A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal. Carta aberta aos senhores Ministros da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, e da Economia, Caldeira Cabral – 1. Reflexão sobre as Universidades em geral e sobre o ensino de economia em particular (2ª parte). Por Júlio Marques Mota

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Carta aberta aos senhores Ministros da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, e da Economia, Caldeira Cabral

Um texto dedicado aos meus antigos alunos que tanto massacrei com fórmulas e gráficos ao longo de décadas, a todos os outros os que se interessem pelo ensino de Economia em Portugal.

 

1. Reflexão sobre as Universidades em geral e sobre o ensino de economia em particular (2ª parte).

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Por Júlio Marques Mota julio-marques-mota

em 18 de janeiro de 2018

Vem tudo isto a propósito de uma nova série de textos sobre temas da atualidade ou para ela diretamente transpostos que vamos publicar, e que tem como título A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal e como subtítulo Sobre o que possivelmente não se ensina de economia em nenhuma Universidade em Portugal, apesar da crise.

A coletânea de textos selecionados, são na sua maioria textos de Michael Petis, a que se adicionam dois outros por lhes estarem estreitamente ligados, um texto de Heiner Flassbeck e um outro de Wilheim Lautenbach (1931). Esta série surge quando nos lembrámos de que há mais de um ano que não recebia nenhum email de Michael Pettis a enviar-me um dos seus textos de Financial Markets ou alternativamente de um sítio de assinatura paga caso em que não poderia publicá-los no blog A Viagem dos Argonautas. Resolvemos então pesquisar na Internet e deparámo-nos com uma série de textos recentes de Michael Pettis e com uma sua explicação quanto ao seu blog ficar abrigado em Carnegie Endowment. O seu sítio na China teve graves problemas, por isso se aloja no sítio de Carnegie.

Vejamos o que ele escreveu sobre o seu blog na China, em fevereiro de 2017:

Nota: Numa entrada de blog há dois meses, eu escrevi que por causa de uma gestão bastante pobre do meu blog, alguns textos parecem ter desaparecido. Felizmente para mim, vários outros sites reproduzem muitos dos meus textos pelo que tive que olhar para eles e lembrar-me dos títulos e, assim, tenho sido capaz de os encontrar em geral.  De vez em quando, se eu acho que eles ainda podem ser úteis, vou voltar a publicá-los aqui no site Carnegie com um pouco mais de cuidados editoriais para se corrigirem erros de digitação, esclarecer um pouco mais alguns pontos e adicionar ligações com outros textos. A primeira entrada de blog para receber este tratamento foi colocada em 28 de fevereiro de 2017”.

Estando no site de Carnegie Endowment vimos o texto sobre o conselheiro económico de Trump intitulado Estará Peter Navarro errado sobre o comércio internacional? e traduzimo-lo para publicação em A Viagem dos Argonautas.

A importância deste texto de Michael Pettis, que toma como objeto a política delineada pelo conselheiro chefe de Trump para os assuntos económicos, Peter Navarro, levou-me a ler todos os outros textos de Pettis que ainda não conhecia e publicados desde há cerca de dois anos. Uma leitura que me entusiasmou e de tal modo que me senti obrigado a produzir esta série e, no fundo, por duas ordens de razão, uma de ordem geral, outra de ordem mais pessoal, mas ligada também ela aos temas tratados na série.

Quanto à primeira razão:

– Trata-se de material que penso não está a ser ensinado em qualquer Universidade em Portugal ou mesmo em qualquer Universidade na Europa ao nível da licenciatura ou mesmo de mestrado, não só enquanto textos, mas sobretudo enquanto temáticas, enquanto método de análise. Não o creio. Aliás Flassbeck, num raciocínio análogo diz-nos que se perguntarmos a um estudante saído agora de uma Universidade alemã quem foi Lautenbach ou Stutzel dirão que desconhecem. Mais precisamente diz-nos este autor alemão:

Hoje dificilmente se encontra um diplomado de uma universidade na Alemanha que conheça os nomes de Lautenbach e Stützel ou que deles tenha ouvido falar e que esteja a par do papel central em toda a macroeconomia desempenhado pela relação entre poupança e investimento.”

Lá, na Alemanha, como cá, em Portugal ou algures, na Europa, tudo igual. Ora com Michael Petis aconteceria a mesma coisa: dir-nos-iam que se trata, no melhor dos casos, de um ilustre desconhecido. Mas hoje poderíamos dizer o mesmo de Joan Robinson, de Harrod, de Domar, de Kalecky, de Sraffa, tudo gente que foi varrida do ensino nas Universidades e dos manuais neles utilizados pelos ventos do neoliberalismo. Em Portugal, veja-se, por exemplo, o programa da Universidade Nova de Lisboa, a faculdade da elite lisboeta, ao nível da licenciatura em Economia e mesmo de mestrado, veja-se aí o peso que os autores citados têm nos seus programas. ou mesmo o tipo de questões que este autores abordaram. Possivelmente nada.

Da vaga de neoliberalismo e dos mecanismos postos em prática com que se que assaltou o ensino superior desde há alguns anos e da política da União Europeia poderíamos dizer, sem exagerar, que nos deixaram teoricamente o vazio, o discurso económico de um mundo irreal. E o resto é puro exoterismo envolto em matemática.

Ao ler os textos de Michael Pettis perguntamo-nos se muito do que tem acontecido desde 2010 não será devido às políticas erradas praticadas desde então, sobretudo às políticas impostas mas sempre suportadas por ministros das finanças, por muitos economistas de renome pertencentes a diversos think tanks, por economistas das grandes organizações como a OCDE, FMI. BCE e por muitas outras. Tendo estas políticas sido suportadas por análises sem fim feitas por economistas que tomam como base ou estão assentes em economias irreais, em modelos irreais, em hipóteses não menos irreais, que deram os multiplicadores da despesa negativos ou entre zero e 0,5, é a eles que Michael Pettis aponta o dedo acusador. Na coleção de textos agora reunidos são inúmeras as referências à incompetência dos economistas que tem estado na base das políticas seguidas. Di-lo delicadamente Michael Pettis, mas com toda a franqueza. Simplesmente quanto a estes economistas referidos como importantes em termos de capacidade para influenciar as decisões e como ignorantes em termos de conhecimentos dos mecanismos reais da economia, temos dois tipos: os economistas sérios e os economistas não sérios. Estes últimos, são homens gananciosos, dispostos a tudo desde que coloquem as suas contas bancárias bem abrigadas, bem recheadas. Quanto a estes pouco há a dizer a não ser que se trata de gente que quer rapidamente subir alto na vida ou para aí se manter, vendendo para isso a sua alma a quem mais der. Entre muitos episódios, basta ver o caso Espírito Santo. Sobre estes não vale a pena gastar mais latim. Quanto ao primeiro grupo, de gente séria mas ignorando por completo os mecanismos efetivos da economia devido ao enviesamento ideológico da sua formação de base enquanto jovens e por deformação de ensino que tiveram e do ensino que fazem ou fizeram, podemos dividi-los em dois grupos:

– aqueles que se aperceberam a seguir dos erros de política económica e social que estava a ser imposta a povos indefesos, e mudaram de posição, passando a fazer parte do grupo dos que contestam as políticas de austeridade. Neste caso, do meu ponto de vista, um dos casos mais exemplares e de louvar, é a postura intelectual de Adair Turner, Presidente de Autoridade para os mercados financeiros, na Inglaterra. O mesmo se pode dizer também dos economistas chefes de Finance Watch, hoje relevantes críticos do sistema financeiro e sem podermos deixar de referir um outro exemplo de referência mundial: Martin Wolf, à frente do Financial Times.

Não me parece excessivo poder colocar neste grupo nomes como Erkki Liikanen, governador do Banco central da Finlândia, Presidente da Comissão ad hoc e autor do relatório Erkki Liikanen que franceses, alemães e italianos contornaram com as suas reformas dos respetivos sistemas financeiros, como Micher Banier, ex-Comissário europeu para o mercado interno, John Vickers, responsável principal pelo relatório The Independent Commission on Banking, Final Report Recommendations que objetivamente constituiu o projeto oficial de reforma do sistema bancário na Europa mais avançado mas que, chegada a data da sua aplicação, dele restará, talvez, apenas a sua sombra;

– aqueles que igualmente ignorantes quanto aos mecanismos descritos tão rigorosa e magistralmente explicados por Michael Pettis nesta série de textos, que se aperceberam de que as políticas por eles preconizadas estavam erradas mas que se submeteram à logica das instituições que dirigiam, lógica esta que passaram a defender. Diria que estes por uma razão de prestígio e/ou de cargos ocupados, se recusaram, depois da crise rebentar, a assumir o erro das politicas aconselhadas, e daí provém todo o delírio em termos de economia com o qual se justificaram as medidas até agora utilizadas, o que também se pode traduzir, finalmente, por comportamentos de má-fé perante as devastações sociais e económicas constatadas. Neste grupo, colocaria Vitor Constâncio, a partir do seu discurso na Grécia onde arrasava a construção europeia mas defendia que se devia continuar no mesmo rumo para não se perderem os resultados já alcançados (isto dito em Atenas!), Olivier Blanchard, ex-economista chefe do FMI, o homem do engano dos multiplicadores de baixo valor a justificar “cientificamente” as políticas de austeridade e que disso pede desculpa ao mundo, mas afirmando ao mesmo tempo que as coisas poderiam continuar como estavam pois havia muitas mais variáveis em jogo que as utilizadas pelos multiplicadores (estou a sintetizar), o nosso Vítor Gaspar, bem recompensado indo para o FMI ou o nosso super-ministro Álvaro Santos Pereira, contra quem os trabalhadores na Covilhã se atravessaram empunhado bandeiras negras. E bem premiado foi, tendo ido para um grupo de pressão que dá pelo nome de OCDE. Quanto a Mário Draghi, este é o homem que se diz fazer tudo o possível para salvar o euro, mas matando-o lentamente uma vez que esteve sempre disposto a socorrer as economias em dificuldade desde que aceitassem a Condicionalidade imposta pelos Memoranduns de Entendimento impostos, seja explicitamente como é o caso de Portugal, Irlanda, Grécia de Tsipras pós Setembro de 2015, seja implicitamente como é o caso da França de Hollande e Macron, da Itália de Renzi e da Espanha de Rajoy, tanto podendo fazer parte deste grupo como daqueles que nunca tiveram nenhuma boa intenção, senão servir-se a si e aos seus, a acreditar nas interpelações que foram feitas no Senado Italiano pelo senador Elio Lannuti, presidente da ADUSBEF, ao ministro das Finanças exatamente sobre a moral, ou ausência dela, do político e financeiro Mario Draghi.

Por fim, há também um pequeno grupo de elite, como Schauble, Jens Weidmann Ohli Rehn, gente que defende o que defende não digo por ignorância mas por uma noção de punição, de punição. Crime e Castigo dos tempos modernos, poderíamos nós dizer, defendendo o que defenderam na base da sua argumentação (é um espanto  a entrevista de Weidmann dada ao New York Times) como uma ação deliberada para que as economias funcionassem ao serviço das classes dominantes, e para isso aproveitam o imaginário coletivo das cigarras e das formigas. Premeiem-se as formigas (os nórdicos) punam -se as cigarras, os países do Sul. Curiosamente é com prazer que se leem na série de textos as referências de Pettis sobre as cigarras e as formigas. Exemplar, a argumentação de Petis.

Um excerto do seu livro The Great Rebalancing: Trade, Conflict, and the Perilous Road Ahead for the World Economy, edição de Princeton University Press, mostra-nos à evidência o campo de análise de Michael Pettis. Desse livro, um pequeno excerto:

Mesmo numa economia global bem gerida, com poucas distorções e sistemas financeiros flexíveis, é provável que haja sempre países com excedentes da sua balança corrente e com défices, na verdade, vale a pena repetir que os excedentes e os défices persistentes e muito grandes são quase sempre o resultado de políticas distorcidas num ou mais países.

Há muitas maneiras pelas quais essas distorções podem ocorrer. É fácil pensar nas tarifas comerciais e na manipulação monetária como formas de intervenções comerciais, mas argumento nos capítulos 2 e 3 do livro que, embora certamente provoquem distorções no comércio, não o fazem pelas razões que geralmente presumimos. O seu impacto no comércio não é gerado diretamente através de alterações de preços relativos, mas sim indiretamente, alterando a relação entre o consumo e o PIB.

Ao entender como e porque é que realmente se provocam distorções comerciais, podemos entender mais genericamente como uma série de políticas industriais, fiscais e financeiras que parecem não relacionados com o comércio pode, de facto, causar significativas distorções comerciais. Veremos também como essas distorções têm a sua contraparte na fragilidade das contas nacionais que se constroem em torno dessas distorções.

A segunda grande área de confusão e de pensamento baralhado tem a ver com a relação entre a balança comercial, a taxa de poupança e os fluxos de capitais internacionais. Estas três componentes estão ligadas, é claro, mas a forma como eles estão ligados é mais complexa e subtil do que a maioria dos analistas reconhecem. As políticas que afetam os saldos das balanças comerciais geralmente fazem-no, afetando as taxas de poupança e de investimento, tanto internamente como no exterior, e as mudanças nas taxas de poupança e de investimento afetam automaticamente os fluxos de capitais.

É importante compreender essas relações, a fim de compreender como as políticas praticadas num país podem forçar mudanças correspondentes num outro país, e é importante entender que a taxa de poupança não é uma variável independente que pode ser alterada à vontade, ou com certas exortações moralistas [o autor refere-se à distinção moralista entre países formigas e países cigarras]. Se é esta que taxa deve ser alterada de forma ordenada e correta, isso pode ser feito através de mudanças nas políticas subjacentes, tanto internamente como no exterior e que levaram a taxas de poupança excessivamente elevadas ou baixas em diferentes países. Caso contrário, a taxa de poupança vai finalmente ajustar-se de qualquer maneira, mas vai fazê-lo de uma forma desordenada, com ruturas abruptas para o comércio internacional.

 

(continua)

 

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