A GALIZA COMO TAREFA – suspicácias – Ernesto V. Souza

Quantos filmes, tele-filmes, romances e subprodutos, se produziriam nos últimos 12 anos com a estética, a paisagem de fundo, as cores, indicativos e uniformes exatos, as armas, a eficácia da preparação, do armamento, a qualidade dos disparos, a habilidade para a morte dos soldados especialistas do exército Norte-americano? Quantos com a imagem, fundo e paisagem do deserto árido e rochoso afegão, nos que se quer apresentar a imagem propagandística, popular e heroica destes novos Lawrences da Arábia?

Quantas superproduções e mais filme b, quantas encenações dos assassinatos eficientes, dos bombardeamentos tele-controlados, assépticos e “seletivos” nos ecrãs, repetindo e encenando uma e outra vez, o abatimento do inimigo implacável mas desprecavido, em diferentes ângulos e posses, dos atiradores de elite, da lógica militar e discurso exaltado, a presença continuada de imagens de morte casual e de figuras musculosas em ação permanente e trepidante, que dissimulam as causas, os feitos as absurdas gravidades de uma ação militar que, em conjunto e nos casos particulares, é uma das grandes barbáries e absurdidades do nosso tempo?

Mas tudo vale. Perder ou ganhar uma guerra absurda é irrelevante, e não importam os custes, as baixas, os danos colaterais ou a destruição arredor quando a vitória alvejada é no domínio na propaganda e o bombardeamento mais eficaz é o normalizador das mensagens patrióticas e de imagens contundentes do necessário.

O sistema, cumplicidade – e carreira em jogo – dos atores, a publicidades, propaganda e marketing das produtoras tão patriótico, sumindo os USA numa realidade paralela, preocupante, armada e criminosa que se vende como realidade e como realidade justa e necessária. É já um sub-género bélico, em nada parecido ao sub-género Viet-nam, ou ao breve e exclusivo da Guerra da Antiga Iugoslávia. Os tempos são outros e o paralelo com a ascendência da ideologia neo-con e a sua cronologia pode se pôr em destaque.

O género começou discretamente com histórias de protagonistas (masculinos) de filmes de ação, torturados por lembranças e imagens de fundo, mas que empregavam as habilidades e experiência militar em peripécias e tramas várias (espionagem internacional, faroeste moderno, conspirações, justiceiros…) na estela e modelo daquele primeiro Rambo (que hoje e a respeito do que chove resulta um filme de profunda crítica). Mas bem pouco depois, passaram a predominar os filmes bélicos no modelo e discurso da Segunda Guerra Mundial, mudando paisagens. Já agora, em função do sucesso do género passou num repertório diverso e detalhado à propaganda descarada dos efetivos militares, técnicos especialistas e corpos especiais vários que participaram e participam nas ações militares dos últimos tempos, atingindo num revisionismo de exaltação ideal, também interessante de anotar, num campo bem adubado, todas as intervenções militares dos  Estados Unidos (e os seus aliados) no século XX.

Resulta curioso ver o volume de produção e as mudanças no género, e situar nos eixos do fracasso da intervenção militar, no sucesso no convencimento interior e patriótico da lógica da guerra e nas mudanças da opinião internacional a que apenas se destinam algum dos produtos, que se consumem porém com escandalosa tranquilidade através da globalização digital e dos novos produtos de consumo à carta desde a casa.

Mas enfim, pouco de novo. Afinal hoje, quando apenas estamos começando a compreender o impacto na ciência e na  cultura, na arte e no pensamento dos condicionantes da era Vitoriana, do imperialismo e do colonialismo racista, não pode surpreender que a ciência, a investigação e a cultura do século XX, e o que levamos do XXI, não estejam submetidos a processos paralelos.

Talvez um dia dentro de uns anos, de umas décadas, ou um século terminemos por analisar não apenas a produção cinematográfica e televisiva, quanto a produção cultural, académica, universitária, científica dos USA e o modelo norte-americano universitário, académico e científico, que atualmente define o conjunto com as suas normas, padrões, medidores, sistemas de avaliação e produção como uma realidade profundamente marcada pela cultura na que se origina e portanto pelos condicionantes ideológicos, religiosos, sociais e políticos que exaltam ou justificam o modo e modelo estereotipado de vida norteamericano.

Talvez um dia coloquemos boa parte da produção científica, grande parte do pensamento contemporâneo, dos produtos artísticos, e culturais que a todos atinge, em quanto a credibilidade e como propaganda, no seu lugar mais lógico: a carão dos filmes, séries e bandas desenhadas com as peripécias dos Navy Seals & al.

 

One comment

  1. Abanhos

    Excelente, os neocons constroem a realidade ao seu jeito e necessidade sem travões, abençoados polos neopentecostalistas, esse produto cultural USA que tão bem funciona, e sem que o fraturamento da realidade na que joga toda a neoesquerda, faz que na realidade…caminhemis sem paragem oara o neofeudalusmo que nis aguarda.

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