
Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares
Contagem Decrescente Final: Mudar a UE agora – ou nunca
Por Heiner Flassbeck
Publicado por
em 3 de julho de 2018
O ministro francês das Finanças Bruno Le Maire deu uma entrevista ao Financial Times onde afirmou claramente que, dada a diferença de competitividade entre a Alemanha e os outros países da União Económica e Monetária (UEM), é “impossível continuar” e que para a França a introdução do orçamento da zona euro “não é negociável”. Sublinhou também considera o acordo com a chanceler em Meseberg como um “progresso” e critica fortemente aqueles países que se lhe opõem.
Esta é uma mensagem muito mais forte do que as que a França emitiu no passado. É quase como se Macron e o seu governo, após um criticismo inicial sobre a Itália, tivessem compreendido que a Itália, com a sua oposição à ortodoxia orçamental, é um importante parceiro nas cartas que se jogam estes dias na agenda da Europa. Isto poderia conduzir à contagem decrescente final, mostrando se a UE e a UEM serão de todo capazes de corrigir os erros feitos no passado.
Os tratados devem (podem) ser alterados
Se há frase que descreve apropriadamente a situação crítica na Europa, é o refrão que ouvimos repetidamente: os tratados europeus não poderão nunca ser alterados, porque nunca conseguiremos chegar novamente a um consenso entre todos os estados. Se for esse o caso, então a Europa está morta de qualquer forma, porque leis que não possam ser adaptadas a novas circunstâncias são um intolerável colete-de-forças no longo prazo.
Adicionalmente: na Alemanha, uma série de advogados constitucionalistas estão mais uma vez a preparar-se – incitados por quase todos os economistas alemães ortodoxos e financiados pelos nacionalistas ricos – nada mais tendo em mente senão, com a ajuda do Tribunal Constitucional Federal, excluir qualquer responsabilidade solidária com cada um dos países, ainda que numa crise. Em algum momento, o Tribunal Constitucional Federal ajoelhar-se-á perante esta tentativa e forçará os políticos alemães a aplicarem as absurdas regras europeias ponto por ponto. A crise económica europeia que seria desencadeada por esta dramática crise constitucional é dificilmente imaginável.
Falando sem rodeios, a situação legal, tal como está atualmente, é completamente absurda. O Banco Central Europeu (BCE) por exemplo, está já a violar os tratados da UE a fim de adotar uma abordagem económica mais sensata. Se tivesse cumprido os tratados, a UEM provavelmente já teria colapsado. Embora esta fosse a óbvia escolha de política, a resposta dos partidos políticos alemães tem sido hostil, marcando a ferro quente o BCE como se fosse um violador da lei. Muitos países violam abertamente o Pacto de Estabilidade e Crescimento (incluindo, é claro, a Alemanha com o seu exorbitante excedente de conta corrente) sem quaisquer consequências. isto tem-se devido ao pragmatismo da Comissão nos anos mais recentes, mas não é uma situação sustentável a longo prazo.
Cinco pontos centrais
Não há como evitar a ciclópica tarefa chamada “alteração fundamental dos tratados” se queremos que a Europa sobreviva. Por uma questão de simplificação, eis os cinco pontos cruciais, que devem definitivamente ser adaptados à realidade assim que nos atrevamos a alterar completamente os tratados:
- A convicção subjacente ao Tratado de Maastricht de que é possível garantir uma taxa uniforme de inflação simplesmente pelo estabelecimento de um banco central independente com um mandato tecnocrático está totalmente errada. A teoria detrás desta ideia, o monetarismo, é atualmente rejeitada por praticamente todos os bancos centrais do mundo enquanto base para as suas intervenções. Terá de dar lugar a uma política pragmática de gestão económica que deixe de assentar numa abordagem puramente tecnocrática da política monetária.
- Uma vez que não pode haver um controlo uniforme da inflação através da política monetária europeia, a UEM necessita uma coordenação das políticas salariais nacionais a fim de poder funcionar. Dado que a ligação entre custos unitários laborais e inflação é muito apertada, todos os estados-membros devem comprometer-se a estabelecer nas orientações sobre salários que os salários nominais negociados a nível nacional aumentarão anualmente à mesma taxa da produtividade nacional mais a taxa de inflação alvo europeia.
- Todas as regras da política orçamental estão obsoletas e devem ser adaptadas às conclusões da teoria económica sólida. Isto aplica-se tanto ao Tratado de Maastricht em si mesmo, como às subsequentes regras no chamado Pacto de Estabilidade de e Crescimento. O ponto de vista subjacente a estes tratados, de que os défices públicos são relevantes para o desenvolvimento da inflação e para a “estabilidade económica” dos estados-membros é incorreto. Os défices públicos devem sempre ser avaliados no contexto mais geral dos saldos financeiros de todos os setores importantes (governo, empresas, agregados familiares e exterior). Se tiver de ser imposto que os estados-membros da UEM mantenham o défice público dentro de determinados limites, então também deve ser determinado através de que meios e rigor os estados devem forçar as empresas a voltarem ao seu papel indispensável de devedor na economia.
- A cláusula de não resgate dos estados consignada no Tratado de Maastricht e a proibição explícita de o BCE apoiar financeiramente estados individuais provaram ser completamente impraticáveis e até perigosas. Em vez disso, deve ser estipulado que os estados podem apoiar outros estados em circunstâncias especiais. Mas é ainda mais importante tornar claro num novo tratado que o BCE é o banco central de cada estado membro individualmente considerado e deve, por conseguinte, agir como financiador de última instância para todos eles. Isto significa que o BCE deve assegurar que as condições financeiras para as empresas e os governos em toda a zona euro são uniformes, independentemente do país, intervindo nos mercados de capitais.
- O Acordo de Dublin para os Refugiados está obsoleto e necessita ser totalmente revisto. Tal como o governo italiano assinala corretamente, a Europa não pode sistematicamente impôr a responsabilidade da receção dos refugiados e outras medidas humanitárias aos países que estão situados na fronteira sul da UE. Devem ser estabelecidas quotas (em função da população) para a receção daqueles cujo pedido de asilo provavelmente seja bem sucedido. Se determinados países não participarem, devem ser excluídos de quaisquer medidas de financiamento da UE imediatamente e no futuro. Além disso, a UE deve garantir de que qualquer pessoa recém chegada recebe recursos financeiros básicos adequados, em proporção com a segurança social do país hospedeiro. Para todos os países da UE, metade do rendimento médio por empregado é considerado e aplicado como segurança social adequada.
Pode assim ver-se quão incrivelmente ambiciosa é a tentativa de criar uma perspetiva realista de política económica para a Europa. Claro, não é tanto a ambição da tentativa em si mesma, mas o descartar do status quo neo-liberal que nos faz duvidar que algo assim possa em certa medida ser aplicado. Todavia, dado que os políticos europeus, e particularmente os alemães, estão a agir com extrema irracionalidade, não se consegue imaginar grande futuro a longo prazo para a UE, ainda que com a melhor boa vontade da Europa.
Este artigo foi publicado em alemão em Makroskop (makroskop.eu) e em inglês em Brave New Europe (braveneweurope.com).
Texto em http://www.flassbeck-economics.com/final-countdown-change-the-eu-now-or-never/

Mais uma peça demonstrativa que, na chamada UE, está a viver-se aquilo que, séculos atrás, foi querer saber-se qual o sexo dos anjos. CLV