A GALIZA COMO TAREFA – habitus- Ernesto V. Souza

Somos filhos da nossa cultura e práticas sociais. Ou dito doutro jeito: a nossa atuação social, estética e comportamentos de grupo: políticos, associativos, alimentícios, estéticos, profissionais vêm definidos pela nossa socialização e habitus cultural. E o que é mais, o nosso pensamento, e com ele a imagem que cuidamos dar e a auto imagem na que nos reconhecemos, articula-se a respeito e dentro destes esquemas apreendidos e referencias ambiente.

Quando essa socialização coincide com o esquema laboral, profissional, grupal, social, de participação política no que nos inserimos, não há qualquer problema. As codificações ajustam, podem ser retificadas ou melhoradas pela experiência, mas no fundo são as mesmas. Quando não coincide, eis que se estabelece um conflito, já latente, já explícito; que pode por sua vez manifestar-se,  e de manifestar-se dentro da panóplia de possibilidades que vão desde o rejeitamento, a aceitação, passando pela frustração e até a rotura em forma de sucesso ou de fracasso. voto

Porém ambas as noções: sucesso e fracasso, não passam também de imagens apreendidas. De referentes sociais e de atributos (a respeito de expectativas ou de indicadores externos) construídos pela própria sociedade em forma de imagens. Imagens, muitas vezes escolares, televisivas e norte-americanas e tão desajustadas a respeito das sociedades em que morávamos até há nada, como poderiam ser num futuro não longínquo as chinesas.

Lembro há alguns anos uma cena curiosa. Ia, com a família, de vagar e férias, caminho do Algarve, no meio do verão. E paramos, por tomar-lhe alguma cousa, à beira poeirenta de uma estrada entre Ávila e Cáceres. No interior sombrio de um barzinho, um paisano para idoso, fornido ainda, de camisa branca e pucha na testa, a rir às gargalhadas entretanto ia papando um caldo em cunca rústica de barro, com pão, algo de chouriço, pernil e vinho da casa. Ria de um filme americano no que os protagonistas arrastados pela crise económica, iam se desclassando e perdendo simbólica, dramática e escalonadamente todos os atributos do sucesso: o trabalho, o clube de golfe, o carro, a casa, o bairro, a sanidade, as amizades, a educação dos filhos…

Afinal o homem passou o dorso da mão pela boca e depois o pano. Ergueu-se da mesa com satisfação e proveito, cumprimentou o dono e os presentes sem deixar de sorrir e foi-se embora. Nós também saímos, e ao ir guiando pela paisagem fiquei a pensar naquele senhor Cayo, de Miguel Delibes, nas satisfações pessoais, nas campanhas de terror escolar-televisivo sobre o fracasso pessoal e na fragilidade das imagens capitalistas de sucesso social com que nos querem vender esta viagem neocon a nenhures.

 

 

One comment

  1. Abanhos

    Muito sábio és

    http://www.epipolicycenter.org/epipc-rjwa-2018/?utm_source=Economic+Policy+Institute&utm_campaign=6a03cbcad7-EMAIL_CAMPAIGN_2018_12_04_04_15_COPY_01&utm_medium=email&utm_term=0_e7c5826c50-6a03cbcad7-59708377&mc_cid=6a03cbcad7&mc_eid=4af161195d
    If a worker is seeking justice because they have not been paid fairly, have been discriminated against, or have been sexually harassed, they are often forced into a process that overwhelmingly favors the employer―and they’re forced to manage this process alone.

    Mandatory arbitration clauses and class action waivers are part of a long and growing list of tactics used by employers to keep workers’ bargaining power weak and their wages down. EPI research shows that between 1992 and today, the share of employees subject to forced arbitration has increased from just 2 percent to 56 percent! That means that more than half of U.S. workers would not be able to pursue a claim in court if their legal rights are violated by their employer.

    Gostar

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