MAIO 68 – BREVES (2) – por JOÃO MARQUES

 

Talvez o mais importante deste período tenha consistido na construção de saberes, na interpretação da factualidade quotidiana, na intervenção direta dos intelectuais, no cinema, na edição de publicações inovadoras e na descoberta de uma produção crítica, caso de “Socialisme ou Barbarie”, onde surgem nomes como Paul Cardan, Edgar Morin, Castoriadis, Claude Lefort, ”Les Temps Modernes” de Sartre e Simone Beauvoir e que dizer de Margarite Duras, Maurice Blanchot, Michel Leiris, Paul Nougé, Pierre Bourdieu, Lévi-Strauss e tantos outros que gostaria de evocar. Que dizer da “Tel Quel”, fundada em 1960 por Philippe Sollers e Jean-Edern Hallier e da cisão que conduziu ao aparecimento de “Change” (1967) e da “Internationale Situationniste” (IS, 1958/69), dirigida por Guy Debord, o autor do livro que o celebrizou (A Sociedade do Espectáculo) ou o ensaio de Raoul Vaneigem (Tratado de saber-viver para uso das jovens gerações), ambos de 1967 e com um impacto inquestionável.

No campo da ação política propriamente dita, a confusão era total entre maoistas, as duas principais correntes se reclamando de Trotsky, libertários e anarquistas, comunistas filiados no partido, socialistas fraturados na sua ala esquerda (PSU), uma direita que se manteve estável, uma direita apoiando Charles de Gaulle, tendo na sua extremidade e agindo quase sempre com violência, os defensores da Argélia francesa.

No campo das artes, o surrealismo sofre transformações e narrativas diversas, que se previam desde a criação do movimento COBRA (1949/51), acrónimo de Copenhaga, Bruxelas e Amsterdão, onde encontramos poetas e pintores como Dotremont, Noiret, Apple, Constant e, sobretudo o pintor e autor dinamarquês Asger Jorn, já ligado à criação da IS e fundador de uma das melhores revistas literárias que conheci (Les Lèvres Nues, 1954), que esta semana reli.

Resta-nos uma questão de fundo e primordial: os maios 68 serviram para redefinir a nossa individualidade, reforçando o nosso “ego” em detrimento do reconhecimento da existência do “outro”, na criação do indivíduo-rei, que tende a aniquilar a cidadania, menosprezando as organizações sociais, abrindo, assim, caminho ao neoliberalismo brutal com que hoje somos confrontados, num mercado sobrenatural permitindo uma exploração desenfreada do planeta e numa desigualdade que nos faz recuar um século, com uma violência geopolítica incontrolável, violência que se insinua na intimidade das relações amorosas (!) entre pessoas, jovens e menos jovens.

Prefiro optar por outros níveis de explicação e, estando em Coimbra, basta-me recordar o que me fez intervir na crise académica de 69, na qualidade de representante da Faculdade de Ciências desta Universidade, em que senti que o meu “eu” estava ao serviço das legítimas aspirações da maioria dos estudantes. Tal postura foi por mim constatada posteriormente, tanto na Bélgica, como em França, junto de tantos outros colegas.

Sem fazer cortes históricos imberbes, não tenho dúvidas de que, no início dos anos oitenta, se inicia o aprofundamento de uma sociedade dualista com o progressivo sucesso de uma economia sujeita à depravação financeira, ao culto absoluto da imagem e das suas consequências – o meu “eu” tem de prevalecer em quaisquer circunstâncias, pelo que a solidariedade, o respeito por si e pelo outro(a), tudo o que pode representar uma certa coesão social pode bem ir para o lixo, de que não iremos naturalmente ter imagens.

Hannah Arendt questionou-se, numa das cartas que escreveu ao filósofo Karl Jaspers, em finais de Junho: “parece-me que os jovens do século XXI entenderão, um dia, o ano de 1968, como nós apreendemos o de 1848”, relembra o escritor Boris Gobille no seu último livro sobre maio 68 (Paris, 2018).

Bem gostaria que as novas gerações me surpreendessem.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. Carlos A.P,M.Leça da Veiga

    Suspeito que já não irão a tempo. A decadência do chamado ocidente está a ir tão longe e com tanta velocidade que pouco pode esperar-se dessas nova gerações. A relativização em curso permite avaliar quanto sentiram os romanos ao sentir o seu desabar.CLV

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