Da crise atual à próxima crise, sinais de alarme – Está mesmo à vista o fim da QE? Por Francisco Tavares

pobresericos

Está mesmo à vista o fim da QE?

Notas a propósito do texto “O fim da QE e a nova crise” de Guillermo de La Dehesa 

 

FTavares Por Francisco Tavares, em 8 de setembro de 2018

Obrigado ao Júlio Marques Mota pelos comentários e sugestões a este texto

Vêm estas breves notas a propósito do texto “O fim da QE e a nova crise” da autoria de Guillermo de La Dehesa, saído há dias atrás no El País. Neste texto o autor mostra-se consciente dos riscos que os elevados níveis de dívida pública e privada mundiais colocam para o desencadeamento de outra crise nos próximos anos. Parece também partilhar a ideia da improbabilidade da criação de um orçamento para a zona euro (a que parece chamar “política fiscal única”) face ao seu adiamento para 2021, em virtude das posições contrárias dos estados membros do norte e os do sul (curiosamente a França não é citada em nenhum dos dois grupos).

Esse orçamento destinar-se-ia, em primeira instância, a ser apenas o suficiente para enfrentar os choques assimétricos, que afetam uns estados-membros e não outros. Mas afinal qual seria o conteúdo em concreto de tal orçamento? Do lado das receitas? Do lado das despesas?

Logo no início refere que após a Grande Recessão de 2008-2013 a Reserva Federal [dos EUA] e o BCE, com vista a salvar os países da recessão, e para que a inflação se mantenha baixa, emitiram dinheiro eletrónico, e não dinheiro físico, para absorverem o excesso de dívida (pública e privada):

… tanto a Reserva Federal como o BCE fizeram todo o possível para salvar os seus países da recessão. Para o conseguir, não imprimiram dinheiro físico, já que têm como objetivo primordial manter a inflação baixa. O que sim fizeram foi emitir dinheiro eletrónico para poder comprar no mercado boa parte do excesso de dívida pública e privada, acrescentando liquidez aos mercados…

Trata-se de moeda Banco Central Europeu de uma maneira ou de outra, física ou eletrónica, por isso temos dificuldade em perceber o texto no que se refere a esta questão. Possivelmente, só o senhor Guillermo de La Dehesa, ou o diabo, saberá precisar economicamente a diferença entre os dois tipos de emissão de uma coisa que é a mesma: moeda do banco central.

O segundo e terceiro parágrafos do texto são assim como que uma aula teórica: as compras do excesso de dívida aumentam o tamanho das reservas bancárias, o que permite aos bancos emprestarem mais às empresas e às famílias, e aumentar a taxa de crescimento da economia. Tudo se passaria assim como se toda esta dinâmica da economia, tal como é encarada em abstrato pelo autor (e pelos bancos), nada tenha a ver com a economia real, pois hoje o que é escasso é exatamente a procura solvável, escassez esta dinamizada pela política de austeridade seguida. E com a escassez da procura solvável é também a escassez do investimento que impera, criando-se assim um enorme défice da procura agregada face ao PIB potencial. Mas o autor diz-nos que os bancos compram novos ativos [substituindo os passivos tóxicos que passaram aos bancos centrais, dizemos nós], o que aumenta o preço desses ativos nos mercados, reduz as taxas de juro, leva a mais empréstimos, aumento da procura e maior crescimento. E, no entanto, com as taxas de juro no limite de zero nada do que nos diz La Dehesa (aumento da procura e maior crescimento) se vê!

Quanto ao que na realidade aconteceu, em termos dos empréstimos bancários, da variação da procura, da taxa de crescimento, o artigo nada diz. Pressupõe-se que terão aumentado, porque sim! Nada diz sobre em que ativos foram aplicados os empréstimos bancários, se na economia real (investimento produtivo), se na economia de especulação (investimento financeiro).

De facto, acaba por dizer alguma coisa:

o problema é que as expetativas de inflação continuam a cair [por outras palavras, continuamos em deflação, a procura agregada não arranca, e consequentemente também não o crescimento], o desemprego continua elevado e a economia [europeia] continua a deslizar, lentamente, para baixo.

Os resultados até agora: um crescimento anémico, dinheiro aplicado em investimento financeiro (especulação), aumento da disparidade na distribuição da riqueza, aumento da precariedade no trabalho, aumento da pobreza, aparecimento dos trabalhadores pobres.

E depois diz: ” … ao aumentar a oferta de dinheiro o valor da divisa mantém-se relativamente baixo, o que tende a animar os investidores estrangeiros a investir no país, tanto nas suas empresas com nas suas bolsas e, assim mesmo, ajuda a exportar uma maior quantidade de bens e serviços“.

Fala do valor da divisa, supõe-se que pensará (também) na zona euro, como se as diferentes condições das economias que constituem a zona euro fosse um fator indiferente. E lá voltamos às exportações. Mas no caso da zona euro, a que exportações se refere o autor? Certamente será para fora da zona euro. Ou seja, a zona euro já tem atualmente um problema de saldo excedentário da conta corrente (por via sobretudo da Alemanha). haverá pois que aumentar o problema.

Também não se percebe como os bancos centrais ” irão vendendo aos mercados com a melhoria da situação económica” a dívida – tóxica dizemos nós – pública e privada acumulada. A preço de saldo? E como, se, como diz La Dehesa mais adiante, a taxa de crescimento está a cair?

Diz depois:

… o problema é que as expetativas de inflação continuam a cair, o desemprego continua elevado e a economia [europeia] continua a deslizar, lentamente, para baixo…

Por outras palavras, continuamos em deflação, a procura agregada não arranca, e consequentemente também não o crescimento.

E por fim o autor chega ao receituário:

Por um lado, o BCE deveria enviar uma mensagem direta a todos os governos da zona euro para que acelerem as suas reformas, reduzam o gasto público e melhorar a sua posição fiscal devedora. Por outro lado, deve aplicar já o seu programa de esterilização das suas intervenções e manejar, o melhor possível [o que quer que isso queira dizer], as suas taxas de juro de longo prazo.

Outra vez as reformas? Que reformas? Andamos há pelo menos dez anos em reformas. Redução do gasto público: então não resultou a anterior redução? Faltará talvez privatizar o próprio Estado! E quanto à esterilização das intervenções do BCE – um termo asséptico como convém a uma explicação “científica” – , ou seja, há que acabar com essas intervenções, que o mercado autorregula-se! Mas o autor acaba por reconhecer que “… não parece que vá ser nada fácil sair deste processo de acumulação”.

E:

Dessa forma, poderia conseguir que todos os Estados-membros, em pior situação relativa, fizessem reformas estruturais para melhorar as suas taxas de crescimento a médio prazo reduzir o seu gasto e melhorar a sua taxa de crescimento, enquanto que o BCE poderia utilizar o seu grande excesso de liquidez para manter os rendimentos dos títulos baixos para, dessa forma, poder ajudar os governos a promover essas reformas.

Estando os países do sul entre os de pior situação, que mais reformas devem fazer Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Malta e Chipre??

Mais privatizações? Mais desregulamentação do mercado de trabalho? Eliminar as leis que regulam os mercados financeiros para que os bancos possam fazer o que entenderem? Mais endividamento?

As soluções do autor são pois: orçamento da UEM – afinal só lá para 2021 e apenas o suficiente para enfrentar os choques assimétricos, que afetam uns estados-membros e não outros – , a possibilidade de emissão de eurobonds ………. e reformas, mais reformas, mais reformas. E, no final, se não cumpres os limites do orçamento e da dívida, sanções para cima!

Em resumo: não parece que o fim da QE esteja precisamente à vista!

Um patusco o sr. La Dehesa. Os especialistas como ele não aprendem, e não parece que o queiram, não obstante os resultados das reformas terem tido o efeito oposto daquilo que propagam. Como se pode ver na Grécia: recessão durante 10 anos, quebra do PIB em 25%, um terço da população na pobreza, venda do seu património e uma infindável dívida, que nem um luminoso crescimento tipo 2017 (1,4%) permitirá pagar. Um autêntico protetorado…. ou nem tanto.

E depois perguntam-se muito admiradamente porque aparecem e crescem os populistas! É que vão a votos, e os cidadãos são uns ingratos, não apreciam as belas reformas que foram feitas, não querem respeitar os tratados tão laboriosamente montados pelos especialistas como o sr La Dehesa.

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O fim da QE e a nova crise

Por Guillermo de La Dehesa

El País, em 5 de agosto de 2018

Após a Grande Recessão de 2008-2013, tanto a Reserva Federal como o BCE fizeram todo o possível para salvar os seus países da recessão. Para o conseguir, não imprimiram dinheiro físico, já que têm como objetivo primordial manter a inflação baixa. O que sim fizeram foi emitir dinheiro eletrónico para poder comprar no mercado boa parte do excesso de dívida pública e privada, acrescentando liquidez aos mercados. Ou, o que é o mesmo, reduzindo as taxas de juro de curto prazo e aumentando a oferta monetária.

Estas compras do excesso de dívida tendem a aumentar o tamanho das reservas bancárias na economia, na mesma proporção da dívida comprada. Daí o nome de Flexibilização Quantitativa (QE). Assim pode conseguir-se reduzir as taxas de juro, aumentar a taxa de crescimento da economia e animar os bancos a emprestarem mais às empresas e às famílias.

Este novo dinheiro que os bancos obtêm é utilizado para comprar novos ativos para assim poderem ir substituindo os que venderam aos bancos centrais. Isto, por sua vez, aumenta os preços dos ditos ativos nos mercados e reduz as taxas de juro, permitindo que os bancos possam emprestar mais, aumentando a procura e estimulando o crescimento através de uma quantidade maior de dinheiro em circulação.

Assim mesmo, ao aumentar a oferta de dinheiro o valor da divisa mantém-se relativamente baixo, o que tende a animar os investidores estrangeiros a investir no país, tanto nas suas empresas com nas suas bolsas e, assim mesmo, ajuda a exportar uma maior quantidade de bens e serviços a uma taxa de câmbio mais competitiva.

Como consequência destas decisões, os bancos centrais vão acumulando dívida pública e privada nos seus balanços que, posteriormente irão vendendo aos mercados com a melhoria da situação económica.

Entre 2008 e 2014 a Reserva Federal mais que duplicou o seu balanço até 4,5 mil milhões de dólares, quando decidiu parar com as suas operações de QE. Em contrapartida, teve que reinvestir os seus pagamentos e os seus próprios a vencerem para manter o seu balanço ao mesmo nível; além disso, teve que manter as taxas de juro baixas até que, em dezembro de 2017, anunciou que ia continuar a comprar até que a situação se normalizasse. Mas após a sua reunião de 13-14 de junho passados, começou a subir as taxas de juro (três vezes seguidas) e terá, agora, que reduzir o tamanho do seu balanço.

O BCE, no entanto, está numa situação diferente, já que o seu programa de QE, o chamado programa de compra de ativos (APP), começou em 2015, muito mais tarde que o programa estado-unidense, porque a economia da zona euro estava ainda mais débil que a dos EUA. Não obstante, nos seus comunicados deixou de falar de QE já que, embora a economia da zona euro tenha melhorado o seu crescimento, começou a cair ligeiramente: 2,1% em junho de 2018, e espera-se 1,9% em 2019. Por esta razão, o BCE foi muito mais cauteloso, e ainda que tivesse que ir reduzindo a sua QE, ainda não estabeleceu uma data para o final do seu programa.

Os especialistas, como acontece sempre, têm diferentes opiniões sobre como e quando se vai reduzir a atual QE europeia, posto que aumentou o seu saldo em 25% do PIB da zona euro. Mas o problema é que as expetativas de inflação continuam a cair, o desemprego continua elevado e a economia [europeia] continua a deslizar, lentamente, para baixo. Prova disso é que, quando o BCE iniciou o seu programa de compras o seu excesso de liquidez era de 185.000 milhões e hoje atinge 1.300.000 milhões. Se começasse agora a subir as taxas de juro, os estados-membros com défices mais elevados não poderiam suportá-lo. Por estas razões não parece que vá ser nada fácil sair deste processo de acumulação.

Por um lado, o BCE deveria enviar uma mensagem direta a todos os governos da zona euro para que acelerem as suas reformas, reduzam o gasto público e melhorar a sua posição fiscal devedora. Por outro lado, deve aplicar já o seu programa de esterilização das suas intervenções e manejar, o melhor possível [o que quer que isso queira dizer], as suas taxas de juro de longo prazo.

Dessa forma, poderia conseguir que todos os Estados-membros, em pior situação relativa, fizessem reformas estruturais para melhorar as suas taxas de crescimento a médio prazo reduzir o seu gasto e melhorar a sua taxa de crescimento, enquanto que o BCE poderia utilizar o seu grande excesso de liquidez para manter os rendimentos dos títulos baixos para, dessa forma, poder ajudar os governos a promover essas reformas.

A grande diferença é que os Estados Unidos é um Estado com o seu próprio Ministério das Finanças e o seu próprio banco central, enquanto que a zona euro é um conjunto de 19 estados-membros, cada um com a sua própria política orçamental e com o BCE como banco central. Esta situação não pode durar muito tempo porque a moeda única poderia deixar de subsistir, numa próxima recessão provocada por uma nova crise.

Ao dia de hoje, os níveis de dívida pública e privada mundiais são mais elevados que antes da Grande Recessão, com o que poderia desencadear-se outra crise nos próximos anos. Os últimos dados da zona euro mostram que já quase alcançaram o mesmo nível médio que tinham em 2008, a seguir à Grande Crise, ou seja 88,1%.

Um passo inicial muito importante, para evitar o pior, consistiria em que os países da zona euro tenham uma política fiscal única que, em primeira instância, apenas seria suficiente para enfrentar os choques assimétricos, quer dizer, aqueles que afetam a uns estados-membros e não a outros, como foi já proposto pela maioria dos economistas.

No entanto, de momento, a política na zona euro continua a ir por outro lado, fazendo um pouco de magia, tal como mudar o nome do Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM) e apelidá-lo de Fundo Monetário Europeu (EMF), o que não agradou aos alemães, já que, dizem eles, só seria possível se o dito EMF pudesse, igualmente, estabelecer sanções sobre os estados-membros que não cumpram com os limites do orçamento e da dívida. Além disso. tão pouco se fala da possibilidade de emissão de eurobonds e outros estados-membros criticam que ainda não se tenha concluído a união bancária.

Finalmente, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Emmanuel Macron chegaram a um acordo de mínimos: haverá um orçamento para a zona euro, mas só a partir de 2021, e haverá um mecanismo de apoio financeiro, com condições pouco onerosas e uma rede de segurança para a união bancária. Estas decisões foram aprovadas na cimeira de chefes de estado e de governo de Bruxelas em 28 e 29 de junho.

Ou seja, continua adiar-se a política fiscal, tão necessária para que a zona euro sobreviva, para não enfrentar as posições tão contrárias entre os chamados estados-membros do norte como Alemanha, Holanda, Bélgica, Áustria, Dinamarca e Luxemburgo e os estados-membros do sul: Espanha, Portugal, Itália, Malta, Grécia e Chipre.

Texto original em

https://elpais.com/economia/2018/08/02/actualidad/1533206307_096607.html

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