Do plano técnico ao plano político: do sistema Target 2 à fragmentação financeira da União Europeia – 2. BCE: inquietante desequilíbrio dos saldos Target 2. Por Déniz Bozkurt

target 2 fragmentacao 3

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

2. BCE: inquietante desequilíbrio dos saldos Target 2

Por Déniz Bozkurt

Publicado porecosuv em 28 de abril de 2016

Os problemas relacionados com o defeito de concepção original da União Económica e Monetária são bem conhecidos de todos. Neste contexto, o aumento tendencial e inexorável dos desequilíbrios dos saldos do Target 2 desde o início de 2015 é, no mínimo, preocupante!

No âmbito do Sistema Europeu de Bancos Centrais (SEBC), o TARGET2, cujos acrónimos significam “Trans-European Automated Real-time Gross settlement Express Transfer system”, é um sistema de pagamentos gerido pelo Banco Central Europeu que reflete os fluxos financeiros intra zona em tempo real, ou seja, a balança de transacções correntes dos países da zona euro. Apesar da aparente complexidade, o mecanismo que o rege é bastante simples. Por exemplo, ao nível agregado, quando as famílias ou empresas francesas efetuam transferências financeiras transfronteiriças por uma ou outra razão, os bancos comerciais que processaram as transações devem então restabelecer imediatamente os seus níveis de reservas mínimas detidos no Banco de França através de uma operação de recompra ou de revenda inversa (REPO) , a partir do momento em que os fluxos financeiros recebidos do exterior não o permitam. Assim, o Banco de França regista no ativo do seu balanço as garantias fornecidas pelos bancos comerciais e credita no passivo do seu balanço a dívida do Target. Em última análise, este mecanismo resulta num reconhecimento da dívida do Banco de França ao Banco Central Europeu, que depois credita o banco central do país que recebe os fluxos financeiros. Os bancos comerciais neste país têm então um excesso de reservas mínimas que normalizam recuperando as garantias vendidas com acordo de recompra à sua própria instituição monetária.

O Euro-sistema centraliza o processo e procede à liquidação em moeda do banco central de forma “irrevogável” e “incondicional”.

Não obstante, esta operação de refinanciamento poderia muito bem ter lugar nos mercados de capitais normais, pelo que não haveria impacto nos saldos do Target. No entanto, o gráfico seguinte mostra que os mercados monetário e interbancário estão muito segmentados na área do euro e que o sistema de pagamentos Target 2 mantém efetivamente a coesão global com ambas as mãos:

2 BCE inquietante desequilíbrio dos saldos Target2 1

Há, muito claramente, três períodos-chave. De 2001 a 2007, a mobilidade do capital privado é assegurada sem dificuldades dentro da zona euro, o excesso da poupança alemã financia então sem contar com o défice da balança corrente dos países periféricos. Com a eclosão da crise financeira, assistimos a uma interrupção súbita do financiamento privado, a posição de crédito do Bundesbank explode literalmente de 2008 a 2013, com um pico de 800 mil milhões de euros em créditos a receber.

Os desequilíbrios do TARGET2 são, por conseguinte, uma consequência direta da crise da balança corrente entre os países da região. Finalmente, de 2013 a 2015, iniciou-se um processo de reequilíbrio, mas a tendência está novamente a deteriorar-se com o aprofundamento sem precedentes das balanças correntes grega, espanhola e italiana. É importante destacar aqui o papel absolutamente essencial do saldo do TARGET2, que numa tal União, cuja incompletude é comprovada pela inexistência da ligação orgânica entre os Estados e o Banco Central, torna-se essencial para compensar a cristalização dos mercados de dívida privada, pois, caso contrário, a impossibilidade de financiar o défice externo da balança corrente conduziria a que para alguns países fosse insustentável uma pertença à zona euro.

Que interpretações?

No entanto, um ponto de vista muito crítico denuncia a hemorragia permanente dos países periféricos, pondo em causa o papel institucional do saldo do TARGET2, que é considerado na realidade como um substituto não oficial da emergência efetiva de uma verdadeira União de transferências orçamentais. Os bancos comerciais subscrevem títulos de dívida pública de países da zona  euro, que utilizam massivamente como garantia para as suas operações de refinanciamento. Além disso, podemos deduzir que a implementação de planos de austeridade amplos nos países periféricos, com toda a brutalidade que caracteriza as exigências da Comissão Europeia nesta área, não restaurou a confiança suficiente para a normalização das transferências correntes. Apesar dos sacrifícios dolorosos feitos pelos povos dos países do Sul da Europa, as suas economias continuam a perder a sua substância:

2 BCE inquietante desequilíbrio dos saldos Target2 2

No entanto, pode observar-se no quadro acima que a Espanha e a Itália têm vindo a recuperar desde 2013 com um saldo positivo da balança corrente. A Grécia (em menor medida) e Chipre ainda têm saldos negativos relativamente grandes em 2015. Nestas condições, afigura-se que as saídas de capitais privados do Sul para a Alemanha, ou seja, a fuga precoce de capitais privados, prosseguem apesar de tudo a um ritmo relativamente estável.

Entende-se então muito rapidamente até que ponto teria sido preferível uma lógica de ajustamento dos créditos alemães para redirecionar o excesso de poupança para investimentos nos países do Sul a uma lógica de deflação salarial e cortes orçamentais que, dados os multiplicadores aplicáveis em tempos de recessão, têm um impacto hiper-depressivo nas suas economias. Esta distribuição desigual de liquidez com a subsequente institucionalização dos fluxos de capitais não é isenta de consequências. Atualmente, o BundesBank continua a acumular créditos potencialmente duvidosos e em crescimento constante. Assistimos, pois, a uma mutualização dos riscos, uma vez que os eventuais prejuízos serão repartidos entre os bancos centrais nacionais proporcionalmente à sua participação no capital do BCE, tanto mais que não existe um limite teórico para o agravamento destes desequilíbrios.

Por estas razões, podemos considerar o saldo do TARGET2 como um indicador avançado da desconfiança em relação à moeda única, porque a segmentação dos mercados financeiros reflete uma flagrante falta de confiança que levanta questões sobre a sustentabilidade do euro a longo prazo. Uma coisa é certa: a destruição do potencial de crescimento dos países do Sul da Europa não pode ser coberta para sempre por um dispositivo monetário deste tipo.

Texto disponível em

http://ecosouv.over-blog.com/2016/04/bce-inquietant-desequilibre-de-la-balance-target-2.html

 

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