DEMASIADO QUENTE, de JOÃO MARQUES

OBRIGADO AO JOÃO MARQUES E AO DIÁRIO DE COIMBRA

 

Ao longo dos anos, habituei-me a fazer uma leitura seletiva de seis quotidianos europeus dos quatro países em que permaneci mais tempo e é raro surgir uma expressão escrita em português, o que aconteceu no El Pais e logo com uma semântica insubstituível que a nossa memória nunca esquecerá – “Pare, Escute e Olhe”, inscrita nas nossas passagens de nível do caminho-de-ferro.

O jornalista Julio Llamazares, no editorial, sublinha que a expressão é um aviso e interpreta-a como um “conselho para a felicidade”. Aqui, ao relembrar o filme com o mesmo nome do cineasta Jorge Pelicano sobre as atrocidades cometidas na linha ferroviária do Douro, as suas envolventes paisagísticas e o meu conhecimento que tive da região, antes do Vale do Rio Tua, a dois quilómetros e Mirandela e os seus afluentes (Rabaçal/Tuela), serem alvo da construção de uma barragem que tudo destruiu. No referido documentário, há um momento que o celebrizou, quando entre as três personagens principais – o Primeiro-Ministro José Sócrates, Manuel Pinho e o presidente da EDP António Mexia – se ouviu: “está quase, só falta o cimento”.

Já não podendo ir do Pocinho a Barca de Alva e seguir para a Europa, é dela que relevo a sua situação atual que, não sendo nova, é deveras preocupante. Apesar do diferente tempo histórico, recordo sempre as palavras de uma grande figura intelectual, filósofo e poeta, Paul Valéry, quando (1919) escreveu: a Europa virá a ser o que ela já é na realidade, uma pequena extremidade do continente asiático.

Quando os americanos evocam o direito de extraterritorialidade, o que já tinham feito em 1996 com o”Helms-Burton Act” para impedir qualquer transação, comercial ou financeira com Cuba e com o seu sucedâneo “Amato-Kennedy Act”, relativo ao Irão e Líbia, a Europa, então, conseguiu ultrapassar as exigências de Washington, que não têm qualquer sustentabilidade no direito internacional. Hoje, estamos perante a segunda versão do mesmo filme com um silêncio sepulcral de Bruxelas. As mais importantes empresas francesas, da aeronáutica à informática, passando pelas indústrias petrolíferas, com contratos de centenas de milhares de milhões de euros, já anunciaram a sua retirada do Irão, no que foram substituídas por chineses e russos, com as transações abdicando definitivamente do dólar ou do euro, antes preteridas pelas moedas dos intervenientes.

Nos múltiplos contactos que ainda mantenho com pessoas oriundas de países que estiveram na base de uma visão integrada e transnacional da Europa, sinto que a atual crise ultrapassa os demónios da austeridade para os economicamente mais débeis ou na recusa de alguns países em cancelarem a passagem/receção de migrantes. Não menos visível é a decomposição política interna que ocorre na dupla histórica europeia – Alemanha /França – que, mais tarde ou mais cedo, terão de passar por novas eleições, na impossibilidade de encontrar parcerias políticas, enquanto se reforçam, da Itália ao Báltico, correntes neofascistas.

Já que os políticos europeus se mostram displicentes, nestas e noutras matérias, não será por acaso que uma das principais publicações científicas europeias – Revista Francesa de Ciências Sociais – lidera um seminário a decorrer em Paris, no final de setembro, com temas que vão procurar esclarecer algumas questões de fundo: será lógico falar de uma realidade social europeia / como pensar o sentimento europeu, da literatura às ciências transdisciplinares / o que fazer para que uma consciência europeia não se restrinja a comunidades intelectuais ou aos habituais clientes financeiros.

Como o tema foi evacuado dos media, quero aqui relembrar que há cinco anos (14/16 agosto), na Praça Rabia-El-Adaouїa, em plena capital egípcia, foram massacrados 850 manifestantes por comandos militares, defendendo um presidente democraticamente eleito (Morsi), apoiado pelo Catar e a Irmandade Muçulmana. Agora, com o Marechal Sissi, cujo poder foi consolidado por sauditas e americanos, está “tudo calmo”.

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. Carlos A.P,M.Leça da Veiga

    Nesta “pequena extremidade do continente asiático”, tantos têm sido os “equilíbrios estratégicos” que só resta voltar a discutir-se “o sexo dos anjos”.CLV

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: