O Muro Estados Unidos–México: mostre-me um muro de cinquenta pés e eu mostrar-lhe-ei uma escada de cinquenta e um pés – 2. São os Russos os culpados pela eleição do monstro político Donald Trump? Comentário a propósito da introdução ao texto Tijolos no Muro (1/2). Por Júlio Marques Mota

imagem série escada

2. São os Russos os culpados pela eleição do monstro político Donald Trump? Comentário a propósito da introdução ao texto Tijolos no Muro (1/2)

julio-marques-motaPor Júlio Marques Mota

Coimbra, 27 de janeiro de 2019

Um antigo professor meu, face à introdução que fiz ao texto sobre o muro feito e a fazer na maior fronteira do mundo entre dois países – Tijolos no Muro, de Greg Grandin – enviou-me o seguinte comentário:

Viva, boa tarde, como vai ?

Deixe-me pegar nas suas palavras, com que concordo plenamente:

“… querer derrubar Trump pelas então falsas razões parece-me ser politicamente um errado e moralmente inaceitável. Significa o equivalente a não querer perceber porque é que Trump ganhou as eleições e assim estar-se-á disponível para cometer os mesmos erros que nas eleições anteriores e abrir as portas do poder a um outro populista, ou ao próprio Trump.

Uma coisa seria querer derrubá-lo na base das politicas seguidas interna e externamente pela atual Administração …”

Face a este meu texto, continua o meu antigo professor:

O que para mim é perturbante é que pressinto que uma das razões porque ele ganhou as eleições tem a ver com a política interna seguida pelas anteriores administrações que descuraram a perceção de enorme número de americanos de que a ausência de muro eficaz seria responsável por entradas de emigrantes, causa de perda de empregos e de aumento da insegurança. Por muito que por vezes nos custe, em democracia a opinião das maiorias conta, mesmo que errada. E que fizeram as anteriores administrações para tentar corrigir essa opinião na parte que estará errada) ou ir ao seu encontro (na parte que estará certa) ? “

A mostrar que este meu antigo professor tem relativamente razão, aqui vos deixo um retrato da América de hoje, de uma América que pode bem ser considerada como o espelho e o resultado das políticas seguidas por Republicanos e Democratas nestas últimas décadas, todas elas embebidas internamente do mais profundo neoliberalismo e externamente de uma intensa lógica imperial. Exemplo da lógica neoliberal no plano interno está o facto de que nenhum político terá falado tão bem sobre as questões da desigualdade de rendimento como Obama, mas nunca a desigualdade cresceu tanto nos Estados Unidos como durante a sua Administração. Quanto à lógica imperial, e como exemplo da mesma, desde há décadas que não se terá gasto nos Estados Unidos tanto dinheiro em armamento nuclear como se gastou com a Administração Obama, o Prémio Nobel da Paz. E basta ver a número de bases militares adicionais que a partir dos anos 90 os EUA instalaram em torno da Rússia. E tudo aponta para que queira fazer o mesmo face à China.

Uma lógica e a outra estão igualmente presentes e são chaves explicativas da política de Trump. De novo, no plano interno temos a polarização à volta do muro do México e dos empregos nos Estados Unidos, temos a financeirização ainda maior da economia americana, completada agora com uma maior desregulação, temos o novo sistema de tributação a favorecer fortemente os mais ricos e com algumas migalhas durante alguns anos apenas para os grupos de rendimentos intermédios, temos o peso crescente dos fornecedores de armamento militar ao Estado, o Complexo militar-industrial a que já Eisenhower se referia e muito mais.

Sobre a tributação, um gráfico apenas:

texto 2 são os russos os culpados pela eleição do monstro político donald trump 1

Poder-se-ia dizer que o slogan a América Primeiro, assenta agora em três grandes pilares: a Finança, o Complexo militar-industrial e a imposição de uma política agressivamente protecionista contra tudo e todos. A desigualdade será corolário dos dois primeiros pilares e pode ser encarada como previsível tanto quanto se tem assistido a um crescendo de emprego sem que isso seja acompanhado de aumentos salários correspondentes. Mas esta desigualdade ir-se-á acelerar ainda mais com os efeitos recessivos que já se começam a sentir nos Estados Unidos e exatamente sobre o próprio emprego estável. No plano externo, a América First é representada com uma praxis imperial contra aliados, contra supostos adversários como há muito tempo não era vista. As guerras comerciais são o exemplo mais direto, e estas são o pretexto para impor o mundo unipolar mas sob a égide americana, um mundo unipolar que já não existe e ao qual não me parece que se possa regressar. As sanções aplicadas ao Irão e a guerra comercial agora desencadeada são exemplo disso mesmo da Pax Americana a querer ser imposta unilateralmente contra tudo e todos.

Mas há uma frase incómoda no texto deste meu antigo professor e esta frase é:

“a política interna seguida pelas anteriores administrações que descuraram a perceção de enorme número de americanos de que a ausência de muro eficaz seria responsável por entradas de emigrantes causa de perda de empregos e de aumento da insegurança”.

Como primeiro comentário a esta afirmação, sublinho que o texto de Greg Grandin, Tijolos no Muro, nos mostra sobre o Muro um dado histórico importante em toda a história da Humanidade, é que nunca nenhum muro teve qualquer sucesso. Daí que me pareça não ter grande sentido procurar ter um muro eficaz: “façam um muro de 50 pés que nós faremos uma escada de 51 pés” é a resposta da História.

Decomponhamos a frase:

  1. Os políticos americanos descuraram a perceção de enorme número de americanos de que a ausência de um muro eficaz seria responsável pela entrada de migrantes…”

  2. [ No quadro dessa perceção] a entrada de imigrantes é a causa de perda de empregos

A muita pequena diferença face ao texto do meu antigo professor é que, do meu ponto de vista, os republicanos não “descuraram” a perceção, criaram essa perceção e é com ela que eles jogam, enquanto os Democratas, mais polidos mas também mais cínicos, mais enviesados, não contestam o trabalho ideológico dos republicanos. E é esta pequena, muito pequena diferença, que justifica este meu texto de agora.

Aceitam-no de forma passiva, até porque acham que o problema se resolve por duas vias, pela globalização feliz e pela rigidez da Geografia. Pela globalização feliz porque esta trará melhorias para toda a gente enquanto que pela geografia, para os esquecidos mexicanos por esta globalização, bloqueia-se-lhes a entrada dos migrantes pela via das grandes cidades e empurram-se estes para as passagens pelo deserto, à espera que desistam de entrar nos Estados Unidos, com o apoio da geografia, como se explica no texto sobre o Muro.

O texto sobre o Muro ontem enviado aos meus conhecidos e amigos cita um documento oficial dos anos de 1990 em que nos dizem que 25% da população trabalhadora americana é de origem mexicana. Como é fácil de imaginar, a maioria destes empregos era de baixos salários e de baixas qualificações e creio poder dizer-se que na maioria dos recentes migrantes entrados continuará a verificar-se a mesma coisa. No fundo, uma enorme massa de mão-de-obra mal paga alimentou por essa via o setor serviços e o baixo da escala na indústria transformadora, e por aqui via produção de bens e serviços básicos, os bens salariais de Ricardo-Sraffa, reduziu-se a pressão à baixa do poder de compra da classe média ou até mesmo da classe trabalhadora nativa. Curiosamente, a mão-de-obra ilegalmente entrada nos EUA veio ainda reforçar esse mecanismo, sujeita, porque ilegal, a salários ainda mais baixos. E faziam-se rusgas sobre essas gentes, não sobre os locais de trabalho onde estariam a trabalhar. Porquê? Simplesmente, porque era gente descartável num mundo neoliberal, mas gente que era necessária à reprodução do sistema. O poder respondia assim à inquietação dos trabalhadores americanos com a repressão sobre os ilegais, enquanto ia mantendo o sistema de intensa exploração a funcionar, não tocava nos locais de trabalho. Aliás, tenho uma experiência pessoal curiosa em Paris, nos anos de 1980. Uma vaga de xenofobia alemã terá levado à saída de muitos migrantes turcos. Parte deles entraram ilegalmente em França e recolhidos por sweatshops [termo pejorativo de um local de trabalho que tem condições de trabalho socialmente inaceitáveis] que os alojavam e os exploravam. A polícia sabia, a polícia fazia rusgas noturnas e os que eram apanhados seriam deportados. Na época não houve nenhuma rusga a nenhuma sweatshop. Curiosamente, diga-se de passagem.

Paralelamente à financeirização, deu-se a globalização levada ao extremo. Uma globalização selvagem, dinamizada por uma concorrência não menos selvagem, ao preço mínimo, seja de produtos, de serviços ou de custos salariais. Uma globalização que funcionou como suporte e como necessidade da própria financeirização. Uma globalização levada ao extremo pela Administração Clinton, o mesmo da política migratória assassina referida no texto sobre o Muro , a partir da qual a alta finança se enriqueceu. Veja-se na época que os grandes promotores da globalização eram todos altos quadros da finança e da Administração Clinton. Tome-se como exemplo, Robert Rubin, o homem que promoveu a revogação da lei Glass-Steagal e que imediatamente a seguir foi trabalhar para o CitiGroup com uma remuneração mensal de quase 5 milhões de dólares.

Até antes de Trump, e contrariamente à politica da atual Administração, tínhamos um sistema assente em três pilares, a financeirização, a globalização e a imigração. A primeira, a ser maioritariamente do interesse da alta finança, de 4 a 5 megabancos diríamos, a segunda a ser maioritariamente do interesse das multinacionais e a terceira, bem, aqui a questão é mais complexa, porque a imigração querida, esta basicamente legal e corresponde a necessidades produtivas específicas, e a consentida, são duas realidades diferentes e são, sobretudo, ambas do interesse de uma classe média enquanto a consentida pode ser contrária aos interesses das gentes de en-bas, como diriam os franceses, não tanto porque lhe roubem os empregos mas porque estes migrantes levam a que os salários dos trabalhadores nativos indiferenciados desçam e com uma pressão tanto maior quanto o modelo assente nestes três pilares pressupõe ser sustentado também cada um deles por três outros pilares, os três D, desregulamentação, deflação interna, desvalorização do papel do Estado. A época do Grande Governo é coisa do passado terá dito Clinton. Diríamos aqui que o processo de deflação interna era provocado pela contenção ou baixa salarial de toda essa gente estrangeira. Mas isto poderia ter um efeito de arrasto sobre os nativos d’en bas porque a brutal exploração dos mexicanos fragilizava os trabalhadores locais, sobretudo em tempos de crise pela falta de empregos alternativos. Note-se que se vivia a este nível num Far-West quanto a relações salariais. E isto era fermento para a demagogia republicana acima referida, inculcando nesta população, os d’en bas, a ideia de que o problema estava na ausência de um muro eficaz! Quanto à difusão desta ideia, dela se encarregaram os Republicanos.

Ora, a insatisfação gerada pelo modelo assente na financeirização, na globalização e na imigração, levou a que a crise social tenha sempre um principal responsável: os mexicanos, os mexicanos que os americanos têm interna e externamente explorado até ao tutano. Diremos, pois, que a imagem que o povo americano tem hoje do fenómeno migratório é o resultado de décadas de manipulação, tanto dos Republicanos como dos Democratas. Porém, se os republicanos têm consciência clara quanto a essa demagógica utilização do argumento da imigração, manipulando a opinião pública sobre as causas subjacentes ao mal-estar do povo americano, desenvolvendo sentimentos racistas na população nativa e apontado o dedo aos mexicanos como bode expiatório. São basicamente os Republicanos que vão difundido a ideia de que um muro eficaz protegeria os empregos dos americanos. Os Democratas, esses, são bem mais polidos. Os Democratas, mantêm-se agarrados à defesa dos grandes princípios da globalização feliz, ignorando a realidade argumentado que a globalização faria subir o nível de bem estar de toda a gente, inclusive dos mexicanos, tal como a maré faz subir todos os barcos. Os Democratas não se posicionavam da mesma forma que os Republicanos. Iam fazendo o muro, sem campanhas demagógicas à volta dessa construção, iam bloqueando as entradas nos Estados Unidos pelas vias das grandes cidades, deixando as vias alternativas para os mexicanos tentarem entrar nos Estados Unidos: as vias da morte, as vias do deserto escaldante. Esperavam que a geografia lhes fosse favorável. E a repressão interna fazia-se sobretudo quando a imigração consentida ultrapassava os limites da sua absorção sem disfuncionamentos e tornava as populações sensíveis aos comportamentos xenófobos, defendidos pelos republicanos, com o argumento de que lhes estavam a roubar os empregos. Por isso, o muro de demarcação da fronteira entre o México e os Estados Unidos é verdadeiramente uma obra de Republicanos e democratas.

É assim que se entende porque é que nas grandes decisões bi-partidárias, os Democratas quando encostados face ao real que ajudaram a criar, têm estado prontamente a votar ao lado dos republicanos, o que nos leva a estar de acordo com a afirmação de Basevich: “os democratas gostam do que Trump faz, só não gostam que seja ele a fazê-lo”.

O problema da imigração complicou-se ainda mais com o acordo de matriz neoliberal NAFTA. Um acordo concebido e criado pelos Republicanos e aprovado no tempo de Clinton com mais votos dos Republicanos do que dos Democratas, apesar da pressão feita por Clinton sobre os seus deputados. Aqui sim, houve a possibilidade de criar uma paisagem tanto para os Estados Unidos como para o México, uma paisagem de verdadeira integração e de reconstituição da matriz interindustrial dos dois países. Mas isto pressupunha uma outra política, a de Grande Governo, a do reforço do Welfare State em vez da sua substituição pelo Workfare State nos Estados Unidos, enquanto que no México exigiria a criação de uma malha apertada de proteção aos trabalhadores mexicanos. De tudo isto Clinton abdicou. Esta via, sim, seria a política de fixação das populações, mas deu-se antes prioridade, e exclusiva, à circulação de mercadorias. Mas, como veremos abaixo, a esquerda americana capaz de se lançar num tal projeto, essa foi batida pelos defensores da financeirização e da globalização que rodeavam Clinton e o acordo NAFTA tal como foi concebido pelo neoliberal Georges Bush pai foi depois aprovado por Clinton com forte resistência interna dos eleitos pelo seu Partido.

Quanto a esse acordo, diz-nos Nelson Lichtenstein, a propósito da crítica ao Acordo Nafta:

“Richard Gephardt [líder da bancada parlamentar dos Democratas] argumentou que o comércio justo era uma contradição nos seus termos quando aplicado a nações cujas estruturas sociais e de políticas económicas eram incompatíveis; a diferença salarial no Rio Grande era de 8 para 1. Na ausência de despesas significativas para a formação profissional e para criação de empregos, Gephardt alertou para a “pressão à descida sobre os acordos salariais, reduzindo os nossos padrões de vida. E os americanos enfrentam esse argumento não só face ao México, mas também face à China e outros países no mundo” .

Mas para termos uma melhor perspetiva de tudo isto, reproduzimos aqui excertos de um trabalho de Nelson Lichtenstein curiosamente intitulado Os anos da década de 90 de Clinton e a origem dos nossos tempos de agora.

A derrota de Hillary Clinton no Midwest industrial contra Donald Trump selou o seu destino no dia das Eleições de 2016. Essa derrota, tanto estreita quanto catastrófica, teve muitos arquitetos, mas um dos mais consequentes ocupou a Casa Branca quase 25 anos antes, quando o seu marido assumiu a direção de uma América cuja economia estava em estagnação, com uma desindustrialização desenfreada e um défice comercial gigante, de uma América que clamava por reformas estruturais para romper decisivamente com o laissez-faire estilo Reagan e para renovar a lealdade dos eleitores em dificuldade ao partido de Roosevelt, Truman e Johnson. Mas isso foi precisamente o que Bill Clinton não fez .

(…)

Bill Clinton, portanto, dispôs de um momento histórico de reformular não apenas as políticas de comércio, investimento e saúde, mas também a regulação, as normas e as expectativas que poderiam governar uma versão do capitalismo americano pós-guerra fria.

O seu fracasso em aproveitar essa [ oportunidade] condenou qualquer esforço para construir uma economia mais equitativa ou uma ordem política suficientemente poderosa para se opor com segurança a um liberalismo dominante, um fracasso que Donald Trump, mais tarde, viria a aproveitar. Como este disse numa audiência realizada numa siderúrgica em Monesson, Pensilvânia, em 28 de junho de 2016: “A globalização tornou muito rica a elite financeira que faz muitas dádivas aos políticos. Mas deixou milhões dos nossos trabalhadores sem nada além de pobreza e sofrimento. A América tornou-se a economia dominante do mundo ao tornar-se o produtor dominante do mundo… criando a maior classe média que o mundo já conheceu. Mas então a América mudou a sua política. … Permitimos que países estrangeiros subsidiassem os seus bens, desvalorizassem as suas moedas, violassem os seus acordos e trapaceassem de todas as formas imagináveis.”

Concorde-se ou não, esta é a visão dominante nas gentes de en bas e até mesmo em largas camadas da classe média, uma visão oposta à da globalização feliz mas que no fundo tudo aponta para que tenha sido a globalização desejada pelos largos segmentos interessados da financeirização e do comércio internacional. Relembro aqui uma reportagem sobre Warren, intitulada Warren ou a América desencantada – como é que uma pequena cidade do Ohio passou de Obama para Trump . Ver aqui, publicada no blog A Viagem dos Argonautas onde fala das angústias dos trabalhadores e das suas opções de votação em Trump ou em Hillary Clinton.

Mas vejamos o que nos diz Nelson Lichtenstein:

Esta capitulação de Clinton não era inevitável. O manifesto da campanha, “Putting People First”, foi largamente baseado nos trabalhos recentes de Robert Reich, Ira Magaziner e outros “Amigos de Bill” que claramente se situam à esquerda. (…)

Todos os conselheiros do Clinton concordaram com a frase de James Carville: “É a economia, oh estúpido.” Doravante, e nesta base, o governo poderia oferecer um conjunto vigoroso de intervenções tanto para impulsionar a procura agregada, como no keynesianismo tradicional, como para utilizar as políticas estruturais para aumentar a produtividade do capital e do trabalho, proteger os setores centrais da indústria e desenvolver a equidade na vida dos americanos. Ou assim parecia.

O grupo do círculo de Clinton confronta-se com os mercados financeiros e recua

Mas uma renovação e modernização do liberalismo ao estilo New Deal nasceu no alvorecer da era Clinton. Assim como o republicano Dwight Eisenhower legitimou o New Deal ao aceitar muitas das suas conquistas, Bill Clinton ratificou muitas políticas neoliberais muito antes de Newt Gingrich levar o Partido Republicano à vitória para o Congresso em 1994, com a derrota dos Democratas, ou de Clinton tentar triangular com os seus adversários em 1995 e depois.

Os principais conselheiros económicos nomeados durante a transição, nomeadamente Robert Rubin, Larry Summers, Lloyd Bentsen, Leon Panetta e Alice Rivlin, apresentaram um conjunto de prioridades económicas muito mais ortodoxas do que a “política industrial” da esquerda de Clinton. Este grupo, de que se salienta Rubin, Summers, Bentsen e Panetta passaram a dominar na determinação das políticas a seguir. Apesar da sua própria oposição inicial, o presidente Clinton foi persuadido a desistir de um importante pacote de estímulo económico, incluindo investimentos direcionados, em troca das baixas taxas de juros que estes seus assessores pensavam que o mercado de títulos sustentaria se apenas o déficit fosse domesticado por uma combinação de limitação de despesas sociais e de impostos mais altos.

Era tradição os Presidentes Democratas nomearem Secretários do Tesouro (Ministros das Finanças) com ligações amistosas a Wall Street para dar confiança aos mercados. Mas, na presidência de Roosevelt, Truman e Johnson, aos nomeados para este cargo faltou-lhes o poder (ou o desejo, como no caso do Secretário do Tesouro de Roosevelt, Henry Morgenthau) para eliminarem o resto do programa do Progressive Party. Rubin, ao contrário dos outros, tinha iniciado a sua carreira nos Democratas como dador e angariador de fundos.

(…)

Mas a esquerda de Clinton ficou ultrapassada pelas gentes deste último grupo. Rivlin, do Office of Management and Budget, assim como Bentsen e Roger no Tesouro, temiam que um plano de redução do défice insuficientemente duro enviasse o sinal político e orçamental errado para Wall Street. A direção do Office of Management and Budget argumentou que “é necessário um plano de redução do défice mais vigoroso” do que o proposto pela CEA “porque acredita que o Fed e os mercados de títulos responderão muito favoravelmente se formos suficientemente agressivos no nosso plano de redução do défice”.

Tudo isso foi uma aposta sofisticada que dependia fortemente da mentalidade de alguns milhares de especuladores em Nova York, Tóquio, Frankfurt e Londres. Face a esta posição austeritária, Joseph Stiglitz, membro do Comité de Assessores Económicos de Clinton, replicou nas suas memórias de 2003 relativamente à década de 1990: “Estou convencido de que o argumento da confiança é o último refúgio daqueles que não conseguem encontrar melhores argumentos”. Os mercados financeiros, é claro, estão muitas vezes enganados, como provaria o colapso de 2000. Mas, no início do seu governo, Clinton optou por confiar mais nos mercados do que num governo de militantes políticos, de ativistas. Esta linha austeritária daria o tom para as decisões posteriores que definem Clinton como um neoliberal e não como o herdeiro de Roosevelt e de Johnson.

(…)

Política comercial e política

(…)

Inicialmente, Clinton havia tentado ultrapassar os seus constrangimentos com um pacto comercial visto com ceticismo pelas organizações sindicais e pela maioria dos democratas do Congresso. O Tratado NAFTA tinha sido negociado durante a administração Bush, mas exigia a sua aprovação legislativa para entrar em vigor. A campanha de Clinton defendeu e aprovou este Tratado em outubro de 1992, mas esforçou-se por torná-lo aceitável pela inclusão de normas de proteção e normas ambientais. Estas melhorias provaram ser extremamente fracas, o que virou a AFL-CIO e grande parte da base do Partido Democrata contra o acordo. Para além das consequências a longo prazo sobre o emprego – o “som da gigante sucção “, tornado célebre por Ross Perot- Clinton, cometeu um desastroso erro de cálculo político quando o seu governo decidiu minar a unidade das estruturas liberais dos trabalhadores e de alterar a paisagem partidária, levando o NAFTA ao Congresso com mais votos republicanos do que democratas.

Este foi o tipo de erro que Reagan nunca tinha cometido. Embora o comércio livre fosse a ideologia oficial de Reagan, a sua Administração, na verdade, orquestrou uma política industrial ad hoc que apaziguou os principais círculos políticos e económicos. Muitas queixas vieram de indústrias mais antigas, como têxteis, aço, automóveis e motocicletas, longos bastiões dos Republicanos ou dos membros da linha conservadora da Região Sul dos Estados Unidos. Os Estados Unidos estavam a ser inundados por importações do Leste Asiático e especialmente de produtos japoneses. O Secretário de Comércio de Reagan, Malcolm Baldrige, e o seu vice, Clyde Prestowitz, desafiaram a ortodoxia do livre comércio ainda defendida pelo Departamento de Estado, que estava disposto a sacrificar as indústrias americanas para sustentar os aliados da Guerra Fria na Ásia.

(…)

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Clinton promove o NAFTA, para desgosto da maioria dos democratas.

Os Democratas estavam profundamente divididos sobre o NAFTA. Muitos na administração, até mesmo liberais como Reich, pensavam que a globalização era inevitável e que a melhor defesa dos padrões de vida americanos viria por meio do investimento interno assente numa força de trabalho altamente qualificada, num conjunto de indústrias hiperprodutivas e nas infraestruturas sociais físicas de apoio. Reich acreditava que a fabricação de têxteis e vestuário com mão-de-obra intensiva deixaria inevitavelmente os Estados Unidos. Em seu lugar surgiriam indústrias na indústria manufatureira e na criação de serviços de alta produtividade e altos salários, porque “a linha divisória fundamental que atravessa a força de trabalho de hoje é baseada na educação e nas competências”. O problema com esta perspetiva era que, embora a produtividade, bem como a educação, fosse realmente baixa na maior parte das empresas mexicanas – e asiáticas – na indústria manufatureira, as principais empresas orientadas para a exportação no mundo em desenvolvimento tinha demonstrado a capacidade de produzir bens de alta qualidade com salários baixos e trabalhadores pouco instruídos. Devido a uma desvalorização do peso no início da década de 1980, os salários mexicanos em termos de poder de compra real tinham diminuído cerca de 30% no final da década. “Porque é que as empresas deveriam investir numa estratégia de alta qualificação e altos salários nos Estados Unidos”, perguntou o especialista em relações industriais Harley Shaiken, amplamente citado, em 1993, “quando uma estratégia de alta qualificação e baixos salários está disponível no México”?

Richard Gephardt, Líder da Maioria da Câmara dos Deputados, partilhava essa perspetiva. Gephardt vinha de St. Louis, região altamente sindicalizada, e tinha ambições presidenciais – uma das razões pelas quais, nos últimos anos da administração George H.W. Bush, apoiou, com relutância e cautela, a autoridade chamada “Fast Track”, esperando que uma outra administração e mais liberal pudesse incluir negociações sobre mudanças significativas sobre o Direito do Trabalho e sobre regras relativas ao meio ambiente. Bill Clinton manteve tais esperanças vivas quando em 4 de outubro de 1992, quando apoiou o NAFTA, mas insistindo que o Acordo Comercial teria que ser parte de uma “estratégia económica mais vasta” projetada para fazer subir os salários dos trabalhadores americanos e proteger as suas regalias assim como o meio ambiente. Durante o ano seguinte, Gephardt trabalhou muito próximo com o AFL-CIO para fazer das cláusulas sobre o trabalho no Acordo NAFTA algo mais do que uma afirmação que cada nação deve reforçar as suas próprias, frequentemente inadequadas, leis do trabalho.

“O Acordo NAFTA, com a adoção do acordo suplementar, é um acordo inovador”, disse o representante comercial dos EUA, Mickey Kantor, ao anunciar a conclusão de um acordo NAFTA, a 13 de agosto de 1993. “Pela primeira vez, um acordo de livre comércio cobre os direitos dos trabalhadores e o meio ambiente”. Mas o diabo estava nos detalhes. Os Estados Unidos terão alcançado um compromisso não vinculativo com o governo mexicano para vincular a sua estrutura de salários mínimos aos aumentos de produtividade e crescimento da economia mexicana. As multas para a violação dos direitos laborais eram possíveis no fim de um longo processo de consulta, mas o tribunal estabelecido no âmbito do NAFTA não teria nenhum poder para obrigar um governo a pagar ou a penalizar um empregador particular. Horas depois do anúncio de Kantor, uma coligação de líderes sindicais, de advogados das organizações de defesa do consumidor, e de grupos ambientais tinham denunciado o acordo.

Gephardt também considerou os acordos paralelos como “não suportáveis”, e num discurso no National Press Club em 21 de setembro de 1993, ele anunciou que iria votar contra o Acordo. Gephardt argumentou que o comércio justo era uma contradição nos seus termos quando aplicado a nações cujas estruturas sociais e de políticas económicas eram incompatíveis; a diferença salarial no Rio Grande era de 8 para 1. Na ausência de despesas significativas para formação e criação de empregos, Gephardt alertou para a “pressão à descida sobre os acordos salariais, reduzindo os nossos padrões de vida”. E os americanos enfrentam esse argumento não só face ao México, mas também face à China e outros países no mundo”.

(…)

Subestimando o capital: fracasso das reformas da súde e da lei do trabalho

(…)

[A maioria das empresas não queria diálogo com os trabalhadores, muito menos com os sindicatos. Queriam controlo.]

Um esforço para assegurar os direitos do trabalhador, não através do reforço do direito à sindicalização garantido pela frequentemente violada lei Wagner, mas promovendo uma maior colaboração entre os trabalhadores e o patronato, transformou-se no coração da política sindical da Administração Clinton. Uma comissão sobre o futuro das relações trabalhador-gerenciamento, presidida por John Dunlop, foi a primeira iniciativa assinada. Uma colaboração mais vasta geraria presumivelmente ganhos da produtividade e ganhos melhorados para combinar, não apenas com o setor sindicalizado, mas com a força de trabalho em geral. Mas em 1993, a negociação social ao estilo Dunlop já era uma relíquia de uma época anterior. A maioria das grandes empresas não queria diálogo com o trabalho, muito menos com os sindicatos. Queriam controlo.

(…)

Desregulamentação financeira

Embora a reforma do Sistema de Saúde tenha permanecido paralisada durante a década de 1990, desenvolveu-se uma reestruturação radical das finanças americanas e com pouca oposição. Em meados da década de 1990, quase todos os assessores de Clinton (com as notáveis exceções de Joseph Stiglitz e Brooksley Born)1 2  reiteradamente lhe asseguravam que a decisão de deixar Wall Street desmantelar as proteções regulatórias erguidas durante a Grande Depressão representava simplesmente uma modernização inevitável. Como John Podesta, que logo se tornaria o chefe de gabinete de Clinton, disse num memorando de 1995: “O argumento para a reforma é que a separação entre bancos e outros serviços financeiros mandatados pela Glass-Steagall está ultrapassada num mundo onde bancos, empresas de títulos e seguradoras oferecem produtos similares e onde empresas fora dos EUA não enfrentam tais restrições”.

[Veja o filme sobre o Grande Colapso, sobre Brooksley Born que lhe dedica Frontline, através da câmara de Michael Kirk, aqui ]

A notável influência de Robert Rubin, tanto na Casa Branca como em Wall Street, simbolizou e defendeu essa perspetiva, à qual o termo “neoliberalismo” estava agora firmemente ligado. Ao contrário de Greenspan, um discípulo de Ayn Rand, Rubin era uma personalidade atraente e sedutora – um democrata cujo charme, liberalismo social e intelecto persuasivo o protegia da crítica e aumentou a sua influência, não apenas em termos de uma política ou outra, mas como líder ideológico de uma espécie de neoliberalismo, chamada de “Rubinomics”. Ele foi mentor de uma geração de formuladores de políticas da era Clinton, mais tarde com ecos nas indicações de Obama, criando um establishment político democrata que já não se inspirava nos sindicatos e nas organizações de defesa dos consumidores, mas pela via de perspetiva convergente com Wall Street como sinónimo de bem-estar geral. E o longo boom da década de 1990, quaisquer que fossem suas origens reais, pareciam ratificar a sabedoria de tal perspetiva e o aparato estatal que lhe deu substância legislativa.

Embora a Lei Glass-Steagall não tenha sido formalmente revogada até 1999, a separação entre a banca comercial e a banca de investimento já tinha sido gravemente enfraquecida pelas decisões da Reserva Federal, que aumentaram a dimensão dos bancos e permitiram que os bancos comerciais, através de filiais, subscrevessem muitos tipos de títulos. Em 1994, com os Democratas ainda no controle do Congresso, Clinton assinou o Riegle-Neal Interstate Banking and Branching Efficiency Act que eliminou as restrições sobre as sucursais dos bancos e, assim, aumentou a influência dos grandes bancos. Então, em 1996, o Fed permitiu que as subsidiárias dos bancos obtivessem 25% das suas receitas com operações de títulos, contra 10% anteriormente. E nesse mesmo ano, o Fed reformulou os seus regulamentos para facilitar a aprovação da expansão dos bancos para novas atividades. A administração Clinton não fez nada para impedir esta deterioração das regulamentações bancárias; em vez disso, o Tesouro de Rubin pressionou a Casa Branca a formalizar o novo regime de investimento bancário, apoiando os esforços de desregulamentação do Partido Republicano no Congresso.

A revogação da Glass-Steagall no final de 1999 estimulou uma onda de fusões de megabancos e permitiu que estes se lançassem de cabeça na atividade de compra, de titularização, de venda e negociação de hipotecas e títulos garantidos por hipotecas. De facto, uma dessas fusões já havia sido realizada bem antes da aprovação da legislação, o acordo de US$ 72 mil milhões que reuniu o Citibank, o maior banco de Nova York, e o Travelers Group Inc., a enorme empresa de seguros, corretagem e serviços financeiros. A fusão foi uma clara violação da Glass-Steagall, mas tal era a confiança de Wall Street de que o Congresso revogaria a antiga lei de que o patrão da Travelers, Sanford Weill, e o CEO do Citibank, John Reed, não hesitaram em concluir as negociações. A revogação da Glass-Steagall em novembro de 1999 foi chamada de “Lei de Autorização do Citigroup” em alguns círculos. Rubin, que havia deixado o cargo de secretário do Tesouro em julho do mesmo ano, tornou-se presidente do comité executivo do Citi em outubro.

O único alto funcionário da regulação na Administração Clinton que se opôs frontalmente no caminho foi Brooksley Born, presidente da Commodity Futures Trading Commission. A sua derrota e demissão são reveladoras. Born alertou que a explosão de derivados ocorrida na década de 1990 criou um gigantesco risco moral que era difícil de ser medido tanto pelos reguladores governamentais quanto pelos próprios bancos. Ao contrário das ações, obrigações e opções, não existia qualquer câmara de compensação para transações de instrumentos derivados; sem um registo transparente, essas transações poderiam tornar-se uma fonte de litígios, incerteza, conflitos de interesses e fraude. Era um mercado “negro”. Mas a advertência de Born, como a Cassandra, foi veementemente combatida pelo FED de Greenspan, por Rubin e pelo vice-secretário do Tesouro, Larry Summers. Quando se soube que Born propôs a emissão de um “documento de reflexão ” defendendo a regulamentação da negociação sobre produtos derivados, Summers fez uma chamada telefónica furioso: “Eu tenho 13 banqueiros no meu gabinete e estes dizem-me que se você avançar com a ideia desse documento você vai causar a pior crise financeira desde a Segunda Guerra Mundial.

Quatro meses depois, em 23 setembro de 1998, o colapso da Long-Term Capital Management, que detinha um milhão de milhões de dólares em derivados, parece ter confirmado as apreensões de Born, mas mesmo assim ela permaneceu um pária junto da Colina, junto do Fed e da ala oeste. A pedido de Rubin e Greenspan, o Congresso aprovou uma moratória proibindo a sua Agência de regular a maioria dos produtos derivados e no final do seu mandato Clinton assinou o Commodity Futures Modernization Act, que isentava da regulamentação federal os derivados financeiramente mais importantes. O fusível tinha sido acendido para a implosão que envolveria Wall Street e o mundo apenas uma década depois.

A tragédia da Administração Clinton é que nada disso era inevitável. Bill Clinton e a maioria dos “Amigos de Bill” não eram neoliberais, mas acabaram estar a presidir a uma economia política que fez avançar no plano ideológico e financeiro o projeto neoliberal. As suas primeiras reações exigiam uma nova forma de capitalismo administrado, não pelos mercados, para revitalizar a economia interna, reformar o sistema de saúde e as relações de trabalho e melhorar os disfuncionamentos sociais gerados pelo comércio globalizado. Mas eles cederam diante daqueles que, dentro e fora da administração, tinham um conjunto mais firme de prescrições ideológicas. Isso foi sobretudo mais notável na ênfase quanto à redução do défice, na decisão aparentemente gratuita de empurrar o NAFTA pela goela abaixo de uma maioria de democratas resistentes no Congresso e na desregulamentação radical dos mercados financeiros.

Os Clinton presidiram uma mudança geracional no governo, mas não a emergência de um novo movimento social ou a revitalização de um antigo. Eles pensavam que a solução para os problemas sociais e económicos dos Estados Unidos era uma solução corporativista em que todos ganham, quando na realidade foi uma solução perto de soma-zero”. (fim de citação do trabalho de Nelson Lichtenstein, Os anos da década de 90 de Clinton e a origem dos nossos tempos de agora.)

(continua)

Notas

1 Nota de tradutor: Curiosamente, assinale-se que muitos dos mesmos homens que bloquearam Born, ocuparam posições chaves na administração Obama . Por isso, o filme The Warning revela as políticas complicadas que levaram a esta crise e o que se pode dizer sobre as tentativas atuais de evitar a próxima. .

2 Nota de tradutor: Para percebermos a importância de Brooksley Born, sublinhe-se que foi premiada com John F. Kennedy Profiles in Courage Award em reconhecimento “coragem política demonstrada ao lançar precocemente sucessivos alertas sobre as condições que contribuíram para a atual crise financeira global”. Ainda segundo Carolina Kennedy “Brooksley Born reconheceu que a segurança financeira de todos os americanos estava a ser posta em risco pela ganância, negligência e oposição de interesses poderosos e bem interligados”. Brooksley Born dirigiu a CFTC de 1996 a 1999. Quando propôs a regulamentação dos produtos derivados, foi literalmente arrasada por uma coligação composta por Alan Greenspan, então Presidente do Federal Reserve, Summers e Rubin. Ofendida, demitiu-se. Num quadro regulado, os CDO sintéticos (Collateralized Debt Obligations), por exemplo, que precipitaram o colapso financeiro do outono de 2008, teriam sido proibidos.

1 Comment

  1. Bastaria referir a estratégia ianque do “Destino Manifesto”. Desde 1850 que todas as administrações ianques obedecem ao entendimento desta doutrinação.CLV

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