Iémen, a maior vergonha da década. Por Juan Antonio Sacaluga

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Obrigado a Juan A. Sacaluga e a Nuevatribuna

Publicado por nueva tribuna   em 19 de dezembro de 2018

Iemen guerra

O sistema de segurança internacional está repleto de fracassos, e algumas vergonhas de grande envergadura

 

O sistema de segurança internacional carrega consigo muitas falhas e algumas vergonhosas e de fazer corar. De uma natureza muito diferente, claro. Todos são importantes, em todos milhões de seres humanos sofrem, e muitos são evitáveis ou limitáveis. Mas em alguns casos, a negligência ou o desprezo tornam-se mais escandalosos.

Se olharmos para trás não muito longe, cada década – para estabelecer um ranking fictício de dor – oferece-nos casos de gravidade excepcional. Vietname e Biafra (nos anos 60); Bangladesh e Líbano (nos anos 70), América Central, Afeganistão e Corno de África (nos anos 80); Ruanda, Congo, antiga Jugoslávia e Chechénia (nos anos 90); Iraque (no início do século XXI); e nesta década que está a chegar ao fim, o drama da minoria Rohingya na Birmânia, a Síria e, sobretudo, a guerra no Iémen (1).

 

Uma guerra criminosa

A guerra no Iémen, como quase todas as guerras que atormentam o Médio Oriente, tem causas complexas, difíceis de resumir num curto espaço/tempo. Como geralmente acontece, todos os atores envolvidos, em maior ou menor grau, são responsáveis, seja na sua ação no terreno, ou como indutores e/ou protetores.

O Iémen é um país fraturado. Ou um estado falhado, no jargão das chancelarias ou dos grupos de reflexão. Juntamente com a Síria ou a Líbia, foi um dos exemplos da deriva catastrófica da impropriamente designada Primavera Árabe. Território supostamente benigno numa zona de condições climáticas terríveis (a Arábia feliz dos Romanos), o Iémen tem sido quase sempre objeto de ambições e ganância dos seus poderosos vizinhos.

Atualmente, duas grandes potências regionais, o Irão e a Arábia Saudita (esta última com o apoio ativo do seu aliado regional, os Emiratos) transformaram o país num campo de batalha sangrento e devastado.

A revolta democrática árabe de 2011 ateou-se também no Iémen. O então Presidente Saleh, protegido dos sauditas, foi contestado na rua, em parte devido às condições de vida adversas suportadas pela população. O autocrata foi sacrificado em benefício do seu segundo, Abd-Rabbo Mansur Hadi, um homem fraco e sem uma base de poder: um fantoche. Saleh, à cabeça das tribos e comunidades lesadas, aliou-se aos seus inimigos Houthies, uma minoria de confissão Zaidi (versão local do xiita), numa tentativa de recuperar o poder.

Os sauditas e emirados, alarmados com o que viam, de forma exagerada, como interferência dos ayatollahs iranianos, empenharam-se a fundo na guerra, em apoio ao seu novo homem de palha. A guerra regionalizou-se, irremediavelmente. Na realidade, internacionalizou-se, a partir do momento em que o governo Obama decidiu apoiar, ainda que materialmente, os seus aliados sauditas, numa tentativa fracassada de demonstrar-lhes que o acordo nuclear com o Irão não negligenciava os compromissos estratégicos de Washington com Riade.

Obama rapidamente se arrependeu deste lamentável erro. A mudança de guarda no palácio elevou o mega herdeiro Mohamed Bin Salman (MBS), que se tornou o grande factótum da ação militar. O que ele concebeu como uma operação de grande prestígio acabou sendo um fiasco clamoroso e um terrível pesadelo humanitário, devido a uma estratégia de terra queimada que esmagou a população civil. Apesar da superioridade esmagadora, os houthies resistiram. Tornaram-se fortes na capital, Sanaa, suportaram o cerco feito pelos Emiratos no porto ocidental de Hodeida (ponto de entrada de 70% das importações do país e rota de acesso humanitário) e ganharam uma elevação inesperada como combatentes. O Irão, um patrono distante, não um participante directo na guerra, conseguiu enfraquecer o seu rival sem comprometer as tropas ou o prestígio. As duas petromonarquias do Golfo arruinaram o seu escasso crédito como nações civilizadas, praticando no Iémen um verdadeiro crime de guerra, na opinião de numerosas instituições independentes.

Trump pretendeu fornecer oxigénio aos sauditas, lisonjeando-os ad nauseam, quando de não poucas instâncias nada suspeitas de hostilidade em relação à monarquia absolutista se recomendava o distanciamento. teve que ocorrer o monstruoso assassinato do jornalista dissidente Khashoggi para se abrir caminho a uma reviravolta significativa. Os republicanos fizeram finalmente das tripas coração e fizeram valer a sua maioria no Senado para fazer aprovar uma resolução que proíbe a venda de armas que os sauditas utilizam no Iémen. Esta iniciativa sobrepôs-se, não por acaso, à mais forte iniciativa diplomática até à data, liderada pela ONU. Ainda longe de negociações de paz, a comunidade internacional convocou um acordo de cessar-fogo em Hodeida, o ponto mais quente da guerra neste momento. No entanto, como era de esperar, o silêncio das armas demora.

A maior catástrofe humanitária do momento

Até aqui, um breve resumo dos factos. O corolário da guerra deixa um balanço pavoroso. Nestes quatro anos de conflito armado, morreram mais de dez mil pessoas, na sua grande maioria civis. Três quartos da população, cerca de 22 milhões de pessoas, correm um risco muito elevado de morrer de fome e/ou doenças como a cólera e outras. A infra-estrutura do país está quase completamente destruída. O tecido produtivo foi destruído e levará anos para ser reconstruído. As reportagens de Declan Walsh no The New York Times, entre outros, são aterradoras (2).

O Iêmen ganhou a triste consideração de maior catástrofe humanitária do momento, devido à atuação saudita (sem esquecer a iraniana, é claro), e a necessária cumplicidade norte-americana. Como muitos analistas agora reconhecem, Washington poderia ter evitado, primeiro, e terminado, mais tarde, este conflito apenas pondo freio à casa saudita. Obama não se atreveu, ou fê-lo tarde e timidamente. Trump encorajou e agora, envergonhado pelo caso Khashoggi, deixa que os seus colaboradores e parceiros políticos atuem com mais propriedade.

Num dos artigos mais reveladores escritos recentemente sobre a guerra do Iémen, Jeffrey Feltman, subsecretário de Estado com Obama e depois alto funcionário da ONU, admite que “os Estados Unidos e outras potências fecharam os olhos às consequências da intervenção saudita” e sustenta que “a única forma expedita de acabar com esta guerra” é pressionar a Arábia Saudita a suspender unilateralmente a sua campanha militar e desafiar os hutis a agir em conformidade” (3).

Esta é uma posição partilhada por outros analistas. Bruce Riedel, um veterano responsável da CIA com um conhecimento profundo das confusões e ações ilegais norteamericanas na região, argumenta que Washington poderia ter terminado o pesadelo de uma assentada simplesmente não fornecendo as peças das máquinas de guerra, o que teria deixado os aviões sauditas e dos Emiratos no solo (4).

Para além do fim da guerra (objetivo ainda por alcançar), preocupa e muito a subsequente estabilização (tendo como referência o antecedente da Líbia). Daniel Byman prevê um catálogo de perigos (ruptura definitiva do país com a secessão repetida do sul e fortalecimento das facções jihadistas). De acordo com a corrente de pensamento que vê o Irão como a grande ameaça regional, Byman considera que, com o fim da guerra, os Estados Unidos podem redirecionar a ajuda aos seus protegidos sauditas em bases mais bem fundamentadas, com o objetivo de deter o suposto expansionismo de Teerão na região (5). Outra analista, Dana Stroul, detalha os desafios que a missão diplomática da ONU terá de enfrentar (6).

Vale a pena perguntar se o complexo político, militar, diplomático e intelectual dos EUA tirou todas as conclusões de oito décadas de aliança com o regime absolutista saudita. Tudo indica que ele está preso numa lógica de interdependência, obsoleta e notoriamente prejudicial aos seus interesses.

 

Notas

(1) “Yemen conflict explained in 400 words”. BBC, 13 de junio; “Yemen: Why is there a war”. BBC, 20 de noviembre.

(2) “The tragedy of the Saudi Arabia’s war”, 26 de octubre; “In Saudi Arabia’s war on Yemen, no refuge by land or sea”17 de diciembre; “Life in Yemen is Sophie`s choice”. THE ATLANTIC, 29 de noviembre; “Yemenis are left so poor they kill themselves before the hunger does”, THE GUARDIAN, 11 de diciembre.

(3) “The only way to end the war in Yemen”. JEFFREY FELTMAN. FOREIGN AFFAIRS, 26 de noviembre.

(4) En una larga serie de artículos para la BROOKINGS INSTITUTION detalla su posición. 

(5) “Yemen after a Saudi withdrawal. How much would change”. DANIEL S. BYMAN. BROOKINGS INSTITUTION, 5 de diciembre.

(6) “How to build on new Yemen agreement”. DANA STROUL. THE WASHINGTON INSTITUTE FOR NEAR EAST POLICY, 13 de diciembre.

 

Texto disponível em https://www.nuevatribuna.es/articulo/mundo/yemen-genocidio-mohamedbinsalman-arabiasaudi/20181219104232158519.html

 

juan a sacaluga O autor: Jornalista. Durante 30 anos trabalhou na RTVE, onde desempenhou, entre outras, as seguintes responsabilidades: Coordenador dos corresponsáveis em RNE, Chefe de Internacional dos Telediarios (1988-1995), Diretor do Telediario Internacional (1995-1999) e Diretor de ‘En Portada’ (2004-2008). Em dezembro de 2008 foi-lhe aplicado o Expediente de Regulación de Empleo de RTVE e encontra-se em situação de pre-reforma. No âmbito universitário, foi professor da cadeira de Televisão no Mestrado Relações Internacionais e Comunicação, da Universidade Complutense de Madrid, entre 2000 e 2010. Atualmente publica as suas análises na Fundación Sistema e em Nueva Tribuna.

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