A responsabilidade da esquerda na trajetória de ascensão do neoliberalismo – algumas grelhas de leitura – 4. A leitura de Dani Rodrik: A – A abdicação da esquerda

baralho de letras_00

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

A – A abdicação da esquerda 

Dani Rodrik Por Dani Rodrik

Publicado por Project syndicate em 11 de julho de 2016

 

A reação política contra a globalização, evidente no referendo britânico do Brexit, era previsível. A maior surpresa é a inclinação decididamente de direita que a reação política assumiu, o que reflete parcialmente o papel da esquerda na liderança do movimento de hiperglobalização em momentos cruciais.

RONDA, ESPANHA – À medida que o mundo se recupera do choque do Brexit, vai-se tornando claro para os economistas e os responsáveis políticos que eles subestimaram severamente a fragilidade política da atual forma de globalização. A revolta popular que parece estar em curso está a tomar diversas formas sobrepostas: reafirmação das identidades locais e nacionais, exigência por maior controle democrático e responsabilização, rejeição de partidos políticos centristas e desconfiança em relação às elites e aos especialistas ao seu serviço.

Este retrocesso era previsível. Alguns economistas, incluindo eu próprio, tinham já alertado para as consequências de forçar a globalização económica para além das fronteiras das instituições que regulam, estabilizam e legitimam os mercados. A hiperglobalização no comércio e nas finanças, destinada a criar mercados mundiais perfeitamente integrados, destroçou as sociedades nacionais.

A maior surpresa é a inclinação decididamente de direita que a reação política tomou. Na Europa, são predominantemente nacionalistas e populistas locais que ganharam destaque, com a esquerda a avançar apenas em alguns lugares como a Grécia e a Espanha. Nos Estados Unidos, o demagogo de direita Donald Trump conseguiu deslocar o establishment republicano, enquanto o líder de esquerda Bernie Sanders não conseguiu ultrapassar a centrista Hillary Clinton.

Como um novo consenso emergente do establishment reconhece com relutância, a globalização acentua as divisões de classe entre aqueles que têm as competências e os recursos para tirar proveito dos mercados globais e aqueles que não têm essas possibilidades. O rendimento e as clivagens de classe, em contraste com as clivagens de identidade baseadas em raça, etnia ou religião, tradicionalmente fortaleceram a esquerda política. Então, porque é que a esquerda foi incapaz de estabelecer um desafio político significativo à globalização?

Uma resposta é que a imigração ofuscou outros “choques” da globalização. A ameaça sentida de fluxos maciços de migrantes e refugiados de países pobres com tradições culturais muito diferentes agrava as clivagens de identidade que os políticos de extrema-direita estão excecionalmente bem posicionados para explorar. Portanto, não é uma surpresa que políticos de direita, de Trump a Marine Le Pen, lancem a sua mensagem de reafirmação nacional com uma rica dose de simbolismo antimuçulmano.

As democracias latino-americanas oferecem um contraste revelador. Esses países viveram principalmente a globalização como um choque de comércio e investimento estrangeiro, e não como um choque de imigração. A globalização tornou-se sinónimo do chamado Consenso de Washington e da abertura dos mercados financeiros. A imigração do Oriente Médio ou da África permaneceu limitada e teve pouca relevância política. Assim, a reação populista na América Latina – no Brasil, Bolívia, Equador e, mais desastrosamente, na Venezuela – tomou uma forma de esquerda.

A história é semelhante nas duas principais exceções ao recrudescimento da direita na Europa – Grécia e Espanha. Na Grécia, a principal falha política tem sido as políticas de austeridade impostas pelas instituições europeias e pelo Fundo Monetário Internacional. Na Espanha, a maioria dos imigrantes até recentemente vinha de países latino-americanos culturalmente semelhantes. Em ambos os países, a extrema-direita não tinha o terreno fértil que tinha noutros países.

Mas a experiência na América Latina e no sul da Europa revela talvez uma fraqueza ainda mais grave da esquerda: a ausência de um programa claro para reformar o capitalismo e a globalização para o século XXI. Desde o Syriza da Grécia ao Partido dos Trabalhadores do Brasil, a esquerda falhou em apresentar ideias que sejam economicamente sólidas e politicamente populares, para além das políticas de melhoria das condições de vida como as transferências de rendimento.

Economistas e tecnocratas da esquerda têm aqui uma grande parte da culpa. Em vez de contribuírem para um tal programa, eles abdicaram muito facilmente face ao fundamentalismo de mercado e aderiram aos seus princípios centrais. Pior ainda, lideraram o movimento de hiperglobalização em momentos cruciais.

A entronização da livre mobilidade de capitais – especialmente de curto prazo – como norma política pela União Europeia, pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico e pelo FMI foi, sem dúvida, a decisão mais fatídica para a economia global nas últimas décadas. Como mostrou Rawi Abdelal, professor da Harvard Business School, este esforço foi encabeçado no final dos anos 80 e início dos anos 90 não por ideólogos do mercado livre, mas por tecnocratas franceses como Jacques Delors (na Comissão Europeia) e Henri Chavranski (na OCDE), que estavam intimamente ligados ao Partido Socialista em França. Da mesma forma, nos EUA, foram os tecnocratas associados ao Partido Democrata, mais Keynesiano, como Lawrence Summers, que assumiram a defesa da desregulamentação financeira.

Os tecnocratas socialistas da França parecem ter concluído, a partir da fracassada experiência de Mitterrand com o keynesianismo no início dos anos 1980, que a gestão económica interna já não era possível e que não havia alternativa real à globalização financeira. O melhor que se podia fazer era promulgar regras a nível europeu e global, em vez de permitir que países poderosos como a Alemanha ou os EUA impusessem as suas próprias regras.

A boa notícia é que o vazio intelectual da esquerda está a ser preenchido, e já não há nenhuma razão para acreditar na tirania do “não há alternativas”. Os políticos de esquerda têm cada vez menos razões para não se apoiarem sobre o “respeitável” poder de fogo académico na economia.

Consideremos apenas alguns exemplos: Anat Admati e Simon Johnson defenderam reformas bancárias radicais; Thomas Piketty e Tony Atkinson propuseram um rico menu de políticas para se tratar do grave problema da desigualdade ao nível nacional; Mariana Mazzucato e Ha-Joon Chang escreveram de forma perspicaz sobre como mobilizar o setor público para promover a inovação inclusiva; Joseph Stiglitz e José Antonio Ocampo propuseram reformas globais; Brad DeLong, Jeffrey Sachs e Lawrence Summers (o mesmo!) defenderam investimentos públicos de longo prazo em infraestrutura e na economia verde. Há elementos suficientes aqui para construir uma resposta económica programática da esquerda.

Uma diferença crucial entre direita e esquerda é que a direita prospera com o aprofundamento das divisões na sociedade – “nós” versus “eles” – enquanto a esquerda, quando bem sucedida, supera estas clivagens através de reformas que as colmatam. Daí o paradoxo de que as anteriores ondas de reformas da esquerda – keynesianismo, social-democracia, estado de bem-estar – salvaram o capitalismo de si próprio e tornaram-se elas próprias efetivamente supérfluas. Na ausência de tal resposta novamente, o campo será deixado em aberto para os populistas e para os grupos de extrema-direita, que conduzirão o mundo – como sempre fizeram – a uma divisão ainda mais profunda e a conflitos mais frequentes.

Texto disponível em https://www.project-syndicate.org/commentary/anti-globalization-backlash-from-right-by-dani-rodrik-2016-07

O autor: Dani Rodrik (1957-), economista e professor universitário turco. Doutorado em Economia (universidade de Princeton), é professor Rafiq Hariri de Política Económica Internacional na Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade de Harvard, onde leciona no programa de Master de Administração Pública (MPA). De acordo com o  IDEAS/RePEc, Rodrik é considerado um dos 100 economistas mais influentes do mundo. Tem publicado textos amplamente, nas áreas de economia internacional, economia, desenvolvimento económico e economia política. No centro das suas pesquisas tem estado a questão de o que constitui uma boa política económica e porque razão uns governos têm mais sucesso que outros. Os seus trabalhos incluem Economics Rules: The Rights and Wrongs of the Dismal Science e The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy e mais recentemente, Straight Talk on Trade: Ideas for a Sane World Economy. É também co-editor chefe do jornal académico Global Policy.

 

One comment

  1. O que é mais triste é não terem ainda os partidos socialistas e sociais-democratas feito a autocrítica dos seus erros na condução política da causa pública!

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: