-me como foi o processo de entrada nessa multinacional, na qual já era diretora financeira quando me relatou o seu processo de candidatura à dita empresa. Depois de uma análise curricular, na altura os curricula ainda valiam alguma coisa mesmo sem serem certificados pela A3ES (Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior) ou até por isso mesmo, por não precisarem de serem creditados, a minha amiga Mariana foi chamada para uma entrevista, entre vários, entrevista esta individualizada. E a entrevista basicamente constou do seguinte: O PDG no extremo de uma longa mesa de reuniões e ela sentada no extremo oposto. O PDG diz-lhe: tem à sua frente um caderno de folhas formato A4.  Pegue na caneta e escreva o que quiser, em inglês. Tem como tempo disponível 15 minutos.

E foi assim que ela entrou e era já diretora financeira quando me relata como foi a sua candidatura.

Isto não é muito diferente da célebre questão que era levantada individualmente aos candidatos que em França concorriam para o Sciences Politiques no final dos anos 80 princípio dos anos 90, penso eu embora fale de memória, a quem era disparada a seguinte pergunta, em forma de redação: fale-nos de um livro de que tenha gostado tanto que considere importante que os seus amigos o leiam.

E este exame de admissão foi uma revolução pedagógica. É uma proposta deste tipo que faço ao senhor Ministro Manuel Heitor. E este teste teria então várias vantagens: dir-nos-ia alguma coisa sobre a maturidade dos nossos alunos, dir-nos-ia alguma coisa sobre a qualidade do que é ensinado, dir-nos-ia alguma coisa alguma coisa sobre o muito pouco que é ensinado, e dir-nos-ia de tudo isto, o muito pouco que fica retido depois de se ter esquecido quase tudo o que se aprendeu, quando se entra no mercado de trabalho. Pois bem, a nossa série sobre a opacidade na finança terminou.

Preparámos uma outra série, a publicar proximamente, sobre textos de Michael Petis da Carnegie Endowment sobre temas de Macroeconomia. Quanto a esta série, que espero poder enviar ao senhor Ministro, sugiro o mesmo teste, mas agora para um qualquer texto da série, para um qualquer aluno e de uma qualquer Faculdade de Economia, seja de licenciatura ou mestrado, proponho que o senhor Ministro faça o mesmo teste: o aluno ou alunos têm 30 a 40 minutos para ler o texto, não inferior a 12 páginas e não superior a 16 pag., têm 20 minutos para escrever o que entenderem sobre o referido texto, mas aqui, em Português. Deixem o inglês para a Universidade Nova, com os diabos!

Já com esta série preparada, somos apanhados de surpresa pela aprovação da lei fiscal de Trump que se liga por inteiro à problemática da economia trickle-down contra a economia trickle-up. Decidi-me pegar no tema e preparar uma nova série, deixando para mais tarde a serie organizada em torno dos  textos de Michael Petis. Enquanto preparava esta nova série verifica-se a semana de pavor de Wall Street em que a partir daí, na semana entre 5 e 9 de fevereiro, quer Wall Street quer as outras grandes bolsas mundiais são profundamente abaladas, tendo como epicentro os produtos tóxicos de Wall Street. Simplesmente aterradora essa semana, pelo que aconteceu, pelo sinal que isto deu do que ainda pode vir a acontecer, e pela ideia que tudo isto nos dá da ignorância daqueles que têm nas suas mãos os comandos da produção e da utilização dos dinheiros, quanto aos mecanismos da economia real. Ora este acontecimento não está ele nem desligado da política de Obama quanto aos mercados financeiros (existiu mesmo uma política de Obama para os mercados financeiros, é uma questão que se levanta) e muito menos está desligado da Administração Trump que quer liberalizar ainda mais os mercados financeiros.

Devido aos acontecimentos ocorridos nas grandes bolsas mundiais a partir de Wall Street, decidimos então que a projetada série sobre a economia trickle-down e trickle‑up fosse dividida em duas partes:

Uma primeira parte sobre a pressão da fiscalidade em aprofundar a economia dita trickle-down contra a economia trickle-up, portanto, um conjunto de textos mais virados para a economia real. Esta primeira parte tem como centro a reforma fiscal de Trump, cuja importância é tal que já está a ser preparada na Alemanha, como uma espécie de cópia da reforma de Trump, uma reforma fiscal sob a égide do SPD e da CDU que aprofunda na Europa a economia tricke-down e isso levar-nos-á a que nos debrucemos sobre as eventuais consequências deste tipo de reformas fiscais sobre os países da periferia da União Europeia, consequências estas que podem ser mesmo dramáticas. Aqui é levantado o papel da Europa na economia globalizada e da concorrência que lhe está a ser feita pela via dos baixos salários e agora também pelos impostos sobre as grandes empresas.

A segunda parte desta série sobre as economias trickle-down e trickle-up será então uma outra viagem ao mundo da finança, da opacidade da finança, neste caso ao mundo de Wall Street, ao mundo dos seus produtos exóticos, ao mundo dos homens que comandam a produção e gestão do dinheiro. Aqui procuramos mostrar quão profunda é a ignorância intencional destes homens, ou a sua maldade e a sua ganância, sobre os mecanismos da economia.  Na linha do que se descreve, a primeira parte desta série pode ser encarada como sendo de textos virados para a economia política, para a economia pública, tanto nos cursos de gestão como de economia, enquanto que a segunda parte é claramente mais virada para a área financeira. Teríamos aqui material que cientificamente poderia constituir uma outra hipótese de teste para os nossos licenciados ou os titulares do grau de mestre que poderia ser proposto ao senhor ministro, cobrindo tanto a área de gestão como da economia [1].

 

(continua)

Nota

[1] Refira-se que enquanto universitário terminei a minha carreira docente com a categoria de professor auxiliar convidado, uma espécie agora em extinção. Trata-se, hoje, de uma categoria de docente que é vista, pelo lado das remunerações, ao mesmo nível da empregada da limpeza e talvez até com menos direitos. Mas exige-se-lhes em termos de aulas efetivamente lecionadas uma carga dupla da que é exigida ao professor auxiliar dito de carreira, exigência que só é feita a estes profissionais pelas autoridades universitárias porque estas, ou não sabem o que é lecionar ou então têm um profundo desprezo pelo corpo docente e pelo corpo discente, igualmente. Impossível lecionar decentemente com esta carga horária. Este é o elevado preço que se paga pela reforma de Bolonha, silenciada por tanta gente e de que é vitima o país e a investigação cientifica que neste se poderia vir a fazer, os docentes, e também os discentes, mesmo que estes últimos não tenham consciência disso. E é preciso que o senhor ministro o saiba.

Curiosamente, hoje, eu seria então banido da vida docente nas   Universidades sob tutela do Ministro Manuel Heitor.

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