CARTA DE BRAGA – De Redes, de Livros, de Botões e com Scott Fitzgerald – por ANTÓNIO OLIVEIRA

 

 

 

Não estou a pensar em sair deste país, tanto mais que a roda da Fortuna teima em não querer responder aos meus investimentos nos balcões da Santa Casa.

De qualquer maneira, tal intenção ainda mais se reforçou quando soube, já lá vai um tempo, que o governo dos Estados Unidos pediu, de forma discreta, que alguns visitantes estrangeiros fornecessem, à chegada ao país, a sua conta no Facebook e as outras redes sociais.

O requisito inclui um menu das várias plataformas, Facebook, Google+, Twitter, Instagram, LinkedIn, YouTube, até mesmo com um espaço para os utilizadores escreverem os seus nomes de conta naquelas redes.

Há muito que intuía que não se pode dizer o que se quer na net, por acreditar que o futuro está dependente da investigação e do poder de quem investiga o que se diz e se escreve nas redes sociais.

Armand Mattelart, o prestigiado sociólogo belga e estudioso do mundo da comunicação, bem conhecido por quem se interessa por estas coisas, afirmou recentemente que o modelo de sociedade que ali se propõe é um modelo de sociedade distópica, uma sociedade em que se propõe mais vigilância, o que leva a cada vez mais controlo social.

Não se coíbe em afirmar que o que nos apresentam como libertação, também inclui formas que limitam libertação e emancipação, por reforçarem o poder e não haver uma cultura crítica da tecnologia.

Ficamos assim reféns da tecnologia porque somos não só dependentes da Rede mas, ao mesmo tempo, prisioneiros da sua evolução. Estamos num mundo tecnológico que avança rapidamente e as instituições reagem mais lentamente, continua Mattelart.

Uma lentidão que arrasta obviamente os usuários, por ignorarem completamente como as coisas se passam, por serem só informados através dos spots publicitários para comprarem as novas aplicações para os seus gadgets!

Creio que não posso deixar de ligar estas considerações às notícias cada vez mais frequentes sobre o fecho de livrarias, algumas gozando de um inegável prestígio pela gente de cultura que as frequentava e que levava muita outra a querer fazê-lo também.

Mas também creio que o desaparecimento das livrarias não levará à consequente a morte do livro, a ver pela quantidade de edições que vêm a público quase em contínuo.

Tal morte poderá resultar sim, da reduzida qualidade de muitas delas, a viver praticamente à sombra de nomes que já cá não estão e, principalmente, pelo abandono de temas que fizeram grandes públicos, literatura, teatro e humanidades, estas até a identificar uma via de ensino!

Hoje dá-se preferência a quem souber carregar em botões, sem se importar muito com a razão por que o faz ou o leva a fazê-lo!

Creio que este “carregar em botões” também pode levar a caminhos que nenhum ser humano quer trilhar! Mas os “carregadores de botões” estão entusiasmados na Síria e apenas a declaração de António Guterres, secretário-geral da ONU, apela a manter moderação nestas perigosas circunstâncias. Oxalá, mas o carregar e a sabedoria de por que o fazer nunca se entenderam! Quanto mais compreender!

E os milhares que morreram e continuam a morrer no Mediterrâneo, ao tentar fugir daquilo tudo e que o ocidente só quer devolver? De compreender também?

Enquanto isto se passa, continuamos rodeados por uma imprensa, rádio e televisão mergulhados em programas inenarráveis e que, às vezes e com receio, me levam a recordar Scott Fitzgerald, no início toma uma bebida, depois a bebida toma outra bebida e, em continuação, a bebida toma-o a si! afirmou um dia aquele espantoso escritor norte americano.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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