Sobre o texto de Domenico Mario Nuti e a propósito de um comentário do Professor Marques Mendes (parte 1/2). Por Júlio Marques Mota

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Sobre o texto de Domenico Mario Nuti e a propósito de um comentário do Professor Marques Mendes (parte 1/2)

julio-marques-mota Por Júlio Marques Mota

em 24 de dezembro de 2018

Colocámos os textos de Domenico Mario Nuti, intitulados Ascensão e queda do Socialismo e Ascensão, queda e futuro do socialismo numa plataforma eletrónica destinada a Professores universitários.

Face a este texto recebi um comentário do Professor António Marques Mendes, tornado público pelo seu próprio autor:

Irei ler com interesse, não porque espere encontrar algo de novo, mas para tentar perceber o mistério da persistência das ideias socialistas.

Durante mais de um século, o socialismo foi experimentado das mais variadas maneiros e em todo o tipo de países sempre com o mesmo resultado: pobreza e falta de liberdade.

O mistério para mim é perceber como é que pessoas inteligentes, honestas e sinceras como tu ainda continuam a acreditar nessa utopia”.

Este comentário mereceu-me uma resposta simples, de cortesia até, em que afirmei:

Não arrumaria o texto com essa facilidade, como estás a fazer. As questões e o paralelismo com o capitalismo estão lá, não há que esquivar. O que o texto levanta são questões sobre a sociedade de ontem, de hoje e também sobre amanhã a que cada um de nós deve honestamente procurar encontrar respostas. Se assim não for caímos naquilo que um liberal inglês Victor Hill nos diz: ‘Economists should know better’ “.

Porém, não devo deixar de sublinhar que a distribuição do texto por mim colocada na plataforma eletrónica tinha como principal objetivo os eventuais estudantes, como de resto sublinhei: “Os textos são acompanhados por uma extensa bibliografia que abarca um século de história e de análise económica que penso poder ser útil para um ou outro estudante ideológica e intelectualmente mais arrojado, seja de mestrado, seja de doutoramento. Por esta razão, e apenas por ela, tomo a liberdade de vos disponibilizar o booklet de Domenico Mario Nuti sobre Socialismo”.

Ora no comentário do Prof. António Marques Mendes há uma argumentação que de certa forma julgo ser de cariz fortemente ideológico que pode levar potenciais estudantes interessados nalgumas das problemáticas, e estas são muitas, a desinteressarem-se pela minha sugestão de pegarem no texto, seja como base para teses de mestrado ou seja mesmo de doutoramento.

Os argumentos do Professor Marques Mendes são dois, a saber:

  1. “Durante mais de um século, o socialismo foi experimentado das mais variadas maneiros e em todo o tipo de países sempre com o mesmo resultado: pobreza e falta de liberdade”.
  2. “O mistério para mim é perceber como é que pessoas inteligentes, honestas e sinceras como tu ainda continuam a acreditar nessa utopia.”

Porém, esta argumentação pode ser igualmente a de qualquer estudante face ao título do texto, obviamente por razões diferentes das do Professor Marques Mendes. Pela posição assumida pelo Professor António Marques Mendes podemos pressupor que este aceita e defende a tese de Fukuyama, de que, com a queda do muro de Berlim, chegámos ao fim da História, mas face a esta posição relembro a posição de um homem da direita francesa, Charles Pasqua, que bem nos avisou de que devemos ter cuidado porque o Muro de Berlim não caiu para um só lado, mas para os dois. Três décadas depois, a tese de Pasqua está mais que confirmada de que assim foi. Três décadas depois do capitalismo se poder desenvolver livremente e de forma desenfreada, o capitalismo selvagem de agora e transposto a uma escala global, depois de ter rebentado uma profunda crise provocada pelo sistema neoliberal e de que se continua a não ver o fim, continuar a defender o fim da história como se subentende pelo argumento de Marques Mendes, é uma posição que nos custa a compreender… e muito.  Quanto à eventual recusa dos estudante de mestrado ou de doutoramento para tomarem o texto como base de trabalho nas suas teses, na base da argumentação do tipo da de Marques Mendes , aqui, as razões poderão ser tanto a carga ideológica que lhe tem sido injetada ao longo dos seus anos de Universidade pós-Bolonha, em que é tomado o termo Socialismo como representação de projetos económicos e sociais inconsistentes e falhados, pertencentes a um passado que se quer longínquo e para esquecer, como pode ser ainda  devido à eventual ignorância sobre estas temáticas, excluídas que estas estão do ensino universitário de hoje. Ora, a ignorância num estudante é normal, é algo que sempre me habituei a respeitar, desde que este assumisse que a sua função como estudante era exatamente a de vencer essa mesma ignorância, ou seja de aprender. Por estas duas razões de fundo relativas aos estudantes, a carga ideológica e a ignorância, penso oportuno sobrevoar, mesmo que sucintamente, a argumentação do Professor Marques Mendes, ao mesmo tempo que com isso procurarei esclarecer o eventual estudante que queira tomar o texto de Nuti como material de estudo, que a abordagem de Nuti representa um passo importante para descorticar o que podemos pensar construir como futuro das nossas sociedades atuais.

Sobre o primeiro ponto, diz-nos Domenico Mario Nuti:

A coletivização da terra envolveu imensos custos económicos e humanos. 100 milhões de camponeses russos foram privados da terra que tinham adquirido no século anterior e perderam a sua independência tornando-se funcionários do Estado. À expropriação em massa foi contraposta uma resistência fortemente agressiva, provocando a destruição de colheitas e o abate de animais (da ordem de metade dos cavalos, bovinos e suínos existentes), provocando a morte por fome de um número de pessoas estimadas em cerca de 5,5 a 6 milhões. Houve também uma queda drástica na natalidade, envolvendo no começo de 1935 uma perda demográfica de aproximadamente 18 milhões, dos quais dois terços consistiram em morte fetal.

Isto faz parte da história, não deve ser ignorado, deve ser analisado, devem ser explicadas os mecanismos e as razões que levaram o este resultado. Como disse Confúcio “Estude o passado, se quiseres decifrar o futuro.” Mas ao ler a argumentação de Marques Mendes isto parece ser o resultado apenas de pensamento utópico, nada mais que isso, entenda-se aqui pensamento utópico como pensamento inútil e desprovido de todo e qualquer sentido da realidade.

Mas enquanto a queda do regime “socialista” dos anos 90 ocorreu como resultado da degradação interna do próprio sistema, a transição, essa sim, ocorreu sob a tutela das potências ocidentais e dos seus múltiplos organismos nacionais ou internacionais, mas esta também não parece ter sido nada feliz, como de resto se vê bem hoje na crise europeia de agora.

Sobre esta transição em direção ao capitalismo, diz-nos Nuti:

Não há dúvida de que a transição pós-socialista trouxe a expansão das liberdades políticas e a redução das tensões internacionais. No entanto, ninguém tinha previsto que isso significou também – nas palavras de Ellman (2002b) – “mergulhar dezenas de milhões de pessoas num mundo de conflitos militares, de desigualdade, insegurança, pobreza, desemprego, crime, doença, deterioração dos serviços públicos e abandono forçado das suas casas. Que “o progresso da causa da liberdade individual e nacional à escala global” [prevista por Shtromas 1981] custaria o que foi pago pelas vítimas do conflito armado entre a Arménia e o Azerbaijão, dos conflitos na Moldávia, Geórgia, Tajiquistão, Chechénia, e ex-Jugoslávia, pelas vítimas russas e ucranianas da difteria, tuberculose, sífilis e alcoolismo que se tinham disseminado nestes países; e pelos pobres na Rússia, Ucrânia, Cazaquistão, Bielorrússia, Lituânia, Roménia e Bulgária… Nem os assuntos internacionais se tornaram mais harmoniosos. O colapso da URSS e o fim da guerra fria não eliminaram todos os conflitos internacionais existentes e criaram até alguns novos “(Ellman, 2002b).

Poderíamos acrescentar que os dividendos de paz tão amplamente esperados nunca se materializaram.

Tinha-se geralmente esperado que a transição pós-socialista conduziria ao início de melhorias significativas no nível e no crescimento do consumo e do rendimento das pessoas. Esta era uma expectativa plausível: o novo sistema iria gerar preços de equilíbrio no mercado tanto nas transações nacionais como nas internacionais, iria igualmente reavivar os incentivos para os acompanhar, graças à maximização e apropriação de lucros pelos proprietários das empresas privadas e, ao mesmo tempo, iria mobilizar e disciplinar a iniciativa empresarial.

Poucos dos responsáveis pela transição encararam a possibilidade de quedas de rendimento, mas previram no máximo uma baixa modesta e temporária de um só dígito, seguida por um crescimento acelerado que teria permitido que se alcançassem as outras economias de mercado. Em vez disso, o processo de transição foi acompanhado por uma profunda e muitas vezes prolongada “recessão de transformação” (rótulo de Kornai). Apenas Laski (1990) tinha previsto com grande precisão a recessão polaca.

Mas qualquer estudante ao ler Marques Mendes pode ficar com a ideia de que a pobreza e a miséria são exclusivamente características estruturais das experiências do socialismo, características estas que teriam desaparecido com a transição para o capitalismo. Ora, a transição para o capitalismo, que foi tanto obra das forças políticas internas dos países de Leste, como das Instituições Internacionais que “geriram” esta transição e dos grandes países capitalistas ocidentais que ativamente a apoiaram e incentivaram, teve como resultado “mergulhar dezenas de milhões de pessoas num mundo de conflitos militares, de desigualdade, insegurança, pobreza, desemprego, crime, doença, deterioração dos serviços públicos e abandono forçado das suas casas…..”

Mas chegados aqui devemos reconhecer, quando falamos de miséria, que esta se deve então tanto a um lado como a outro. Ignorar os países de Leste, na boa lógica de Marques Mendes, da miséria como resultado, deve-nos levar também a ignorar os países do lado de cá, corresponsáveis pela transição dos países de Leste para o capitalismo, ou seja, pela miséria gerada com a transição. Os efeitos dessa transição são ainda politicamente (e economicamente também) bem visíveis hoje. Consequência lógica e imediata da posição de Marques Mendes: devemos então ignorar ambos os lados, mas a ser assim, o que implicitamente nos propõe, é a ignorância total sobre a evolução dos dois sistemas: que se ignore e não se estude nem a evolução do capitalismo moderno nem a do socialismo atrasado, uma vez que ambos os sistemas comungam de um dado estrutural: a miséria, mesmo que as razões que estão na sua base possam ser muito diferentes. Esta é, pois, uma sugestão que ninguém pode aceitar

Vejamos o outro lado da moeda, o que se passou e passa num país que pode ser o contraponto do que se chamou e chama de socialismo. Falemos então, dos Estados Unidos.

Sobre os Estados Unidos, alguns factos chocantes:

Os Estados Unidos têm a maior população prisional do mundo, compondo menos de 5% da humanidade e mais de 25% da humanidade presa. Em cada 100 americanos 1 está preso.

sobre o texto de nuti e um comentario 1

A subir em flecha desde os anos 80, a surreal taxa de encarceramento dos EUA é um negócio e um instrumento de controlo social: À medida que o negócio das prisões privadas alastra como gangrena, uma nova categoria de milionários consolida o seu poder político. Os donos destes cárceres são também na prática donos de escravos, que trabalham nas fábricas no interior da prisão por salários inferiores a 50 cêntimos por hora. Este trabalho escravo é tão competitivo, que muitos municípios hoje sobrevivem financeiramente graças às suas próprias prisões camarárias, aprovando simultaneamente leis que vulgarizam sentenças de até 15 anos de prisão por crimes menores como roubar pastilha elástica. O alvo destas leis draconianas são os mais pobres, mas sobretudo os negros, que representando apenas 13% da população americana, compõem 40% da população prisional do país.

22% das crianças americanas vivem abaixo do limiar da pobreza.

Calcula-se que cerca de 16 milhões de crianças americanas vivam sem “segurança alimentar”, ou seja, em famílias sem capacidade económica de satisfazer os requisitos nutricionais mínimos de uma dieta saudável. As estatísticas provam que estas crianças têm piores resultados escolares, aceitam piores empregos, não vão à universidade e têm uma maior probabilidade de, quando adultos, serem presos.

Os EUA são o único país da OCDE que não oferece qualquer tipo de subsídio de maternidade.

Embora estes números variem de acordo com o Estado e dependam dos contratos redigidos pela empresa, é prática corrente que as mulheres americanas não tenham direito a nenhum dia pago antes nem depois de dar à luz. Em muitos casos, não existe sequer a possibilidade de tirar baixa sem vencimento. Quase todos os países do mundo oferecem entre 12 e 50 semanas pagas em licença de maternidade. Neste aspeto, os Estados Unidos fazem companhia à Papua Nova Guiné e à Suazilândia com 0 semanas.

125 americanos morrem todos os dias por não poderem pagar qualquer tipo de acesso à saúde.

Se não tiver seguro de saúde (como 50 milhões de americanos não têm), então, tem boas razões para recear mais a ambulância e os cuidados de saúde que lhe vão prestar, que esse inocente ataquezinho cardíaco. Com as viagens de ambulância a custarem em média 500€, a estadia num hospital público mais de 200€ por noite, e a maioria das operações cirúrgicas situadas nas dezenas de milhar, é bom que possa pagar um seguro de saúde privado. Caso contrário, a América é a terra das oportunidades e como o nome indicam, terá a oportunidade de se endividar até às orelhas e também a oportunidade de ficar em casa, fazer figas e esperar não morrer desta.

 

Os EUA foram fundados sobre o genocídio de 10 milhões de nativos. Só entre 1940 e 1980, 40% de todas as mulheres em reservas índias, foram esterilizadas contra sua vontade pelo governo americano.

Esqueçam a história do Dia de Acção de Graças, com índios e colonos a partilhar placidamente o mesmo peru à volta da mesma mesa. A História dos Estados Unidos começa no programa de erradicação dos índios. Tendo em conta as restrições actuais à imigração ilegal, ninguém diria que os fundadores deste país foram eles mesmo imigrantes ilegais, que vieram sem o consentimento dos que já viviam na América. Durante dois séculos, os índios foram perseguidos e assassinados, despojados de tudo e empurrados para minúsculas reservas de terras inférteis, em lixeiras nucleares e sobre solos contaminados. Em pleno século XX, os EUA puseram em marcha um plano de esterilização forçada de mulheres índias, pedindo-lhes para colocar uma cruz num formulário escrito numa língua que não compreendiam, ameaçando-as com o corte de subsídios caso não consentissem ou, simplesmente, recusando-lhes acesso a maternidades e hospitais. Mas que ninguém se espante, os EUA foram o primeiro país do mundo a levar a cabo esterilizações forçadas ao abrigo de um programa de eugenia, inicialmente contra pessoas portadoras de deficiência e mais tarde contra negros e índios.”

A conclusão a tirar desta evolução é que a transição de um modo de produção atrasado para o capitalismo como modo de produção mais evoluído não foi nos Estados Unidos uma transição civilizada. Será que também deve ser ignorada por esse mesmo facto?

Mas o tema da pobreza como inerente ao “socialismo” pode não ser uma certeza adquirida e mantida uma vez por todos. A China é exemplo disso mesmo, um socialismo de características chineses, para utilizar uma expressão cara a Wang Hui. Em três décadas são retiradas da pobreza centenas de milhões de pessoas tendo este país alcançado uma evolução económica e social em três décadas semelhante à que o Ocidente conseguiu levar a cabo, mas ao longo de vários séculos.

Diz-nos o insuspeito Jacob L. Shapiro de Geopolitical Futures:

A China, como um todo, tornou-se imensamente rica e decentemente poderosa. Mas como é frequentemente o caso, China pagou esse enriquecimento com uma grande desigualdade. Os dados económicos são notoriamente difíceis de interpretar na China, mas um estudo recente publicado pela Universidade de Pequim mostrou que a partir de 2014, 25 por cento da população de China possuía apenas 1 por cento da riqueza total do país. O Top 1 por cento, por outro lado, possuía 33 por cento da riqueza da China. A desigualdade de rendimentos aumentou consideravelmente. De acordo com o National Bureau of Economic Research, os 10 por cento de assalariados com remunerações mais altas na China representam 40 por cento do rendimento nacional total da China, antes de impostos. Em 1978, na base de quase todos os indicadores, a China era pobre, mas era um dos países mais economicamente igualitários do mundo. Agora a China é rica e um dos países economicamente mais elitistas no mundo.

A maioria do crescimento económico da China -e o aumento simultâneo na desigualdade –aconteceu após 1978, quando China abriu as portas à sua reforma e abriu a sua economia ao mundo. O governo, conduzido por Deng Xiaoping, sentiu que a China poderia suportar as tensões que o capitalismo infligiria no sistema chinês -e talvez tenha também sentido que a infusão da riqueza era necessária para permitir que China progredisse rapidamente e recuperasse do seu atraso. Deng, no final, tinha razão. A China enriqueceu-se imensamente, tirando centenas de milhões da zona de pobreza. As políticas de Deng e as convenções políticas postas em prática após Mao constituíram uma mini-revolução no interior da China, e houve uma altercação interna significativa em consequência, de que a praça de Tiananmen é o exemplo mais dramático.

A China alcançou um outro momento. Quando Xi Jinping chegou ao poder em 2013, ele herdou um sistema que era tão corrupto quanto era rico. O problema era que China não poderia sustentar as suas taxas de crescimento pretensamente naturais por mais tempo- isso estava a sair demasiado caro, e as companhias estrangeiras estavam a encontrar lugares mais baratos e mais vantajosos para fazer produzirem. Além, o flagelo da desigualdade estava a começar a rasgar o tecido da sociedade chinesa. A economia da China precisava de ser reestruturada. O seu povo precisava de ideologia que desse sentido às mudanças que se estavam a desenrolar. E XI precisava de mais poder do que o sistema político lhe oferecia. E assim XI organizou a purga dos seus rivais e construiu um culto de personalidade por cinco anos pelo menos. Tem sido bem-sucedido até agora, mas ele está apenas no início de um processo que já está criando fações de dissidência na sociedade chinesa, desde veteranos do exército até às elites costeiras.

Por confronto com a China, diz-nos o mesmo autor sobre os EUA:

Os Estados Unidos também são também uma contradição. A economia dos EUA é, de longe, a maior do mundo de longe-e ainda tem mais de 43 milhões americanos a viverem na pobreza. A democracia liberal mais poderosa do mundo tem tido 288 tiroteios escolares desde 2009 e está no auge de uma crise de vício em opiáceos que matou já mais de 64.000 em 2016 (os dados de 2017 ainda não estão disponíveis) e, de acordo com o Conselho dos EUA dos Assessores Económicos, tem custado ao país mais de $500 mil milhões. Os Estados Unidos são um dos países mais livres no mundo nos termos de direitas individuais, e, contudo, coloca na prisão uma grande parte da sua população mais do que qualquer outro país s no mundo- bem mais do que a China ou a Rússia. A política externa dos EUA é igualmente desarticulada. Os EUA estão a tentar diminuir os seus compromissos no exterior, e os seus rivais estratégicos e parceiros estão já a falar do aparecimento de um mundo multipolar – e ainda assim sempre que uma crise irrompe, a primeira pergunta que se faz é saber o que fazem os Estados Unidos e que o que fizerem que o façam tão rapidamente quanto possível.

A história dos EUA é mais curta do que a da China, e de tal forma é assim que se torna muito difícil falar como autoridade sobre ciclos largos na política americana. Mas os EUA enfrentaram desafios semelhantes pelo menos duas vezes antes: na viragem do século XX, o fim da chamada idade dourada, e nas vésperas da Grande Depressão, como os ruidosos anos 20 em que se viveram os seus últimos suspiros de diversão. Ambos estes períodos foram caracterizados por um grande aumento na riqueza e de desigualdade de rendimento nos Estados Unidos, bem como por uma enorme incerteza sobre o que deve ser o papel da América no mundo. Ambos resultaram em intensa crises sociais e políticas na sociedade americana que levou a uma completa redefinição do que os partidos políticos do status quo defendiam. A idade dourada deu lugar ao progressismo, ao ataque aos monopólios e aos trusts conduzida por Teddy Roosevelt, dando também lugar a uma serie de reformas sobre o trabalho. A Grande Depressão deu lugar ao NEW DEAL, inaugurou uma série de programas financiados pelo governo federal e iniciou novas relações sobre as relações raciais nos Estados Unidos que levaram diretamente ao movimento dos direitos civis na década de 1960.

Hoje, como nos episódios anteriores, a desigualdade de rendimento e de riqueza nos Estados Unidos atingiu níveis fantasmagóricos. As famílias do Top 10 por cento mais ricos capturam antes de impostos metade de todos os rendimentos nos Estados Unidos. Isso é um valor mais alto do que em qualquer outro momento nos registos históricos nos Estados Unidos incluindo o valor mais alto atingido no pico da Grande Depressão. O crescimento do rendimento tem também atingiu um ponto de paragem, um ponto morto. As famílias que compõem o grupo dos 50% das famílias de menores rendimentos nos EUA sofreram uma descida de 1 por cento no crescimento acumulado real de 1978 a 2015. Mesmo na China, onde os assalariados de mais altos salários lucraram muito mais do que o grupo dos 50 por cento de rendimentos mais baixos, o crescimento real acumulado sobre o mesmo período foi de 550 por cento para os 50% dos assalariados com mais baixas remunerações.

Olhando para a desigualdade de riqueza obtemos uma imagem semelhantemente sombria. De 1932 a 1986, o grupo dos 90% de mais baixos rendimentos da sociedade americana aumentou a sua quota de riqueza total nos EUA, atingindo cerca de 35 por cento. Desde 1986, estes mesmos 90 por cento tem estado a reduzir a sua parte na riqueza total. Agora, possuem pouco mais de 20 por cento da riqueza dos EUA. Enquanto isso, o Top 0,1 por cento dos americanos possui 20 por cento da riqueza das famílias. A última vez que a riqueza se concentrou tão fortemente foi nas proximidades da Grande Depressão.”

A argumentação do Professor António Marques Mendes sobre o texto de Nuti não me parece sustentável quanto ao ponto 1, argumentação tanto mais curiosa quanto Nuti procura exatamente explicar as razões do insucesso do socialismo e a perversão da ideia de social-democracia. E é ainda muito menos sustentável porque também se explica que o que António Marques Mendes considera ser uma característica inerente ao socialismo, a pobreza e a forte desigualdade de rendimentos, tem sido, por seu lado, também uma característica do modo de funcionamento das sociedades atuais de capitalismo avançado. Portanto ignorar o que se passou no socialismo como se fosse um sistema gerador e sustentado por profundas desigualdades levaria, pelo mesmo critério, a ignorar também o que se passa no capitalismo moderno. Inaceitável, mais uma vez, a argumentação de Marques Mendes.

Do ponto de vista da desigualdade de rendimentos e de riqueza, tomando como exemplo a situação da China e dos Estados Unidos [1], sobre essa matéria ninguém tem que se elogiar, de um lado ou do outro da cortina, esta é a resposta a dar ao Professor António Marques Mendes.

Sobre o ponto 2 da argumentação do Professor António Marques Mendes, quanto ao ato intelectual de se pensar em mecanismos que possam conduzir à existência de sociedades avançadas e de Rosto Humano – de que o texto de Nuti, em particular a segunda parte quando nos fala do futuro do socialismo, é uma peça de grande valor como resposta aos sistemas sustentados no aprofundamento das desigualdades que caracteriza as sociedades atuais, capitalistas ou ditas socialistas – Marques Mendes considera que tal reflexão, mesmo partindo da análise cuidada do que se passou no passado, deve ser considerada como algo fora de moda e utópico. Aqui relembramos a Marques Mendes o que escreveu o filósofo George Santayana: “aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo”. E, lamentavelmente, os caminhos dos anos 30 estão a ser retomados….

O texto de Marques Mendes, neste contexto, leva-me a afirmar que muito da crise económica que estamos a passar e de que não se vê ainda a luz ao fundo do túnel, dez anos depois da crise rebentar, se deve às politicas económicas exigidas e praticadas por homens da extirpe do Professor António Marques Mendes, homens que se recusam a procurar entender o passado para se poder construir com seriedade o futuro, homens que também querem colocar no caixote do lixo da História as ideias constituintes do que se pode entender por social-democracia.

Daqui se tira uma certeza, a de que não se pode caminhar nesse sentido com a política austeritária seguida pelas Instituições Europeias. Basta olharmos para os anos que antecederam a ascensão de Hitler ou para a política suicidária de Andrew Mellon nos Estados Unidos nos anos 30. E, desse ponto de vista, o segundo texto de Nuti é um documento importante a ler, reler e pensar.

A importância do texto de Nuti é que este não só faz uma viagem de um século sobre as razões do fiasco do socialismo ao longo do tempo mas mais ainda, desenvolve uma longa argumentação sobre o “pecado original” do socialismo soviético a qual muito gostaríamos de ver prolongada, no futuro, por outros trabalhos de jovens investigadores universitários que se interessem pelo tema. Com efeito diz-nos Nuti:

A ilusão do fim da economia política na economia socialista, o pecado original do socialismo, é o fundamento do decisionismo e voluntarismo típico da gestão económica (ou melhor, da gestão não-económica) na União Soviética e nos países que mais tarde adotaram o seu sistema e, por fim, os levaram à sua queda. É a fundação da já mencionada vitória da escola teleológica de planeamento como um ato de guerra, do slogan favorito de Estaline, “não há fortaleza que um bolchevista não possa conquistar”, da aritmética do planeador 2 + 2 = 5 (o primeiro plano quinquenal foi realizado em quatro anos, sem considerar o custo).

Deste “pecado original” terá depois resultado uma lógica autocrática de funcionamento do sistema que se autocondenou assim a uma profunda degenerescência e à sua queda final. Paralelamente a esta degenerescência, o sistema capitalista avançado, simbolizado aqui por simplificação pelos Estados Unidos, ao abater o Estado Providência, uma conquista de depois da Segunda Guerra Mundial, entrou numa outra lógica, também ela de degenerescência, que é a minimização das funções do Estado a favor da absolutização do domínio dos mercados e com o consequente aprofundamento das desigualdades de repartição e de riqueza, o que pode tornar o sistema explosivo.

O texto de Nuti recusa estes dois braços da tenaz, o braço da tenaz que chamamos de socialismo de degenerescência burocrática que impede a passagem para um socialismo de rosto humano, a relembrar a Primavera de Praga, e o braço da tenaz a que chamamos de capitalismo selvagem que. em nome da liberdade dos mercados, se alimenta tanto da criação de desigualdades cada vez maiores como da minimização ou mesmo eliminação dos mecanismos de suporte ao aprofundamento do Estado Providência criados ao longo de décadas, procurando assim bloquear as forças económicas e sociais que aspiram ao aprofundamento da social-democracia. Deste ponto de vista, a análise de Nuti procura avançar com ideias para a criação de sociedades futuras de profunda matriz social-democrata, partindo de cada um dos dois ramos da tenaz. Mas pelos vistos pensar deste modo é ideia que não cabe no quadro de raciocínio social e económico do Professor  António Marques Mendes. É a sua opção, uma opção inversa à do autor destas linhas como é igualmente o oposto dos pontos de vistas de Nuti e de muitos dos autores em que este último se apoia, a lembrar os velhos anos 70 onde se estudava a convergência dos sistemas, teoricamente a procurar um caminho para a existência de sociedades de Rosto Humano. Haverá aqui pois muita matéria para investigação, mas será que as Universidades, carregadas de neoliberais como o Professor Marques Mendes, estarão interessadas nisso? É um retomar desse projeto que Nuti assume aqui com frontalidade, reconheça-se-lhe esse mérito, e que o Professor António Marques Mendes parece estar a rejeitar.

(continua)

[1] Se tomássemos como exemplo a Inglaterra em vez dos Estados Unidos, chegaríamos à mesma conclusão. Veja-se o recente relatório do Relator da ONU para a pobreza extrema publicado em Novembro de 2018 e relativo à Inglaterra.

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