A LIBERTAÇÃO DE NOTRE-DAME, de SLOBODAN DESPOT

Notre-Dame de Paris. O nome soa tão terno, tão vivo e tão caloroso que nos esquecemos que se trata de um edifício em pedra. Há muito tempo que este nome não era usado para designar uma construção, mas sim um ser vivo. Uma mulher, uma divindade, uma mãe, uma mãe, a nossa, aliás, a mãe que vela por Paris, pela França e, portanto, pelo mundo inteiro. Porque o plano que vai da Igreja de Notre-Dame ao Louvre e do Louvre ao Arco do Triunfo está inserido na geografia íntima de toda a humanidade civilizada, para além das suas línguas, tradições e religiões.

 

O povo francês de hoje é o guardião de uma herança que o ultrapassa e pertence a toda a humanidade. Algumas gerações, muito antes deles, tocaram neste sopro intemporal e universal do ser, do qual o universalismo intelectual é apenas uma pálida transposição. Notre-Dame não é mais francesa, nem menos, do que o Taj Mahal não é Mongol, que Petra não é jordana ou que Santa Sofia não é turca. Notre-Dame é um daqueles enclaves do absoluto que falam a linguagem comum da humanidade, não pertencendo a ninguém mas  que são  por  todos inteligíveis. É por isso que o destino de Notre Dame diz respeito a toda a humanidade civilizada. E é por isso que o júbilo sobre as  suas cinzas se refere àqueles que não merecem pertencer a nenhuma forma de sociedade, nada mais do que receber a sua alimentação por detrás das grades.  O facto de muitos destes agentes e criminosos das trevas ( Orcas e Goblins)  não só terem sido tolerados, mas também alimentados e protegidos pela Afrance de hoje ilumina, em toda a sua fatalidade, a lógica da imolação de Notre-Dame.  Na Afrance de hoje, esta nave, que atravessou nove séculos  de perturbações, tinha mais razões para arder  do que para permanecer intacta.

Notre-Dame de Paris. Na nossa cabeça, infalivelmente, o nome evoca muito mais do que uma obra de arquitetura. Recorda “a dupla solenidade, reunida desde tempos imemoriais, do Dia dos Reis e da Festa dos Tolos”. Desperta a alegre agitação das crianças das escolas e dos pardais, anima as silhuetas do bom povo de Paris que se reunia no que era então o maior espaço coberto do mundo, e que serviu também, durante séculos, para celebrar a Deus como para acolher mulas e os pés descalços.

Notre-Dame foi construída uma primeira vez por gerações de pedreiros e uma segunda vez por um só homem, nu diante do seu púlpito  e falando freneticamente, em menos de três anos, com uma pena de ganso molhada em tinta  sobre enormes folhas de papel, um universo complexo a partir do qual os seus descendentes malignos, armados com processadores de texto e bancos de dados, não podiam esboçar sequer  uma sua  centésima parte sem se afogarem no que escreviam. Notre-Dame de Paris, há duzentos anos, está casada na sua grandeza com o génio extravagante do maior romancista de todos os tempos.

Quer esteja ancorada na obscura perseverança dos companheiros ou no deslumbramento demoníaco de Victor Hugo, Notre-Dame de Paris é testemunho  da passagem de uma outra raça nesta terra, uma raça de gigantes. Encalhada no nanométrico século XXI, “brilha como uma velha espada a ser desenterrada” (Tsernianski), como uma daquelas armas de que nos perguntamos, quando as vemos hoje, que pulso é que a poderia  manusear.  E que corpo seria capaz de sobreviver aos seus golpes.

A NEGLIGÊNCIA É PIOR DO QUE O CRIME

Há décadas que se encontrava ali, como Gulliver em Liliput, entravada por   uma rede de cabos, invadido por um enxame de turistas, cheio de uma floresta de dispositivos e regras de segurança. E eis que agora a graça das chamas a libertou – pelo menos por alguns anos – dessa servidão industrial indigna de uma serva de Deus.

“Nossa Senhora escapou-se!” Esta segunda-feira à noite,  estava eu a ir para casa quando  o meu telefone no banco do passageiro percorria as imagens que me tinham sido enviadas por um amigo. Isso não era possível! A minha garganta estava a hesitar entre risos e soluços. “Ela escapou!” Eu finalmente disse em voz alta. “Livre!”

Nossa Senhora era uma escandalosa irrupção da eternidade no galinheiro do atual momento cultural. Ela era refém de uma época e de uma população – podemos falar ainda de um povo? – incapaz de a compreender e demasiado fraca para o salvaguardar. Mesmo antes de o fogo ser dominado, foi declarado acidental, desencadeando imediatamente o dispositivo de restrição mental que se tornou obrigatório a cada traumatismo coletivo.

Acidental, tudo bem! Um avião cai por acidente: indica-se imediatamente  o nome do  piloto, do fabricante, do controlador aéreo, em suma, alguém  é imediatamente identificado. Cinco dias depois, em Notre-Dame, ainda não está ninguém identificado. O nevoeiro da emoção é ainda mais denso do que o sinistro fumo amarelo de segunda-feira. Suspire-se o que quiser, mas sobretudo não pense nisso: doutrina apropriada para humanos com “coração duro e intestino sensível” como Bernanos diagnosticou aos seus contemporâneos.

Acidental, necessariamente! Qualquer outra hipótese é impensável e, acima de tudo, impensável para os ombros malignos dos gestores anões. Vimos o antigo arquiteto-chefe de Notre-Dame, Benjamin Mouton, expressar o seu espanto ao jornalista Poujadas: o carvalho de quase mil anos, isso  não arde  como uma caixa de fósforos “Seria necessário utilizar muita lenha miúda para  chegar aí“, disse ele meio a brincar , criando ALGUM desconforto no  estúdio televisivo. No dia seguinte, o governo colocou em prática uma “comunicação mais centralizada” para que arquitetos e outros curadores  do património fechassem os seus bicos[1].

Interior da Catedral no dia 16 de Abril.

OS REIS FALHADOS

Foge-se, como de uma praga se tratasse,  da ideia de um gesto intencional. Como podemos enfrentar terroristas que teriam o poder de atacar este país no seu próprio coração? E se a análise racional conduzisse a um cenário do tipo de  “incêndio do Reichstag”, ou pelo menos a uma exploração cínica de um desastre histórico pelo atual governo? Pegar em armas?  Quem, entre estes conspiradores das redes sociais, teria a força para dar seguimento às suas conclusões?

A pista do crime é um pesadelo, mas a pista  acidental é ainda pior. Por um lado, estaríamos a lidar, dentro ou fora do “sistema”, com criminosos hediondos, mas capazes. Por outro lado, estaríamos a lidar com um jean vigarista absoluto, sem qualquer valor, que tanto teria despojado e desorganizado o Estado que este já não é capaz de guardar eficazmente o primeiro monumento da França (e o seu maior bem turístico)(1).

Mas a Dama   não se rala com estas discussões académicas. A Dama voou para o céu envolta nas suas túnicas  amarelas. Podemos prometer, daqui a cinco anos, uma catedral reconstruída “mais bela que antes”, podemos branquear os milhares de milhões de evasores fiscais, apelar a um “gesto arquitetónico contemporâneo” (= provocação pretensiosa na linguagem enarca que dá para tudo) e  rivalizar  no mau gosto e nas transgressões.

[Diz-nos Didier Rykner: “Um gesto arquitetural contemporâneo seria totalmente uma loucura”

Didier Rykner. Photo © BALTEL/SIPA Didier Rykner. Photo © BALTEL/SIPA 

Jornalista e historiador de arte, fundador da Tribune de l’art, Didier Rykner rejeita a possibilidade de substituir a flecha de Viollet-le-Duc por uma obra contemporânea e explica porque o prazo de cinco anos anunciado por Emmanuel Macron é irrealista.

Pergunta: Emmanuel Macron promove a reconstrução de Notre-Dame de Paris em cinco anos. É viável e, acima de tudo, é isso desejável?

Isto não é desejável nem viável. Não estamos a decretar o lançamento da construção de um monumento histórico, especialmente este, dois dias depois do incêndio, é demasiado cedo! Nem é decretada para durar 5 anos, 6 anos, ou mesmo 7 anos. Cinco anos é muito curto, obviamente não vai durar 20 ou 30 anos, mas toda a gente que sabe um pouco sobre esse tipo de trabalho sabe que vai durar cerca de 10, talvez 15 anos. É evidentemente possível exprimir o desejo de que o trabalho seja realizado o mais rapidamente possível, mas é absurdo fixar uma data. Além disso, não estamos a “reconstruir” Notre-Dame, estamos a restaurá-la! A diferença é significativa, mas Emmanuel Macron obviamente não sabe o que é uma restauração.

Pergunta: No que que é a diferença é importante?  

É um problema de vocabulário. Ao restaurar uma obra de arte, ela é reproduzida o mais fielmente possível, de acordo com o último estado conhecido, sem acrescentar a sua marca. Quando se reconstrói, faz-se o que se quer. Mas não vamos reconstruí-lo, Notre-Dame ainda está de pé! ( Veja‑se Revista Valeurs]

Nada vai dar à  base de pedra a sua “floresta” de carvalhos que quatro gerações de madeireiros e carpinteiros trabalharam e  refinaram antes de ousar coloca-los nas ogivas. O nome do  anão que a deixou partir em fumaça  já está gravado – basta esta façanha – na linha dos reis falhados, depois daquele que, no próprio dia da sua investidura, foi obrigado por um raio a voltar para a pista do aeroporto devido a uma forte tempestade para se  envergonhar em vez de mostrar a pata branca à rainha teutónica em Berlim.  (2). O dedo de Deus não é para brincar.  Notre-Dame de Paris, o romance tão monumental quanto o templo, abre com a palavra ANÁΓKH (anankè): fatalidade?

NOTAS

  1. Como o resume o grande diplomata e militante humanitário Craig Murray: “ como outros estados ocidentais, a França possui incríveis tecnologias  alcançadas à custa de milhões de milhões de euros, capazes de destruir  cidades inteiras num ápice. Mas a França só investiu em escada e mangueiras demasiado curtas para salvar Notre-Dame e o seu  património.  
  2. Elucidativo do mesmo comportamento a quadra  de Onuphre que eu citei no meu editorial de Nouvelliste, no dia  18 de maio de 2012: «Lorsque Hollande Hongroys vaincra/Et tiendra couronne de France,/Ciel son vol foudroyera/Par despit de male alliance.»

[1] Noticiava o Libération a 19 de Abril: não existe nenhuma interdição formal, mas a comunicação  é cada vez mais centralizada  e os arquitetos-chefes de monumentos históricos  devem dirigir os pedidos de entrevistas e os elementos de resposta ao gabinete do Ministro da Cultura. 

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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