Uma análise das tentativas de descredibilização dos Coletes Amarelos. Por Júlio Marques Mota

Tentativas de descredibilização dos Coletes Amarelos 3

Uma carta a uma amiga minha, a Maria Odete, em torno de uma conversa entre nós havida

julio-marques-mota Por Júlio Marques Mota

em 28 de março de 2019

Ontem, a falar com uma velha amiga minha, Maria Odete, pessoa mais entrada na contagem dos dias de aniversário, comentávamos o dado que é hoje os Coletes Amarelos.

Iremos iniciar a publicação de uma nova série de textos tendo como tema Ano de 2019, ano de eleições europeias – Grandes planos sobre uma União Europa em decomposição e imagens soltas sobre diversos dos seus Estados membros.

Uma conversa com uma velha amiga que queria ver lucidamente através do nevoeiro que lhe é fornecido pelos media portugueses. Ver assim é impossível, é a mesma coisa que negociar a saída de um país no quadro dos Tratados aprovados pela União Europeia. Negoceia-se o quê? Um país quer sair, o outro não quer que ele saia, e assim vê-se onde é que se chegou com mais de dois anos de supostas negociações. Chegou-se a lado nenhum, mas ver e compreender as situações que contrariam o mainstream através dos media é também ver o quê? Nada, rigorosamente nada. Esta é pois a situação da minha amiga: querer ver com detalhe o que se passa em França a partir das informações oficiais. Quadratura do círculo.

Falei-lhe da França profunda que está por detrás dos Coletes Amarelos, gentes a quem agora chamam de fascistas, xenófobos, antissionistas e antissemitas, como estes dois últimos termos tomados como equivalentes (!),  gentes de que os media não falam a  não ser para as insultar, falei-lhe dos “brutos do Brexit” que votaram Brexit, o que levou ao espetáculo político que  estamos a presenciar a partir de Londres, falei-lhe dos “deploráveis” da Hillary Clinton. Mas, oh professor, olhe para os estragos, olhe para a fúria avassaladora dessas gentes, meu Deus, veja as referências históricas de França a serem vandalizadas, exclamava esta minha amiga. Como resposta falei-lhe dos provocadores nas manifestações, falei-lhe das armas de tecnologia de ponta apontadas milimetricamente aos Coletes Amarelos individualmente visados e que eu saiba não aos Black Blocs de que se diz agora que ninguém sabe quem são.

Falei-lhe de tudo isso e rematei: mas espere lá, aqui em Portugal também poderíamos ter Coletes Amarelos. Mas já os vimos cá, professor. Não, não viu. Aqui gente vestida com um Colete Amarelo, sem saber ao que estavam, porque é que estavam, para que é que estavam,  teleguiados possivelmente por um partido da direita caciqueira, o CDS. A minha amiga fala-me da invenção de um movimento a partir de cima, eu estou a falar-me de um Movimento criado a partir de baixo, assente em razões de fundo que não precisam de ser lidas numa mensagem de um telemóvel enviada de uma qualquer central partidária,  criado a partir de  razões que são sentidas no dia a dia dos cidadãos, espalmados por um sistema que os tritura.

E dei-lhe três  exemplos: o caso do filho dela, alguém  que espera há quase ano e meio pela atribuição da reforma que não sabe sequer quando virá, dei-lhe o exemplo da minha neta de 5 anos agora, que espera há um ano por um cheque saúde quando foi operada há já 9 meses numa clinica privada por recurso, por urgência, e com os recursos da família, falei-lhe de uma amiga minha que ganha o salário mínimo nacional e que precisa de fazer um exame radiológico especial caro- estudo electromiografico dos membros superiores e inferiores, lado esquerdo e direito – suspeita de síndrome canal carpico- para o qual não há cobertura no Serviço Nacional de Saúde, e para o qual não tem dinheiro, porque lhe custará ¼ do seu ordenado mensal, falei-lhe das consultas de urgência nos Hospitais com tempo de espera de mais de um ano e com exames especiais a esperar um  outro tanto, e perguntei: Se em Portugal toda essa gente descontente e com razão viesse para a rua equipados com um Colete Amarelo, não estariam eles contra a politica da Troika imposta ao nosso país e ainda agora continuada numa versão mais branda ou não assumida sequer? Neste caso, a senhora acusava-os de ataque à democracia?

Espere aí, Professor. Não confunda as coisas. Estou a falar das destruições, dos saques! Eles querem destruir a Democracia, meu Deus!

Aqui lembrei-me de um artigo lido em Franceinfo publicado em 19 de março onde se pode ler:

Dois dias depois de um sábado marcado pela violência nos Campos Elísios, em Paris, à margem da mobilização dos Coletes Amarelos, e enquanto o governo reconhece as deficiências na organização da manutenção da ordem, o secretário-geral do sindicato da polícia da Unsa, Philippe Capon, acusa em franceinfo, na segunda-feira, 18 de Março, «aqueles que decidiram que deveria ser assim e não deram instruções» para que a polícia interviesse para evitar a destruição.

franceinfo: A culpa é do Estado depois da violência de sábado nos Campos Elísios?

Philippe Capon: Sabíamos que a manifestação de sábado seria dura, difícil. Repito que a polícia e as restantes forças da ordem perdem toda a iniciativa, ou seja, agem apenas por ordem, intervêm apenas por ordem. Então quando estamos numa manifestação, quando diante de nós a 50-100 metros, os vândalos estão a partir tudo, a polícia está a pensar «Porque não intervimos?» Porque não têm ordens para intervir, o público deve saber disso. É uma escolha, deixámos que se destruísse uma série de coisas, penso que há responsabilidades. Muitos colegas ligaram-me, disseram-me que não é normal o que aconteceu. Estávamos em condições de intervir, não fomos autorizados a fazê-lo. Eu questiono aqueles que decidiram que as coisas se passassem assim e que não deram instruções para que fosse diferente. Na organização do dispositivo, pusemos doze companhias de CRS encarregadas de velar pelo Eliseu, mas compete-lhes isso quando os CRS são especialistas em manutenção da ordem e intervenção? O Ministro do Interior disse-o novamente numa cerimónia da CRS em Velizy na semana passada, os CRS não foram utilizados como deveriam ter sido utilizados no sábado.

Alguns dizem que o governo permitiu que a violência ocorresse para minar a credibilidade do movimento dos “Coletes Amarelos”. O que acha disso?

Não creio que o cinismo possa ter sido levado a este ponto até porque não é possível que possamos deixar que se faça o que aconteceu no sábado. Depois disso, penso que há um problema de organização, de manutenção da ordem em Paris desde há várias semanas. Existe uma dupla autoridade entre a Direção de Ordem Pública e Trânsito e a Direção de Segurança Pública das Esquadras de Polícia, que devem poder evoluir para um comando único, uma gestão única. Existem serviços concorrentes que colocam problemas na organização do policiamento e na intervenção do policiamento em Paris. Isto foi denunciado e o Ministro do Interior deve ser capaz de reagir com um comando único, uma única gestão, uma única direção.

Os movimentos dos “Coletes Amarelos” são demasiado difíceis de controlar? Não houve suficientes forças da ordem?

Havia 40 forças móveis, ou seja, esquadrões móveis de gendarmes e companhias CRS à disposição do Prefeito da Polícia de Paris para gerir a manutenção da ordem na capital. Os movimentos são realmente complicados. O movimento dos coletes amarelos pode ter-se tornado mais radical, mas os vândalos estão a aproveitar a oportunidade deste movimento para destruir tudo. “Coletes amarelos” ou o que quer que seja, para eles é indiferente, não se importam. Eles estão lá para destruir, com vontade de ferir, de atacar a polícia. Continuamos a assistir a uma escalada que para mim é inaceitável, com os veículos da polícia a terem de recuar porque os vândalos os queriam atacar diretamente, atacá-los fisicamente, vimos estas imagens de manifestantes que queriam abrir um veículo dos gendarmes, não com boas intenções. E se tivessem conseguido tirar os gendarmes da carrinha, acho que teria tudo corrido muito mal. Ainda estamos numa escalada que não conhecíamos necessariamente com as pessoas que querem atacar fisicamente a polícia e que não têm nada a ver com o movimento dos “Coletes Amarelos”.”

Relembramos. À pergunta levantada por franceinfo: “Alguns dizem que o governo permitiu que a violência ocorresse para minar a credibilidade do movimento dos ‘Coletes Amarelos’. O que acha disso?”, o alto quadro da polícia responde:

Não creio que o cinismo possa ser levado a este ponto até porque não é possível que possamos deixar que se faça o que aconteceu no sábado”.

Demasiado monstruoso para se poder acreditar nessa hipótese é o que este alto quadro das forças de segurança nos diz. Está no seu direito quanto a essa crença. E quanto a esta crença deixem-me apresentar duas posições de juristas, à posição de crença afirmada pelo alto quadro da polícia: a de Régis Castelnau e da Olivier Cahn, sendo esta relativa aos acontecimentos de 16 de março.

Diz-nos Régis Castelnau (original aqui):

Desde o início do movimento dos Colete Amarelos, todos os observadores honestos foram levados a fazer muitas perguntas sobre o comportamento da polícia nas manifestações. Alguns chegaram ao ponto de acusar o Ministério do Interior de deixar os vândalos fazerem o que muito bem queriam, com o objetivo óbvio de desqualificar o movimento e assustar as pessoas. Apesar de algumas provas que a multiplicidade de vídeos pôde estabelecer, eles foram imediatamente acusados de hereges e de reincidentes, com a principal acusação: ‘Conspiradores! Como é que podem imaginar que o poder poderia utilizar esse tipo de comportamento contra um movimento social?

Pois bem, justamente, ele pode. E é isso que posso testemunhar.

Há 40 anos atrás, sob Giscard d’Estaing…

Quando notei a presença, nas manifestações, de polícias sem uniforme, vestidos de Black Bloc, mas por vezes equipados com martelos cujo uso podia legitimamente ser questionado. Quando sabemos que, sob o regime de Emmanuel Macron, qualquer pessoa pode usar uma braçadeira e espancar os manifestantes, sem grande preocupação com a justiça. Quando leio os testemunhos fortes sobre a passividade da polícia no momento das depredações e saques. Quando vi que o perfil das pessoas presas em massa, e condenadas pesadamente por delitos fantasiosos, tudo isso mostrava que esses não eram, de modo nenhum, os vândalos habituais que habitualmente a polícia conhece, acabei pensando comigo mesmo, «aí está, isto faz-me lembrar alguma coisa».

Foi há muito tempo, precisamente há 40 anos, na altura das grandes lutas operárias que, sob a presidência de Valéry Giscard d’Estaing, se opunham ao desmantelamento da siderurgia francesa que tinha começado. A Lorena, e em particular a cidade de Longwy, vivia uma situação de intensa mobilização popular com amplo apoio público. Pela primeira vez, o monopólio estatal de radiodifusão foi minado pela criação da primeira e ilegal “rádio livre” chamada: Lorraine Cœur d’Acier.

As organizações sindicais decidiram organizar uma grande manifestação em Paris, em 23 de março de 1979. Ela deveria ter sido um grande sucesso, mas foi completamente pervertida pela enorme violência de que foram acusados os membros de um grupo anarquista chamado “Les Autonomes”. Naturalmente, os meios de comunicação focaram-se apenas na violência, pilhagem e depredação. E as autoridades giscardianas, através do Ministro do Interior Christian Bonnet, não hesitaram em colocar ainda mais ênfase para desqualificar o movimento dos trabalhadores siderúrgicos.

Tendo sido chamado a defender as pessoas detidas nesta ocasião, foi uma surpresa total constatar que entre as pessoas detidas não se encontrava nenhuma das famosas pessoas Autonomes que tinham sido vistas nas fotografias da imprensa. Manifestantes pacíficos, por vezes simples transeuntes, foram perseguidos com base em ficheiros manifestamente fabricados ou em incriminações fantasiosas, mas em nenhuma circunstância foram eles os assaltantes destruidores. Isso não impediu uma justiça zelosa de distribuir sentenças consideráveis que foram confirmadas em Recurso. Apesar da mobilização de uma ordem de advogados de esquerda onde os advogados socialistas ainda se preocupavam com as liberdades civis

(…)

A CGT, apanhada de surpresa por estes acontecimentos [assalto e fecho da rádio livre pela polícia e uma consequente manifestação de protesto brutalmente reprimida] e na base de inúmeros testemunhos, empreendeu então uma meticulosa investigação baseada na recolha de fotografias e testemunhos que revelaram de forma flagrante as manipulações policiais e a vontade do governo por esta provocação. O serviço de ordem da CGT, no momento da manifestação, prendeu dois dos chamados “autónomos” e descobriu que se tratava de polícias disfarçados. Usando esse trabalho e complementando-o com o trabalho que nós mesmos fizemos na defesa dos acusados, Daniel Voguet, François Salvaing e eu próprio publicámos um livro na época, intitulado: La Provocation, que descrevia como é que as coisas se tinham passado. Foi há 40 anos, o livro envelheceu um pouco, assim como os seus autores, mas de certa forma continua atual porque testemunha que um poder político, confrontado com um movimento social popular, não tem nenhum problema em utilizar manipulações e provocações policiais para desqualificar esses mesmos movimentos.

Isto foi há quarenta anos, é o que nos conta um jurista. Mas hoje, sobre os acontecimentos de agora vejamos também o que nos diz um professor universitário, especialista em direito penal.

Um professor universitário levanta de uma outra forma a eventual cumplicidade das autoridades com o que aconteceu. Vejamos o que nos diz Olivier Cahn, professor de direito penal em Tours.

A posição de Olivier Cahn

O professor de direito penal da Universidade de Tours, Olivier Cahn, questiona em franceinfo sobre uma força policial ‘muito mais distante e muito menos agressiva’ do que nas semanas anteriores, enquanto um texto de lei muito repressivo e criticado é apresentado ao Conselho Constitucional. Ele também se surpreende com a acusação de cumplicidade do presidente e primeiro-ministro relativamente aos “coletes amarelos” passivos. ‘Nem podemos imaginar a população formando uma milícia para lutar contra os ativistas de extrema-esquerda’, disse o professor.

franceinfo: A violência de ontem justifica a lei repressiva, muito criticada, nomeadamente a nível internacional, e apresentada ao Conselho Constitucional?

Olivier Cahn: É uma excelente pergunta, mas talvez possa ser considerada de um outro ângulo. É estranho porque a violência tinha sido anunciada. A região de Paris foi coberta por cartazes de ativistas de extrema-esquerda anunciando que se iriam manifestar nesse dia e as ilustrações nesses cartazes mostravam pessoas a enviar projéteis, pelo que se podia esperar algo bastante brutal.

Os serviços secretos tinham assinalado a presença de ativistas violentos, o Ministro do Interior tinha, na véspera da manifestação, alegadamente dado instruções para que as forças da ordem fossem firmes. E embora tenhamos assistido a formas extremamente duras de policiamento durante algumas semanas, desta vez, quando o texto está perante o Conselho Constitucional, o mínimo que podemos dizer é que o policiamento tem sido muito mais distante e muito menos agressivo para com os manifestantes.

O executivo não fez o necessário ontem?

Penso que é de saudar o facto de o nível de violência policial ter sido reduzido na sequência do relatório do defensor dos direitos humanos ou das agências das Nações Unidas que pedem à França que respeite os direitos fundamentais em termos de policiamento.

Não é mau ter um dia em que provavelmente tivemos menos uso do lançador de bolas defensivas e de outros instrumentos. Mas o resultado é, no entanto, perturbador quando se constata que, embora este texto extremamente polémico, que levanta muitas questões de direito, esteja perante o Conselho Constitucional, estamos de novo a ter um dia de manifestações extremamente duro e brutal, e espero que o Conselho Constitucional possa dar provas de discernimento.

Pode haver um crime de cumplicidade para todos aqueles que lá estiveram, como disse o Presidente?

Não, a cumplicidade requer uma participação ativa. O facto de não impedir não é em si mesmo uma cumplicidade e, sobretudo, ainda se pode perguntar o que se poderia fazer os “Coletes Amarelos” que, por definição, são pessoas da sociedade civil contra ativistas que são treinados e que pretendem praticar atos de grande vandalismo.

As pessoas não têm de se colocar em perigo para impedir os ativistas de intervir. Não sei o que o Primeiro-Ministro e o Presidente da República querem, mas há o trabalho da polícia. Também não se pode pretender que a população se constitua em milícia para lutar contra ativistas de extrema-esquerda. Não vejo o que podemos esperar das pessoas em termos de intervenção física diante de ativistas extremamente violentos.”

 

Tudo dito, tudo bem entendido. Bem, ficamos a saber que o ministro do Interior, que se esteve a divertir à grande e à francesa nessa noite numa “boîte” chique de Paris, para se ressarcir da violência da tarde em Paris, acusa agora os “Coletes Amarelos” de não terem feito o que a Polícia não tinha ordem para fazer: defender a França do vandalismo “consentido”. Por isso, os “Coletes Amarelos” são agora acusados de cúmplices dos Black Bloc!

Depois de lhe falar resumidamente sobre tudo isto, disparei à minha amiga a seguinte pergunta: quem lhe disse que as pessoas do Black Bloc, os vândalos referidos, são Coletes Amarelos?

Aqui, para além dos textos que acabamos de reproduzir, lembrei-me de um texto que tinha acabado de traduzir escrito por um alto-funcionário francês, Aurélien Marq, especialista em  questões de segurança nacional e também de uma entrevista feita ao teórico da França periférica, Christophe Guilluy, cuja tradução e publicação em português nos foi autorizada pela direção da revista Causeur.

E de novo vale a pena apresentar aqui uma síntese das posições destes dois comentadores, uma de um alto funcionário francês e a outra de um grande especialista em geografia humana.

A posição de Aurélien Marq

Quem é que o governo está realmente a proteger?

Menos conhecida é a concentração de forças em torno dos palácios nacionais que, desde o início das manifestações dos Coletes Amarelos, assumiu uma amplitude inédita. Não é chocante garantir a segurança do Eliseu, da Assembleia e do Senado, bem pelo contrário. Mas o agrupamento de recursos em torno desses lugares, imposto pela autoridade política, atingiu agora proporções embaraçosas, sem qualquer justificação operacional, e se soma à concentração de recursos em Paris, em detrimento da Província. Tudo isto levanta a questão de saber se a segurança dos governantes não acaba por ser alcançada à custa da segurança dos governados…

E embora fosse absurdo acusar o governo de provocar os excessos – a extrema-esquerda encarrega-se disso muito bem, sem qualquer necessidade de ser ajudada – seria igualmente absurdo negar os benefícios políticos que deles retira. Enquanto o primeiro-ministro Édouard Philippe está a tentar neutralizar um “risco enganador significativo” quando os resultados do “grande debate” são anunciados, descredibilizar um pouco mais o movimento que está na sua origem não lhe pode ser prejudicial. Daí a pensar que é melhor curar do que prevenir, e que isso limita a atenção dada aos alertas dos serviços secretos, falta apenas um passo …

Exigir que as cabeças caiam pode ser desnecessariamente vingativo, mas como o próprio governo cedeu à tentação da “purga”, um gesto forte como a demissão do Ministro do Interior pelo menos impediria que a autoridade política fosse suspeita de “deixar acontecer”, usando os executivos da polícia como fusíveis. Noutros tempos, chamava-se a isso a honra.

 Os Black Bloc não são Coletes Amarelos

Do ponto de vista dos Coletes Amarelos, há que admitir que o fracasso é ainda mais grave. Muitos comentadores traçaram um paralelo com o famoso dia 1 de dezembro, e os confrontos do Arco do Triunfo. A comparação é largamente fundada, mas ainda há uma diferença significativa. Em dezembro, quando alguns vândalos quiseram atacar o túmulo do Soldado Desconhecido, os Coletes Amarelos defenderam-no. Se tivessem sido imediatamente recebidos no Eliseu, sinal de respeito pela sua coragem republicana, apesar dos desacordos, teriam sido evitadas muitas dificuldades desde então. Infelizmente, este não foi o caso. Agora parece que os defensores do túmulo deixaram as manifestações parisienses e que apenas os vândalos estão a voltar às manif de Paris. Os Coletes Amarelos da primeira hora, os dos agoras espontâneos nas rotundas, foram despojados de seu movimento pela extrema esquerda. Essa mesma extrema-esquerda, aliás, que no início os chamava de fascistas e camisas castanhas, não é verdade Jean-Luc Mélenchon?

E disse-lhe em resumo o que tinha lido no texto do alto-funcionário da administração francesa que imputa à extrema-esquerda o vandalismo a que se assistiu. É a sua leitura, de que aqui só quero sublinhar que este especialista em segurança não considera estes vândalos como sendo “Coletes Amarelos”. Como Philippe Capon também não, pelo se que leu acima. Como também Christophe Guilluy nos diz a mesma coisa. Não os Coletes Amarelos não são pessoas pertencentes ao Black Bloc. Vejamos um excerto da sua análise:

A posição de Christophe Guilly:

“[Nas sociedades de capitalismo avançado de hoje] não são apenas as classes trabalhadoras que não se sentem politicamente representadas. Entre os eleitores dos chamados partidos “populistas” estão os perdedores culturais que se dão muito bem economicamente, mas que se sentem culturalmente despojados.

As dinâmicas populistas atuam sobre duas forças ao mesmo tempo: a insegurança social e cultural. A insegurança cultural sem insegurança económica e social alimenta o eleitorado de Fillon, que logicamente votou Macron na segunda volta: não tem interesse em inverter o modelo de que beneficia.

Como vimos com a eleição de Trump, nenhum voto populista emerge sem a conjunção da questão da identidade e da fragilidade social. Por conseguinte, é inútil perguntar se alguma destas componentes está em jogo. Estão as duas. É por isso que os debates sobre a alegada influência de Eric Zemmour são estúpidos. Zemmour expressa um movimento real na sociedade, o que explica que com 11 milhões de eleitores para Marine Le Pen, a Frente Nacional bateu o seu recorde absoluto de votação na segunda volta em 2017. Apesar de tudo, a redistribuição permanece muito forte e o número de pessoas protegidas é elevado. Emmanuel Macron não só foi eleito pelo mundo das elites, das gentes d’en haut. Foi também amplamente apoiada pelos protegidos, ou seja, pelos reformados – especialmente os reformados de classe média – e pelos funcionários públicos. Este é o paradoxo francês: o que resta do Estado-Providência protege o mundo dos de cima.

Não é o único: Macron, em quem votaram, não poupa funcionários públicos e aposentados…

Isso explica o seu colapso nas sondagens. Dito isto, o nível das pensões continua a ser relativamente correto e não leva os reformados franceses a virar a página, mesmo aqueles que acreditam que existem problemas com a imigração. Mas isso pode mudar nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, com o Estado social enfraquecido desde os anos 80, os reformados não têm medo de derrubar o sistema. Eles votaram no Brexit porque não têm nada a perder. Se amanhã o Governo enfraquecer os reformados franceses, estes deixarão de apoiar eternamente o sistema. Ao desmantelarmos todas as redes de apoio social, como se está a querer fazer com a redistribuição que tem estado a favor dos reformados, estamos a assumir riscos muito grandes para o futuro das operações.

O desfazer das conquistas sociais não é um pouco exagerado?

Não, não é. E não é coincidência que o governo tenha recuado na CSG. A mediana da pensão de reforma em França é de cerca de 1.000, 1.100 euros por mês! Abaixo de 1.000 euros por mês, começa a ficar tudo muito complicado. A maioria dos reformados provém das categorias da classe trabalhadora. E eles são os únicos, no seio destas, que não caíram, na sua maioria, na abstenção ou no voto populista. No dia em que eles também mudarem, o choque será comparável ao Brexit. Veja também a velocidade com que os populistas ganharam na Itália.

Está a dizer que, para a França, é apenas uma questão de tempo?

Gostemos ou não, o movimento está lá e basta esperar. Em todo o Ocidente, há uma procura muito forte por regulação: económica, social, migratória. Para toda a resposta a esta exigência popular o que se tem tido é chamar-lhe fascista – estou bem consciente disso. O resultado desta estratégia de diversão é que a fratura entre a elite e as classes superiores por um lado, e o povo, por outro, continua a aumentar. Nunca na história estes dois mundos foram tão estranhos um ao outro.

 

Depois de falar sobre tudo isto, pergunto à minha amiga Maria Odete se continua a achar que os “Coletes Amarelos” são os responsáveis pelo aconteceu, ou que são cúmplices do que aconteceu?  Ou estará de acordo comigo em afirmar que Brexit, Coletes Amarelos, vitória de Trump são formas diferentes da mesma realidade, a realidade de que nunca o mundo dos d’en haut  e o mundo dos d’en bas  foram tão estranhos um ao outro como agora, que as razões de tudo isto são as razões que estão na base desta enorme distância a que alude Christophe Guilly?

Isto é demais para mim, escapa-me muita coisa do que me diz e sobretudo face ao que vejo. Estou confusa. Uma coisa é certa, sou contra essa violência. Foi o que me disse.

Bem, quanto à violência, estamos os dois de acordo, as imagens visionadas conferem-nos um enorme sentimento de horror. Quanto ao resto, pense bem no que lhe disse, respondi-lhe eu.

E a conversa ficou por aqui.

__________________________________________________

Anexo sobre os Black Blocs

Uma curta nota sobre os Black Blocs

Mas quem são estes ativistas vestidos de preto, encapuzados e ultra-violentos? O movimento dito Black Blocs  reúne principalmente ativistas de movimentos libertários e anarquistas. Este não é um fenómeno novo. Aparecidos na década de 1980 na Alemanha, os Black Blocs  internacionalizaram-se  na década de 1990, e desde então interromperam todas as grandes cimeiras  internacionais (OMC, G8, G20…) com as  suas ações violentas.

O equipamento padrão torna difícil identificá-los

Muito frequentemente vestidos de preto da cabeça aos pés, com capuz e máscara, usam óculos de protecção e uma mochila. Esta  última contém uma mudança de roupa sobressalente. Eles chegam incógnitos, mudam-se muito rapidamente, reagrupam-se e entram em ação. Equipados com martelos e barras de ferro, atuam em grupos, de forma coordenada.

Visam todos os símbolos do Estado (polícia, administração…) e da “sociedade capitalista” (bancos, empresas multinacionais, painéis publicitários …), queimam  carros de luxo…. O termo black bloc não se refere a um movimento político, mas sim a uma tática de manifestação ultra-violenta. Os seus slogans fazem lembrar os dos movimentos anarquistas:

“Não importa o que votem, somos ingovernáveis”, “Estamos com raiva negra”, “Risco de perturbação na ordem pública”…

Tentativas de descredibilização dos Coletes Amarelos 4

 

 

 

One comment

  1. Bom texto. Outro título seria: O governo de Macron e a tentativa de desmocratização da sociedade por meio de descridibilizar o movimento dos Coletes Amarelos.

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