Da crise atual à próxima crise, sinais de alarme – O futuro do comércio entre a Alemanha e a China: perspetivas e obstáculos. Por George Friedman

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

O futuro do comércio entre a Alemanha e a China: perspetivas e obstáculos

george friedman gPF Por George Friedman

Publicado por friedman logoem 21 de junho de 2018

Republicado por Gonzallo Rafo

Sumário

A Europa e a China são dois dos principais alvos das recentes medidas dos Estados Unidos para reduzir o seu défice comercial. No início deste mês, a administração Trump aplicou tarifas sobre o alumínio e o aço provenientes dos membros da União Europeia (juntamente com outros países), depois de inicialmente isentar a UE destas tarifas. A UE afirmou que irá impor o seu próprio conjunto de tarifas sobre os EUA em julho. A Alemanha, a potência económica da Europa, tem sido particularmente forte na sua manifestação de oposição à aplicação das tarifas americanas. A sua economia é fortemente dependente de exportações, que representaram 46 por cento do produto interno bruto da Alemanha em 2016. Embora o principal destino de exportação da Alemanha seja a União Europeia (58 por cento das exportações de mercadorias em 2016), o seu segundo maior cliente é os Estados Unidos (8,8 por cento), seguindo-se a China (6,4 por cento).

A China, entretanto, tem estado envolvida numa disputa comercial com os Estados Unidos, principalmente desde que o presidente Donald Trump tomou posse. Mais recentemente, a administração Trump impôs tarifas sobre o valor de 50 mil milhões de dólares de importações chinesas na semana passada, e a China respondeu prometendo fazer o mesmo. Trump também ameaçou impor tarifas num valor adicional de $200 mil milhões de dólares de bens chineses esta semana, aumentando ainda mais a escalada protecionista. Dado que as exportações representam mais de 19,6 por cento do PIB da China em 2016, qualquer interrupção nos fluxos de comércio constituirá uma grande preocupação para os chineses.

A China e a Alemanha encontram-se agora numa posição peculiar. Nenhum deles está em posição de se envolver numa guerra comercial, mas ambos estão cada vez mais em desacordo com a maior economia do mundo. Dado este cenário, eles podem procurar alternativas para os EUA, e como se trata da segunda e quarta maiores economias do mundo, eles podem-se ver mutuamente como opções. À luz da intensificação da disputa comercial com os EUA, este artigo vai explorar em profundidade a possibilidade de uma maior cooperação económica entre a China e a Alemanha.

 

As Oportunidades

Uma coisa que os chineses e os alemães têm em comum é que ambos beneficiaram com o abrandamento das restrições comerciais. Desde a abertura gradual da economia de China sob Deng Xiaoping, a abundância do trabalho barato na China atraiu o investimento de todo o mundo. Os baratos produtos chineses inundaram os mercados de todo o mundo, incluindo os Estados Unidos, que consumiram 19 por cento de exportações chinesas em 2017. A Alemanha, entretanto, tem lucrado massivamente com o mercado comum europeu e com a moeda comum. Sob o euro, as exportações alemãs são mais baratas e mais competitivas do que o eram com o marco alemão.

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O comércio entre as duas economias dominadas pelas respetivas exportações está a crescer: a China tornou-se o principal parceiro comercial da Alemanha em 2016, quando o comércio entre os dois países alcançou 170,2 mil milhões de euros. Cresceu para a 186,6 mil milhões de euros no ano seguinte. Pequim tem um excedente comercial com Berlim, ainda que somente de 3,1 por cento das exportações chinesas (de valor de $71,2 mil milhões) tenham sido destinadas à Alemanha y em 2017.

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Para a China, há alguns benefícios notáveis no comércio com a Alemanha. Na Alemanha os chineses podem adquirir tecnologias complexas que não são produzidas ainda na China. Em 2017, os chineses investiram $13,7 mil milhões em empresas alemãs, fazendo deste país o destino mais importante para o investimento chinês na Europa. Como parte da estratégia do Made in China para 2025, um plano anunciado em 2015 para modernizar a indústria chinesa, a China está a tentar aumentar o desenvolvimento de setores de alta tecnologia no país, e para isso, precisa de aceder a tecnologias de empresas estrangeiras. Investir em empresas alemãs pode ser útil a este respeito. O investimento estrangeiro na Alemanha não é fortemente regulado (por agora, pelo menos), facilitando-se assim que os negócios chineses ganhem aí uma posição.

De acordo com um estudo publicado pela Fundação Bertelsmann, uma maioria de investimentos chineses na Alemanha é feita nos setores que são o foco do Made in China 2025. Antes de 2015, o ano em que a estratégia foi anunciada, havia pouco investimento chinês no setor da Biomedicina e de dispositivos biomédicos, por exemplo. Desde então, houve 18 parcerias entre empresas chinesas e alemãs.

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A Fundação Bertelsmann analisou 175 operações de fusão e aquisição em que os chineses compraram pelo menos uma quota de 10 por cento nas empresas alemãs de 2014 a 2017. Quase 64 por cento destes investimentos foram dirigidos a setores que a China planeia dominar por volta de 2025. A maioria dos investimentos relacionados com a Iniciativa Made in China 2025 é focada em três regiões: Baden-Wuerttemberg (23 por cento), Renânia do Norte-Vestfália (20 por cento) e Baviera (16 por cento). Estas são precisamente as regiões onde a maioria das empresas de tecnologia alemã líderes mundiais estão implantadas.

Além disso, a Alemanha serve como plataforma chave para os produtos chineses destinados aos mercados europeus por mar e por via férrea. Um de cada três contentores que chegam a Hamburgo, principal porto da Alemanha, provém da China, e várias linhas de caminho-de-ferro utilizadas para transportar mercadoria por comboio para a Europa começam na China e terminam na Alemanha, nomeadamente a linha Chongqing-Duisburgo.

Há também vantagens para a Alemanha desta relação. A China é um destino de topo para exportações de elevado valor acrescentado e há mais de 5.000 companhias alemãs que operam na China, hoje. Até muito recentemente, a China era a principal fonte de trabalho barato para as empresas multinacionais alemãs. As importações alemãs vindas da China incluem produtos fabricados na China por empresas alemãs e produtos vendidos por empresas chinesas, incluindo produtos de baixo valor acrescentado, tais como têxteis.

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Em 2016, 50 por cento dos investimentos estrangeiros da UE foram destinados à China. Os acionistas alemães são atraídos à China por causa do baixo custo do trabalho e dos custos de investigação e desenvolvimento. De acordo com um levantamento de 2017 pela Câmara de Comércio alemão na China, mais da metade do novo investimento feito por empresas alemãs em 2018 será aplicado em novas instalações fabris para a indústria transformadora. O investimento alemão está concentrado na cidade de Taicang, que é perto de Shanghai, um dos portos mais importantes na China, mas é uma cidade muito mais cara para quem aí queira instalar um negócio. Desde agosto de 2016, Taicang tem atraído mais de 250 pequenas e médias empresas alemãs que em conjunto têm de receita cerca de $2,72 milhares de milhões de dólares. O centro alemão de Taicang, um projeto criado por um banco alemão e apoiado por ministérios federais e estaduais na Alemanha, ajuda as empresas alemãs a entrar no mercado chinês. Muitas empresas que operam em Taicang estão ligadas à construção de máquinas, à eletrónica e à energia. Shanghai, Beijing, Guangzhou e Shenzhen são também cidades populares para o investimento.

Se a Alemanha tentasse redireccionar o seu comércio dos EUA para a China, não teria de ajustar significativamente a composição das suas exportações. Em 2017, a China foi o terceiro maior destino da Alemanha para as suas exportações (e a China foi o principal fornecedor de importações). Em 2016, cerca de 67 por cento das importações chinesas vindas da Alemanha (valor $56,1 mil milhões de dólares) e 58 por cento das importações americanas vindas da Alemanha (de $66 mil milhões de dólares em valor) faziam parte dos setores de transporte e maquinaria. Uma vez que as exportações alemãs para ambos os países têm um perfil similar, reorientar as exportações alemãs para o mercado chinês não exigiria uma mudança massiva na produção.

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Os obstáculos

Há, portanto, muito potencial nesta relação. Mas existem também muitos obstáculos. Do ponto de vista chinês, o principal desafio em ver a Alemanha como uma alternativa ao mercado dos Estados Unidos é a dimensão da população do país. Os Estados Unidos são um país rico com uma população de 327 milhões, enquanto a Alemanha tem uma população de apenas 82 milhões. Por causa desta diferença, a Alemanha não pode absorver a quantidade de bens chineses que os Estados Unidos compram.

Do ponto de vista alemão, há três obstáculos principais para aumentar o investimento na China e o comércio com este país. O primeiro são os dispendiosos atrasos burocráticos. A China exige que a maioria de produtos vendidos na China tenham obrigatoriamente um certificado da China, o que exige visitas à fábrica às custas do fabricante para assegurar a conformidade e a apresentação de informação importante sobre a empresa. O processo de certificação é geralmente muito demorado, fornecendo uma janela de oportunidade para que as falsificações chinesas apareçam no mercado antes que o produto original o faça. Trata-se de um obstáculo particularmente importante para as pequenas e médias empresas com recursos limitados.

Há também restrições sobre o investimento estrangeiro em certas indústrias, como automóveis, petroquímicos e aço. Em muitos setores da indústria transformadora e do setor de serviços, os investidores europeus estão proibidos de criar empresas de capitais totalmente estrangeiros e devem preferencialmente estabelecer empreendimentos conjuntos com os investidores chineses.

Estas parcerias envolvem geralmente a partilha de tecnologias e de conhecimento (know how) com as contrapartes chinesas, o que contribui para a segunda barreira para as empresas alemãs: transferências tecnológicas que dificultam a competitividade europeia na China e além. Ao longo dos últimos dois anos, têm crescido na Alemanha as preocupações com o facto de que o investimento chinês em empresas alemãs de alta tecnologia em indústrias como a robótica, aeroespacial e farmacêutica, não tem como finalidade exclusiva os lucros. Que estas indústrias também são alvos da Iniciativa Made in China 2025 sugere que esses investimentos são realmente destinados a ajudar a China a tornar-se um competidor global em setores atualmente dominado pelas economias industrializadas. As restrições europeias quanto ao investimento estrangeiro são muito mais laxistas, por agora, do que as restrições americanas e japonesas, fazendo da Alemanha um destino atrativo para as empresas chinesas (e para o governo chinês) que procuram  adquirir tecnologias avançadas.

Isto tornou-se problemático em 2016 quando Midea Group, um grande fabricante chinês de eletrodomésticos, comprou uma participação maioritária no fabricante alemão de robótica KUKA. Os produtos KUKA são amplamente utilizados na indústria transformadora alemã, incluindo na indústria automobilística, o setor de exportação mais importante do país. Neste sentido, a tecnologia de robótica KUKA tem um valor estratégico para várias empresas alemãs. Como resultado do negócio, o grupo Midea adquiriu tecnologia de topo de gama em robótica para utilização na indústria, o que significa que as empresas da indústria transformadora alemã deixariam de ser os principais utilizadores desta tecnologia de ponta. Em 2017, a Alemanha, juntamente com a Itália e a França, solicitaram à Comissão Europeia que aumentasse a capacidade de filtragem de Bruxelas e, se necessário, bloqueasse o investimento estrangeiro nas empresas europeias. As preocupações alemãs sobre a transferência de tecnologia para os concorrentes chineses, quer através de compras de empresas alemãs ou através de empreendimentos conjuntos com empresas chinesas, são cada vez mais um obstáculo ao desenvolvimento de relações comerciais e de investimento mais estreitas.

O terceiro obstáculo ao aprofundamento dos laços entre a Alemanha e a China é a política. Em 2012, a China iniciou a iniciativa 16 + 1 para ampliar a cooperação com os países da Europa Central e Oriental. Excluindo Bruxelas e os Estados da Europa Ocidental, este projeto oferece aos países participantes uma fonte alternativa de investimento em vez da UE. Os chineses prometeram $17 mil milhões no total, principalmente para projetos de infraestruturas, muito menos do que o Fundo Europeu de Coesão do qual a Polónia por si só receberá 86 mil milhões euros de 2014 a 2020.

Porém, a Alemanha teme que as relações bilaterais mais estreitas entre a China e os membros da UE possam comprometer a coesão na política externa e económica. Podem-se apontar diversos exemplos ocorridos nos últimos anos para provar este seu argumento. Em 2016, a Hungria e a Grécia bloquearam referências diretas a Pequim na declaração da UE sobre o acórdão do Tribunal de Haia contra as reivindicações jurídicas chinesas no mar do Sul da China. Em 2017, a Hungria recusou-se a assinar uma carta da UE denunciando a tortura de advogados detidos na China. Também em 2017, a Grécia bloqueou os esforços para emitir uma declaração da UE no Conselho de Direitos Humanos da ONU condenando a violação de direitos humanos da China. Quando a França apresentou uma proposta para a filtragem de investimentos estrangeiros a nível da UE em junho de 2017, encontrou a oposição de um certo número de membros, incluindo os países do Sul da Europa que temiam que os novos regulamentos prejudicassem o investimento estrangeiro. A Grécia especificamente mencionou os investimentos chineses como uma razão para se opor à mudança.

O investimento chinês é atrativo para os países da Europa Central e Oriental, porque não tem as mesmas condições políticas que estão associadas ao financiamento da UE. Para o ciclo orçamental 2021-27, a Comissão Europeia espera endurecer as condições de receção dos fundos de coesão. O plano proposto é fazer com que o financiamento dependa do respeito pelo estado de direito e da aceitação dos refugiados. Estas reformas são apoiadas pela Alemanha como um meio de coagir os membros da UE a seguirem as diretivas de Bruxelas, mas rejeitadas por países como a Hungria e a Polónia, que têm estado em desacordo com Bruxelas sobre as suas políticas internas.

O investimento chinês não tem nenhuma destas pré-condições, mas os chineses têm motivos políticos para oferecer este investimento. Eles estão à procura de aliados na União Europeia para influenciar a política económica da UE para evitar restrições ao investimento chinês e abrir as portas a mais projetos em parceria com a iniciativa da China One Belt One Road (também conhecida como Cinturão Económico da Rota da Seda e Rota Marítima do século XXI) . Os chineses não querem necessariamente enfraquecer a UE, mas a sua insistência em trabalhar com parceiros selecionados e em contornar Bruxelas acrescenta outra camada de atrito num ambiente já agressivo para a UE.

Trata-se de um problema para a UE, porque a tomada de decisões assenta principalmente no consenso. O investimento chinês é usado externamente pelos Estados da Europa Central e Oriental como uma moeda de troca nas negociações com Bruxelas sobre dotações de financiamento, regulamentos e assim por diante. Para os países que fazem parte da cadeia produtiva alemã, pode também ser utilizado como alavanca contra Berlim se a Alemanha tentar forçar o cumprimento das diretivas da UE. A Alemanha pode estar disposta a aceitar um papel mais fraco para Bruxelas se isso a ajudar a preservar o mercado comum, mas Berlim quer garantir que qualquer devolução de poderes servirá os seus interesses e não será forçado nem em Bruxelas nem em Berlim. A Alemanha é, portanto, cada vez mais cautelosa com o comércio e o investimento chinês na Europa porque exacerba as divisões políticas na UE.

 

Em conclusão

Em maio, a Chanceler alemã Ângela Merkel viajou a Pequim para se encontrar com o Presidente chinês Xi Jinping. Eles discutiram o seu apoio para o acordo nuclear com o Irão, do qual os EUA se retiraram apenas algumas semanas antes. Eles também disseram que esperavam preservar o acordo climático de Paris e expressaram o seu apoio ao comércio livre. A visita de Merkel à China pode ser vista como um sinal para Washington de que ambos os países podem lidar com a pressão dos EUA na frente comercial, forjando laços bilaterais mais estreitos. Mas quando se olha mais aprofundadamente a relação entre os dois países, é claro que esta alternativa não é tão promissora como pode parecer.

Do ponto da vista da China há muitos benefícios em aumentar o comércio com a Alemanha e o investimento neste país. O acesso a tecnologias sofisticadas e a existência de poucos limites quanto ao investimento estrangeiro são apenas alguns exemplos. É verdade que a Europa está em vias de estabelecer novos regulamentos que complicarão o investimento e o comércio chineses no continente. Mas, por agora, e no futuro previsível, a Alemanha continuará a ser um destino atrativo para o investimento e as exportações chinesas e um trampolim para o resto da Europa.

Mas para a Alemanha, há diversas barreiras ao comércio crescente com a China, nomeadamente a burocracia, a concorrência dura das empresas chinesas e o medo que a China se venha a apropriar de tecnologias sensíveis que deram às empresas alemãs uma importante vantagem nos mercados globais. Dado que a economia alemã é tão dependente das exportações, a Alemanha vai querer proteger a sua vantagem competitiva a qualquer custo. Há também receios de que o investimento chinês possa levar a uma divisão entre os Estados-membros da UE. Para a Alemanha, então, o comércio com os Estados Unidos ainda é mais desejável do que o comércio com a China. Berlim e Pequim ainda continuarão a comercializar e a forjar laços em áreas de mútuo acordo, mas nenhum deles pode ser um substituto para o mercado dos EUA.

 

Texto original em https://geopoliticalfutures.com/future-german-chinese-trde-prospects-pitfalls/

Republicado por http://gonzaloraffoinfonews.blogspot.com/2018/07/the-future-of-german-chinese-trade.html

 

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