SINAIS DE FOGO – FEIRA DO LIVRO SEM NOBEL – por Soares Novais

 

Por estes dias, o Parque Eduardo VII acolhe a 88ª Feira do Livro. Ali, 626 editoras e chancelas acomodam-se em 294 pavilhões e partilham o espaço com “quatro grandes chefs” em “batalhas gastronómicas” ao vivo. Também há concertos, debates e cinema. E, claro, apresentações de livros e sessões de autógrafos. Só não há tempo nem espaço para assinalar que há 20 anos foi o Ano do Nobel de José Saramago.

A 88.ª Feira do Livro de Lisboa, organizada pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) e pela Câmara Municipal,  tem uma programação que é um evidente sinal dos tempos. Isto é, da “Sociedade do Espectáculo”, que Guy Debord tão bem caracterizou na sua mais importante e conhecida obra. Uma “Sociedade do Espectáculo” que espelha “a suprema falsificação da vida.”

Tal qual foi o espectáculo ziguezagueante que foi a sua inauguração. Por culpa de Marcelo que, entre beijinhos, palmadinhas nas costas e as habituais selfies, fez questão de dar “um bacalhau” a todos aqueles que estavam nos 294 pavilhões. (Repetindo, assim, o número que protagonizou quando visitou o portuense Mercado Temporário do Bolhão).

Com a edição entregue a dois grandes grupos, e o fim das livrarias e dos livreiros “a sério”, os livros são hoje mais uma “coisa” que ocupam alguns escassos metros quadrados dos “hipers”. Entre as batatas e os molhos de grelos, a carne picada e a “rabada” do bovino. Destacando-se os que têm capas mais vistosas e os que são escritos pelas meninas e meninos que aparecem nas televisões. Ou por escritores da moda. (Por ser assim, seria desejável e de bom senso que os organizadores da “88” aproveitassem para dar alguma dignidade ao produto que vendem e fizessem mais do que o mostrar num hipermercado a céu aberto…)

Assinalar os 20 anos da atribuição do “Nobel” a Saramago seria uma delas. “As efemérides são uma boa razão para se fazer a evocação – chamar o escritor e a sua obra” disse ao “DN” Carlos Reis responsável pela comissão executiva do congresso internacional que o Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra organiza de 8 a 10 de Outubro próximo e onde é proposto reflectir sobre a obra singular de José Saramago.

A APEL, a Câmara de Lisboa e a Porto Editora esqueceram-se de Saramago, da sua obra e da importância que teve a atribuição do Prémio Nobel de 1998 para Portugal. Fica o registo. Como se regista também o facto do último dia da 88.ª Feira do Livro de Lisboa ficar assinalado com uma sessão de autógrafos de “O homem Que Sou”. É uma escolha. Um “grande final”, que espelha fielmente aquilo que é a mega-festa de “hiper” que decorre no Parque. Mesmo que embrulhada em papel da Contraponto*.

*A verdadeira Contraponto foi fundada por Luiz Pacheco. Escritor maior, irreverente, sarcástico, polemista e libertino. A sua Contraponto deu-nos a conhecer Cesariny, José Cardoso Pires, Raúl Leal, António Maria Lisboa, Vergílio Ferreira, Natália Correia e Herberto Hélder, entre outros notáveis da nossa literatura.

soares novais, jornalista

1 Comment

  1. A Porto Editora não se esqueceu de José Saramago. A Porto Editora tem, na Feira do Livro, um pavilhão exclusivamente dedicado a José Saramago, facto amplamente divulgado, noticiado e já testemuhado pelos milhares de leitores que por lá passaram. Fica o reparo.

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