Do plano técnico ao plano político: do sistema Target 2 à fragmentação financeira da União Europeia – 1. O que são os saldos do TARGET2? (parte 1/2) Por Júlio Marques Mota

target 2 fragmentacao 3

1. O que são os saldos do TARGET2? (parte 1/2)

julio-marques-mota Por Júlio Marques Mota

em outubro de 2018

 

Um trabalho de composição feito a partir de diferentes textos entre os quais estão sobretudo:

1. Eurozone Watch – Target2 balances a ticking time bomb?, por Aline Schuiling, publicado por ABN-AMRO em 18 de maio de 2017

2. The ECB’s TARGET2 challenge, publicado por The General Theorist em 19 de julho de 2017

3. Hidden flows: Asset prices and eurosystem balance sheets, publicado por The General Theorist em 20 de setembro de 2018

____________________________________________________

 

O TARGET2 é a segunda geração do Sistema de Liquidação por Bruto em Tempo Real (SLBTR) do Euro-sistema, no qual são processadas e liquidadas, em moeda banco central, ordens de pagamento em euros, tipicamente de grande valor. É, em termos de montantes processados, um dos maiores sistemas de pagamentos do mundo.

Este sistema destina-se a apoiar: (i) a implementação da política monetária do Euro-sistema e do mercado monetário interbancário em euros; (ii) a redução do risco sistémico e; (iii) o aumento da eficiência dos pagamentos transfronteiriços no espaço da União Europeia.

“O que são os saldos Target2?

Os saldos Target 2 representam os créditos e os débitos (ativos e passivos) dos bancos centrais nacionais da zona euro (BCNs) relativamente ao BCE e decorrentes de fluxos de pagamento transfronteiriços executados através do TARGET2. Os dados individuais dos BCN são valores líquidos. Eles representam o total de créditos de cada Banco Central sobre o BCE menos o passivo do respetivo Banco Central nacional para com o BCE. Um número positivo é uma posição de credor do respetivo Banco central nacional em relação ao BCE e inversamente um número negativo significa uma posição passiva do BCN para com o BCE. Os BCNs da área não-euro também podem participar no sistema Target. Por definição, a soma de todos os saldos credores e devedores face ao BCE é necessariamente igual a zero. Os dados nacionais são disponibilizados apenas para os BCN da zona euro.

O que determina o volume dos saldos?

Os saldos dos BCN da zona euro refletem, essencialmente, a distribuição desigual da liquidez do banco central no Euro-sistema. Os grandes fluxos de pagamentos transfronteiriços entre bancos na zona euro são uma característica normal da União Monetária, e o sistema Target é essencial para o bom processamento desses pagamentos. A liquidação dos fluxos de pagamento transfronteiriços em dinheiro banco central cria saldos para cada BCN que estão ligados ao Target. Os saldos Target são agregados e compensados no final de cada dia útil. Na maioria dos casos, os fluxos de pagamento transfronteiriços refletem as transações iniciadas por entidades privadas, tais como instituições de crédito, empresas ou indivíduos.

1 O que são os saldos do TARGET2 1

 

Antes da crise, os saldos Target eram de dimensão reduzida …

Nos anos anteriores à crise, os bancos da periferia da zona euro tinham fácil acesso aos fundos privados. Eles contraiam empréstimos interbancários transfronteiriços, investimentos diretos ou depósitos vindos do exterior para compensar de forma geral os fluxos de saída para os pagamentos resultantes dos défices da balança comercial do país ou da aquisição de ativos estrangeiros. Em suma, os países tinham globalmente equilibrados os fluxos de pagamento transfronteiriços iniciados pelo sector privado. Isso mostra que a soma do saldo de balança corrente de qualquer país com o saldo de conta de capital era aproximadamente zero. Por outras palavras, não era necessário nenhum dinheiro do banco central para financiar os défices da conta corrente dos países na periferia e os seus respetivos Bancos Centrais nacionais tinham globalmente saldos Target neutrais. No caso teórico de um país individualmente considerado que tem o seu próprio banco central, isso significaria que as reservas em moeda estrangeira do banco central permaneceram aproximadamente constantes e a sua taxa de câmbio permaneceu aproximadamente estável.

… mas eles dispararam durante os anos de 2011-2012

Os saldos Target dispararam durante os anos da crise financeira da zona euro em 2011-2012. Esta situação resultou de tensões de financiamento nos sectore bancários de alguns países da periferia (Itália, Espanha, Portugal, Grécia e Irlanda). Durante este período, o dinheiro privado deixou de fluir para os países periféricos em quantidades suficientes para compensar os seus fluxos de saída, os seus pagamentos ao exterior. Os seus bancos sofreram de tensões de financiamento. A fim de evitar uma crise bancária, o BCE interveio, respondendo às necessidades de liquidez dos bancos, emitindo operações de refinanciamento a longo prazo (LTROs a três anos) com colocação total e reduzindo os requisitos de garantia nas operações regulares de mercado aberto.

Assim a escassez em fluxos privados para a periferia foi resolvida em moeda Banco Central o que levou a que os respetivos Bancos Centrais nacionais passassem a apresentar, em termos cumulativos, os passivos Target para com o BCE. No caso teórico de um país que tem o seu próprio banco central ou as reservas em moeda estrangeira do banco central teriam diminuído ou a sua taxa de câmbio ter-se-ia depreciado ou uma combinação das duas coisas. Ao mesmo tempo, os BCN de países que são beneficiários líquidos de fluxos do sector privado (por exemplo, os países com um excedente na balança de pagamentos) apresentam saldos Target credores. O aumento dos saldos Target durante os anos 2011-2012 foi acompanhado de uma forte alta das diferenças de rendimentos das obrigações dos países periféricos relativamente ao rendimento das obrigações alemães (o spread) assim como de uma alta dos spread CDS sobre os produtos financeiros. Vejam-se os gráficos abaixo.

1 O que são os saldos do TARGET2 2

Complicações decorrentes da inovação financeira e da UEM

No entanto, a história não é tão clara como parece. No seu boletim mensal de outubro de 2011, o BCE menciona que ‘a distribuição da liquidez do Banco Central pelos BCN nos países da zona euro está relacionada com as necessidades de liquidez interna das suas comunidades bancárias, mas de forma flexível’. De acordo com o BCE, a inovação financeira e a UEM enfraqueceram a relação existente entre os saldos Target de um país e a realidade económica das necessidades de financiamento dos bancos nos diferentes países, devido a três razões principais. Em primeiro lugar, os grupos bancários multipaíses podem obter fundos de forma descentralizada e, ao mesmo tempo, centralizarem cada vez mais a sua gestão de liquidez. Por exemplo, um grupo bancário pode refinanciar-se num BCN de um outro país da zona euro através de uma filial (gerando um crédito Target no país do banco-mãe e um passivo Target no BCN do país do banco filial, em que foi levantado o crédito). Além disso, um pagamento de um banco francês à sua filial alemã será contabilizado nos saldos Target dos BCN nos dois países, com um passivo Target em França e um saldo credor na Alemanha. Em segundo lugar, alguns fluxos de pagamento transfronteiriços não são liquidados em moeda Banco Central e, portanto, não são contabilizados em saldos Target (por exemplo, fluxos devido a pagamentos de banco correspondente ou de pagamentos de retalho realizados com alguns cartões de crédito). Por último, mas não menos importante, as transações em euros que envolvam bancos em países que não são da zona euro cujos BCN não estejam ligados ao sistema Target ainda podem ser liquidadas neste sistema de pagamentos através de contas abertas nos bancos que têm contas Target em diferentes BCN da zona euro (por exemplo, Bundesbank e Banco Central da Holanda), o que afeta assim os saldos Target dos respetivos Bancos Centrais da zona euro. Com efeito, este fator desempenhou um papel importante no recente aumento dos saldos Target.

O aumento dos saldos Target é em grande parte devido à política de flexibilização quantitativa (QE) do BCE…

Nos primeiros anos após a crise da zona euro de 2011-2012, os saldos Target declinaram à medida que o stress financeiro. Desde o início de 2015 estes saldos voltaram novamente a subir. No entanto, os fatores que impulsionam o aumento mudaram completamente.

Segundo o BCE, o Bundesbank alemão e o BIS, estes novos aumentos refletem em grande medida os fluxos de liquidez transfronteiriços resultantes da liquidação de aquisições no âmbito do programa QE do BCE (APP). O volume deste programa totaliza, atualmente, 1834 mil milhões de euros. No âmbito deste programa, os bancos centrais compram títulos de uma vasta gama de contrapartes localizadas em toda a área do euro e para além dela. No caso de uma transação transfronteiriça, o fluxo de liquidez afeta os saldos Target do Banco Central do país de destino e do banco do país de onde sai o dinheiro. Por exemplo, se o Banco Central da Itália adquire um título italiano que está na posse de um investidor alemão e este investidor quer manter a liquidez na Alemanha, o Banco de Itália acumula um passivo face ao sistema do euro, ao BCE, enquanto o Bundesbank acumula um crédito sobre o BCE.

… como as compras de “partes externas” também são liquidadas no Target…

Além disso, as contrapartes localizadas em países que não estão ligados ao sistema de saldos Target podem utilizar uma conta num banco seu correspondente com acesso ao Target. Daqui decorre que, quando um BCN adquire títulos de uma contraparte não nacional, e se esta está localizada noutro país da zona euro ou fora da zona euro, a compra é suscetível de dar origem a fluxos transfronteiriços em dinheiro do banco central e, consequentemente, resulta em alterações nos saldos Target. De acordo com o BCE, em termos de volume, cerca de 80% de todas as compras APP envolveram contrapartes não-nacionais. O BIS menciona que, enquanto o próprio Bundesbank adquire menos de um quarto do total das compras APP, cerca de 60% de todas as compras do Euro-sistema no âmbito da APP são conduzidas através de bancos que se ligam ao sistema Target através do Bundesbank.

1 O que são os saldos do TARGET2 3

(…)

As perspetivas são de mais aumentos nos saldos Target

Admitindo que as compras QE são o fator dominante que está por detrás do aumento recente nos saldos Target, pensamos que os saldos Target irão mesmo aumentar ainda mais nos próximos meses. Com efeito, esperamos que o BCE prossiga as suas aquisições de ativos no atual volume mensal de 60 mil milhões de euros até ao final deste ano. A partir de janeiro de 2018, esperamos que o Banco Central reduza gradualmente as suas compras mensais em seis etapas de 10 mil milhões de euros por cada fase, o que implica que, em junho de 2018, o programa deverá terminar completamente. Isto significaria que os saldos Target total subiriam para um nível um pouco acima de EUR 3 milhões de milhões em meados de 2018. Além disso, pensamos que os riscos que pesam sobre esta estimativa são orientados à alta. Existem riscos políticos consideráveis relativos às próximas eleições na Itália (a realizarem-se nos primeiros meses de 2018), onde o movimento populista e eurocético Cinco Estrelas (M5S) está atualmente à frente nas sondagens. Se estes riscos se intensificarem acentuadamente, o BCE poderia ser forçado a fornecer mais liquidez ao sistema, uma vez mais, o que implica que os saldos Target poderiam ser mais elevados do que estimamos neste momento.

1 O que são os saldos do TARGET2 4

 

(…) “

 

(continua)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: