Da crise atual à próxima crise, sinais de alarme – Viagem ao país do absurdo: eu sonhei que a extrema-direita destruía o país …   Por Franck Crudo

pobresericos

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Viagem ao país do absurdo: eu sonhei que a extrema-direita destruía o país …

“Os media repetiam: nada de amálgamas “

 franck crudo Por Franck Crudo

Publicado por le causeur em 18 de maio de 2018

42 viagem ao país do absurdo 1

“Manifestação” contra a Lei do trabalho, junho  2016, Paris. SIPA. 00760428_000007

 

Estou agora a ter sonhos estranhos. Eu não sei se é porque eu dormi de cabeça para baixo, mas na noite passada eu estava imerso num “estranho” universo. Enfim, é uma maneira de falar. Eu tenho que vos contar.

Neste mundo paralelo nascido do meu sono fértil, os jovens da FN ocupam ilegalmente durante várias semanas a praça Concorde. O seu movimento, chamado de “dia sentado”, causa danos e incómodos de todos os tipos…. mas as autoridades nada fizeram contra isso. História de não colocar gasolina no fogo. Greves iniciadas por movimentos identitários paralisam a atividade económica do país e os militantes não hesitam em queimar, nos lugares públicos, a efígie do Presidente da República. As autoridades deixaram passar, sem dúvida para preservar a paz social.

«Ainda um golpe da extrema-esquerda»

No meu sonho, a extrema-direita consome pouco a pouco a República. Os bombeiros são regularmente apedrejados e os carros de polícia queimados por milícias nacionalistas, principalmente agrupados na França periférica. Durante uma manifestação organizada pela extrema-direita em Paris, o kebab da esquina é saqueado. “Outra vez um golpe da extrema-esquerda“, apressa-se a colocar no Tweeter um líder da FN antes de reconhecer que se tratava de um erro de análise. Na província, um eleito muito à esquerda deixa-se mesmo molestar na rua por dezenas de ativistas muito à direita, ativistas estes que filmam hilariantemente a cena com os seus smartfone. Um Khmer Vermelho islamo-esquerda no chão, é bem feito por causa do que diz, este peludo de esquerda.

As autoridades não estão a reagir. Muito menos os media oficiais. Deve-se dizer que, mesmo se o barco France balança perigosamente, o serviço público e a grande maioria dos jornalistas inclinam-se fortemente a estibordo, como nos bons dias velhos da ORTF, e tendem a ver estalinistas em cada esquina. É por muito pouco que os tanques soviéticos não se arriscam a desfilar na capital. De repente, os islamo-esquerdistas vão ganhando cada vez mais votos, eleição após eleição e os jornais tocam o rebate e lançam o alerta geral. Pol Pot e Bin Laden poderiam tomar o poder na França, país conhecido pelo seu comunismo e islamismo! Nós já não sabemos muito bem quem é que alimenta quem na história…

«A imensa maioria dos … »

Outro ataque é cometido sobre o nosso solo. A intervalos regulares, militantes de extrema-direita esmagam, metralham, disparam à queima-roupa, esfaqueiam ou cortam as  gargantas dos nossos filhos, das nossas esposas, dos nossos judeus, dos  nossos polícias… Mas o nosso Presidente, os nossos ministros, os nossos meios de comunicação recusam que se façam amálgamas. Como se o perigo principal estivesse aí. Por cada ato de selvajaria dão-nos sermões na rádio e na televisão que não existem apenas fascistas e racistas à direita. Que aí há também patriotas, populistas, gaulistas, soberanistas,   etc. Jornalistas um pouco reacionários a viverem nas suas margens têm mesmo um manhoso e sinistro prazer em salientar que muitos homens à esquerda têm estado enganados e participado na Colaboração e que outros, muito à direita, têm sido grandes resistentes. Em suma, parece que as coisas são muito mais complexas do que isso, que é melhor evitar generalizações.

Todos os atos de barbárie cometidos em nome da extrema-direita, deplora-se que isso faça o jogo do Islão-esquerdista, o principal perigo para a nossa República. Nós não pedimos desculpas, mas estamos a tentar explicar: o racismo e a violência destes guetos de ódio, destas áreas de não-direito situadas na França periférica seria em grande parte devido ao sentimento de degradação, ao facto de que o país mudou de rosto em algumas décadas, ao facto de que o Estado prefere cuidar dos migrantes. Em suma, esses pobres tipos sentem-se estigmatizados e mais intensamente no seu próprio meio ambiente.

Um skinhead quis-me matar

Sociólogos de direita – lembro que se trata de um pesadelo – explicam-nos nos estúdios de televisão que esta colonização está em grande parte na origem da animosidade sentida por estes militantes dispersos. Argumento imparável uma vez que é bem sabido que os descendentes das vítimas da colonização ou do genocídio atacam regularmente as mulheres e as crianças dos seus antigos carrascos. Isso não desculpa nada… mas pode explicar isso. Esta é a razão pela qual os extremistas arménios estão a matar à queima-roupa mulheres e crianças turcas, os fundamentalistas judeus cometem ataques contra civis alemães, os indianos viram as suas armas contra os ingleses, os da América contra os americanos, os cambojanos por seu lado atacam os brancos no 13º bairro de Paris  para que eles não se esqueçam da Indochina…

Um pesadelo, é o que eu vos digo. Após cada ataque, acendemos velas, cantamos Michel Sardou (“se os ianques não estivessem lá” ou “nunca me chamem de França”, à escolha), distribuímos balões azuis, brancos e vermelhos e fazemos cair o Arco do Triunfo, símbolo de uma França em… diapasão. Na rádio pública, explicam-nos muito justamente que a grande maioria das pessoas de direita não tem nada a ver com isso, que a direita não é isso, que a direita é Guizot, Tocqueville ou o General de Gaulle. Todos os sábados à noite na France 2, uma emissão animada por Jean-Pierre Pernaut praticamente só convida gente reacionária e zomba da esquerda politicamente correta. A emissão é interrompida repentinamente para uma notícia da última hora em que nos dizem que um cabeça-rapada esfaqueou cinco árabes numa rua em Marselha. Em seguida, o programa retoma o seu curso …

 

O movimento identitário está sobre representado nas nossas prisões

Depois de cada ataque, um intelectual – que, como outros, gradualmente se afastou da direita depois de desfilar nos Champs-Elysées com os gaullistas em maio de 68 – fala de “sideração ritual”. O movimento identitário está sobre-representado nas nossas prisões lotadas, mas os media e as autoridades públicas continuam a apontar o dedo à extrema esquerda, aos gulags, às fomes, à Tcheka, aos julgamentos políticos, Mao, Beria, Pol Pot …

Neste mundo orwelliano, intelectuais de todos os quadrantes ou eminentes historiadores que descrevem a realidade, os territórios perdidos da França periférica e denunciam a violência ou o anti-semitismo da extrema-direita são processados nos tribunais por incitação ao ódio político. Nada de surpreendentemente, quando ficamos a saber que a justiça está em grande parte infiltrada por um sindicato muito à direita, que se tornou tristemente célebre por crucificar figuras de esquerda numa coleção de gente idiota. É essa mesma “justiça” que colocou em questão, em plena eleição presidencial, o principal candidato da esquerda, depois favorito nas urnas. É verdade que ele era suspeito de ter passado um sinal vermelho sem o cinto de segurança ou com um telemóvel na mão, não sabemos muito bem porque a fotografia estava desfocada …

Hooligans violam mulheres

No meu sonho, o meu país está doente. A minha República também, cujos tradicionais contrapoderes, como a imprensa e o poder judicial, pendem escandalosamente para o mesmo lado. Uma noite, o canal Arte transmite dois filmes com Michael Douglas (Assédio Sexual e Instinto Fatal) durante uma noite temática sobre o assédio feminino. Segue-se nas redes sociais uma campanha de denúncia sem precedentes com o nome “Lança a tua Glenn Close” ou “Lança a tua Demi Moore.” Em suma, isto difundiu-se em todas as direções.

No dia de Ano Novo, centenas de mulheres são agredidas sexualmente na Alemanha por hordas de hooligans. Um membro do FN twittou assim que o Exército Vermelho também tinha feito o mesmo além-Reno, no final da guerra. História de reenquadrar o debate. Uma senhora idosa é selvaticamente assassinada na sua cama por dois skinheads, porque é judia. À saída do Conselho de Ministros, nas ondas da rádio e da TV, condena-se unanimemente este crime hediondo … mas também se assinala que o anti-semitismo de extrema-esquerda sob o disfarce de anti-sionismo ou anti capitalismo, é historicamente tão virulento quanto o sionismo de extrema-direita. Sem mencionar aquele que assola o mundo muçulmano. Em suma, nada de amálgamas. Sobretudo, nada disso. A extrema direita não tem o monopólio do ódio judaico.

O meu síndrome de Balint [1]

Uma estatística diz-nos que há em média cerca de cinco ataques perpetrados todos os dias no mundo, na grande maioria dos casos em nome da mesma causa, uivando quase todas as vezes o mesmo slogan: “Hitler é grande!” Além disso, quando um esquerdista psicopata faz uma carnificina na Noruega, alguns meios de comunicação e alguns políticos apressam-se a salientar que não é apenas a extrema-direita que se comporta mal na história, com um grande e um pequeno “h”.

Um crime bárbaro é cometido em… quando o meu cão começou a ladrar e me arrancou brutalmente deste pesadelo. A transpirar, mas muito feliz por reencontrar o mundo real. Encantado por ter fugido deste surreal e francamente assustador universo onde não queremos ver a ameaça, onde afogamos os peixes, onde priorizamos tão estranhamente os perigos. Como se todos gritassem “olha o lobo, olha o lobo!”, enquanto um crocodilo está aos nossos pés…

 

Texto original em https://www.causeur.fr/extreme-droite-attentats-gauche-republique-151342

Nota

[1] N.T. Do neurólogo húngaro Rudolph Bálint, conjunto de sintomas caracterizados por ataxia óptica e potenciais problemas no cálculo de distâncias e por parálise psíquica do olhar, também chamada ataxia ocular e por transtorno geral da atenção visual. Estes sintomas estão ligados a lesões de origem parietooccipital bilateral. Vd. https://es.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome_de_B%C3%A1lint

 

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