A responsabilidade da esquerda na trajetória de ascensão do neoliberalismo – algumas grelhas de leitura: 12. A leitura de Dani Rodrik – As escolhas da esquerda

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Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

12. A esquerda, ou não?

Dani RodrikPor Dani Rodrik

Publicado por Project syndicate em 8 de janeiro de 2019

texto 12 a leitura de 1

Em face do ressurgimento do populismo de direita, a relativa fraqueza da esquerda reflete em parte o declínio dos sindicatos e grupos de trabalho organizados, que historicamente formaram a espinha dorsal dos movimentos de esquerda e socialistas. Mas quatro décadas de abdicação ideológica também desempenharam um papel importante.

 

CAMBRIDGE – Os principais beneficiários políticos das fraturas sociais e económicas provocadas pela globalização e pela mudança tecnológica, pode dizer-se, têm sido até agora os populistas de direita. Políticos como Donald Trump nos Estados Unidos, Viktor Orbán na Hungria e Jair Bolsonaro no Brasil chegaram ao poder capitalizando o crescente ânimo contra as elites políticas estabelecidas e explorando o sentimento nativista latente.

Os grupos de esquerda e progressistas têm estado em grande parte desaparecidos em combate. A relativa fraqueza da esquerda reflete parcialmente o declínio dos sindicatos e grupos de trabalho organizados, que historicamente formaram a espinha dorsal dos movimentos socialistas e de esquerda. Mas a abdicação ideológica também desempenhou um papel importante. À medida que os partidos de esquerda se tornaram mais dependentes das elites educadas do que da classe trabalhadora, as suas ideias políticas alinharam-se mais estreitamente com os interesses financeiros e corporativos.

Os remédios oferecidos pelos principais partidos de esquerda permaneceram correspondentemente limitados: mais gastos com educação, melhores políticas de previdência social, um pouco mais de progressividade na tributação e pouco mais. O programa da esquerda consistia mais em edulcorar o sistema em funcionamento do que enfrentar as causas fundamentais das iniquidades económicas, sociais e políticas.

Há agora um reconhecimento crescente de que as políticas de impostos e transferências só podem ir ser aplicadas até certo ponto. Embora haja muito espaço para melhorar a segurança social e os regimes fiscais, especialmente nos EUA, são necessárias reformas mais profundas para ajudar a nivelar as condições de atuação em favor dos trabalhadores comuns e das famílias e isto numa ampla gama de domínios. Isso significa focarmo-nos nos mercados de produtos, de trabalho e nos mercados financeiros, nas políticas tecnológicas e nas regras do jogo político.

A prosperidade inclusiva não pode ser alcançada simplesmente redistribuindo o rendimento dos ricos para os pobres, ou das partes mais produtivas da economia para setores menos produtivos. Exige que os trabalhadores menos qualificados, as empresas mais pequenas e as regiões mais atrasadas estejam mais plenamente integradas com os sectores mais avançados da economia.

Por outras palavras, devemos começar com a reintegração produtiva da economia nacional. As empresas grandes e produtivas têm aqui um papel fundamental a desempenhar. Elas devem reconhecer que o seu sucesso depende dos bens públicos que os seus governos nacional e regionais forneçam – desde a ordem pública e as regras de propriedade intelectual, até às infraestruturas e ao investimento público em formação de competências, em investigação e em desenvolvimento. Em troca, elas devem investir nas suas comunidades locais, em fornecedores e em força de trabalho – não como responsabilidade social corporativa, mas como uma atividade principal.

Numa época anterior, os governos envolveram-se em atividades de extensão agrícola para disseminar novas técnicas para os pequenos agricultores. Há um papel semelhante hoje para o que Timothy Bartik, do W.E. Upjohn Institute for Employment Research, chama de “serviços de extensão à indústria transformadora”, embora as ideias se apliquem também aos serviços produtivos. Os governos que colaboram com as empresas para incentivar a difusão de tecnologias de fronteira e técnicas de gestão para o resto da economia podem-se socorrer de um repertório bem estabelecido de tais iniciativas.

Uma segunda área de ação pública diz respeito à direção da mudança tecnológica. As novas tecnologias, como a automação e a inteligência artificial (IA), têm sido tipicamente substitutivas da mão-de-obra, afetando de forma negativa e em particular os trabalhadores pouco qualificados. Mas este não precisa ser o caso no futuro. Em vez de políticas (tais como subsídios de capital) que inadvertidamente promovem tecnologias de substituição de mão-de-obra, os governos poderiam promover tecnologias que aumentam as oportunidades no mercado de trabalho para trabalhadores menos qualificados.

O falecido economista Tony Atkinson, no seu magistral livro Inequality, questionou a sabedoria dos governos que apoiam o desenvolvimento de veículos autónomos, sem a devida consideração pelos efeitos sobre os taxistas e camionistas. Mais recentemente, os economistas Daron Acemoğlu, Anton Korinek e Pascual Restrepo escreveram sobre como a IA pode ser implantada de novas formas para aumentar a procura de trabalho, por exemplo, permitindo que trabalhadores comuns se envolvam em atividades que anteriormente estavam fora do seu alcance. Mas avançar nessa direção exigirá um esforço consciente por parte dos governos para reverem as suas políticas de inovação e implementar os incentivos apropriados para o setor privado.

Os mercados de trabalho também precisam de ser reequilibrados. O enfraquecimento dos sindicatos e das proteções para os trabalhadores corroeu as fontes tradicionais de contrapoder. Estudos recentes mostraram que as empresas mantêm uma influência significativa na negociação sobre os empregados, deprimindo os salários e as condições de trabalho. A inversão destas tendências exigirá uma série de políticas pró-trabalho, incluindo a promoção da sindicalização, salários mínimos mais elevados e padrões regulamentares adequados para os trabalhadores na “gig economy”, a economia de postos de trabalho temporários.

A finança é uma outra área que requer uma cirurgia significativa. Os setores financeiros da maioria das economias avançadas continuam sobredimensionados. Eles representam riscos contínuos para a estabilidade económica sem proporcionar benefícios compensatórios em termos de aumento do investimento em atividades produtivas. Como Anat Admati de Stanford e outros têm defendido desde há muito tempo, aos bancos exige-se, no mínimo, maiores requisitos de capital e um escrutínio regulatório mais rigoroso. O facto de as instituições financeiras terem escapado relativamente ilesas da crise de 2008-2009 diz muito sobre o seu poder político.

Como sugerem as falhas da regulação financeira, por mais importantes que sejam essas reformas económicas, elas precisam ser complementadas com medidas que corrijam a assimetria do acesso político. Nos EUA, a realização de eleições em dias úteis, em vez de fins de semana ou feriados – juntamente com regras de registo restritivas, manobras de engenharia eleitoral e uma miríade de outras regras eleitorais – coloca os trabalhadores comuns em desvantagem significativa. Isso adiciona-se às regras de financiamento de campanhas que permitiram às empresas e aos membros mais ricos da sociedade exercer uma influência desmesurada na legislação.

O Partido Democrata vai enfrentar um teste crítico na próxima eleição presidencial americana, a menos de dois anos de distância. Entretanto, tem uma escolha a fazer. Será que vai continuar a ser o partido da simples adição de edulcorantes de um sistema económico injusto? Ou terá a coragem de enfrentar a desigualdade injusta atacando-a nas suas raízes?

 

Texto disponível em https://www.project-syndicate.org/commentary/reviving-the-left-means-reintegrating-economies-by-dani-rodrik-2019-01

 

O autor: Dani Rodrik (1957-), economista e professor universitário turco. Doutorado em Economia (universidade de Princeton), é professor Rafiq Hariri de Política Económica Internacional na Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade de Harvard, onde leciona no programa de Master de Administração Pública (MPA). De acordo com o  IDEAS/RePEc, Rodrik é considerado um dos 100 economistas mais influentes do mundo. Tem publicado textos amplamente, nas áreas de economia internacional, economia, desenvolvimento económico e economia política. No centro das suas pesquisas tem estado a questão de o que constitui uma boa política económica e porque razão uns governos têm mais sucesso que outros. Os seus trabalhos incluem Economics Rules: The Rights and Wrongs of the Dismal Science e The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy e mais recentemente, Straight Talk on Trade: Ideas for a Sane World Economy. É também co-editor chefe do jornal académico Global Policy.

 

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