CARTA DE BRAGA – “advérbios de modo” – por ANTÓNIO OLIVEIRAa

Ainda me custa dizer, sem me enganar, o terrível palavrão ‘inconstitucionalmente’!

A primeira vez que arrisquei dizê-lo durante uma gravação e depois de algumas tentativas, já o operador rindo incontrolavelmente, me fez sinal para parar a função, para os dois recuperarmos, se possível!

Consegui dizer o palavrão todo de seguida e sem gaguejar, ao fim da quarta tentativa, sem contar as anteriores!

 

Suponho que só nesse dia e com isto, reencontrei a importância do vocábulo ‘espera’, tanto forma de conjugação verbal, como substantivo decorrente do verbo esperar, mas ambos tidos hoje como desperdício, um dos males maiores do nosso tempo.

Se experimentarem ficar parados num canto de rua numa cidade qualquer só para olharem as pessoas, vão reparar como passam sempre apressadas (menos as dos telemóveis!) e, às vezes, para estacar logo meia dúzia de metros depois, à espera de alguém ou de qualquer coisa. Nessa altura agarram no telemóvel ou mexem as mãos como afogados, sem saber o que fazer.

 

Tive um professor, já lá vão muitos anos, que costumava dizer ‘negócio só quer dizer negação do ócio’, mas recordo-o a miúdo sempre que vejo em qualquer lugar, um ror de gente à procura, desesperada e incontrolavelmente, de reduzir ao mínimo ou mesmo banir, todo e algum intervalo entre espaço e tempo.

E contam para isso não só com os telemóveis, mas também com todas as máquinas que nos atendem, mesmo pelo telefone, mais aquele sinistro ‘sirva-se, pague, leve e não perca tempo’ que, sem qualquer reflexão colateral, serve muito bem para nos levar a gastar mais rapidamente.

 

Mas a degradação máxima da ideia da ‘espera’ está na imagem tantas vezes glosada, de um casal de namorados ou de uma família inteira num restaurante, onde se vê cada um à procura de ultrapassar a incomodidade da ideia, prestando atenção apenas ao próprio telemóvel.

 

Penso que toda esta preocupação em anular a importância da espera, conduz também (não posso dizer apenas!) ao aumento da soledade, o ‘estado de tristeza de quem se acha só’ (Priberam dixit) quando no ‘ser e estar’ da espera se podem encontrar (e encontram!) a paciência, a inspiração, a intuição e até aquele tão menosprezado instinto!

São companhias que precisam de quietude e da consciência do espaço, a mesma que leva à percepção do tempo, tudo aquilo que estamos a perder com a hiperligação permanente, só dependentes de minúsculos ícones, também inconstitucionalmente controláveis, por alguém ou algo sem ‘superintendência’ (recuso fazer o advérbio!) já o fazer a montante!

 

Montante, aonde? Quem ousará a resposta?

Nunca tão simples e tão explícita como a sentença que uma criança desenhou cuidadosamente e a cores, para um livrinho infantil,

O mar vai tão longe que se perde de vista!

 

António M. Oliveira

 

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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