A responsabilidade da esquerda na trajetória de ascensão do neoliberalismo – algumas grelhas de leitura – 4. A leitura de Dani Rodrik: B – O que é parou a esquerda?

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

B – O que é que parou a esquerda?

Dani Rodrik Por Dani Rodrik

Publicado por Project syndicate em 10 de abril de 2018

Porque é que os sistemas políticos democráticos não responderam suficientemente cedo aos sentimentos de profundo mal-estar que os populistas autocráticos exploraram com sucesso – desigualdade e ansiedade económica, perceção dolorosa do declínio de estatuto social, o abismo entre elites e cidadãos comuns? Se os partidos políticos, particularmente os de centro-esquerda, tivessem procurado levar a cabo uma agenda mais ousada, talvez a ascensão dos movimentos políticos locais de direita pudesse ter sido evitada.

Em princípio, uma maior desigualdade produz uma procura de mais redistribuição. Os políticos democráticos devem responder a esse sentimento impondo impostos mais altos sobre os ricos e utilizando essas receitas com os menos abastados. Essa intuição é formalizada num artigo [outubro de 1981] bem conhecido da economia política de Allan Meltzer e Scott Richard: quanto maior a diferença de rendimento entre o eleitor mediano e o eleitor médio, mais os impostos são elevados e mais importante é a redistribuição.

No entanto, na prática, as democracias avançaram na direção oposta. A progressividade dos impostos sobre a rendimento diminuiu, a dependência de impostos regressivos sobre o consumo aumentou e a tributação do capital seguiu uma concorrência à escala mundial no sentido da diminuição da tributação. Em vez de impulsionar o investimento em infraestruturas, os governos têm adotado políticas de austeridade que são particularmente prejudiciais para os trabalhadores pouco qualificados. Os grandes bancos e as grandes empresas foram resgatados, mas as famílias não. Nos Estados Unidos, o salário mínimo não foi suficientemente ajustado, o que permite a sua erosão em termos reais.

Parte da razão que explica esta evolução, pelo menos nos EUA, é que o Partido Democrata passou a defender uma política identitária (que coloca a tónica sobre a inclusão em função do género, raça e orientação sexual) e outras causas socialmente liberais, o que fez em prejuízo das questões de pão e manteiga que são os rendimentos e os empregos. Como Robert Kuttner escreve no seu último livro, a única coisa que faltava na plataforma de Hillary Clinton durante a eleição presidencial de 2016 era a classe social.

Uma explicação é que os democratas (e os partidos de centro-esquerda na Europa Ocidental) tornaram-se demasiado íntimos com a grande finança e com as grandes empresas. Kuttner descreve como é que os dirigentes do Partido Democrata tomaram uma decisão explícita de estender a mão ao setor financeiro após as vitórias eleitorais do presidente Ronald Reagan na década de 1980.

Os grandes bancos tornaram-se particularmente influentes não apenas através do seu poder financeiro, mas também através do seu controle de posições-chave na formulação de políticas nas administrações democratas. As políticas económicas da década de 1990 poderiam ter seguido um caminho diferente se Bill Clinton tivesse ouvido mais o seu Secretário do Trabalho, Robert Reich, um universitário e defensor de aplicação de políticas progressistas e menos o seu secretário do Tesouro, Robert Rubin, um ex-executivo da Goldman Sachs.

Mas os interesses instalados só explicam o fracasso da esquerda até certo ponto. As ideias desempenharam um papel pelo menos tão importante quanto os interesses estabelecidos. Depois que os choques do lado da oferta dos anos 1970 dissolveram o consenso keynesiano da era pós-guerra, e a tributação progressiva e o estado de bem-estar europeu ficaram transformados em peça de museu, o vazio foi preenchido pelo fundamentalismo de mercado (também chamado neoliberalismo) do tipo defendido por Reagan e Margaret Thatcher. A nova onda também pareceu ter capturado a imaginação do eleitorado.

Em vez de desenvolverem uma alternativa credível, os políticos do centro-esquerda compraram por atacado as ideias da nova vaga, o neoliberalismo. Os Novos Democratas de Clinton e o Novo Partido Trabalhista de Tony Blair atuaram como os líderes da claque da globalização. Os socialistas franceses tornaram-se inexplicavelmente defensores da libertação dos controlos dos movimentos internacionais de capitais. A sua única diferença em relação à direita foram os adoçantes que prometeram na forma de mais gastos com programas sociais e com a educação – o que raramente se tornou realidade.

O economista francês Thomas Piketty documentou recentemente uma interessante transformação na base social dos partidos de esquerda. Até ao final da década de 1960, os pobres geralmente votaram nos partidos de esquerda, enquanto os ricos votaram na direita. Desde então, os partidos de esquerda têm sido cada vez mais capturados pela elite bem-educada, a quem Piketty chama de “Esquerda Brahmin”, para os distinguir da classe “Mercantil”, cujos membros ainda votam em partidos de direita. Piketty argumenta que essa bifurcação da elite isolou o sistema político das exigências redistributivas. A esquerda Brahmin não é favorável à redistribuição, porque acredita na meritocracia – um mundo em que o esforço deve ser recompensado e em que os baixos rendimentos são mais provavelmente o resultado de um esforço insuficiente do que da má sorte.

As ideias sobre como o mundo funciona têm também desempenhado um papel entre os que não pertencem às elites, ao amortecerem a exigência de uma maior redistribuição. Ao contrário das implicações do quadro Meltzer-Richard, os eleitores americanos comuns não parecem estar muito interessados em aumentar as taxas marginais máximas de impostos ou em maiores transferências sociais. Isto parece ser verdade mesmo quando estão conscientes – e preocupados – com o aumento acentuado da desigualdade.

O que explica este aparente paradoxo são os níveis muito baixos de confiança destes eleitores na capacidade do governo em enfrentar o problema da desigualdade. Uma equipa de economistas verificou que as pessoas entrevistadas “imunizadas” de referências a lobistas ou ao resgate de Wall Street mostram níveis significativamente mais baixos de apoio às políticas contra a pobreza.

A confiança no governo tem vindo a diminuir nos EUA desde os anos 1960, com alguns altos e baixos. Há tendências semelhantes em muitos países europeus também, especialmente no sul da Europa. Isto sugere que os políticos progressistas que preveem um papel ativo do governo na reformulação das oportunidades económicas enfrentam uma batalha difícil na conquista do eleitorado. O medo de perder essa batalha pode explicar a timidez da resposta da esquerda.

No entanto, a lição a tirar de estudos recentes é que as crenças sobre o que o governo pode e deve fazer não são imutáveis. Elas são suscetíveis à persuasão, à experiência e à mudança de circunstâncias. Isto é tão verdadeiro para as elites quanto para as não-elites. Mas uma esquerda progressista que seja capaz de enfrentar a política interna terá que apresentar para além de boas políticas, uma boa história também.

 

Publicado em https://www.project-syndicate.org/commentary/left-timidity-after-neoliberal-failure-by-dani-rodrik-2018-04?barrier=accesspaylog

Disponível também em https://www.aspistrategist.org.au/whats-stopping-left/

 

O autor: Dani Rodrik (1957-), economista e professor universitário turco. Doutorado em Economia (universidade de Princeton), é professor Rafiq Hariri de Política Económica Internacional na Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade de Harvard, onde leciona no programa de Master de Administração Pública (MPA). De acordo com o  IDEAS/RePEc, Rodrik é considerado um dos 100 economistas mais influentes do mundo. Tem publicado textos amplamente, nas áreas de economia internacional, economia, desenvolvimento económico e economia política. No centro das suas pesquisas tem estado a questão de o que constitui uma boa política económica e porque razão uns governos têm mais sucesso que outros. Os seus trabalhos incluem Economics Rules: The Rights and Wrongs of the Dismal Science e The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy e mais recentemente, Straight Talk on Trade: Ideas for a Sane World Economy. É também co-editor chefe do jornal académico Global Policy.

 

One comment

  1. A cultura do individualismo nas sociedades, a ileteracia geral sobre o funcionamento da economia nas sociedades e a interligação com a coesão social entre estratos sociais e profissionais e a ausência de preparação da escola pública para essa educação de cidadania ainda não foram abordadas e o sistema dele se alimentou.

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