O custo real da crise financeira de 2008. Artigo de John Cassidy sobre o livro “Desastre: como uma década de crise financeira mudou o mundo” de Adam Tooze

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Aos meus alunos de há quarenta anos

40 anos depois, participei num encontro com estudantes de há quatro décadas, em que estes assinalavam o peso do tempo de uma forma bem menos pronunciada do que o autor destas linhas.

Um encontro com uma geração de há quarenta anos atrás, que acabou por ser tanto um encontro com estudantes, o nosotros da língua de Cervantes e não o autrui de Sartre, como também um encontro interior do velho professor que sou com o jovem e irreverente professor que fui, a lembrar talvez um pouco um personagem de Bergman, creio que no filme Morangos Silvestres, também este visto há bem mais de 40 anos no cinema Império, em Lisboa.

Neste encontro, um ou outro aluno fez-me lembrar questões feitas em orais, daquelas que seriam totalmente inesperadas e que conservaram bem vivas no conjunto das coisas que não querem esquecer, um ou outro recordou-me o jovem que eu fui, com a mão esquerda no bolso de trás das calças de ganga enquanto que com o giz na mão direita deduzia e enchia o quadro de fórmulas. Talvez fossem as que expressavam as relações entre preço relativo dos fatores, preço relativo dos produtos e intensidades capitalísticas, da teoria neoclássica, talvez as que expressavam a relação entre (w/r), pb (r) e ki( r) da teoria neorricardiana, talvez as equações do modelo de crescimento de Lamfalussy onde a repartição do rendimento era uma variável chave no crescimento, o que hoje e desde a Troika, sobretudo, se quer ignorar, ou talvez a referirem-se a outras matérias. Um outro lembrou-me o meu hábito dessa época de virar das costas para o quadro e dizer: enganei-me, digam-me onde, por favor.

Enfim, isso levou-me, mais uma vez, nesse encontro comigo mesmo, a confrontar o que se ensinava então com o que se ensina agora mas essa análise já a fiz repetidas vezes, como por exemplo na carta aberta recentemente enviada aos Ministros do Ensino Superior e da Economia sobre o que não se ensina de economia hoje, em Portugal ou algures na Europa, publicada no sítio A viagem dos Argonautas, e integrada numa série de textos intitulada A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal, pelo que nos fiquemos por aqui.

Um encontro extremamente agradável, mesmo que possa ter estado presente um ou outro traço, dispensável, do que se pode entender como expressando a ideia do socialmente correto mas as idades e a época já não são o que eram, a lembrarmo-nos de Paul Valery. Por isso mesmo, a necessidade e a utilidade destes tipos de encontros, de reencontros, de reavivar de tempos idos. Que se repitam, pois.

A estes alunos de há quarenta anos dedico o trabalho a ser brevemente publicado em A viagem dos Argonautas, intitulado O custo real da crise financeira de 2008 de Adam Tooze.

Coimbra, 21 de Outubro de 2018

Júlio Marques Mota

O custo real da crise financeira de 2008

john cassidy Por John Cassidy

Publicado em The New Yorker em 17 de setembro de 2018

custo real da crise 2008

A história edificante da recuperação económica negligencia as consequências políticas do colapso financeiro, aqui e no exterior. Ilustração por Woody Harrington

 

As consequências da crise deram origem a uma década perdida para as economias europeias e ajudaram ao aparecimento de movimentos políticos anti-establishment nos Estados Unidos e no estrangeiro.

O dia 15 de setembro assinala o décimo aniversário da falência do banco de investimento Lehman Brothers, que pressagiou a maior crise financeira e a mais profunda recessão económica desde os anos 30 do século passado. Depois do Lehman ter declarado falência e de grandes áreas dos mercados financeiros entrarem em disfuncionamento, parecia que muitas outras grandes instituições financeiras também entrariam em colapso. Em 18 de setembro de 2008, Hank Paulson, o Secretário do Tesouro, e Ben Bernanke, o Presidente da Reserva Federal, foram a Capitol Hill e disseram aos líderes do Congresso que se eles não autorizavam um resgate bancário na ordem de 700 mil milhões de dólares o sistema financeiro iria implodir. Alguns republicanos relutantemente puseram de lado as suas reservas. A lei do resgate do sistema financeiro foi aprovada. O pânico em Wall Street desfez-se. E depois o que é que seguiu?

A narrativa padrão é que com a operação de resgate se conseguiu estabilizar o sistema financeiro. A economia dos EUA recuperou, estimulada por um estímulo fiscal que a administração Obama conseguiu aprovar no Congresso em fevereiro de 2009. Quando o estímulo económico começou a diminuir, o FED deu à economia outro impulso através da compra de grandes quantidades de títulos, uma política conhecida como Flexibilização Quantitativa. Finalmente, os grandes bancos, estimulados pelos reguladores e pelo Congresso, reformaram-se para evitar uma repetição do que aconteceu em 2008, nomeadamente através do aumento da quantidade de capital de reserva para poderem responder a contingências. Esta é a história básica que Paulson, Bernanke, e Tim Geithner, que era o Secretário do Tesouro durante a administração Obama, contaram nas respetivas memórias. A esta narrativa foi dado um imprimatur académico em livros como o de Daniel Drezner: “The System Worked: How the World Stopped Another Great Depression”, publicado em 2014.

Esta história é, nos seus próprios termos, perfeitamente exata. No início dos anos de 1930, quando as autoridades permitiram que milhares de bancos se desmoronassem, a taxa de desemprego disparou e atingiu quase os vinte e cinco por cento e as cozinhas de sopa para os pobres e os bairros de lata surgiram por todo o país. No rescaldo da crise de 2008 viu-se muito sofrimento – milhões de americanos perderam as suas asas na sequência de execuções sobre as hipotecas, e no Verão de 2010 a taxa de desemprego tinha subido para quase dez por cento – mas nada comparável com os anos 30. Hoje, a taxa de desemprego tem vindo a cair e está em cerca de 3,9 por cento.

Contudo, há muito mais a dizer nesta história do que esta narrativa edificante baseada em Washington. No livro “Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World”, o historiador económico da Universidade de Columbia, Adam Tooze, salienta que ainda estamos a viver sob os efeitos da crise que rebentou em 2008, incluindo efeitos políticos. Utilizar o dinheiro dos contribuintes para resgatar banqueiros gananciosos e incompetentes foi uma opção intrinsecamente política. O mesmo se passa com o programa de flexibilização quantitativa, uma tática que outros bancos centrais também adotaram, seguindo a liderança do FED. Este programa funcionou principalmente a impulsionar o preço dos ativos financeiros que eram maioritariamente propriedade de pessoas ricas.

Como os salários e os rendimentos continuaram a definhar, o esforço de resgate gerou uma reação populista em ambos os lados do Atlântico. As políticas de austeridade, especialmente na Europa, acrescentaram outro toque sombrio ao processo de polarização política. Em consequência, escreve Tooze, “a crise financeira e económica de 2007-2012 transformou-se entre 2013 e 2017 numa crise política e geopolítica global da ordem internacional pós Guerra Fria “- o que ajudou a colocar Donald Trump na Casa Branca e levou a que partidos nacionalistas de direita alcançassem o poder em muitas partes da Europa. “As coisas poderiam ser piores, é claro”, observa Tooze. “Em 1939 poder‑se‑ia comemorar o décimo aniversário de 1929. Não chegámos aí, pelo menos ainda não. Mas este é, sem dúvida, um momento mais desconfortável e desconcertante do que alguma vez poderia ter sido imaginado antes da crise começa. “

Nos anos que conduzem a setembro de 2008, recorda-nos Tooze, muitos formuladores de políticas e especialistas americanos andavam centrados no perigo global errado: a possibilidade de que a China, reduzindo as suas volumosas compras de obrigações do Tesouro americano, fizesse cair enormemente o valor do dólar. Entretanto, as autoridades americanas ignoraram praticamente a loucura que se desenvolvia no mercado imobiliário, e em Wall Street, onde os banqueiros estavam a cortar e recortar em parcelas de grau de risco diferenciado conjuntos de milhões e milhões de empréstimos de qualidade de lixo na compra de casas. A cortar, recortar e a vender os títulos correspondentes de cada parcela aos investidores na forma de títulos de dívida garantidos por hipotecas. Em 2006, este era o caso de sete em cada dez novas hipotecas.

Tooze faz um trabalho competente na orientação dos leitores sobre as tóxicas siglas alfabéticas dos produtos baseados em hipotecas cozinhados por Wall Street: M.B.S.s, C.D.O.s, C.D.S.s, e assim por diante. Ele olha com desprezo para a transformação de bancos comerciais como o Citigroup de bancos de crédito de longo prazo em supermercados financeiros -“prestadores de serviços por uma comissão”- nas décadas anteriores a 2008, e Tooze sublinha, com razão, o papel ativo que as sucessivas administrações desempenharam neste processo, em especial Bill Clinton.

Mas o grande mérito do livro de Tooze — que ele desenvolve em mais de 700 páginas — é a sua perspetiva global. Tooze analisa as repercussões, indo tão longe quanto a Rússia, a China e o Sudeste asiático. Ele expõe o papel desempenhado pelos bancos europeus e os fluxos transfronteiriços de capitais financeiros. E apresenta um relato detalhado da prolongada crise na zona euro, que, na sua opinião, “não é um evento separado e distinto, mas está na sequência direta do choque de 2008.”

A febre subprime teve origem nos Estados Unidos, mas rapidamente espalhou-se pelos gigantes europeus como Deutsche Bank, HSBC, e Credit Suisse: por volta de 2008, perto de trinta por cento de todos os títulos de alto risco baseados em hipotecas estavam nas mãos de investidores estrangeiros. Embora os principais bancos internacionais tenham domicílio e estejam regulamentados nos seus países de origem, eles estavam a operar num mercado de capitais único e integrado. Assim, quando a crise rebentou e muitas fontes de financiamento bancário a curto prazo ficaram indisponíveis, os bancos europeus foram deixados em situação de desequilíbrio. Em alguns aspetos, estes bancos estavam mesmo em pior situação que os bancos americanos, porque precisavam de renovar os seus ativos assentes em hipotecas e designados em dólares, e os bancos centrais da Europa e credores de último recurso – o Banco Central Europeu, o Banco de Inglaterra, e o Banco Nacional da Suíça- não dispunham de dólares suficientes para os renovar.

Paulson e Bernanke não previram nada disto quando tomaram a decisão fatídica, em 14 de setembro de 2008, de deixar o Lehman Brothers falir. Paulson, em particular, estava ansioso para escapar ao rótulo de “rei do resgate”, com que tinha sido alcunhado um ano antes e logo a seguir à orquestração do resgate do Bear Stearns. Um desastre bancário internacional foi evitado apenas porque o FED concordou em fornecer aos seus homólogos europeus uma quantidade virtualmente ilimitada de dólares através de acordos de troca de divisas, ditos swaps de divisas, e concedeu aos bancos europeus em dificuldade o acesso a vários empréstimos de emergência e garantias de empréstimos que foram estabelecidas nos Estados Unidos. “O Federal Reserve empenhou-se numa inovação verdadeiramente espetacular”, escreve Tooze. “Assumiu-se ele próprio como fornecedor de liquidez de último recurso ao sistema bancário global.”

Mas o FED escondeu muito do que estava a fazer ao público americano, que já estava chocadíssimo com o resgate de bancos americanos. Foi só anos mais tarde, como resultado da reforma do sistema financeiro através da lei Dodd-Frank e de uma ação judicial de liberdade de informação interposta pela Bloomberg News, que os detalhes destas operações do FED vieram a público. As somas envolvidas foram enormes. De acordo com as contas de Tooze, o FED forneceu perto de 5 milhões de milhões de dólares em liquidez e em garantias de empréstimos aos grandes bancos não americanos. O FED também concedeu cerca de 10 milhões de milhões de dólares a bancos centrais estrangeiros através de swaps de divisas. Tal como com o resgate dos 700 mil milhões de dólares para os bancos domésticos, praticamente todo esse dinheiro foi finalmente reembolsado, com juros. Mas, se o que o FED estava a fazer tivesse vindo a público em toda a sua dimensão na época teria havido um enorme alvoroço. Felizmente para os formuladores das políticas praticadas, não houve nenhuma fuga de informação. Um funcionário da Federal Reserve de New York, que ajudou a promulgar muitos dos programas de empréstimos secretos, disse a Tooze que era como se “um anjo da guarda estivesse a cuidar de nós.”

Muitos dos políticos que vieram a ficar associados à crise financeira e aos resgates bancários não tiveram tanta sorte. Em 2009 e 2010, os partidos de centro-esquerda que ocupavam posições de poder nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e na Alemanha todos eles sofreram revezes eleitorais. Em Berlim e em Londres, os novos governos de centro-direita comprometeram-se a cortar orçamentos e a reduzir os défices, o que fez subir drasticamente as taxas de desemprego enquanto desciam as receitas fiscais. Os economistas keynesianos alertaram que a recuperação era demasiado frágil para resistir a medidas de austeridade, mas muitos economistas conservadores apoiaram fortemente as medidas de austeridade. A própria Alemanha recuperou mesmo depois de ter aprovado uma alteração de orçamento equilibrado na sua Constituição e promulgou os mais profundos cortes de gastos na história da República Federal. No entanto, a recusa da maior e mais poderosa economia da Europa em atuar como uma locomotiva e para ajudar a compensar as forças deflacionárias existentes noutros lados da zona euro, teve algumas consequências muito negativas para o conjunto da zona euro.

Tooze analisa longamente a transição europeia da estabilização para a austeridade, que coincidiu com o aparecimento de uma crise de dívida soberana em três membros periféricos da zona euro: Grécia, Irlanda e Portugal. A “crise do euro” é muitas vezes enquadrada como sendo uma história de governos perdulários com uma gestão descontrolada, mas as verdadeiras fontes do problema foram falhas subjacentes ao sistema de construção do euro e foi a criação de demasiado crédito por bancos do setor privado – o mesmo fenómeno que levou à crise da dívida dita subprime nos Estados Unidos.

Em 1998, onze países continentais adotaram o euro como moeda comum, incluindo os três grandes países europeus: França, Alemanha e Itália. A Grécia seguiu este trio no ano seguinte. (Mais sete países tinham‑se‑lhe juntado entretanto.) No âmbito do sistema euro, os países individualmente renunciaram à liberdade de fixarem as suas próprias taxas de juro e de ajustarem as suas próprias moedas. Em vez disso, haveria uma taxa de juro única, definida pelo Banco Central Europeu, em Frankfurt, e uma taxa de câmbio única, fixada pelo mercado. Os países membros também foram obrigados a cumprir metas precisas em termos dos seus défices orçamentais.

Ao longo do tempo, muitas das economias europeias mais fracas chegaram a irritar-se com estas restrições. No início, porém, o sistema parecia ser uma droga milagrosa. Os investidores tinham tratado tradicionalmente países como a Grécia, a Irlanda e Portugal como apostas arriscadas e exigiam rendimentos generosos sobre os títulos emitidos por esses países. Depois destes países adotarem o euro, no entanto, os investidores internacionais encheram-se dos seus títulos como se estivessem ao par com títulos franceses e alemães, mesmo quando os rendimentos caíram. Tooze salienta que dos cerca de três centenas de milhares de milhões de euros em obrigações do Estado grego que tinham sido emitidas no final de 2009, mais de dois terços estavam nas mãos de investidores estrangeiros.

Em retrospetiva, o entusiasmo por esta dívida representou uma bolha de crédito tão flagrante quanto a bolha americana que tinha visto a Moody’s e outras agências do mesmo género a conferirem a notação de Triplo-A à dívida subprime de alto risco. Embora os títulos gregos fossem designados na mesma moeda que os títulos alemães, eles eram apoiados pelo Estado grego em situação instável. O que tornou a situação ainda mais arriscada foi que a Europa, ao contrário dos Estados Unidos, não tinha um FED para servir como uma força estabilizadora em caso de crise. O Banco Central Europeu estava proibido de comprar títulos recém-emitidos diretamente aos governos membros e, durante um longo período de tempo, esteve relutante em comprar títulos anteriormente emitidos e existentes nos mercados secundários. Faltou também aos europeus algumas das facilidades de liquidez e de linhas de crédito que o FED tinha estabelecido após 2008 e em 2009. Além disso, a zona euro não tinha uma política orçamental centralizada que pudesse ajudar os países membros que se encontravam em apuros. Quando surgiram sérios problemas na Grécia, na Irlanda e em Portugal, e os mercados ficaram debilitados, o sistema político europeu ficou paralisado.

custo real da crise 2008 2

“Um cavalheiro ofereceria o seu lugar.” Ilustração de Woody Harrington.

 

O dilema de como lidar com o problema da Grécia foi especialmente grave. Em meados de 2009, tornou-se evidente que o pequeno país mediterrânico não estava apenas a sofrer de uma crise de liquidez – estava insolvente. O seu PIB estava a cair a pique, o seu défice público tinha aumentado aproximadamente de treze por cento do PIB e os rendimentos nas suas obrigações tinham disparado em flecha. “O que a Grécia precisava de fazer era de reestruturar, acordar com os seus credores para reduzirem o valor dos seus créditos”, escreve Tooze. No entanto, muitos eleitores da zona euro, nomeadamente os da Alemanha, não estavam dispostos a fazer favores aos gregos, aos irlandeses ou aos portugueses.

Esta relutância é muitas vezes atribuída a uma crença muito germânica de que os europeus do Sul, e os gregos em particular, são preguiçosos e imprevidentes. Tooze sublinha um outro fator: após a reunificação da Alemanha em 1990, o governo de Berlim gastou mais de um milhão de milhões de dólares reconstruindo e subsidiando a Alemanha de Leste. Quando Angela Merkel, uma alemã da antiga Alemanha de Leste, assumiu o cargo de Chanceler, em 2005, os Landers ricos do sul da Alemanha, incluindo Baden-Württemberg e Baviera, estavam a fartos. “Bem antes da crise grega ter rebentado” escreve Tooze, “as regiões mais prósperas da Alemanha Ocidental tinha tornado bem claro que se recusavam a assumir a responsabilidade pelas dívidas dos outros.”

Em maio de 2010, a União Europeia, em concertação com o Fundo Monetário Internacional, concordou em emprestar à Grécia 110 mil milhões de euros, que o país utilizou para pagar parte da dívida que era detida pelos bancos e investidores estrangeiros. Uma vez que a dívida foi eliminada ao seu valor facial ou perto disso, isso assumiu a forma de um resgate disfarçado- não para a Grécia, que apenas substituiu uma forma de dívida por outra, de dívida privada passou a ser dívida pública, mas sim para os bancos estrangeiros que tinham comprado títulos gregos. Embora os bancos, como o francês BNP Paribas e o alemão Commerzbank se tenham saído sem custos relevantes, o mesmo não se passou com o povo grego. Em troca dos novos créditos, a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI — a “Troika” — insistiram em reduções drásticas nos programas governamentais. Como dizem os manuais escolares keynesianos, estes cortes colocaram a economia grega numa recessão ainda mais profunda, diminuindo assim ainda mais a capacidade do país reembolsar as suas dívidas.

O severo tratamento que a Grécia recebeu estabeleceu o modelo para os acordos de empréstimo que a Troika fez, em seguida, com a Irlanda, Portugal e Chipre, países estes que tinham as suas próprias crises bancárias. Combinado com a insistência da Alemanha no cumprimento das metas orçamentais e a sua recusa em adotar estímulos à economia, esta política produziu uma década perdida para a economia europeia, e contribuiu para o aparecimento de partidos políticos anti-establishment como Syriza, na Grécia; Podemos, em Espanha; e o Movimento das Cinco Estrelas, na Itália. Esta abordagem draconiana nada fez para estabilizar o conjunto do sistema do euro.

Pelo contrário, os mercados alarmaram-se, em 2011 e 2012, sobre a credibilidade de vários dos grandes países europeus, especialmente a Espanha e a Itália. Os “spreads” — a diferença entre os rendimentos obtidos em títulos espanhóis e italianos versus os rendimentos obtidos com títulos alemães — aumentaram acentuadamente, sinalizando o disfuncionamento e a desconfiança naqueles mercados. Em Washington, Tim Geithner e outras autoridades americanas, que tinham aprendido como é que os problemas financeiros se poderiam espalhar rapidamente de uma região a outra, observavam a situação com consternação. Tooze relata como, na reunião anual do FMI em setembro de 2011, Geithner alertou para a situação de “um incumprimento em cascata, de uma corrida aos bancos e de um risco catastrófico” se os europeus não construíssem uma proteção adequada, um verdadeiro corta-fogo. Nos bastidores, Geithner solicitou ao Presidente Obama para exercer pressão sobre Merkel e sobre os outros líderes europeus para imitarem alguns dos passos que os Estados Unidos tinham tomado em 2008, incentivando-os a criar um fundo de resgate adequado e transformar o Banco Central Europeu num instrumento eficaz contra a crise. A pressão de Geithner não funcionou. À medida que os medos dos mercados se intensificaram, também se intensificou a especulação de que a União Europeia se pudesse desfazer.

Foi deixado a Mario Draghi, o Presidente do Banco Central Europeu, a tarefa de restabelecer alguma calma. Em 26 de julho de 2012, Draghi, um conhecido economista italiano que obteve o seu doutoramento no M.I.T. e posteriormente trabalhou no Banco Mundial, no Tesouro italiano e no Goldman Sachs, fez um discurso em Londres defendendo que os mercados e os governos estrangeiros haviam subestimado o capital político investido na moeda europeia. “Dentro do nosso mandato, o BCE está pronto para fazer o que for preciso para preservar o euro”, prometeu. “E, acreditem, isso será o suficiente.”

Draghi não forneceu detalhes sobre o que o BCE poderia fazer, e alguns observadores inicialmente ficaram céticos. “Ridículo… totalmente improvisado”, escreveu Geithner no seu livro de memórias, que Tooze cita extensivamente. Mas o discurso provou ser um ponto de viragem. Em setembro de 2012, Draghi anunciou que o BCE estava agora preparado para comprar títulos emitidos por países individuais da zona euro, um movimento que finalmente criou um credor e comprador ao estilo do FED. (Ele convenceu Merkel e o seu ministro das Finanças que não havia nenhuma outra alternativa.) Ao mesmo tempo, os membros da zona euro criaram um fundo de resgate permanente, o Mecanismo Europeu de Estabilidade, com uma capacidade de empréstimo de 500 mil milhões de euros. “A fórmula de Draghi- a fórmula americana -era autorrealizadora,” escreve Tooze. “Os mercados estabilizaram. A zona euro foi salvaguarda pela sua americanização”. Em ambos os lados do Atlântico, a questão duradoura era: a que preço?

Apoiado por garantias governamentais explícitas e implícitas, o sistema financeiro ocidental sobreviveu à grande crise e, de certa forma, parece estar mais robusto do que antes de 2008. Um estudo recente do Banco de Pagamentos Internacionais, uma instituição baseada em Basileia que tem estado na vanguarda dos esforços para fortalecer o sistema de crédito, observou que os grandes bancos detêm agora, em média, o dobro do capital que tinham antes da crise, e adotaram várias outras reformas. No entanto, os bancos permanecem altamente endividados e altamente interconectados. Toda a gente sabe que numa situação de pânico ao estilo de 2008 estes cairiam como dominós e que apenas a intervenção em grande escala pública seria capaz de os resgatar. Como resultado, a expectativa geral é que, se estivéssemos perante a ocorrência de uma outra crise, os governos (e os contribuintes) iriam novamente entrar para tapar o buraco criado. O problema de bancos demasiados grandes para poderem falir não foi afastado; pode até ser mais agudo do que antes, porque uma vaga de fusões verificada durante a última crise deixou o setor bancário mais concentrado do que nunca.

E os bancos não são a única ameaça potencial para a estabilidade financeira. De acordo com o relatório de Basileia, os gestores de ativos controlam agora quase 160 milhões de milhões de dólares, mais do que o valor dos ativos detidos pelos bancos à escala planetária. Durante uma venda sob pressão do mercado, advertiu o mesmo relatório, algumas destas empresas poderiam enfrentar pressões – tais como uma corrida dos investidores ansiosos por transformar em dinheiro o valor dos seus títulos – o que conduziria a uma espiral descendente.

Outros analistas apontam para os perigos de preços elevados das ações e do endividamento crescente das empresas não-financeiras, muitas dos quais têm vindo fortemente a contrair empréstimos para financiar a recompra de ações e de outros investimentos financeiros. Um estudo recente de McKinsey mostrou que nos últimos dez anos a quantidade de dívida das grandes empresas triplicou à escala global. Nos Estados Unidos, o estudo observou, que quase dois terços da dívida não-financeira é classificado como lixo ou um nível acima de lixo. Aproximadamente 3 milhões de milhões de dólares deste crédito questionável chega à maturidade nos próximos cinco anos. Se a economia começa a fraquejar ou se as taxas de juros sobem acentuadamente, muitas empresas podem encontrar-se na posição semelhante à de novos detentores de hipotecas de há uma década atrás, incapazes de reembolsar ou renovar as suas dívidas.

Há mais de quatro décadas atrás, o economista Hyman Minsky observou que os períodos de estabilidade e otimismo dos investidores – tal como como o que temos estado a assistir nestes últimos anos – tendem a amplificar os perigos colocados por um sistema financeiro baseado no crédito fácil. Se os benefícios da tomada de riscos financeiros forem abundante e amplamente compartilhados, pode valer a pena que a sociedade ganhe fôlego e jogue a sua sorte suportando o custo de uma explosão ocasional. Mas, hoje em dia, quem é que acredita que um setor financeiro desenfreado é bom seja para quem for, com exceção para os financeiros para quem, isto é sempre conveniente?

Nos Estados Unidos e noutros países, os custos a longo prazo da crise financeira e da grande recessão foram enormes. A recuperação económica que começou, de acordo com o National Bureau of Economic Research, no Verão de 2009 foi fraca e desigual. O crescimento do PIB, dos salários, do investimento em capital e da produtividade continuaram a perder terreno na maioria da década seguinte. Em novembro de 2013, cinco anos após o resgate da banca, Larry Summers, conselheiro económico do Presidente Obama durante o seu primeiro mandato, sugeriu que a economia americana tinha entrado numa fase de “estagnação secular”, um termo que foi criado nos anos de 1930 mas que não tinha sido bem aceite com exceção de um pequeno grupo de economistas marxistas.

Com a economia numa situação de marasmo, o argumento tecnocrático de que tinha sido necessário para salvar Wall Street, a fim de salvar os cidadãos comuns (a Main Street), caiu em saco roto, e uma narrativa alternativa ganhou uma aceitação generalizada: todo o jogo tinha sido “manipulado”. Não eram apenas os apoiantes do Tea Party e de Occupy Wall Street que disseram isso. Na eleição de 2016, Donald Trump e Bernie Sanders ambos ofereceram versões desta história. O establishment do Partido Democrata conseguiu ultrapassar a insurreição de Sanders, mas Trump conseguiu colocar do seu lado os republicanos descontentes e também alguns eleitores de Obama descontentes, no dia das eleições Presidenciais.

O ressentimento em relação a Wall Street e às elites de Washington era apenas parte da plataforma de apoio de Trump – os medos raciais e a hostilidade para com os imigrantes foram outro elemento-chave – mas foi uma das suas mensagens finais, duradouras. Como salienta Tooze, o último anúncio televisivo da campanha de Trump exibiu em destaque fotos de rosto de Janet Yellen, a Presidente do Federal Reserve na época, e Lloyd Blankfein, o chefe executivo da Goldman Sachs, enquanto Trump, numa voz alarmista, advertia que “uma estrutura de poder global” tinha tomado decisões que ” roubaram a nossa classe trabalhadora, despojando o nosso país da sua riqueza e colocaram esse dinheiro nos bolsos de um punhado de grandes empresas e entidades políticas”. Poucos dias depois, Trump ganhou os Estados suficientes para declarar a sua vitória. “Ensombrada pelas lembranças de 2008, a eleição de 2016 emitiu um veredicto severo,” escreve Tooze.

Desde então, os republicanos no Congresso eliminaram algumas das regulamentações financeiras que foram postas em prática depois de 2008. Eles reduziram os requisitos de capital próprio para todos os bancos, salvo os muito grandes e procuraram enfraquecer a regra Volcker, que barra a qualquer banco a possibilidade de especular nos mercados por conta própria. Entretanto, Trump adotou uma postura neoisolacionista sobre muitas questões, levantando a questão de como reagiria a sua Administração se outra crise financeira ameaçasse a economia global.

Para o fim do seu livro, Tooze volta à frágil coligação bi-partidária que tomou forma em setembro de 2008, a fim de “manter os Estados Unidos juntos e fornecer os fundamentos para os esforços de estabilização global do FED e do Tesouro.” Essa resposta poderia ser hoje repetida? Com Trump na Casa Branca e com o Partido Republicano a controlar o Capitólio, Tooze escreve, “é uma questão em aberto se o sistema político americano apoiará até as instituições básicas da globalização, para não falar de qualquer combate corajoso a uma crise a nível nacional ou global. ” Ninguém pode dizer com certeza de onde virá a próxima crise financeira. Mas Trump e o Partido Republicano estão empenhados em acelerá-la, ao mesmo tempo que estão a minar a arquitetura necessária para lhe dar resposta.

 

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