A responsabilidade da esquerda na trajetória de ascensão do neoliberalismo – algumas grelhas de leitura – 8. A leitura de Nelson Lichtenstein – Um fabuloso fracasso: A década de 1990 de Clinton e a origem dos nossos tempos de agora (1/2)

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

8. Um fabuloso fracasso: A década de 1990 de Clinton e a origem dos nossos tempos de agora (1/2)

Nelson Lichtenstein Por Nelson Lichtenstein

Publicado por The American Prospect em 29 de janeiro de 2018

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A derrota de Hillary Clinton no Midwest industrial contra Donald Trump selou o seu destino no dia das Eleições de 2016. Essa derrota, tanto estreita quanto catastrófica, teve muitos arquitetos, mas um dos mais consequentes ocupou a Casa Branca quase 25 anos antes, quando o seu marido assumiu a direção de uma América cuja economia estava em estagnação, com uma  desindustrialização desenfreada e um défice comercial gigante, de uma América que clamava por reformas estruturais para romper decisivamente com o laissez-faire estilo Reagan e para renovar a lealdade dos eleitores em dificuldade ao partido de Roosevelt, Truman e Johnson. Mas isso foi precisamente o que Bill Clinton não fez.

Muitos recordam a década de 1990 como um momento de triunfo económico com o desemprego cada vez mais baixo, crescimento económico anual de 4%, um mercado de ações em expansão e até mesmo um orçamento federal equilibrado no final do milénio. Os economistas Alan Blinder e Janet Yellen chamaram a esses anos a “Década Fabulosa” em 2001, enquanto um artigo de opinião de 2015 no The New York Times tinha o título “A Melhor Década de Sempre? A década de 1990, obviamente”. Embora os republicanos tenham conquistado o controlo do Congresso em 1994, vale a pena aqui lembrar que o vice-presidente de Ronald Reagan, George H.W. Bush, obteve apenas 37% dos votos em 1992, enquanto o robusto republicano, Robert Dole, teve 40% em 1996. A política estava claramente em movimento. Os Clintons, portanto, dispuseram de um momento histórico de reformular não apenas as políticas de comércio, investimento e saúde, mas também os regulamentos, normas e expectativas que poderiam reger uma versão do capitalismo dos EUA no pós-guerra fria.

O seu fracasso em aproveitar essas circunstâncias fortuitas condenou qualquer esforço para construir uma economia mais equitativa ou uma ordem política suficientemente poderosa para sustentar um liberalismo dominante, um fracasso que Donald Trump um dia aproveitaria. Como este disse a uma audiência numa siderúrgica em Monesson, Pensilvânia, em 28 de junho de 2016: “A globalização tornou muito rica a elite financeira que oferece donativos aos políticos. Mas deixou milhões dos nossos trabalhadores sem nada além de pobreza e sofrimento. A América tornou-se a economia dominante do mundo ao tornar-se o produtor dominante do mundo… criando a maior classe média que o mundo já conheceu. Mas depois a América mudou a sua política. … Permitimos que países estrangeiros subsidiassem os seus bens, desvalorizassem as suas moedas, violassem os seus acordos e trapaceassem de todas as formas imagináveis“.

A retórica de Trump nunca pode ser tomada a sério pelo que ele diz, mas durante a campanha de 2016 ele teve uma incrível capacidade de capturar a angústia e a identidade desses cidadãos e trabalhadores, muitos deles antes eram sólidos eleitores democratas, agora vitimados e marginalizados pelas transformações financeiras e económicas aparentemente incontroláveis das últimas décadas. Com alguma justificação, ele apelidou o Acordo de Livre Comércio da era Clinton de ser “o pior acordo comercial” da história, e opôs-se à entrada da China na Organização Mundial do Comércio. Trump foi o primeiro candidato presidencial real de um dos dois maiores partidos – Ross Perot concorreu como candidato de um terceiro partido – a afirmar que a política comercial era a causa e o símbolo do mal-estar dos trabalhadores de colarinho azul.

 

Bill Clinton e o seu momento

Embora o pensamento histórico e jornalístico convencional coloque Ronald Reagan no centro da viragem conservadora da política comercial e orçamental americana, sabemos que a ratificação de tal viragem política só se verifica quando o partido de oposição ostensivamente hostil se acomoda e depois avança com a realização dessa transformação. E isso é o que a administração de Bill Clinton fez – normalizou aspetos-chave da cosmovisão económica de Reagan. Como disse Clinton no seu discurso de 1996 sobre o Estado da União, “A era do grande governo acabou”. Essa declaração foi feita depois da derrota dos Democratas nas eleições do Congresso de 1994, mas grande parte dessa mudança de política para a direita veio mais cedo, mesmo antes de o Partido Republicano conseguir o poder de veto legislativo.

Esta capitulação de Clinton não era inevitável. O manifesto da campanha, “Putting People First”, foi largamente baseado nos trabalhos recentes de Robert Reich, Ira Magaziner e outros “Amigos de Bill” que claramente se situavam à esquerda. Muitos dos conselheiros de Clinton admiravam o modelo económico praticado na Alemanha, nos países escandinavos, na Itália do Norte, no Japão, e nos “Tigres” do leste asiático. Por exemplo, a economista Laura D’Andrea Tyson tinha estudado planeamento económico da Jugoslávia no MIT e tinha acabado de publicar o livro Who’s Bashing Whom? Trade Conflict in High-Technology Industries, um livro em que a autora se posicionava a favor de uma política comercial dura se os Estados Unidos queriam impedir a eliminação pela parte do Japão daquelas indústrias em que os Estados Unidos tinham sido um pioneiro inovador mas em que se atrasaram na utilização de técnicas de produção industrial de baixo custo.

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Da esquerda para a direita: Secretário do Tesouro Lloyd Bentsen, Presidente Clinton e Secretário do Trabalho Robert Reich. AP Photo/Marcy Nighswander

 

Todos os conselheiros do Clinton concordaram com a frase de James Carville: “É a economia, oh estúpido.” Doravante, e nesta base, o governo poderia oferecer um conjunto vigoroso de intervenções tanto para impulsionar a procura agregada, como no keynesianismo tradicional, como para utilizar as políticas estruturais para aumentar a produtividade do capital e do trabalho, proteger os setores centrais da indústria e desenvolver a equidade na vida dos americanos. Ou assim parecia.

 

O grupo do círculo de Clinton confronta-se com os mercados financeiros e recua

Mas uma renovação e modernização do liberalismo ao estilo New Deal nasceu no alvorecer da era Clinton. Assim como o republicano Dwight Eisenhower legitimou o New Deal ao aceitar muitas das suas conquistas, Bill Clinton ratificou muitas políticas neoliberais muito antes de Newt Gingrich levar o Partido Republicano à vitória com a derrota dos Democratas para o Congresso em 1994 ou de Clinton tentar triangular com os seus adversários em 1995 e depois.

Os principais conselheiros económicos nomeados durante a transição, nomeadamente Robert Rubin, Larry Summers, Lloyd Bentsen, Leon Panetta e Alice Rivlin, apresentaram um conjunto de prioridades económicas muito mais ortodoxas do que a “política industrial” da esquerda de Clinton. Este grupo, de que se salientam Rubin, Summers, Bentsen e Panetta passaram a dominar na determinação das políticas a seguir. Apesar da sua própria oposição inicial, o presidente eleito Clinton foi persuadido a desistir de um importante pacote de estímulo económico, incluindo investimentos direcionados, em troca das baixas taxas de juros que estes seus assessores pensavam que o mercado de títulos sustentaria se apenas o déficit fosse domesticado por uma combinação de limitação de despesas sociais e de impostos mais altos.

Era tradição os Presidentes Democratas nomearem Secretários do Tesouro (Ministros das Finanças) com ligações amistosas a Wall Street para dar confiança aos mercados. Mas, na presidência de Roosevelt, Truman e Johnson, aos nomeados para este cargo faltou-lhes o poder (ou o desejo, como no caso do Secretário do Tesouro de Roosevelt, Henry Morgenthau) para eliminar o resto do programa do Progressive Party. Rubin, ao contrário dos outros, tinha iniciado a sua carreira nos Democratas como dador e angariador de fundos.

Clinton viu-se frente a frente com o poder ideológico em torno da redução do déficit em 7 de janeiro de 1993, reunido na mansão do governador em Little Rock. Aí, Rubin, recém-selecionado para dirigir o Conselho Económico Nacional (NEC) de Clinton, e Panetta, o novo chefe do Departamento de Gestão e Orçamento, defenderam a redução do défice, deixando de lado as propostas para o grande e inovador estímulo que Clinton havia defendido durante a campanha. O défice que a administração Bush legou a Clinton foi cerca de 40% maior do que a estimativa apresentada apenas alguns meses antes. Mais importante ainda, as taxas de juro de longo prazo teimosamente altas convenceram os homens ligados a Wall Street Wall, incluindo Rubin, de que um enorme reservatório de dinheiro para investimento ficaria congelado e por explorar. As taxas de juros dos títulos de longo prazo estavam agora acima de 7%. As taxas de juros mais baixas levariam sem dúvida a investimentos e despesas muito além do programa de estímulo de US$ 50 mil milhões proposto por Robert Reich [Secretário do Trabalho].

Mas cortar no orçamento significava eliminar grande parte da razão de ser do investimento social prometido durante a campanha. Os estrategas da campanha de Clinton, como James Carville, Paul Begala, Stan Greenberg e Mandy Grunwald, bem como Hillary Clinton e Ira Magaziner, estavam incrédulos. Não havia garantias de que meter na gaveta as promessas da campanha iria gerar uma resposta positiva do mercado de títulos, mesmo que o presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, tivesse uma política monetária mais fácil em troca da redução do défice. Um Clinton apavorado, confrontado com a realidade segundo Rubin, disse à sua equipa económica: “Quer-me dizer que o sucesso do meu programa e a minha reeleição depende do Federal Reserve e de um bando de especuladores sobre títulos?” Carville mais tarde comentaria que se ele nascesse de novo, ele quereria reencarnar-se na coisa mais poderosa do mundo, o mercado de títulos.

Mas tinha sido o próprio Clinton quem tinha nomeado os falcões do défice como Rubin e Bentsen, o novo secretário do Tesouro, que por sua vez escolheu o ortodoxo Summers como assistente principal, e mais tarde a suceder a Bentsen no cargo de Secretário do Tesouro. Nem todos na Casa Branca de Clinton aceitaram esta lógica. Escrevendo a Rubin e a Clinton no início de fevereiro, tanto a presidente do Conselho de Assessores Económicos, Laura Tyson, quanto o membro do conselho, Alan Blinder, argumentaram que “a redução do défice à custa do investimento público é autodestrutiva”. Blinder e Tyson queriam um programa gradual e plurianual para reduzir o défice, combinado com “uma mudança nas despesas públicas a favor de programas de investimento público”. Importante, Tyson e Blinder argumentavam que “qualquer plano para reduzir o défice em montantes significativamente grandes – e mantê-los depois – no final da década de 1990 e no próximo século exigiria mudanças no nosso sistema de saúde”. Magaziner esperava que os limites de gastos em saúde e a introdução de um sistema de gestão da concorrência teriam, de facto, um impacto de longo prazo sobre os gastos federais, possivelmente em 1996, colocando a necessidade de outros cortes de despesas.

Mas a esquerda de Clinton foi ultrapassada pelo grupo das pessoas ligadas a Wall Street. Rivlin, no Office of Management and Budget, assim como Bentsen e Roger no Tesouro, temiam que um plano de redução do défice insuficientemente duro enviasse o sinal político e orçamental errado para Wall Street. A direção de Office of Management and Budget argumentou que “é necessário um plano de redução do défice mais vigoroso” do que o proposto pela CEA “porque acredita que o Fed e os mercados de títulos responderão muito favoravelmente se formos suficientemente agressivos no nosso plano de redução do défice”

Tudo isso foi uma aposta sofisticada que dependia fortemente da mentalidade de alguns milhares de especuladores em Nova York, Tóquio, Frankfurt e Londres. Face a esta posição austeritária, Joseph Stiglitz, membro do Comité de Assessores Económicos de Clinton, replicou nas suas memórias de 2003 relativamente à década de 1990: “Estou convencido de que o argumento da confiança é o último refúgio daqueles que não conseguem encontrar melhores argumentos“. Os mercados financeiros, é claro, estão muitas vezes enganados, como provaria o colapso de 2000. Mas, no início do seu governo, Clinton optou por confiar mais nos mercados do que num governo de militantes políticos, de ativistas. Esta linha austeritária daria o tom para as decisões posteriores que definem Clinton como um neoliberal e não como o herdeiro de Roosevelt e de Johnson.

Seja qual for a sua fonte, as baixas taxas de juro, por si só, não poderiam incentivar ou orientar o investimento da forma mais produtiva. A partir do final da década de 1990, o fracasso em encontrar oportunidades de investimento lucrativas e produtivas distorceu a economia política. O aumento de milhões de milhões de dólares nas recompras de ações das grandes empresas, juntamente com a manutenção de uma grande quantidade de lucros das empresas nos paraísos fiscais, constitui uma admissão de que as oportunidades de investimento interno produtivo simplesmente não estão presentes ou pressionam para que se crie um ambiente de livre comércio desregulamentado.

Na sua ausência, o capital fluiu para paraísos fiscais ou para uma variedade de bolhas especulativas, encorajado pela revogação da Lei Glass-Steagall em 1999 e pela financeirização de uma parcela cada vez maior da economia. E, de facto, grande parte do boom do final da década de 1990 acabou por ser uma bolha. Daí o rebentar da crise dita das dot-com de 2001, a bolha imobiliária da primeira década do século 21 e o subsequente colapso financeiro e a Grande Recessão de 2008 a 2009. O triplicar do mercado de ações desde esse colapso sugere que essa especulação não foi eliminada. Mas o custo real – económico e político – desse défice de investimento não recaiu em Wall Street, mas em toda a nação, e não apenas na velha zona da ferrugem [n.t. a designada Rust Belt, região dos EUA que abrange estados do nordeste, dos Grandes Lagos e do meio-oeste atingidos pela desindustrialização], mas na governança municipal, no ensino superior, nos serviços de saúde e nas infraestruturas.

 

Política Comercial e Política Económica

A política comercial constitui uma versão da política industrial. O Acordo de Livre Comércio da América do Norte tinha muito menos a ver com comércio do que com política de investimento, assegurando que, no México, as empresas e bancos dos EUA pudessem repatriar os seus lucros, estender as proteções de patentes e de direitos de autor dos EUA e, de uma vez por todas, acabar com qualquer tentação do governo mexicano de expropriar as suas propriedades.

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Clinton promove o NAFTA, para desgosto da maioria dos democratas. AP Photo/Joe Marquette

Inicialmente, Clinton havia tentado ultrapassar os seus constrangimentos com um pacto comercial visto com ceticismo pelas organizações sindicais e pela maioria dos democratas do Congresso. O Tratado NAFTA tinha sido negociado durante a administração Bush, mas exigia a sua aprovação legislativa para entrar em vigor. A campanha de Clinton defendeu e aprovou este Tratado em outubro 1992 mas esforçou-se por torna-lo aceitável pela inclusão de normas de proteção laboral e ambientais. Estas melhorias provaram ser extremamente fracas, o que virou a AFL-CIO e grande parte da base do Partido Democrata contra o acordo. Para além das consequências a longo prazo sobre o emprego – o “som da gigante sucção “, tornado célebre por Ross Perot – Clinton cometeu um desastroso erro de cálculo político quando o seu governo decidiu minar a unidade trabalhistas-liberais e baralhar a paisagem partidária, levando o NAFTA a ser aprovado no Congresso com mais votos republicanos do que democratas.

Este foi o tipo de erro que Reagan nunca tinha cometido. Embora o comércio livre fosse a ideologia oficial de Reagan, a sua Administração, na verdade, orquestrou uma política industrial ad hoc que apaziguou os principais círculos políticos e económicos. Muitas queixas vieram de indústrias mais antigas, como têxteis, aço, automóveis e motocicletas, grandes bastiões dos Republicanos ou dos membros da linha conservadora da Região Sul dos Estados Unidos. Os Estados Unidos estavam a ser inundados por importações do Leste Asiático e especialmente de produtos japonesas. O Secretário de Comércio de Reagan, Malcolm Baldrige, e o seu vice, Clyde Prestowitz, desafiaram a ortodoxia do livre comércio ainda defendida pelo Departamento de Estado, que estava disposto a sacrificar as indústrias americanas para sustentar os aliados da Guerra Fria na Ásia.Inicialmente, Clinton havia tentado ultrapassar os seus constrangimentos com um pacto comercial visto com ceticismo pelas organizações sindicais e pela maioria dos democratas do Congresso. O Tratado NAFTA tinha sido negociado durante a administração Bush, mas exigia a sua aprovação legislativa para entrar em vigor. A campanha de Clinton defendeu e aprovou este Tratado em outubro 1992 mas esforçou-se por torna-lo aceitável pela inclusão de normas de proteção laboral e ambientais. Estas melhorias provaram ser extremamente fracas, o que virou a AFL-CIO e grande parte da base do Partido Democrata contra o acordo. Para além das consequências a longo prazo sobre o emprego – o “som da gigante sucção”, tornado célebre por Ross Perot –  Clinton cometeu um desastroso erro de cálculo político quando o seu governo decidiu minar a unidade trabalhistas-liberais e baralhar a paisagem partidária, levando o NAFTA a ser aprovado no Congresso com mais votos republicanos do que democratas.

Durante o primeiro mandato, o governo Reagan impôs uma quota às motocicletas japonesas, o que muito contribuiu para salvar Harley-Davidson, depois do que o secretário do Tesouro, James Baker, negociou uma desvalorização do dólar em 1985, o chamado Acordo Plaza, que tornou mais competitivas todas as exportações americanas de produtos manufaturados. Os negociadores comerciais de Reagan também foram pioneiros num dos setores industriais mais estratégicos do mundo. Os americanos tinham inventado os semicondutores, mas uma estratégia de inovação contínua não levou à competitividade deste setor industrial. Os fabricantes de chips americanos eram empresas autónomas, enquanto no Japão, grandes empresas ricas em capital investiram em chips de computador como apenas uma parte de um empreendimento bem maior de alta tecnologia. No início da década de 1980, as empresas japonesas tinham entrado no mercado dos EUA com resultados devastadores. Robert Noyce, da Intel, estimou que, entre 1984 e 1986, os fabricantes de chips perderam US$ 2 mil milhões e despediram 27 mil trabalhadores. Em resposta, o Departamento de Defesa levantou no mercado 500 milhões para financiar um novo consórcio de pesquisa, a Sematech, na verdade um cartel patrocinado pelo governo que travou a concorrência interna e colocou a tónica sobre as proezas da indústria manufatureira.  Enquanto isso, Prestowitz e outros negociadores comerciais adotaram uma postura de negociação dura que pôs fim ao dumping japonês dos seus chips no mercado dos EUA e exigiu que as empresas japonesas teriam de comprar 20% dos seus  chips a  produtores estrangeiros, a maioria nos Estados Unidos.

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Dezenas de democratas da região Rush Belt foram derrotados nas eleições de 1994, arrastando consigo outros, incluindo o Presidente da Câmara Tom Foley, que tinha apoiado a administração sobre o NAFTA.

Clinton mostrou-se reticente em apoiar-se neste precedente da era Reagan. Embora a sua administração tenha tentado abrir o Japão aos produtos americanos, em particular os agrícolas, este esforço encontrou uma resistência feroz daqueles interesses agrícolas rurais que intimidaram o Partido Liberal Democrata (ou seja, conservador) do Japão. Clinton falhou. Mas o México era outra história. Ao contrário do Japão, que era então a segunda maior economia industrial do mundo, o PIB do México era apenas 4% do dos Estados Unidos. Os EUA tinham aí mais liberdade de ação e a ratificação do pacto comercial no final de 1993 deu origem a um modelo a aplicar nas abordagens americanas à globalização e à incorporação de muitas nações em desenvolvimento nessa nova ordem.

Os Democratas estavam profundamente divididos sobre o NAFTA. Muitos na administração, até mesmo liberais como Reich, pensavam que a globalização era inevitável e que a melhor defesa dos padrões de vida americanos viria por meio do investimento interno numa força de trabalho altamente qualificada, num conjunto de indústrias hiperprodutivas e nas infraestruturas sociais físicas de apoio. Reich acreditava que a fabricação de têxteis e vestuário com mão-de-obra intensiva deixaria inevitavelmente os Estados Unidos. Em seu lugar surgiriam indústrias na indústria manufatureira e na criação de serviços de alta produtividade e altos salários, porque “a linha divisória fundamental que atravessa a força de trabalho de hoje é baseada na educação e nas competências”. O problema com esta perspetiva era que, embora a produtividade, bem como a educação, fosse realmente baixa na maior parte das empresas mexicanas – e asiáticas – na indústria manufatureira, as principais empresas orientadas para a exportação no mundo em desenvolvimento tinham demonstrado a capacidade de produzir bens de alta qualidade com salários baixos e trabalhadores pouco instruídos. Devido a uma desvalorização do peso no início da década de 1980, os salários mexicanos em termos de poder de compra real tinham diminuído cerca de 30% no final da década. “Porque é que as empresas deveriam investir numa estratégia de alta qualificação e altos salários nos Estados Unidos“, perguntou o especialista em relações industriais Harley Shaiken, amplamente citado, em 1993, “quando uma estratégia de alta qualificação e baixos salários está disponível no México“?

Richard Gephardt, Líder da Maioria da Câmara dos Deputados, partilhou essa perspetiva. Gephardt vinha de St. Louis, região industrial e altamente sindicalizada, e ele abrigava algumas ambições presidenciais – uma das razões pelas quais, nos últimos anos da administração George H.W. Bush, apoiou, com relutância e cautela, a autoridade chamada “Fast Track”, esperando que uma outra administração e mais liberal pudesse incluir negociações sobre mudanças significativas sobre o Direito do Trabalho e sobre regras relativas ao meio ambiente. Bill Clinton manteve tais esperanças vivas quando em 4 de outubro de 1992, quando apoiou o NAFTA, mas insistindo que o Acordo Comercial teria que ser parte de uma “estratégia económica mais vasta” projetada para fazer subir os salários dos trabalhadores americanos e proteger as suas regalias assim como o meio ambiente. Durante o ano seguinte, Gephardt trabalhou muito próximo com o AFL-CIO para fazer das cláusulas sobre o trabalho no Acordo NAFTA algo mais do que uma afirmação que cada nação deve reforçar as suas próprias, frequentemente inadequadas, leis do trabalho.

“O Acordo NAFTA, com a adoção do acordo suplementar, é um acordo inovador”, disse o representante comercial dos EUA, Mickey Kantor, ao anunciar a conclusão de um acordo NAFTA, a 13 de agosto de 1993. “Pela primeira vez, um acordo de livre comércio cobre os direitos dos trabalhadores e o meio ambiente”. Mas o diabo estava nos detalhes. Os Estados Unidos terão alcançado um compromisso não vinculativo com o governo mexicano para vincular a sua estrutura de salários mínimos aos aumentos de produtividade e crescimento da economia mexicana. As multas para a violação das direitas laborais eram possíveis no fim de um longo processo de consulta, mas o tribunal estabelecido no âmbito do NAFTA não teria nenhum poder obrigar um governo a pagar ou a penalizar um empregador particular. Horas depois do anúncio de Kantor, uma coligação de líderes sindicais, de advogados das organizações de defesa do consumidor, e de grupos ambientais tinham denunciado o acordo.

Gephardt também considerou os acordos paralelos de “não suportáveis”, e num discurso no National Press Club em 21 de setembro de 1993, ele anunciou que iria votar contra o Acordo.  Gephardt argumentou que o comércio justo era uma contradição nos seus termos quando aplicado a nações cujas estruturas sociais e de políticas económicas eram incompatíveis; a diferença salarial no Rio Grande era de 8 para 1. Na ausência de despesas significativas para formação e criação de empregos, Gephardt alertou para a “pressão à descida sobre os acordos salariais, reduzindo os nossos padrões de vida”. E os americanos enfrentam esse argumento não só face ao México, mas também face à China e outros países no mundo”.

A oposição trabalhista-liberal ao NAFTA seria, portanto, firme no Congresso, apoiada por sondagens que mostravam que a maioria dos americanos se opunha ao acordo. Mais importante ainda, a administração Clinton estava, no mínimo, dividida no tempo, com Hillary Clinton, entre outros, a pressionarem para um um adiamento da  aprovação  do acordo NAFTA para depois da batalha sobre o Sistema de Saúde  no Congresso. Mas Bill Clinton avançou e seguiu em frente. A Casa Branca montou um gabinete de guerra, chefiada por William Daley, um banqueiro e filho mais novo do lendário prefeito de Chicago. A administração tentou de tudo, fazendo acordos paralelos para obter os votos de representantes dos produtores de citrinos, da indústria vidreira, dos produtores de vinho e de outros interesses que poderiam ser prejudicados pela concorrência do México. E quando o extravagante e errático Ross Perot se tornou no rosto da oposição ao NAFTA, a Casa Branca não ficou nada descontente.

A Câmara aprovou o acordo NAFTA por uma votação de 234 a 200 em 17 de novembro e o Senado seguiu-se-lhe três dias depois com 61 a favor e 38 contra. Em ambas as Câmaras, foram mais os republicanos a votarem a favor do acordo comercial do que os democratas, uma fratura de mau augúrio nas fileiras liberais. Edward Kennedy apoiou Clinton, declarando: “Todos os problemas que as famílias trabalhadoras enfrentam… serão ainda piores se o NAFTA for derrotado”. Mas outros liberais como o senador Don Riegle de Michigan votaram não, concluindo, “Este é um programa de empregos para o México, e meu Deus, precisamos de um programa de empregos para a América”. Clinton pensou que tinha assegurado uma vitória bipartidária maravilhosa, mas os eleitores do Rust Belt e os seus representantes eleitos rejeitaram o pacto comercial. Clinton “dividiu gravemente a base eleitoral do Partido Democrata e alienou os eleitores indecisos”, concluiu Lawrence Mishel e Ruy Teixeira do progressista Economic Policy Institute. Mais de duas décadas depois, o NAFTA ainda era um símbolo ressonante e impopular para Trump poder utilizar contra os Clintons.

Dezenas de democratas da região chamada Rush Belt foram derrotados nas eleições de 1994, arrastando consigo outros, incluindo Tom Foley, o Presidente da Câmara, que tinha apoiado a Casa Branca sobre o NAFTA. Ganhando a Câmara pela primeira vez em 40 anos, os conservadores do Partido Republicano entraram no vazio político gerado pela desordem liberal. Newt Gingrich e um novo grupo de novos membros do Congresso levaram o Partido Republicano decisivamente para a direita, Perot candidatou-se mais uma vez à presidência e, na extrema direita, Pat Buchanan ofereceu uma amostra de Donald Trump quando empregou retórica de guerra cultural para denunciar uma “Nova Ordem Mundial” Bush-Clinton que significava a globalização, o multiculturalismo e uma desvalorização da nacionalidade americana.

(continua)

Texto disponível em https://prospect.org/article/fabulous-failure-clinton%E2%80%99s-1990s-and-origins-our-times

O autor: Nelson Lichtenstein (1944-) é professor de História na Universidade de Califórnia, Santa Barbara, e diretor do Centro de Estudos de Trabalho, Mão de Obra e Democracia. É historiador de trabalho, tendo escrito sobre política económica americana do século XX, nomeadamente indústria automativa e Wal-Mart. Outras obras:

  • Walter Reuther, The Most Dangerous Man in Detroit.Urbana, Ill.: University of Illinois Press, 1997.
  • Labor’s War at Home: The CIO in World War II.Philadelphia: Temple University Press, 2003.
  • State of the Union: A Century of American Labor.New edition. Princeton, N.J.: Princeton University Press, 2003.
  • The Retail Revolution: How Wal-Mart Created a Brave New World of Business.New York: Henry Holt and Company, 2009.
  • Who Built America? Vol. 2: 1865 to the Present,with Roy Rosenzweig and Joshua Brown. Boston: Bedford Books, 2007. (em co-autoria)
  • Industrial Democracy in America, co-edited with Harris Howell John. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.
  • Major Problems in the History of American Workers, with Eileen Boris. Houghton Mifflin, 2002.
  • American Capitalism: Social Thought and Political Economy in the Twentieth Century.Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2006.
  • Wal-Mart: The Face of Twenty-First-Century Capitalism.New York: The New Press, 2005.
  • The Right and Labor in America: Politics, Ideology, and Imagination, co-edited with Elizabeth Tandy Shermer. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2012.

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