DA DEGENERESCÊNCIA DO ESTADO-NAÇÃO AO TRATADO DE AIX-LA-CHAPELLE DE 22 DE JANEIRO DE 2019 – uma pequena série de textos – TEXTO Nº 5 – O TRATADO DE AIX-LA-CHAPELLE, A NEGAÇÃO DA NAÇÃO E DA NOSSA SOBERANIA, por JACQUES COTTA

 

 Trono de Carlos Magno na Catedral de Aix-la-Chapelle /Autor: Berthold Werner -Aechener Don, Karlsthron

 

 Jacques Cotta,Le traité d’Aix la Chapelle, la négation de la Nation et de notre souveraineté…

La Sociale.viablog, 25 de Janeiro de 2019

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

As eleições presidenciais demonstraram a natureza profundamente antidemocrática da Quinta República, permitindo que o vencedor da primeira volta  com um número muito reduzido de votos tenha a garantia de vitória na segunda volta,  desde que o seu adversário seja o candidato da Frente Nacional. Assim, com apenas um quarto dos votos expressos em seu nome – ou seja, apenas um quinto dos registados – Emmanuel Macron encontrou-se à frente do Estado contra Marine Le Pen, cuja presença efetivamente garantiu a sua eleição. Os mais  otimistas pensavam  que as eleições passadas permitiriam que a democracia recuperasse o controlo. Mas hoje, porém, é a vida política cujo carácter democrático é desprezado, negado e reprimido, assim que o Presidente da Rassemblement National  toma a palavra. O Tratado de Aix-la-Chapelle  confirma esta terrível realidade. Com efeito, basta que Marine Le Pen denuncie “o abandono da Alsácia Lorena” ou que o seu companheiro Nicolas Dupont-Aignan afirme que “a França deixa a sua soberania na  ONU a favor  da Alemanha” para um clamor político-jornalístico venha evocar as “notícias falsas” e apela, num tom terrorista, a que se  pare com  todas as interrogações  sobre o assunto. Qualquer crítica ao Tratado de Aix-la-Chapelle equivaleria a subscrever as posições dos dirigentes do Rassemblement ou de Debout La  France, de Dupont-Aignan.

De Bruno Le Maire…

 


Sobre um plano diretamente  político, é Bruno Le Maire que é o retransmissor notável da palavra macroniana. Nas ondas de rádio, não deixou de criticar as palavras que põem em causa o Tratado, sem, contudo, voltar atrás em algumas declarações fundamentadas que se lhe opõem. Também sem entramos  numa explicação provavelmente difícil do método pelo qual este novo Tratado foi assinado.

O Tratado de Aix-la-Chapelle  entre a Alemanha e a França foi ratificado sem qualquer apresentação ao povo. Foi apenas alguns dias antes da sua ratificação que o evento foi mencionado. E foi praticamente clandestinamente, na sumptuosa sala  dos atos  da Câmara Municipal, sob a sua soberba encruzilhada de ogivas, que cinquenta e seis anos depois do Tratado do Eliseu ratificado por De Gaulle e Adenauer em 1963, Emmanuel Macron e Angela Merkel vieram ratificar sem uma palavra um texto há muito anunciado, sem nunca ter sido revelado o seu conteúdo.

É sem dúvida o difícil contexto político em que se debate o Presidente da República cuja impopularidade, diante das mobilizações populares que se repetem semanalmente, bate todos os recordes, que tem impedido o executivo de se vangloriar como é habitual sobre este tipo de temas. Em setembro de 2017, no seu discurso sobre a Europa na Sorbonne, Emmanuel Macron defendeu “um impulso franco-alemão decisivo e concreto” e propôs a ratificação de um novo tratado em 22 de janeiro de 2018. Faltando originalidade e com um alinhamento disciplinado com os interesses políticos e económicos que dominam a “construção europeia”, Emmanuel Macron retomou as ideias já expressas pelo ex-chanceler alemão Gerhard Schröder – um grande crítico das conquistas sociais na Alemanha, entre as quais  o sistema de pensões, flexibilidade, precariedade, etc. – e por Alain Minc – cujas propostas “progressistas” são bem conhecidas – que num fórum em 2016 pediu uma extensão do texto assinado em 1963.

 

A Laurent Joffrin

 

E na imprensa, é Joffrin quem sinaliza o fim da discussão antes mesmo que ela tenha sido aberta. O método é subtil. Numa primeira e longa parte do trabalho que dedicou ao assunto em 22 de janeiro, ele repete uma série de afirmações que soam bem. Trata-se de “traição consumada”, de “confiscação”, de camuflagem pelos “meios de comunicação oficiais nas mãos da oligarquia”, da realização do “sonho do grande Reich”… Laurent Joffrin mudou?

Este carrega na escrita para desvalorizar melhor qualquer interrogação  legítima. “Strasbourg sob o fogo dos canhões alemães”, “as províncias de Leste  que custaram à França tantos milhões de mortos” que “regressam ao  Le Boche (aos alemães)  sem sequer disparar um tiro, sob o ferrolho do império alemão-europeu”, “a Marselhesa será em breve”, nas escolas orientais, substituídas pelo Deutschland Uber Alles, e menus alternativos, equivalentes germânicos dos menus halal já impostos nos territórios perdidos da República, serão oferecidos às crianças, com salsicha de Frankfurt e chucrute obrigatório. Para levar  à “ditadura germânica” denunciada por Jean-Luc Mélenchon.

Laurent Joffrin aproveitou o Tratado de Aix-la-Chapelle para através dos  “valorosos  soberanistas” e “patriotas vigilantes” chegar ao Rassemblement National de Marine Le Pen . No debate, ele funciona como as  instituições em eleições. Qualquer interrogação, qualquer  crítica seria, portanto, automaticamente desacreditada. E como ninguém é melhor servido do que ele próprio, o redator do Libération utiliza o Tratado de Aix-la-Chapelle para tentar, no meio do Movimento dos Coletes Amarelos, reabilitar “os meios de comunicação social que a oligarquia cosmopolita dos Drahi, Dassault e Niel mantém sob rédea solta, justamente denunciados  até nas  fileiras de France Insoumise de Mélenchon  ou por Natacha  Polony….”. O “cosmopolita” ligado  à “oligarquia” indica claramente a intenção do autor.

Mas o que é que eles querem esconder?

O artigo 8º do Tratado estabelece que “a admissão da Alemanha no Conselho de Segurança da ONU é uma prioridade para a diplomacia franco-alemã” e que a França e a Alemanha “atuarão em conjunto para promover as posições e compromissos da UE nas Nações Unidas em resposta aos desafios e ameaças globais”.

Deve, pois, considerar-se que as diplomacias francesa e alemã estão ligadas, seladas pela União Europeia. Que confissão! Mas qual é o significado de tal vontade, numa União Europeia rejeitada pelos povos, contraditória com o exercício da soberania das nações? E quais são os “desafios e ameaças globais” que permitiriam que a França e a Alemanha prevalecessem sobre as posições da UE, que se define precisamente como não tendo qualquer posição, exceto as que são a favor dos interesses do capital financeiro?

No seu artigo 13º, o Tratado prevê a concessão de “poderes adequados” e de “recursos específicos” aos euro-distritos, grandes entidades administrativas europeias. É uma questão de “bilinguismo”, de “comité de cooperação transfronteiriça”… Mas, em termos concretos, de que se trata senão de avançar no projeto de uma Europa das regiões, que implica o desmantelamento das nações em nome da eficácia e da cooperação?

A vontade expressa neste Tratado é a criação de uma zona económica franco-alemã com regras comuns e uma harmonização do direito dos negócios entre os dois países como um passo decisivo para o Espaço Económico Europeu. Mas e as outras nações, dentro e fora da Europa, com as quais a França pode e deve cooperar livremente? A ligação ao capital financeiro que ordena a União Europeia é reafirmada em pormenor no Tratado. Neste,  estabelece-se que “um membro do Governo de um dos dois Estados participará, pelo menos uma vez por trimestre e alternadamente, no Conselho de Ministros do outro Estado” e o artigo 20.º obriga os dois Estados a “promover a convergência entre os dois Estados e melhorar a competitividade das respetivas economias”, através do Conselho Económico e Financeiro franco-alemão.

O tratado dos estropiados

Este tratado de Aix-la-Chapelle  visa aprofundar a política de destruição da nossa soberania. Constitui uma agressão contra as nações e os povos. Subordina a nossa política e diplomacia aos interesses alemães. Paradoxalmente, são  dois chefes de Estado muito enfraquecidos que aí se  estão a arriscar.  Em França, Emmanuel Macron, apesar de todos os gestos, não pode escapar aos Coletes Amarelos que o observam tranquilamente num grande debate que só tem como dimensão a palavra. Na Alemanha, a chanceler não é mais do que uma líder no final do seu reinado, num país que também enfrenta uma verdadeira crise política. Tudo isto tendo como  pano de fundo o Brexit, que nunca mais acaba….

Compreende-se melhor as razões pelas quais os proeminentes detentores do poder e editorialistas  estão a tentar tudo para desacreditar as questões,  as oposições e as discussões sobre os comportamentos excêntricos do governo  que ameaçam a nação  negando a  sua soberania.

 

Fonte: Jacques Cotta, Le traité d’Aix la Chapelle, la négation de la Nation et de notre souveraineté…Texto editado pelo sitio La Sociale-Analyses et débats pour le renouveau d’une pensée de l’émancipation. Texto disponível em:

http://la-sociale.viabloga.com/news/le-traite-d-aix-la-chapelle-la-negation-de-la-nation-et-de-notre-souverainete

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. A traição dos governantes aos interesses dos povos há muito que é um hábito, já que a origem de classe deles não lhes permite que se identifiquem com os interesses e dignidade do povo.

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