Um adeus a Carlos Tenreiro- reflexões em torno da bolha cognitiva dos tempos de agora: 4. A América e o Mundo: O Crash de 2008 e a Eurotragédia. Por Jonathan Story

Carlos Tenreiro

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4. A América e o Mundo: O Crash de 2008 e a Eurotragédia

Jonathan Story Por Jonathan Story

Publicado pelo blog do autor Jonathan Story Context matters ,em 21 de outubro de 2018

 

Os dois livros em estudo analisam o crash financeiro de 2008 a partir de perspetivas diferentes. Adam Tooze, historiador e diretor do Columbia University European Institute em Nova York, autor de Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed The World (ed. Allen Lane, 2018), que ele apelida de a primeira crise da era global. A invasão do Iraque em 2003, seguida do crash do Lehmann Brothers em setembro de 2008, e depois a eleição de Donald Trump para a Presidência dos EUA em 2016 são sinais de um enfraquecimento do domínio americano, afirma ele. Ashoka Mody, ex-diretor adjunto dos departamentos de Pesquisa e da Europa do FMI e atualmente professor visitante de Política Económica Internacional em Princeton, publica o livro Eurotragedia: A Drama in Nine Acts (ed. Oxford University Press, 2018), e no seu livro estabelece o cenário de que “os verdadeiros valores europeus só podem florescer quando se afrouxarem os laços que unem hoje tão apertadamente a Europa ” (p.22).

Começarei por apresentar as estruturas, os conteúdos e as observações que considero centrais em ambos os livros, um após o outro, e prosseguirei com os meus próprios comentários.

Crashed.

O que impulsiona o comércio global não são as relações entre as economias nacionais, escreve Tooze seguindo os passos da falecida Susan Strange [1], mas as empresas multinacionais que coordenam as cadeias de valor. Isto não quer dizer que a única coisa que importa seja o processo de mercado, com a política nacional e a geopolítica como efémeras: os fundamentos do sistema monetário moderno, escreve ele, são irrecusavelmente políticos. “No vértice do sistema monetário moderno está a moeda fiduciária. Gerada e sancionada pelos Estados, não tem outro “suporte” que não seja o seu estatuto de moeda legal. Esse facto extraordinário tornou-se literalmente verdadeiro pela primeira vez em 1971-73 com o colapso do sistema de Bretton Woods“. O momento histórico em que o novo sistema entrou em vigor foi a decisão do Presidente Nixon de 15 de agosto de 1971 de abandonar a convertibilidade oficial do dólar em ouro.

O resultado é ter entregue a criação de crédito a duas entidades: a coesa oligarquia corporativa de Instituições Financeiras Sistematicamente Importantes (SIFI) – com 20-30 bancos globais, talvez até 100 bancos, e os bancos centrais, especialmente o Federal Reserve dos EUA. O apoio de liquidez global dado pelo Fed, na esteira da queda do Lehmann, “entregou milhões de milhões de dólares em empréstimos aos bancos, aos seus acionistas e aos seus altos funcionários escandalosamente remunerados“. Os europeus pensavam loucamente que o crash era “anglo-saxónico”, mas na realidade os seus bancos com excesso de alavancagem eram altamente dependentes do sistema centrado nos EUA. Daí as repercussões de 2008 na crise financeira europeia de 2010, e as ligações, através da política da UE, à estagnação da Europa, a sua queda no ranking das suas empresas globais, o desemprego em massa, o crescimento dos movimentos “populistas”, e o sentimento no resto do mundo de que a crise da zona euro era perigosa, e que os europeus eram demasiado incompetentes para lidar com ela.

O que é que correu mal?

A abordagem de Tooze consiste em investigar o funcionamento da máquina financeira global. A Parte I, A tempestade aproxima-se, contém cinco capítulos, cujo tema central é a citação de Tooze de um estudo do BIS, em que se mostra claramente que a globalização financeira gira em torno da Europa [2]. Em 2007, os créditos bancários europeus sobre os EUA eram o maior elo do sistema, seguidos pelos créditos asiáticos e americanos sobre a Europa. O sistema financeiro europeu, escreve ele, passou a funcionar como um gigantesco hedge fund, contraindo empréstimos de curto prazo e concedendo créditos a longo prazo [3]. O centro dessa atividade foi Londres, que em 2007 hospedava 250 bancos e agências bancárias estrangeiras, o dobro do número de Nova York. O fluxo de fundos na Europa, argumenta o autor, foi impulsionado por banqueiros que procuravam os melhores retornos, baixando as taxas locais e estimulando os booms imobiliários locais, a inflação e os padrões comerciais. Nesta primeira parte do livro, os governos individuais, nomeadamente Berlim e Paris, ocupam um segundo plano na narrativa principal da primazia dos mercados financeiros.

A Parte II intitula-se A crise global e contém 8 capítulos, o primeiro dos quais se chama “A pior crise financeira da história“. Nesta seção, são descritas as respostas e iniciativas dos governos nacionais – particularmente do Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha e China. Somente os EUA emergiram como o único Estado-nação com a capacidade de respaldar o seu enorme setor financeiro e impor uma solução abrangente. Além disso, a administração norte-americana recapitalizou com êxito os seus bancos. A resposta da Europa foi condicionada pela Alemanha: a Chanceler Angela Merkel rejeitou qualquer ideia de ação coletiva para salvar os bancos, ou os governos da zona euro ou os da Europa Oriental, e deu mais um passo em frente no apoio a uma alteração constitucional para impor um travão na dívida pública, central e regional. Em contraste, a China respondeu ao colapso com um estímulo massivo, assim como os EUA. De entre as principais economias mundiais só a Europa assumiu uma posição pró-cíclica e reprimiu a procura.

A Parte III intitula-se Zona Euro, com cinco capítulos e conta a história familiar de quase uma década de estagnação económica da UE e das crescentes tensões políticas. Para além do leitmotiv da Alemanha dizer Nein ao resgate e a uma união bancária eficaz, há neste capítulo uma série de subtemas.

Por um lado, porque razão a França recuou no apoio à proposta da Comissão de uma subscrição coletiva de riscos na zona euro: a resposta clara é que, à luz da intransigência de Berlim, Paris concordou em carregar a Grécia com um passivo impossível de reembolsar a fim de salvar os bancos franceses e alemães que tinham concedido empréstimos à Grécia durante os anos de expansão.

Outro capítulo é o aparecimento do motivo proclamado por Merkel de que a causa da crise era a dívida excessiva, e não, como argumentou o secretário do Tesouro dos EUA, Geithner, as políticas comerciais mercantilistas da Alemanha e da China. Na formulação de Merkel, a Europa, ou seja, a UE, tinha 6% da população mundial; 25% do PIB mundial; e 50% das contribuições sociais do mundo. Isto, disse Merkel, era insustentável. Para que a Europa fosse competitiva nos mercados mundiais, a UE tinha de se tornar magra e mais interesseira. A Alemanha mostraria o caminho.

O terceiro capítulo descreve o processo pelo qual o BCE contornou as suas próprias regras e lançou a flexibilização quantitativa em 2012 como meio para travar a especulação nos mercados financeiros mundiais que ameaçava destruir a zona euro. O resultado, entre outras coisas, foi o de levantar sérias questões, especialmente na Alemanha, sobre a legitimidade das políticas do BCE. A longo prazo, o resgate da zona euro pelo BCE, escreve o autor, implicou custos “terríveis”: o derrube dos governos democraticamente eleitos da Itália e da Grécia; a tutela da Irlanda e de Portugal pelo FMI; a recessão brutal na Espanha; o desemprego em massa, especialmente no sul da Europa; a falta de confiança dos empresários; e um excedente comercial crescente da Alemanha face à Zona Euro e ao resto do mundo.

A Parte IV intitula-se “Réplicas do choque“, composta por sete capítulos, incluindo um sobre “a forma das coisas que estão para vir “, um esforço para perscrutar através do vidro escuro do futuro. O capítulo coloca essencialmente a questão de saber se a queda no centro da economia mundial – o Atlântico – se espalhará para os mercados emergentes. Nesta secção, Tooze analisa a emergência dos “populismos”, nos EUA e na Europa, o arrefecimento das relações dos EUA com a China e o tratamento incorreto das relações da UE e da NATO com a Rússia. Nos EUA, escreve ele, “a queda da América, as tendências de longa data para a desigualdade e para a oligarquia, o desastre de 2008, a recuperação desequilibrada deste desastre, foram todos eles sintomas da profunda corrupção provocada pela captura do governo pelos grupos de interesses assim como pela ingerência nas decisões governamentais.” Como diz o slogan do movimento pós-crise, Occupy: “o sistema não está falido, está armadilhado”.

A eleição de Obama em 2008 para a presidência nada fez para reverter esta tendência. De facto, o seu resgate dos bancos e as políticas anticíclicas agravaram ainda mais as desigualdades. Estas, assinala Tooze, citando um estudo que cobre mais de três décadas, têm piorado progressivamente [4] à medida que a expectativa de vida da classe trabalhadora branca continua a cair, a hostilidade contra Washington DC aumenta, o Tea Party cintila na escuridão dos céus políticos, a confiança no sonho americano desaparece e, finalmente em 2017, Donald Trump é eleito para a Presidência.

Entretanto, a UE, puxada pelos temores da Polónia em relação à Rússia – escreve Tooze – entra em conflito com Moscovo sobre a Ucrânia, ampliando ainda mais o fosso na opinião pública de ambos os lados do Atlântico. Uma mudança notável é a tendência da opinião pública alemã de não confiar nos EUA como aliado [5]. Tooze menciona, com razão, a viragem de Moscovo para a China como um componente da posição anti-ocidental de Moscovo. Mas Tooze observa também a profunda reserva de Moscovo em se aproximar demasiado do gigante emergente do continente asiático. Embora Tooze não diga muito a este respeito, ele aponta que a Alemanha ficou do lado da Rússia e da China em relação ao Iraque (2003); Líbia (2011) e – confirmando o relato de Yanis Varoufakis [6] –  ele escreve que os EUA, a China e a Rússia se recusaram a ajudar a Grécia, alegando que não se intrometeriam na esfera de interesses da Alemanha. Com uma liderança clara de Berlim, acrescenta, a UE-27 concordou com uma “posição de negociação dura” sobre o melodrama do Brexit.

Poder-se-á dizer, sem dúvida, que a afirmação chave do relato de Tooze sobre o grande colapso de 2008 e sobre as suas consequências, que torna o livro de Tooze um livro de leitura indispensável, é quando nos diz : “A globalização financeira para a qual Greenspan (o ex-Governador do Fed) e a sua gente haviam trabalhado tanto para a institucionalizar como um processo quase natural tinha sido exposta tal como ela era: uma instituição, um artefacto de construção política e jurídica deliberada com consequências graves para a distribuição da riqueza e do poder” (p.575). O nível político na economia política, conclui Tooze, merece ser levado a sério. 

Eurotragédia

O livro de Mody é muito diferente. É sobre a génese e a realização do Euro. O seu capítulo introdutório, intitulado “A Europa acabará algures “, levanta as seguintes perguntas: Porque é que os europeus tentaram uma tal aventura que não trazia benefícios óbvios e tendo riscos tão elevados? Como é que conciliaram as suas óbvias contradições? Como é que essas contradições se reproduziram quando o euro foi lançado? E onde foi parar a Europa? A resposta curta é: foi parar aonde não se pretendia chegar.

A origem da moeda única, escreve com razão Mody, é uma iniciativa francesa, com a lógica de que uma moeda única, em vez de um sistema multimoedas na Europa, garantiria à França uma maior igualdade com a Alemanha. O marco alemão, em suma, não dominaria o poleiro. Como chegar aí, quando a população alemã depois da guerra era tão devotada ao Deutsche Mark ?

Mody aplica dois conceitos que não fazem parte do vocabulário interno de Bruxelas: A expressão “cair para a frente”, que é uma representação bastante mais visual do “efeito de arrastamento” – uma linguagem da UE que significa que quando uma política está irreversivelmente incrustada no acervo comunitário, pela sua própria lógica interna o processo conduz a novas iniciativas políticas para se seguir em frente. O processo é familiar: a Comissão propõe; os Estados-Membros negoceiam e legislam, o TJCE julga à luz da terminologia do Tratado de “união sempre mais estreita” e do seu próprio corpo de jurisprudência; e os Estados implementam. A integração é cada vez mais apertada; a política é cada vez mais centralizada; os poderes dos Estados-nação ficam cada vez mais vazios.

O segundo conceito é pensar em grupo. Apesar dos poderosos argumentos contra a moeda única, aplainados desde o seu início, os seus defensores e servidores mostram uma crença inabalável na correção das suas ações. Na via de Maastricht, a história que aqui conta é que, se falharmos uma vez, tentaremos de novo e de novo até sermos bem sucedidos. Nas negociações do Tratado de Maastricht, o sucesso deu-se, mas expresso em termos alemães. E esses termos não se revelaram temporários, mas ajudaram a entronizar a Alemanha como mais igual do que outras, parafraseando George Orwell. A prova, escreve na sua introdução, é que o que tem sido será o que vai continuar a ser: o pensamento de grupo continuará a prevalecer, e as barreiras soberanas ao seu sucesso continuarão a florescer. “Os verdadeiros valores pró-europeus só podem florescer quando se afrouxarem os laços que hoje unem a Europa de forma tão apertada ” (p. 22).

Devo confessar que concordo inteiramente com Mody – e este facto é um duplo desafio para que eu lute pela objetividade. Não preciso de ir demasiado longe: a questão a que uma leitura da Eurotragédia convida é a de saber se há alguma possibilidade de que os cidadãos da UE mudem de rumo. As provas da experiência passada dizem-nos: nenhuma possibilidade, seja ela qual for. Essa é a realidade da UE. Mody corretamente coloca essa realidade no contexto de uma outra realidade, e invoca as palavras do mandarim francês Robert Marjolin – economista e jurista, secretário-geral da Organização Europeia de Cooperação Económica, OECE, depois Comissário da CEE – que, escrevendo pouco antes da sua morte em 1984, afirmou que demasiados dirigentes europeus “subestimaram a força e a vitalidade do Estado-nação”. [7]

O seu relato é o confronto destas duas realidades: A determinação francesa de criar um euro, a insistência alemã em ter o seu próprio caminho, os esforços franceses e italianos para enfraquecer o controlo alemão e a barreira irredutível a esta política das nações da Europa. É pois uma boa leitura.

O livro está organizado cronologicamente. O primeiro capítulo, “Três saltos no escuro“, traça os primeiros anos, a Comunidade do Carvão e do Aço, o Tratado de Roma, o Relatório Werner de 1970 sobre uma moeda única e o Sistema Monetário Europeu, lançado por Giscard d’Estaing, com o apoio interessado do Chanceler Schmidt para estabilizar as moedas dentro da então CEE. Schmidt mostrou-se interessado porque as empresas alemãs estavam muito preocupadas com a desvalorização do dólar durante o mandato do Presidente Carter, com a subida do marco alemão nos mercados cambiais e com o impacto previsto sobre a competitividade das exportações alemãs. O interesse de Giscard em estabilizar as taxas de câmbio, em contribuir para a fixação anual dos preços agrícolas no âmbito da política agrícola comum (absorvendo então 80-90% do orçamento da CEE), coincidiu com o interesse comercial alemão em manter o DM o mais subvalorizado possível. Manter a competitividade da sua moeda é uma característica consistente da política económica alemã.

O segundo capítulo tem o título, o Euro de Kohl, e abrange os anos 1982-1998. Assim que assumiu o cargo, Kohl rumou a Paris, onde disse ao Presidente Mitterrand que faria tudo para evitar o reaparecimento de um Estado bismarckiano. A trajetória política que Kohl assumiu para cumprir a sua promessa provou ser tudo menos linear. Em 1986, quando Mitterrand renovou a exigência de uma moeda única, Kohl tergiversou; em 1990, rotulou de “nacionalistas” aqueles que se oponham à moeda única.

O resumo de Mody sobre o seu legado vale a pena ser citado na íntegra, e é devastador: “Temos a palavra de Kohl de que era pró-europeu e temos a sua dádiva: o euro. Kohl poderia muito bem ter acreditado que uma moeda única utilizada por todos os europeus era essencial para garantir a paz. No entanto, ao prosseguir esta visão, Kohl hesitou no início, mas depois acabou por passar por cima do bom-senso no sentido económico e político do termo. Ele recusou-se a ouvir os seus críticos… ele rejeitou a sabedoria da opinião pública. Kohl criou a ideologia da estabilidade que ocultava a natureza desestabilizadora das políticas e da estrutura institucional da zona euro. É com ele que a Itália entra para a zona euro. Talvez, acima de tudo, ele legitimou o uso da retórica e do pensamento em grupo como um substituto para a análise económica e política real “. (p.123)

O terceiro capítulo debruça-se sobre como “Schröder afirma o interesse nacional alemão, 1999-2003“. Schröder retrocedeu contra a orientação de estabilidade do BCE, pressionou por mais direito de voto para a Alemanha na UE, concordou com o apoio francês à adesão da Grécia ao euro e, juntamente com o Presidente Chirac, ignorou as regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento, que os governos de Kohl tinham negociado. Mody menciona brevemente o Nein de Schröder à cooperação com os seus aliados ocidentais sobre o Iraque e não menciona as reformas internas – as medidas Hartz IV – que Schröder levou a cabo para aumentar a produtividade alemã, manter os salários em contenção e, nos anos seguintes, fazer disparar o excedente comercial alemão.

O quarto capítulo cobre os anos da “exuberância irracional“, assim chamados em homenagem ao economista universitário Robert Schiller, de Yale, que destacou que os episódios de exuberância irracional são recorrentes ao longo da história. Mas muitos europeus preferiram pensar que tais padrões eram típicos das economias “anglo-saxónicas”, e que não eram relevantes para os continentais. Com o BCE agora sob direção francesa empurrando as taxas de juros à baixa, e os mercados financeiros irrigados com abundante liquidez dos excedentes comerciais reciclados da Alemanha e da China, as bolhas floresceram na periferia da Europa. Para comemorar o décimo aniversário do Euro, as elites da UE publicaram um estudo [8] que argumentava que, em suma, o Euro era uma coisa boa. O julgamento de Mody discorda: “A ideologia operacional da zona do euro tinha piorado a recessão nos primeiros cinco anos do que teria sido de outra forma; e a incapacidade de adaptar a política monetária a diversos países fez com que as bolhas nos cinco anos seguintes crescessem para níveis que poucos poderiam ter imaginado” (p.192).

O capítulo cinco, “Depois do melhor, a negação, 2007-2009“, cobre os problemas do mercado interbancário – que constitui o foco central do estudo de Tooze -, a exposição dos bancos, a perda de credibilidade do BCE, as vigorosas medidas anti cíclicas e bancárias dos EUA e o estímulo da China, cujo grande beneficiário foi a Alemanha. Como salientei neste blogue, as vendas totais das empresas alemãs para a China equivalem agora a cerca de três vezes o total das vendas das empresas alemãs à França. Se acrescentarmos a este ponto a exposição de Tooze que os mercados da Europa Central e Oriental são no seu conjunto para a Alemanha um maior mercado do que o que representa a França, poderemos afirmar, sem grande receio de ser contraditado, que um dos principais interesses da Alemanha em manter o euro é assegurar que as suas exportações para o seu maior mercado coletivo na Europa Ocidental se mantenham competitivas.

Os três capítulos seguintes – Demoras e Meias Medidas: Grécia e Irlanda, 2010; As medidas políticas deixam atrás de si um rasto de cicatrizes, 2011-2013; O BCE hesita, a linha italiana de fratura aprofunda-se, 2014-2017”- cobrem o mesmo território que Tooze em relação à crise do euro, às reações políticas tóxicas às sucessivas medidas de remendo pelas instituições da UE, às tensões entre Paris e Berlim e à emergência da primazia alemã. Mody cita o ministro das Finanças búlgaro, Simeon Djankow, que escreveu o seu próprio relato das suas experiências: “A Alemanha liderou todas as discussões sobre as questões da zona euro, demonstrando por vezes um respeito simbólico pelas opiniões da França. Os principais aliados da Alemanha – Finlândia e Holanda – desempenharam papéis importantes, mas secundários. Ninguém mais importava grande coisa, ou se importava, não era de forma constante “[9].

Capítulo 9, O Acto Final: Uma Europa em Declínio e Dividida, constitui uma crítica devastadora à iniciativa francesa de criação do euro. Desde o lançamento do euro, as economias da zona euro têm caído constantemente nas tabelas classificativas das principais economias mundiais; as disparidades económicas entre e dentro dos estados aumentaram. Apesar da anulação da dívida da Alemanha em 1953, a Alemanha não tolerou a anulação da dívida da Grécia; o facto de os vizinhos da Europa Oriental, que não fazem parte do euro, comprarem mais à Alemanha do que a França e a Itália em conjunto, mostra bem a mentira que constitui a suposta criação de comércio, como sendo uma virtude inerente à moeda única.

Cita o discurso do Presidente Macron na Sorbonne de setembro de 2017, [10] no qual apela a uma “Europa soberana, unida e democrática” como a direção desejada para a política face à onda “populista”. Segundo o discurso de Macron, não foi a orientação da política aplicada [pela Europa] que constitui a principal razão para as agitações do sentimento nacional, e o concomitante renascimento visível do hábito diplomático europeu da Realpolitik.

E quanto ao futuro? Mais do mesmo, prevê Mody, com a Alemanha a ser assumida como o valentão da Europa. A alternativa, porém, é uma Europa menos integrada e, portanto, mais unida, baseada nas suas tradições culturais. Uma tal República Europeia de Letras, escreve ele, reavivaria o dinamismo económico e a boa vontade política, que foram destruídos pela tragédia do euro.

Algumas conclusões.

Uma série de conclusões podem ser tiradas de uma leitura destes dois importantes livros sobre o crash financeiro das primeiras décadas do século XXI.

A primeiro é que, como Susan Strange apontou, uma característica central da moderna economia política global é hoje a teia de empresas multinacionais, os mercados financeiros inter-relacionados e a contínua centralidade do dólar. A política dos EUA, escreveu ela, foi instrumental na criação da economia global: o livro de Tooze regista muito claramente que foram os EUA, com o apoio da China, que ajudaram a preservá-la. Mas Susan Strange também ressalta que os principais componentes da estrutura de poder global são a estrutura militar, a estrutura de informação, a estrutura empresarial e financeira em que os EUA dominam todos estes quatro domínios de poder. Essa foi a análise de Strange do final dos anos 80 e início dos anos 90. Os EUA continuam a dominar estes quatro componentes.

Por outras palavras, as afirmações de Tooze sobre o declínio dos EUA devem ser encaradas com reservas. As reservas incluem o reconhecimento de que, se o foco for o trabalho interno dos EUA – escolaridade pobre; rendimentos estagnados, perda de mais de 3 milhões de empregos na indústria transformadora desde a entrada da China na OMC em 2002, subinvestimento em infraestruturas – é claro que os EUA têm grandes desafios a enfrentar. Mas o mesmo acontece com outros possíveis concorrentes ao título de campeão mundial.

A segunda é que a tensão entre Pequim e Washington DC, que tem estado a crescer rapidamente desde 2008, requer alguma explicação. A China desempenhou um papel fundamental para ajudar a economia mundial a sair da crise de 2008, mas fê-lo alavancando tantos instrumentos do partido-Estado quanto estavam disponíveis. Dado que o partido-estado é Marxista-Leninista-Maoista, o seu sucesso parcial negou o ponto de vista de Greenspan de que os processos de mercado são o que importa, não a iniciativa política. A renovada visibilidade da iniciativa política após 2008 destacou as diferenças na estrutura do Estado entre os EUA e a China. Os EUA acusam o partido-Estado chinês de não cumprir as regras da OMC, precisamente porque a concorrência está inclinada na China em favor de corporações próximas do partido-Estado. O significado desta simples afirmação pode ser destacado pelo facto de que nenhuma corporação de qualquer relevo escapa à alçada do partido-Estado.

A terceira conclusão é que ambos os autores não podem deixar de registar a primazia da Alemanha. Tooze é relutante em concluir que o que ele está a observar é o regresso do nacionalismo alemão; Merkel, o que Tooze regularmente aponta, está envolta por restrições internas e internacionais, e a pobre senhora não tem alternativa para se arrepender das duras medidas que inflige aos outros. A abordagem histórica e evolutiva de Mody permite que ele ressalte que tem havido um fio condutor consistente na procura alemã em satisfazer o interesse nacional, que tem sido o de manter a moeda valorizada de forma a ser competitiva. A principal consequência imprevista que Mody destaca é que a luta da França para se libertar do DM a aprisionou agora num colete-de-forças, o Euro.

A quarta conclusão que decorre do livro de Mody, em particular, é que a crise europeia é cultivada internamente. O Euro foi adotado contra uma maré de avisos e sem o apoio esmagador das populações da zona euro, nomeadamente em França e na Alemanha. O euro, sendo na raiz uma criação da Realpolitik europeia, não é facilmente reversível. Não se trata apenas de demasiado capital político ter sido colocado no projeto: a questão principal é que o euro é a própria essência da política francesa pós-1945 para conter a Alemanha. A França não renunciará ao euro; não cederá à turbulência dos mercados, como alguns comentadores regularmente sugerem.

Tooze salienta que o governo Cameron-Osborne assumiu o contrário: que o “efeito de repercussão ” do euro levaria a zona euro a uma maior integração, entendida como um movimento para a criação dos Estados Unidos da Europa, com um BCE flanqueado por um Ministério das Finanças da UE. No entanto, a governança da zona euro evolui na direção oposta: é a política que prevalece, não os mercados.

A quinta conclusão é que, sim, como argumenta Tooze, a onda populista na Europa e na América está diretamente ligada a 2008. Mas, como salienta Tooze, e como faz Mody em relação à criação do euro, as ideias importam. A política importa. A onda populista no coração ocidental da economia política global é um conjunto de movimentos tão poderoso quanto se mostra estar a ser porque, precisamente, as ideias e as políticas por trás das políticas públicas estiveram fundamentadas e assentes em areias movediças. As forças de mercado são importantes, mas não levam tudo à sua frente; o nacionalismo pode ser uma fonte de guerra, mas é também a raiz do governo constitucional.

O objetivo público da UE é o de esterilizar o nacionalismo. O que fez com êxito foi reacender os nacionalismos.

A sexta conclusão a tirar destes dois livros é que por toda a tinta derramada desde 2008, prevalece o pensamento de grupo. Esse é, sem dúvida, o caso na Europa. Continuemos, dizem as gentes de Bruxelas e os seus acompanhantes: identificámos o inimigo e este é o nacionalismo; o inimigo está aí para todos o verem; vamos combatê-lo e sem tréguas. Há o bónus adicional para estes ideólogos de que Trump é um deles, decididamente não um de nós. O problema é que os EUA são, sem dúvida, um de nós na Europa: são a base da segurança europeia, como o testemunham os polacos.

O que é uma conclusão final? Ambos os livros optam pelo status quo. Duvido. As tensões entre a China e os EUA estão profundamente enraizadas, sobretudo porque o partido-Estado chinês utiliza uma estratégia nacional de grandeza e vingança contra a raça branca que a humilhou. As tensões na zona euro estão também profundamente enraizadas em dois objetos inamovíveis: o euro e os Estados nacionais separados.

A Rússia não pode aderir a uma Europa pós-moderna que tenta reinventar-se a si mesma, e abandonar o seu passado. O domínio de Putin assenta na reconciliação entre o nacionalismo russo e o legado soviético. Poderia juntar-se a uma Europa liderada pela Alemanha, que fala o jargão da UE, mas pratica uma estreita prossecução dos interesses alemães à maneira de Merkel.

Mas a Polónia percebe isso, assim como Trump. À medida que Trump aumenta o conflito com a China, este aproxima-se da Polónia. [11]

Estes dois livros recordam-nos que os assuntos da Europa devem ser sempre analisados no contexto global. O contexto global lembra-nos que os assuntos globais têm um impacto diferenciado nos Estados europeus. Esta é uma das principais razões pelas quais o projeto da UE tem de ser fundamentalmente revisto. Não há sinais de que isso esteja para acontecer.

 

Notas

[1] https://storybookreview.wordpress.com/2011/05/18/jonathan-story-setting-the-parameters-extracts-from-chapter-2-in-strange-power-shaping-the-parameters-of-international-relations-and-international-political-economy-ashgate-publishing-limited/

[2] BIS Working papers No.524. Breaking Free of the Triple Coincidence of International Finance. Monetary and Economic Department. October 2015.

[3] Carole Bertaut, Laurie Pounder De Marco, Steven B. Kamin, Ralph W. Tyron, “ABS Inflows to the United States and the Global Financial Crisis” NBER Working Paper No. 17350Issued in August 2011

[4]B. Shapiro, “The Politics of Widening Income Inequality in the United States”, 1977 to 2014”, CBPP, Georgetown University, October 2017.

[5]“Deutsche trauen den USA nicht mehr“, July 18, 2014. www.tageschau.de/inland/deutschlandtrend-116.html

[6] See my review of Varoufakis book, along with others: https://storybookreview.wordpress.com/2017/12/30/berlin-rules-why-what-how-and-is-that-so/

[7]« Europe in search of its identity”,Russell G. Leffingwell Lectures, Council on Foreign Relations, New York, 1980.

[8] European Commission, Directorate General of Economic and Financial Affairs, EMU@10: successes and failures of EMU, European Economy, /2008. Luxemburg, 2008.

[9]Quoted on p 323 from Simeon Djankow, Inside The Euro Crisis: An Eyewtness Account, Washington DC, Peterson Institue for International Economics. Kindle Edition. Locations, 551-553.

[10]http://www.elysee.fr/assets/Initiative-for-Europe-a-sovereign-united-democratic-Europe-Emmanuel-Macron.pdf

[11]https://www.whitehouse.gov/briefings-statements/remarks-president-trump-people-poland/

________________________________________

Texto disponível em https://storybookreview.wordpress.com/2018/10/21/america-and-the-world-part-iii-the-crash-of-2008-and-eurotragedy/

 

O autor: Jonathan Story (1940-) é Professor Emérito de Economia Política Internacional no INSEAD e Professor Visitante Distinto na Fordham Graduate School of Business, Nova Iorque. Antes de ingressar no INSEAD em 1974, trabalhou em Bruxelas e Washington, onde obteve seu doutoramento na Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

O seu último livro é China UnCovered: o que você precisa saber para fazer negócios na China, (FT/ Pearson’s, 2010) (www.chinauncovered.net) Os seus livros anteriores incluem “China: The Race to Market” (FT/Pearsons, 2003), The Frontiers of Fortune, (Pitman’s, 1999); e The Political Economy of Financial Integration in Europe : The Battle of the Systems, (MIT Press, 1998) sobre união monetária e mercados financeiros na UE, em co-autoria com Ingo Walter da NYU. O tema principal que ligou este trabalho foi a análise da mudança dinâmica na Europa, no mundo e na China e das suas implicações para o comércio internacional. Os seus livros estão traduzidos para francês, italiano, alemão, espanhol, chinês, coreano e árabe. Ele também é co-autor do Oxford Handbook on Business and Government (2010), e contribuiu com inúmeros capítulos em livros e artigos em revistas profissionais. É colaborador regular de jornais e foi quatro vezes vencedor do prémio “Melhor Caso do Ano” da European Case Clearing House.

Ele ministra cursos sobre negócios internacionais e economia política global. No campus INSEAD, em Fontainebleau e Singapura, ensinou política europeia e mundial, mercados e negócios no MBA e programas de doutoramento. Ensinou no Programa de Gestão Avançada emblemática do INSEAD nas últimas três décadas, bem como em outros cursos de Desenvolvimento Executivo e cursos específicos da empresa. Jonathan Story trabalha com governos, organizações internacionais e empresas multinacionais.

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