A responsabilidade da esquerda na trajetória de ascensão do neoliberalismo – algumas grelhas de leitura: 14. A leitura de Christiane Taubira – A política não é a caridade

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

14. A política não é a caridade

texto 13 a leitura de Taubira

 

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Sobre Christane Taubira, sobre a sua demissão do governo PS

“Porque é que Christiane Taubira decidiu deixar o governo PS”

Em Franceinfo, 27 de Janeiro de 2016 (ver aqui).

“(…)

Porque não é a sua primeira discordância sobre a justiça com Valls e Hollande

Este confronto (o da revisão constitucional) é o último de uma longa série, mas em cada um deles, Christiane Taubira manteve-se no seu posto. Em 2013, Manuel Valls era então Ministro do Interior e as suas relações com a Ministra da Justiça já estavam tensas. Em carta a François Hollande, ele torpedeou a reforma penal da Ministra da Justiça e pediu a arbitragem do Chefe de Estado. A carta veio parar às mãos da  imprensa, e Manuel Valls é forçado a especificar que eles continuarão a trabalhar juntos, sem que nenhum deles se demita.

Outro conflito, em junho de 2015. Durante uma entrevista na RMC, Christiane Taubira ameaçou deixar o governo se o seu projeto de lei sobre a justiça dos menores não fosse apresentado ao Parlamento. Um golpe de pressão que não deu frutos uma vez  que, sete meses depois, esta reforma ainda não está na ordem do dia e tem todas as hipóteses de vir a ser arquivada, de acordo com a Europe 1. Foi talvez esta perspetiva que também levou Christiane Taubira a tomar a sua decisão.

Porque denunciou a deriva à direita do governo socialista

Christiane Taubira sempre incarnou a caução de esquerda do governo, não hesitando em fazer ouvir a sua voz dissidente perante o discurso do governo. Por exemplo, em abril, a ministra criticou uma deriva “de direita” do governo. “A esquerda adotou as palavras da direita, é um erro“, disse ela em L’Obs. Comentários que o Primeiro-Ministro não apreciou. “Gostaria que me dissessem que palavras de direita é que a esquerda utiliza“, disse Manuel Valls à sua ministra da Justiça, de acordo com Le Figaro. A Ministra da Justiça teria respondido: “Deixe, explicar-lhe-ei mais tarde“.

No início do mandato de cinco anos, e numa altura em que uma onda de desconfiança soprava pelas fileiras do Partido Socialista, Christiane Taubira mostra-se, em junho de 2014, ao lado dos rebeldes do partido, reunidos em La Rochelle (Charente-Maritime) por ocasião do lançamento do seu coletivo Vive la gauche. “Deixámos que os franceses se desmoralizassem. Hoje, não temos escolha, temos que abrir caminho e dar espaço à política novamente“, explica, dizendo que está pronta para “assumir as consequências” da sua visita.

Em cada choque de ideias ou de tomada de posição diferente da do governo, Christiane Taubira permaneceu no poder, ao contrário de Benoît Hamon, Aurélie Filippetti e Arnaud Montebourg, que foram expulsos. Porquê esta diferença de tratamento? “O governo provavelmente precisa dela porque ela é o símbolo de um pensamento que é a antítese da política governamental em termos de valores e liberdades“, disse à Francetv info o deputado do PS, Pouria Amirshahi, um amigo de Christiane Taubira. Um símbolo que François Hollande procurou preservar o máximo tempo possível, com o objetivo de unir a esquerda durante as eleições presidenciais de 2017.

(…)”

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A política não é a caridade

Christiane Taubira

Entrevista por Le Jornal du Dimanche, em 17 de dezembro de 2018

 

lejdd. Que pensa do Movimento Coletes Amarelos?

Christiane Taubira. É ambíguo. Este Movimento  é ao mesmo tempo sublime e cheio de marcas abjetas. Trata-se de um verdadeiro movimento popular: os cidadãos, verificando que os espaços tradicionais de expressão democrática já não existem, tomam de assalto o espaço público para fazer ouvir a sua voz. É um ato tão inocente como orgulhoso. Os coletes amarelos fazem viver a Democracia, são uma possibilidade.

lejdd. O que é que há nele de abjeto?

Christiane Taubira. Certos objetivos, certas ideias. Há incontestavelmente  neste Movimento  pessoas sexistas, racistas, homófobos, xenófobos, antissemitas. Mesmo na história dos movimentos operários, que são magníficos, o historiador Gérard Noiriel lembra que se pode neles encontrar traços de preconceitos, de rejeição de focalização sobre o outro, exatamente porque é diferente. Este movimento não é construído em torno de um projeto, ele resulta de uma exasperação. Obrigatoriamente, há nele de tudo.

lejdd. Terá ele uma saída política?

Christiane Taubira. Deve haver uma. Um movimento social sem saída política só deixa traços de uma revolta. Assim, se não houver saída política, ele não terá permitido senão satisfazer exigências conjunturais rapidamente ultrapassadas.

lejdd. Representa este Movimento o nascimento de um trumpismo à francesa?

Christiane Taubira. Não vejo nele sinais manifestos disso mesmo. Há nele uma evidência contra os lugares simbólicos que é o testemunho de uma fratura entre uma parte da população e aqueles que governam o país. Mas quando a democracia é reduzida a uma apatia tal que seja necessário um levantamento popular para a abanar, para a despertar, mesmo sem uma linha diretriz nem perspetivas, é um despertar salutar.

lejdd. O que é que pensa do apoio de Marine Le Pen ao Movimento?

Christiane Taubira. Pessoalmente, tenho uma regra. Não quero contribuir para instalar a palavra de pessoas de quem contesto a sua autoridade ética. Na minha opinião, está fora disto.

lejdd. E Jean-Luc Mélenchon?

Christiane Taubira. Pessoalmente, sublinho a sua confiança excessiva, digamos, uma certa indecência em apelar à mobilização daqueles e daquelas que se manifestam sem lhes apresentar uma palavra de ordem política ou sindical.

lejdd. O que é que a senhora pensou enquanto antiga Ministra da Justiça, relativamente às rusgas das autoridades que o visaram?

Christiane Taubira. Estas reações são lamentáveis. Um responsável tem o direito de duvidar da independência dos juízes, de ter desconfianças sobre os mesmos, de dizer que uma recente nomeação, a do Procurador de Paris, neste caso, é um claro sinal de laços bem estreitos com o executivo. Mas não o pode fazer situando-se totalmente na subjetividade nem na base de nervos. Pense-se o que se quiser de um polícia, de um magistrado, quando se é responsável político, não se põe em causa a instituição judicial. Os procedimentos para a contestação existem.

lejdd. A esquerda, tem ela alguma responsabilidade na crise atual?

Christiane Taubira. A sua responsabilidade é pesada, muito pesada, tanto quanto ao passado como quanto ao presente. A esquerda pode ser ainda bem mais responsabilizada se ela não compreende que é a ela que cabe oferecer uma saída politica a este movimento. A justiça social, as condições de trabalho, o nível de vida, a mobilidade social, a exclusão, a pauperização, o urbanismo que isola, todos estes temas são os temas da esquerda. A esquerda deve, muito rapidamente, apresentar uma perspetiva política, em vez de continuar a falar como um papagaio por tudo e por nada, a repetir-se, a repetir-se sobre coisas informes e insensatas. A esquerda deve apresentar verdadeiras respostas.

lejdd. Como é que a senhora vê a política económica de Macron?

Christiane Taubira. Esta não é, não seria a que eu aplicaria. E é a sua política que lança as pessoas para a rua. O Presidente diz-nos que há líderes a quem é necessário conferir e aceitar o seu poder porque são eles que vão resolver as dificuldades de todos os outros. Não! Esta visão não se baseia em nada de sério, seja em matéria de dinâmica social seja em termos de progresso. Esta visão baseia-se numa visão neoliberal do mundo, num consentimento face às suas desordens, face a esta mundialização que combina belas oportunidades e uma violência inaudita.

lejdd. Mas não basta aplicar o programa do candidato Macron?

Christiane Taubira. Pelo menos esta visão tem a vantagem de ser clara: o chefe de Estado não parece atribuir nenhuma importância a coisas que não tenham o estatuto de mercadorias, como é o caso do acesso ao direito, aos cuidados… Macron só pensa em termos de resultados, de produtividade, de resultados lucrativos. Emmanuel Macron é uma pessoa dinâmica, inteligente, culta, que leu os filósofos, mas que vê as pessoas com altivez e condescendência. Dizem que é gaulista. Mas De Gaulle teria assumido o programa do Conselho Nacional de Resistência sobre os serviços públicos e não teorizaria sobre esmagar a cabeça aos corpos intermediários.

lejdd. As respostas do Presidente parecem-lhe ser insuficientes?

Christiane Taubira. Uma resposta que chega depois de duas jornadas de violências! É muito pernicioso: isto alimenta a ideia de que esta é a boa maneira de nos fazermos ouvir. O governo deveria ter reagido mais cedo. E o Presidente deveria ter-se exprimido também ele mais cedo, para abrir perspetivas, de se inquietar com a coesão, fixar as linhas para se atacar frontalmente a dinâmica geradora de desigualdades. As suas respostas são materiais e orçamentais, como no tempo das almas caridosas. Ora o que está em jogo é uma questão de justiça social. A política não é uma questão de caridade. A política é arbitragem entre interesses antagónicos.

lejdd. A violência chocou-a?

Christiane Taubira. A violência presta um muito mau serviço à causa. Para ter politicamente uma saída, este Movimento deve ser legítimo. Ora a violência contribui para minar a sua legitimidade.

lejdd. O regime poderia ter vacilado?

Christiane Taubira. Conheço as instituições: pode-se gritar durante seis meses “Macron. Demita-se”, o processo de destituição tem o seu próprio enquadramento, seja para ele seja para qualquer outro.

lejdd. Qual terá sido o erro do Presidente?

Christiane Taubira. A sua visão! Enquanto ele pensar assim a sociedade, as desigualdades e as injustiças irão perdurar. Eu não tenho nenhuma necessidade de lhe atribuir todos os defeitos do mundo só porque está numa situação difícil. Nós tivemos relações cordiais. Mas creio profundamente na política. A ação política serve um projeto, uma visão: para mim a justiça social e o desenvolvimento económico e social estão interligados fortemente. Não se pode aceitar que as pessoas só disponham de uma refeição por dia, que mais de nove milhões de franceses e dois milhões de crianças vivam abaixo do limiar da pobreza. Onde é que está a epopeia do progresso? Não unicamente na capacidade de os dirigentes das empresas distribuírem dividendos quando o desemprego aumenta. Onde é que está a emancipação pelo trabalho? Que se diz aos 5 milhões de franceses que não dispõem de trabalho, que a culpa é deles? Falar de milhares de milhões é de uma grande violência para aqueles que contam os cêntimos para comprar uma baguete de pão.

lejdd. Que vos inspira a atual situação da esquerda?

Christiane Taubira. Desesperada e desesperante.

lejdd. Yannick Jadot (Verdes), Benoit Hamon (Movimento Geração S), Olivier Faure (Partido Socialista) convidaram-na a voltar à política ativa…

Christiane Taubira. Fui convidada por cada um deles para encabeçar uma lista. Mas mais uma vez, cada um no seu sítio. É trágico que a esquerda não se dê conta que o grande desafio, hoje, não é encabeçar uma lista nem embrulhar-se no conforto da ineficácia, da esterilidade, na falta de imaginação. Ela não pode dar‑se ao luxo da impotência, a esquerda não pode faltar ao encontro da aflição e da esperança.

lejdd. Se a esquerda não se põe em ordem de marcha, sê-lo-á consigo?

Christiane Taubira. O senhor tem verificado a raridade das minhas posições públicas. Quando uma sociedade atravessa uma situação de mal-estar tão profundo, a palavra no plano político não pode contentar-se em ser apenas a palavra de tribuno. A palavra política tem de ser transformadora. Ora, não tenho os meios de transformar as minhas convicções , as minhas análises em programa político. Consequentemente, retraio-me. Recuso-me a fazer bricolage. Se a esquerda não compreende que tem um encontro a honrar, não quero lá estar para a manter com a cabeça à tona de água. Eu vou contra ventos e marés para ir em frente. Nunca serei uma caução ou um instrumento.

lejdd. O regresso de François Hollande é uma possibilidade para a esquerda?

Christiane Taubira. A política é uma relação com as pessoas. Não é: “eu quero voltar, eu volto” Isto é tão válido para mim como é o para toda a gente.

 

Entrevista disponível em:

https://www.lejdd.fr/Politique/exclusif-christiane-taubira-la-politique-ce-nest-pas-la-charite-3821549

 

Christiane Taubira (1952-) é uma política francesa. Foi ministra da Justiça de 15/05/2012 a 27/01/2016, sob a presidência de François Hollande.

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