Da crise atual à próxima crise, sinais de alarme – A falta de reforma da Europa, e não a Itália, será o que fará rebentar a zona euro. Por Wolfgang Münchau

pobresericos

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

A falta de reforma da Europa, e não a Itália, será o que fará rebentar a zona euro

wolfgang-munchauPor Wolfgang Münchau em 3 de junho de 2018

Republicado por Gonzalo Raffo Infonews

8 A falta de reforma da Europa, e não a Itália 1

Giuseppe Conte,primeiro-ministro de Itália, deverá apresentar uma posição forte no Conselho europeu deste mêsd no debate sobre a governança da zona euro © Reuters

 

Parem de tratar o euro como um assunto de fé e lutem pela sua sustentabilidade

É lamentável que tantos europeus tratem a integração europeia como um acto de fé. O debate sobre o Brexit coloca os verdadeiros crentes eurófilos contra os ateus céticos, e é por isso que estamos a falar sobre as duas proposições igualmente absurdas: um segundo referendo e um Brexit duro.

Os italianos tratam a questão da sua adesão ao euro de forma semelhante. Você ou pertence a este campo ou pertence àquele. Se você está, como eu, em algum lugar no meio, as pessoas sentem-se confusas. Acredito ser razoável que um país em dificuldades, como a Itália, permaneça na zona do euro enquanto houver a menor esperança de que a relação seja sustentável.

Foi o pró-europeísmo incondicional dos anteriores líderes italianos que deu origem ao atual retrocesso nacionalista. Os governos anteriores aceitaram a legislação europeia que era profundamente contra os interesses italianos.

Houve a regra para considerar as contribuições da Itália para o Mecanismo Europeu de Estabilidade, o guarda-chuva de resgate do bloco, tão relevantes como o cálculo do déficit máximo permitido. Depois, a aceitação de uma lei de resolução bancária que deixaria desprotegidos milhares de aforradores italianos. E o pior de tudo, o acordo em 2012 para aceitar o pacto fiscal, que efetivamente exige que a Itália estabeleça orçamentos equilibrados. Se os antigos primeiros-ministros tivessem sido mais implacáveis, a reação antieuropeia seria mais branda.

Considero igualmente tolo que o Movimento Cinco Estrelas e a Liga tenham levantado a questão de um confronto total com a UE da maneira como o fizeram. A ideia de pedir ao Banco Central Europeu que anulasse a dívida italiana comprada como parte do programa de flexibilização quantitativa era louca. A ideia apareceu num primeiro rascunho do acordo de coligação e mais tarde foi abandonada. É um absurdo em muitos níveis. Para começar, a maior parte da dívida italiana é detida pelo Banco da Itália, e não pelo BCE. Se eles querem acabar com a zona euro, têm que ser mais espertos.

O meu primeiro conselho é que abandonem o unilateralismo e adotem uma visão transacional – estabelecendo condições que permitam à Itália permanecer e prosperar na zona euro.

Como primeira prioridade, Giuseppe Conte, o primeiro-ministro da Itália, deve apresentar uma posição forte no Conselho Europeu deste mês no debate sobre a governança da zona euro. Angela Merkel rejeitou praticamente todas as partes substantivas das reformas propostas por Emmanuel Macron. Conte deveria considerar apoiar o presidente francês para impressionar na chanceler alemã os custos exorbitantes de um “não” alemão. Pedro Sánchez, o líder do partido socialista que foi empossado no sábado como primeiro-ministro da Espanha, pode ajudar a fortalecer essa aliança.

O Sr. Conte deve salientar que uma área do euro não reformada tem poucas hipóteses de sobrevivência. Até agora, o melhor argumento para a Itália permanecer no euro é esperar que a zona do euro acabe por ser reformada. Se sabemos com certeza que isso não vai acontecer, o argumento muda. Não é a política italiana que mata o euro, mas sim a falta de reformas na zona euro e o enorme excedente em conta corrente da Alemanha.

A melhor maneira de enfrentar a política da zona euro é de dentro. A Itália poderia usar o seu peso nas próximas nomeações dos cargos mais importantes da UE: os presidentes da Comissão Europeia, do Conselho Europeu e do BCE. Existem acordos e soluções de compromisso a serem feitas. Não fale de uma saída unilateral até que tudo o mais tenha falhado.

Em segundo lugar, o impulso fiscal keynesiano esboçado pelo governo de coligação da Itália é bem intencionado, mas grande demais. Devem suavizá-lo e acompanhá-lo por uma política fiscal levemente expansionista, com algumas reformas estruturais direcionadas, ao setor bancário, ao sistema judicial e à administração pública.

Em terceiro lugar, não há nada de errado com um genuíno plano B, uma lista de medidas a implementar se uma crise tornar insustentável a continuação da adesão à zona euro. Eu ficaria surpreendido que o governo anterior não tivesse um tal plano no fundo de uma gaveta. Mas o plano A deve resistir: criar uma situação que levaria inexoravelmente à saída da zona do euro. Foram suspeitas de um tal plano que persuadiu Sergio Mattarella, o presidente italiano, a vetar Paolo Savona como ministro da Fazenda.

E, finalmente, nem pense em pedir ao eleitorado que vote sobre a adesão da Itália ao euro. Isso seria contraproducente para qualquer político que ousasse fazer as perguntas. Saída da zona euro é um acidente para o qual há que estar preparado, não um resultado a procurar. Eu duvido que um governo italiano sobrevivesse.

Quanto ao resto de nós, devemos parar de tratar este novo governo como um choque inesperado. O governo populista é a consequência lógica de 20 anos de má administração económica pelos partidos de centro-esquerda e centro-direita da Itália. Isso é o que causou a bagunça.

Se você é realmente pró-euro, o meu conselho é parar de tratar o euro como um assunto de fé, mas lutar por sua sustentabilidade. Essa luta não pode ser vencida apenas na Itália. Requer grandes mudanças políticas em Bruxelas também.

 

Texto em http://gonzaloraffoinfonews.blogspot.com/2018/06/lack-of-european-reform-not-italy-will.html

 

One comment

  1. Carlos A.P,M.Leça da Veiga

    Afinal, deduz -se, no mais essencial, o IIIºReich tinha razão. O Império Germânico volta a atacar e o Senhor Munchau pede a sua sustentabilidade. A colonização obrada pelos germânicos – doutra coisa não se trata – não é solução para nada e, conforme visto, a Inglaterra, uma vez demonstrada a inviabilidade de UE – um perigo continental – com inteligência , retirou-se. Portugal como nação marítima devia acompanhar os seus aliados ingleses e abandonar a UE.CLV

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