A GALIZA COMO TAREFA – bibliotopias – Ernesto V. Souza

Nos últimos dez anos, de mais em menos, e com cada vez mais distância de velhos carinhos e entusiasmos, fui abandonando a pesquisa acadêmica. Não estando no entorno universitário, não frequentando os ambientes culturais ajeitados e circos editoriais adequados, nem encontro motivações, nem tiro tempo, nem me identifico com estilos, diálogos e normas fundamentais para representar o ofício. Também ninguém, nem qualquer tertúlia ou circunstância, me instiga a novos trabalhos ou a continuar velhas pesquisas.

Atualmente apenas olho, medonho e envergonhado, para as prateleiras repletas de livros que fui acumulando e que me recriminam a desconsideração. E penso em que deveria ordenar, juntar por temas pendentes, e descartar os mais deles. A palavra expurgo, cada dia me arrepia menos. Porém, vou deixando.

Bom, a questão é: não ando a pesquisar nadinha de nada. Limito-me a ler, qualquer cousa, qualquer época, qualquer idioma que mais ou menos conheça. Livros que andam sem ordem pela casa, livros que deixei cas meus pais e de quando em quando apanho. Livros que deixo em qualquer parte da casa com prateleiras e que aparecem tempo depois. Livros que encontro por aí.

Perto do trabalho, e a caminho da casa, nalgum percorrido vagamundo e solitário pela cidade, recalo em livrarias de segunda mão. Suponho que perdo tempo em livrarias, por costume e compro livros por calar essa má consciência de escolar frustrado.

Gosto mais dos sebos e dos livros velhos. E cada vez há mais, e sempre me resultaram mais interessantes os livros de antes, que as de novidades. Com as leituras vou com muitas décadas de atraso, e é raro o caso de eu comprar uma novidade. Sorte, com isso, que a minha mulher tem algum tipo de intuição formidável para ler futuros e imediatos sucessos, e são nas suas bem alfabetizadas prateleiras de livros em inglês, onde procuro algumas novidades narrativas, ou curiosidades que me chamam da imprensa ou das redes sociais. A última que li foi um dos tomos com as aventuras de Sharpe com o da retirada histórica de Moore e as apócrifas aventuras arredor do gonfalão de Santiago, que topei quando procurava uns relatos de Chesterton que sabia que tinha, pois eu lho ofertara há anos).

Total, os livros bons não têm pressa. Há infinitos por ler e é sempre mais barato os comprar – salvando a poesia e o livro de culto – passado um tempo e longe da demanda. Francamente, se há um prognóstico que errou, foi o do livro eletrônico. O papel continua e cada vez mais há mais livros, editoras e pequenas livrarias independentes, mesmo que disfarçadas de centros de reunião social ou cafés.

Observo, quando menos em Valladolid, que prolifera um tipo novo de livraria de velho (tipo jeitoso, arrumado e informatizado, ou tipo livros a três pesos com tudo desarrumado e abarrotando espaços), com livro muito barato, muito diverso, mesmo em inglês e francês e no que aparecem ultimamente muitas cousas boas e interessantes dos anos 20 a 50.

Diria que vão morrendo os primeiros donos de bibliotecas medianamente volumosas, particulares, da classe média. Quando menos cá apareceram nos últimos tempos muitos livros das coleções populares de CALPE, da CIAP e até algum solto de Dédalo, Cênit, Oriente… Nomeadamente aparecem esses clássicos e modernos da Literatura Universal e espanhola em pequenos formatos de peto e em boas condições. Nunca antes vira assim tanta cousa no mercado físico e nos virtuais.

Comprei, nestas últimas semanas, uns quantos daqueles de CALPE e da CIAP, um par de dias de vagar nas ferias. Teria de ter comprado mais, talvez todos os que andavam por aí. Mas nunca prestara atenção como coleção aos de Calpe (é impressionante como a base da coleção mais popular e colorida Austral dos anos 50-70). Isso que tenho uns quantos que fui comprando ao acaso, talvez porque sempre aparecem muitos soltos e muito deteriorados, pelo papel mau e o tipo de impressão, a letra pequena, os defeitos.

Mas de socato, comecei a ver assim: surpreende-me esta coleção de clássicos da literatura universal, em grandes tiragens, com possibilidade de comprar em três quatro fascículos por cêntimos ou em volumes x 2 mensais ou vários trimestrais. Uma biblioteca universal e popular nas três primeiras décadas do século vinte.

stael prolSurpreendeu-me o abrir as memórias dos 10 anos de Desterro de Mme. de Stäel, encontrar o nome do tradutor e prologuista. E mais, quando a obra, para além do anedotário pessoal da grande dama e as notas informativas do seu ego intelectual, abalos, hesitações e circunstâncias fugitivas é um alegato antinapoleónico, e nomeadamente, em diversas partes uma acusação contra a injustiça legal os processos sumaríssimos dos tribunais de exceção ou nacionais.

Uma boa leitura nos tempos que correm. Azaña. Os diários, dietários e cadernos pessoais do afrancesado prologuista, apaixonantes sempre, ganham também outras luzes. Impressionaram-me muito outrora. Como correm as saudades.

stael capa

Staël-Holstein , Madame de : Diez años de destierro : memorias /Madame de Staël ; la traducción del francés ha sido hecha por Manuel Azaña .- Madrid ; Barcelona Calpe, 1919

Pois. Deveria revisitar algumas cousas. Seguro. Deveria procurar e ler: Des circonstances actuelles qui peuvent terminer la Révolution et des principes qui doivent fonder la République en France. E desde logo, re-ler, lapis em riste, De la littérature considérée dans ses rapports avec les institutions sociales.

Este tenho, numa linda edição em 2 tomos (A Paris et à Londres, chez Colburn, Libraire, Paris, 1812), porque ficara apaixonado do texto desde que li, por primeira vez, há uma cheia de anos, com um belo sol de outono entrando pela janela, na velha Biblioteca da Real Academia galega.

Ah, esses lindos papéis impressos no estilo artesanal, de fins do XVIII e começos do século XX; bem cosidos, bem encadernados, conservam-se bem melhor, mesmo que passados pela água e depois de tantas mãos,  que todas as edições populares posteriores.

Também topei há pouco, entre alguns Fernández Flórez (daqueles publicados em Saragoça nos anos 40) que sempre alegram e não cansam com o seu sarcasmo perspicaz galaico, uma edição, em inglês, não muito maltratada, do Ex libris de Anne Fadiman, apenas 2 euros. Fantástico: dá para ler, dá para rir e até permite, como se pode comprovar, plagiar.

Afinal, a dos livros não deixa de ser uma série de chifladuras bastante comuns.

One comment

  1. Abanhos

    É chifladura bem contagiosa, porém é tão bem curativa

    Gostar

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