A OPINIÃO DE DANIEL AARÃO REIS – NINGUÉM SOLTA A MÃO DE NINGUÉM

 

 

 

Diante de um perigo iminente, várias alternativas podem ser imaginadas. A primeira, a mais fácil, é a fuga. O problema é que nem sempre a fuga é possível. A segunda é ignorar o risco,  fingir que não existe. Não costuma funcionar. O perigo tem uma existência objetiva, não desaparecerá se for ignorado.

As democracias  estão em perigo em todo o mundo. Não suscitam a confiança que já  foram capazes de despertar. Nem incentivam a participação consciente, como deveriam fazê-lo.

Não é um fenômeno apenas  brasileiro. É perceptível entre nossos vizinhos e mesmo nos Estados Unidos e na Europa, berços históricos do regime democrático. Ressurgem os fantasmas dos instáveis e sombrios anos 1930, quando  os corporativismos estatais, o nazi-fascismo e o socialismo autoritário pareciam imbatíveis.

O mundo mudou muito, sem dúvida. Contudo,  a revolução informática  e o processo de globalização reintroduziram em larga escala a instabilidade,  subvertendo  numa velocidade inaudita situações sólidas, culturas consideradas estabelecidas para sempre. Vão para o ralo não apenas bens materiais, mas concepções de vida, modos de se relacionar, afetos, sentimentos.  O processo acentuou-se depois da crise iniciada em 2008: os responsáveis pela  especulação desenfreada que a provocou ficaram impunes. Como usual,  pagaram os trabalhadores e assalariados.  O resultado é  a cólera das gentes,  inquietação e medo, sobretudo entre os que não encontram um lugar ao sol, e, não o encontrando,  não mais se encontram consigo mesmos,  como se estivessem deslizando para fora da sociedade, rumo a lugar nenhum.

Este é o caldo de cultura para a emergência dos “salvadores da pátria”, líderes messiânicos, que se apresentam como capazes de mudar “tudo o que está aí”.  Suas propostas  têm a força da clareza e da simplicidade, canalizando angústias e ódios.

Os partidos tradicionais, mesmo os reformistas,  parecem incapazes de detê-los.  Tornaram-se máquinas eleitorais aristocratizadas, privilegiadas, dependentes de financiamentos privados. Perdidas suas bases estáveis e  históricas, pulverizaram-se,  mais interessados na autoreprodução do que nas propostas de mudanças desejadas pelas maiorias. A cada eleição, aumenta a distância entre representantes e representados. Distendem-se os laços entre a cidadania e o regime representativo. Uma vai deixando de ver na outra sua expressão política organizada. A abstenção, o voto nulo, o voto em branco atestam a tendência.  

No Brasil não tem sido diferente. E se tornou difícil encarar as questões em jogo.

Marcos Nobre, em recente artigo, analisou duas atitudes diante da vitória de Jair Bolsonaro. Os “amansadores” pensam que a “fera” será domesticada. Outros acreditam que as instituições serão capazes de “enquadrá-lo”. Um processo de “lulização” estaria em curso. Se Lula virou suco, por que o mesmo não poderia acontecer com Bolsonaro?

A hipótese não é nem um pouco provável, considerando-se o dinamismo adquirido pelas forças conservadoras e a disposição do “salvador da pátria” eleito.

A melhor atitude é se preparar para a luta.  Haverá que lidar com as políticas do novo governo, defender-se delas,   lutar contra elas. A necessária e urgente renovação da democracia  não dependerá das instituições existentes – frágeis – nem dos partidos políticos, que rodam em esferas próprias,  magnetizados pelas disputas eleitorais.

A defesa dos valores democráticos, nos próximos anos, estará nas mãos dos cidadãos, que  deverão contar  consigo mesmos  para defender a própria noção de cidadania, essencial a qualquer vida democrática. Sem sinistrose e sem bravatas. Com serenidade e firmeza. A melhor tradução da política não é a conciliação sem princípios. Ao contrário: é a explicitação, regrada, dos conflitos.

A imagem que as lutas vindouras evoca é a das pessoas em passeatas nas ruas,  mãos nas mãos, braços nos braços, cruzados e apertados, com medo nas tripas e coragem na alma. Ousadas, determinadas, solidárias. 

E nestas lutas ninguém soltará a mão de ninguém.  

 

Daniel Aarão Reis

Professor de História Contemporânea da UFF

Email: daniel.aaraoreis@gmail.com

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