As duras vidas dos americanos de idade, a viverem uma vida de nómadas. Entrevista a Jessica Bruder. Por Richard Eisenberg

EUA idosos imagem destaque

Getty Images

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Publicado por next avenue em 25 de outubro de 2017

 

Agradecemos a Next Avenue que tão amavelmente deram a sua permissão para republicarmos esta entrevista.

 

Eles vivem em caravanas e andam de um emprego precário para outro emprego precário, sempre com baixos salários [1]

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Credit: Adobe Stock

(Nota do editor Next Avenue: esta história é parte de uma parceria entre Next Avenue e Chasing the Dream: Poverty and Opportunity in America, uma iniciativa de meios de comunicação públicos. Importante financiamento por JPB Foundation e também por Ford Foundation.)

 

No seu novo e poderoso livro, “Nomadland”, a premiada jornalista Jessica Bruder revela-nos “a vida sombria, deprimente e às vezes fisicamente dolorosa de uma tribo de homens e mulheres na casa dos 50 e 60 anos que estão apenas – como diz o subtítulo – “a sobreviver na América no século XXI”. Não são exatamente sem-abrigo, eles são gente “sem casa”, vivendo em autocaravanas de segunda mão, reboques e furgonetas e andando sempre de um lado para outro à procura de apanhar um emprego sazonal de baixos salários, e quando o conseguem obter, com nenhuma ou muita pouca cobertura social.

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Os empregos de gente de maleta na mão que vive em caravanas variam e vão desde a apanha de beterraba sacarina, de venda de hambúrgueres em jogos de pré-temporada de beisebol, aos campos de formação e de trabalho sazonal da Amazon.com os chamados “CamperForce”, empregados sazonais, velhos reformados, que podem andar o equivalente a 15 milhas por dia durante a temporada de Natal, carregando com produtos das prateleiras dos grandes armazéns e, em seguida, voltarem para os frios parques de campismo, onde estacionam os seus veículos, à noite. Vivendo com menos $1000 por mês, em certos casos, alguns não têm sequer água quente. Como Bruder escreve, estas são “pessoas que nunca pensaram que pudessem vir a ser nómadas”. Muitos viram as suas poupanças serem dizimadas durante a Grande Recessão ou foram vítimas de execuções hipotecárias e, escreve Bruder, “sentem que passaram demasiado tempo a perder um jogo manipulado”. Alguns foram despedidos de empregos altamente remunerados. São poucos os que escolheram esta vida. Poucos pensam que encontrarão alguma maneira de sair desta forma de vida. Eles são idosos americanos móveis em declínio vivendo em casas móveis.

Durante os três anos em quer andou a investigar para escrever o livro, em que conduziu centenas de entrevistas e percorreu qualquer coisa como 15.000 milhas, Bruder tentou mesmo viver essa difícil vida nómada; a experiência durou uma semana. Eu recentemente entrevistei Bruder para saber mais sobre a vida das pessoas de Nomadland e que o futuro reserva para essas pessoas:

Next Avenue: Porque é que se interessou em escrever “Nomadland?”

Jessica Bruder: Surgiu na sequência de uma história que eu escrevi para Harper’s [Magazine] em 2014. Eu tinha lido uma história em Mother Jones em que se mencionava uma mulher que trabalhava num armazém que estava a viver numa autocaravana e que afirmava não dispor de recursos para se reformar. Eu apenas “Valha-me Deus!” Chame-me ingénua, mas quando eu olhava para uma autocaravana, pensava logo que é propriedade de um dos últimos dos grandes pensionistas a desfrutarem de uma reforma e que andam a visitar os parques nacionais. Eu considerava isso como uma vida de luxo e como uma bela escolha de reformados. Afinal, eles até chamam a estas viaturas, “viaturas de recreio.”

jessica bruder

Jessica Bruder

Comecei a fazer alguma investigação e aprendi que havia um largo espectro de milhares de empregadores a contratarem pessoas em situações semelhantes — em campos petrolíferos, a apanharem beterraba sacarina e a trabalharem em parques de diversões. Estes não são trabalhos fáceis nem o tipo de trabalho que seja associado tipicamente para pessoas de idade mais avançada. Mas ninguém olhava para este tipo de situações no contexto da crise dos reformados e na sequência da Grande Recessão. E muitos dos materiais de recrutamento para este tipo de trabalhos faziam-nos parecer acampamentos de Verão. A alguns a trabalharem para CamperForce Amazon ter-lhes-ão dito que se aceitassem vir trabalhar em CamperForce teriam oportunidade de fazer amigos. Isto pareceu-me tão estranho que comecei então a falar com moradores de autocaravanas fora dos armazéns Amazon em Nevada e no Kansas. Alguns perderam as suas economias; alguns pensaram que se aposentariam na base do valor das suas casas mas o valor das suas casas caiu dramaticamente enquanto o custo das habitações tradicionais continuava a subir. Muitos deles viviam do pão para a boca; era-lhes muito difícil economizarem fosse o que fosse para os dias de amanhã.

Que mais nos pode dizer sobre as pessoas que conheceu em Nomadland?

As pessoas que eu conheci na estrada eram tão criativas e resilientes que eu passei o tempo a aprender com eles. Segui-los foi a oportunidade mais emocionante que já tive até hoje.

Porque acha que tantas pessoas já idosas estão a viver e a trabalhar desta maneira?

Penso que foi a muito má situação económica. Nos anos da década de 1980 nós assistimos a uma mudança de pensões para o regime 401 (k) [n.t. plano de aposentação patrocinado pelo empregador, cujo nome deriva da secção do código fiscal norte-americano em que está previsto]; isso foi um golpe muito duro e injusto para os trabalhadores. Estes planos de reforma foram comercializados como um instrumento de liberdade financeira, mas eles estavam simplesmente a transferir o risco do ombro dos empregadores para as costas dos trabalhadores.

Conheci muitas mulheres idosas nestes tempos. A diferença salarial de género significou que as mulheres têm salários inferiores aos dos homens; elas passam mais tempo fora do mercado de trabalho fazendo trabalhos não remunerados, criando os seus filhos ou cuidando dos seus pais.

Tem alguma ideia sobre se o número de pessoas em Nomadland estão a aumentar e porquê?

Pontualmente. CamperForce Amazon diz que está a ficar com cada vez mais candidaturas. E quando eu rastreio grupos constituídos por estas pessoas no Facebook, elas estão todas a explodir. Provavelmente há dezenas de milhares de pessoas em Nomadland, e isso é estarmos a dar um número conservador.

Porque é que os nómadas vivem assim?

Oh, céus. Vivemos no quadro de uma cultura onde se o seu número não apareceu, é porque é uma má pessoa, é porque é preguiçoso, deveria ter vergonha de si mesmo. Isto arrasa as pessoas, destrói-as, e torna-as mais facilmente exploráveis.

Quais são os desafios que enfrentam?

Conversei com um casal, Barb e Chuck. Ele foi chefe de desenvolvimento de produtos na McDonald’s antes de passar à reforma. Ele perdeu o pé-de-meia no colapso de 2008 e a Barb também. Uma vez, Barb e Chuck estavam de pé no posto de gasolina para obter $175 de gás e o horror bateu-lhes bem à porta quando viram que a sua conta tinha apenas $6 dólares. O senhor do posto de gasolina disse: “Dê-me o seu nome e a carteira de motorista e se me passar um cheque eu vou esperar até que me diga que o posso descontar”. Ele esperou duas semanas inteiras antes de o levantar.

Estes trabalhos podem ser difíceis fisicamente, é verdade?

Conheço alguém com uns 70 anos que andou 15 milhas num piso de cimento do armazém, às vezes durante 10 horas. Os pés podem ficar muito doridos, pode-se ficar em situação de stress repetidamente, pode-se ficar com uma lesão e com violentas dores nos tendões. Os nómadas falaram comigo sobre como mergulhar os seus pés em banhos de sal à noite e estar muito cansado para poder sair. Quando estive na apanha da beterraba, eram 12 horas por dia ao frio, a cavar. Oh meu Deus, como o meu corpo me doía! E eu tinha 37 anos!

Fale-me sobre o programa CamperForce da Amazon, que contrata milhares de nómadas.

Começou em 2008, alguns meses depois do colapso do imobiliário. Amazon estabelece um contrato com um parque de autocaravanas e paga ao CamperForce para fazer o trabalho de armazém de carga, a embalagem e a execução de pedidos. Olhando de fora para dentro seríamos levados a dizer: “Porque é que se quer pessoas mais velhas a fazerem isso? Trata-se de tarefas que parecem mais adequados para corpos mais jovens”. Mas tantas vezes, os recrutadores nos materiais publicitados falam sobre a ética de trabalho dos trabalhadores mais velhos, da sua maturidade e da sua “experiência de vida”, que é uma palavra de código para ‘Ei, você é velho.’

 

Este vídeo – “Quando se trata de reforma, os 60 anos são os novos 50 de agora” – acompanha o texto da entrevista que foi republicado por MarketWatch em 19 de maio de 2018.

 

Você escreve que às vezes os nómadas são explorados. Como?

Eu preenchi um pedido de liberdade de informação ao Serviço Florestal e aprendi que alguns dos seus trabalhadores não estão a ser pagos por todas as suas horas de trabalho. Eles não tinham o direto de faturar.

Alguns dos nómadas tiveram que trabalhar ao lado de robôs, tal como nos armazéns da Amazon. Como foi isso?

Os robôs estavam a enlouquecê-los. Isto é um trabalho solitário, de gente isolada no seu trabalho e há uma cena no livro onde um robô continuava a trazer coisas para uma mulher de uns 70 anos, a mesma coisa para contar.

O que é necessário mudar para evitar que as pessoas tenham de se tornar nómadas ou para as ajudar a viver melhor do que elas vivem?

Para começar, Amazon devia pagar mais aos seus trabalhadores e dar-lhes melhores condições de trabalho. É ridículo que os trabalhadores tenham uma pausa de 15 minutos, em que grande parte desse tempo é gasto em ir e voltar a pé, para e da sala de repouso para o posto de trabalho. É pura e simplesmente de loucos.

Os nómadas precisam de uma voz, mas ao mesmo tempo, é extremamente improvável que eles se possam organizar para reivindicar melhores condições de trabalho, porque eles são altamente vulneráveis e andam sempre de um lado para outro.

 

Texto original https://www.nextavenue.org/older-americans-nomadland/

Republicado em https://www.marketwatch.com/story/many-older-americans-are-living-a-desperate-nomadic-life-2017-11-06

richard eisenberg Richard Eisenberg é editor senior de Money & Security and Work & Purpose channels em Next Avenue e editor-chefe da página Next Avenue. É autor de “How to Avoid a Mid-Life Financial Crisis” e foi a editor de finanças pessoais em Money, Yahoo, Good Housekeeping, e CBS MoneyWatch.@richeis315

 

[1]  Nota de Tradutor. Sugerimos ao leitor que veja o artigo CamperForce, A Sobering Film About Amazon’s Recruiting of Retired RV’ers for Seasonal Positions,  e veja igualmente o extraordinário filme documentário sobre Amazon neste mesmo sitio inserido e cujo endereço é: https://laughingsquid.com/camperforce-documentary/

 

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